LOGINEnfermeira dedicada e conhecida pela competência impecável, Mariana tenta seguir em frente após um término que virou assunto nos corredores do hospital. Traída por quem menos esperava, ela agora precisa lidar não só com a dor, mas com os olhares e sussurros que insistem em lembrar o que ela tenta esquecer. O encontro entre eles não deveria significar nada. Apenas uma forma de aliviar a tensão de plantões intermináveis e decisões que custam vidas. Mas não fica nisso. O que começa como um acordo silencioso rapidamente se transforma em algo perigoso — intenso demais para ser ignorado, proibido demais para ser assumido. Gabriel não perde o controle. Mariana não se permite sentir. Mas, entre salas de cirurgia, segredos e escolhas que não podem ser desfeitas, os dois descobrem que há sentimentos que não obedecem regras — e muito menos limites. Agora, eles terão que decidir até onde estão dispostos a ir… antes que tudo saia do controle.
View MoreFazia três dias que Mariana descobrira a traição do Lucas.
Três noites dormindo mal, três manhãs acordando com o mesmo aperto no peito, como se alguém tivesse sentado em cima dela durante o sono. Ela tomava o café em pé, trocava de uniforme sem olhar o espelho e repetia para si mesma que ia passar. Não tinha contado a ninguém. Mesmo assim, naquela manhã, percebeu que estavam falando dela antes mesmo de ouvir o próprio nome. O corredor seguia no ritmo de sempre, mas o silêncio surgia tarde demais quando ela se aproximava. Foi então que ouviu. — Mas é verdade mesmo que o Lucas traiu a Mariana? — perguntou Bruna, perto da porta da farmácia. — Com a Cibele. Todo mundo está falando. — Débora baixou a voz, sem baixar o suficiente. — E ela nem desconfiava, coitada. Dizem que a Mariana ficou sabendo por... Bruna cutucou a amiga com o cotovelo. As duas se calaram de uma vez. Débora virou o rosto devagar e inclinou a cabeça, num gesto pequeno, quase gentil. Bruna fingiu ler a prancheta que tinha na mão. Era o olhar que dizia "coitada" e "me conta tudo" ao mesmo tempo. Mariana não diminuiu o passo nem acelerou. O aperto na prancheta aumentou mais do que o necessário. E agora todo mundo sabia. Entrou na sala de materiais e começou a alinhar as bandejas de instrumentos, peça por peça, com uma precisão maior do que o normal. Como se aquilo bastasse para manter o resto no lugar. Clara, que chefiava o bloco, entrou logo atrás e fechou a porta. — Ignora, amiga. — Eu tô ignorando. — Não parece. Mariana não respondeu. Clara suspirou e tirou uma ficha do bolso do jaleco. — Leva isso pro Alencar. Eu tô presa aqui. Mariana hesitou meio segundo. O doutor Gabriel Alencar era o neurocirurgião mais jovem do hospital e o mais comentado. Operava casos que outros recusavam e ninguém sabia muito sobre ele. As enfermeiras suspiravam por ele nos corredores. Ele nunca pareceu perceber. — Tá — disse, pegando a ficha. Bateu uma vez antes de entrar. — Dr. Alencar? Gabriel estava de pé junto à janela, com a manga da camisa dobrada até o cotovelo, lendo um exame contra a luz. Não se virou de imediato. Terminou de ler, devolveu o exame à pasta e só então ergueu o olhar, no tempo exato de reconhecer quem era. Tinha o tipo de rosto que não pedia atenção e a recebia mesmo assim. Os olhos escuros, o maxilar contido, as mãos longas e firmes que, diziam, nunca tremiam, nem em sala de cirurgia. — Pediram pra entregar isso. Ele pegou a ficha. Os dedos roçaram nos dela, rápido demais para ser qualquer coisa, e ainda assim perceptível. — Obrigado. A voz saiu baixa, direta. Mariana assentiu e se virou para sair. Só no corredor percebeu que tinha prendido o ar. Esperava o olhar que todo mundo lhe lançava desde a manhã, aquele misto de pena e curiosidade. Ele não tinha olhado assim. Tinha olhado para ela como olhava para qualquer pessoa que entrava na sala. Era quase um alívio. Era também estranho. O restante da manhã passou no automático. Conferiu, preparou, organizou. Contou as compressas duas vezes só para ter o que fazer com as mãos. Quando voltou à sala de materiais, a porta se abriu antes que ela alcançasse a mesa. — Posso? Mariana reconheceu a voz antes de levantar o olhar. Cibele entrou como se tivesse todo o direito de estar ali. — Eu não ia deixar passar sem falar com você — disse, ajustando a manga com um gesto mínimo. Mariana não respondeu. — Algumas coisas… já não estavam bem antes. Silêncio. — Às vezes a gente só demora pra perceber. Mariana apoiou a bandeja na mesa, alinhando as bordas com cuidado demais. — Se você veio aqui pra isso, perdeu tempo. Cibele inclinou levemente a cabeça, tranquila. — Não. Eu só acho que certas situações… não acontecem do nada. Uma pausa. — Ninguém trai sem motivo. O olhar de Mariana subiu devagar. — E você sabe muito bem qual foi o dele — continuou Cibele, sem pressa. — Anos de namoro e... Deixou a frase morrer, com um sorriso discreto. Mariana ficou em silêncio por um instante. Esperar tinha sido decisão dos dois. Ela quis que fosse depois do casamento, e ele disse que tudo bem, que não tinha pressa. Disse isso mais de uma vez, olhando nos olhos dela. O pior não era a insinuação. Era perceber que ele tinha contado aquilo à Cibele, e que provavelmente tinha contado rindo. Então ela levantou o queixo. — Comigo ele esperou — disse, em voz baixa. — Com você, não precisou. O sorriso de Cibele vacilou por um segundo. — Ele respeitou quem queria que ficasse — completou Mariana. Cibele ajeitou a manga outra vez, mais devagar do que antes. — Enfim… Eu nunca escondi que gostava dele. Achei justo você ouvir de mim. Virou-se e saiu, sem a pose de quando entrou. O silêncio que ficou não era o mesmo de antes. Quando finalmente conseguiu um intervalo, Mariana seguiu até a copa. O ambiente estava vazio, o som do hospital abafado pelas paredes. Ela apoiou a xícara na bancada e começou a mexer o café sem perceber. — Turno pesado? A voz veio atrás dela. Mariana se virou e encontrou Gabriel encostado na entrada, observando com calma. Por um segundo, não respondeu. — Dá pra dizer isso. Ele se aproximou sem pressa e pegou outra xícara. — Não parece só isso. Mariana levou a xícara aos lábios, sentiu o calor, mas não bebeu. — Hoje todo mundo teve um assunto em comum — disse, sem encará-lo. — Eu. — Não é da conta deles. — Mas falam. — Falam. — Ele serviu o café. — Eu prefiro o que dá para ver. Mariana desviou o olhar, a unha batendo de leve na borda da xícara. — E o que você vê? Ele tomou um gole e apoiou a xícara com cuidado. — Que você foi a única que não parou de trabalhar. Ela o encarou, sem saber se aquilo era elogio ou só um fato. — Você devia voltar. — Eu sei. Mas não saiu. E ele, que não tinha motivo nenhum para ficar, também não. Quando o turno terminou, o hospital já estava mais silencioso. Ao atravessar as portas, o ar da noite bateu no rosto, frio o bastante para fazê-la respirar de verdade. Mariana parou por alguns segundos. Ir embora era o esperado. Em casa, só havia o peito apertado, o quarto e a mesma cama. Por isso mesmo, não foi o que fez. Caminhou pelo estacionamento sem direção clara, o olhar passando pelos carros até parar no dele, mais ao fundo, discreto como sempre. O motor estava desligado, mas o painel ainda brilhava, como se ele também não tivesse decidido ir embora. Ela desviou o olhar e deu alguns passos, pronta para ir. O corpo queria sair dali. A cabeça também. Ela voltou. Parou ao lado do carro, hesitou por um instante e bateu de leve no vidro. Gabriel ergueu o olhar, franziu a testa e destravou a porta. Mariana mal tinha entrado quando ele perguntou: — Algum paciente? O silêncio dentro do carro era mais fechado, o cheiro leve de couro e algo amadeirado ficando mais evidente quando a porta se fechou. — Não. Está tudo bem com todos. — Então o que foi? Ela manteve os olhos no para-brisa, acompanhando a própria respiração desacelerar aos poucos. — Nada do hospital. Eu só não queria voltar agora. A frase saiu baixa, mas firme. Gabriel a olhou por um instante, como se medisse o que ela não disse. — Isso não parece o seu tipo. Mariana soltou um riso curto, quase inaudível. — Acho que eu também não estou mais sendo o meu tipo. — Virou o rosto e sustentou o olhar. — Hoje eu só não quero pensar. Ele assentiu de leve. — Pensar evita problema. — Não evitou. Gabriel manteve o olhar nela por um segundo a mais, então desviou. — Amanhã isso vai pesar. — Talvez. — Mariana o encarou. — Mas hoje eu quero esquecer. E acho que você sabe como. Ele ficou em silêncio. Os olhos desceram até a boca dela e voltaram. Mariana não desviou. O coração batia alto demais para a calma que mostrava. — Não faço promessa — disse ele, por fim, a voz baixa. — Amanhã, se você se arrepender, não venha falar comigo. — Não vou.A manhã entrou pela casa nova como um hóspede querido, com luz suave, cheiro de café fresco e o vento despertando o quintal. A jabuticabeira estava carregada outra vez, como sempre. Era quase um relógio natural daquela família: quando os galhos pendiam com frutos escuros e doces, significava que mais um ciclo havia se completado e que, apesar do que viveram, eles continuavam ali — juntos, fortes, vivos. Mariana estava na cozinha com os cabelos presos em um coque apressado, pijama confortável e um sorriso ainda meio sonolento enquanto mexia o café. Não era mais a mulher que fugia, nem a que tremia diante do próprio passado. Era outra. Inteira. Reconstruída. Livre. Do corredor, uma voz familiar cortou a manhã: — Mãããe! O meu lanche não cabe na lancheira! Guilherme — agora com quase sete anos — surgiu com a lancheira aberta, três brinquedos dentro e nenhum alimento. Mariana riu baixo. — Gui, a lancheira é pra comida, amor. — Mas o dinossauro fica com fome na escola! Ela ergu
O quintal parecia suspenso no tempo. As luzinhas nos varais acenderam quando o sol se escondeu, transformando o jardim em um universo íntimo. As velas tremeluziam, o arco de flores brancas respirava com o vento, e a jabuticabeira balançava como quem dá sua bênção. Gabriel estava diante do arco, o coração acelerado de um jeito raro até para ele. Ao lado, Eduardo ajeitava o livro, orgulhoso. O juiz de paz não pôde ir, mas um colega simpático estava ali para oficializar. Matheus e Clara sentaram-se no primeiro banco. Guilherme corria segurando a caixinha das alianças como se carregasse um tesouro. Matheus e Clara ocupavam o primeiro banco, mãos entrelaçadas com calma. Guilherme corria ao redor deles segurando a caixinha das alianças como se levasse um tesouro, o passo leve e orgulhoso demais para a própria idade. — Campeão — Gabriel chamou, abaixando-se na altura do filho. — Lembra do combinado? Guilherme ergueu a caixinha no ar, cheio de importância. — Vou levar devagar, sem tropeçar
O quintal tinha cheiro de jabuticaba madura, vento leve e luz dourada. Parecia que o fim de tarde havia sido desenhado sob medida para aquele dia. Gabriel passara a manhã pendurando luzinhas finas no varal que cruzava o jardim, pequenos pontos de luz que cintilavam como constelações domésticas. No centro, diante da jabuticabeira, uma mesa rústica e clara fora transformada em altar. Sobre ela se erguia um arco de flores brancas, com ramos de eucalipto fresco, rosinhas delicadas entrelaçadas ao jasmim miúdo, e galhos curvados que formavam uma moldura perfeita. As luzes refletiam nas pétalas, dando ao arco uma vida própria. Ali seria o coração da cerimônia. O lugar onde o “sim” encontraria destino. Potes de vidro com velas estavam espalhados pelo gramado, formando um corredor luminoso até o altar. Bancos de madeira cobertos por mantas claras aguardavam os poucos convidados que testemunhariam o recomeço daquela família. Era íntimo, simples e bonito de um jeito que não pedia ostentação, ap
Uma semana havia passado desde o confronto com Gisele. Uma semana em que o mundo, enfim, parecia respirar do jeito certo. Mariana acordava com Gabriel ao lado; Guilherme corria pela casa com uma leveza nova, como se o peso que nunca deveria ter existido tivesse finalmente caído de seus ombros. E pela primeira vez desde o acidente, eles falavam do futuro sem medo — apenas com cuidado, amor e cautela verdadeira. Foi Gabriel quem sugeriu: — Vamos procurar uma casa. Uma que seja nossa… dos três. Mariana disse sim sem hesitar — talvez pela primeira vez em anos. Começaram as visitas no fim de semana. A primeira casa era moderna, envidraçada, tão perfeita que parecia cenário. Mas o jardim simétrico parecia pedir silêncio, não risadas. Guilherme tentou abraçar uma árvore fina que quase entortou. Mariana achou a cozinha impessoal. Gabriel resumiu: — Aqui não tem cheiro de casa. Eles foram embora. A segunda era charmosa, antiga, com janelas enormes e piso de madeira. Guilherme correu pelo












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