LOGINO céu ainda estava tingido por aquele cinza preguiçoso típico das manhãs em Santa Barbara, coberto por uma névoa leve que flutuava baixa sobre os telhados e fazia a cidade parecer suspensa no tempo. Havia algo de simbólico naquela bruma, como se o mundo inteiro estivesse me pedindo para ir devagar. Ajustei a mochila nos ombros e fechei a porta da frente com um cuidado quase cerimonial, como se o simples gesto de sair de casa naquele dia significasse muito mais do que voltar para a base. O carro já estava ligado na calçada, com o motor aquecendo devagar e o rádio preenchendo o silêncio com uma melodia qualquer que eu nem tive vontade de identificar. Tudo estava no piloto automático, menos eu.
Na noite anterior, já tinha me despedido dos pais da Sadie — aquela despedida educada, respeitosa, quase protocolar, como se ninguém quisesse admitir que o tempo passou rápido demais e que agora eu era apenas uma visita de fim de semana. Mas soube, por meio da minha mãe, que Sadie tinha dito que queria me ver antes da partida. Usou a desculpa do pedaço de bolo — o último, aparentemente, que ela tinha guardado “só pra mim”. Como se eu precisasse de qualquer desculpa para vê-la mais uma vez. Como se o simples fato de estar perto dela, mesmo por minutos, não fosse razão suficiente para adiar o mundo.
E então ela apareceu. Surgiu na soleira da porta como quem não quer nada, descalça, o cabelo preso em um coque bagunçado que deixava escapar algumas mechas rebeldes. Usava um short de moletom cinza e uma blusa larga demais com a estampa “Fighter Girls Club”, como se nem lembrasse que estava linda daquele jeito. Trazia um pratinho coberto com papel alumínio nas mãos e os olhos ainda levemente inchados de sono, mas mesmo assim — ou talvez justamente por isso — ela me pareceu tão real que doeu. Como se a vida, de repente, tivesse parado de me oferecer lembranças e passasse a me dar provas de que certas coisas existiam de verdade, mesmo que não pudessem ser tocadas por muito tempo.
— Achei que fosse sair sem se despedir — ela disse, estendendo o prato com uma seriedade que me desmontou por dentro. Era só um pedaço de bolo, mas o jeito como ela segurava aquela louça, como olhava para mim... parecia que estava me entregando uma parte dela que eu nunca teria coragem de pedir.
Peguei o prato com um sorriso contido, lutando contra a vontade de dizer tudo o que não devia.
— Não conseguiria. Ainda mais sabendo que você guardou o último pedaço só pra mim.
Ela riu baixinho, deu de ombros com aquele jeito leve, quase irônico, que sempre usava para disfarçar quando se importava mais do que gostaria.
— Era o certo a fazer.
Naquele momento, eu quis dizer tanta coisa. Que ela estava linda, mesmo assim, de pijama e cabelo bagunçado. Que aquele garoto da noite anterior não chegava nem perto de merecê-la. Que eu pensava nela todos os dias, mesmo a quilômetros de distância. Que eu queria que o tempo fosse outro, que o lugar fosse diferente, que as nossas idades... enfim, que tudo estivesse a nosso favor. Mas nada saiu. As palavras se atropelaram dentro da garganta e viraram só silêncio.
Então, em vez disso, estiquei a mão e afastei uma mecha solta do cabelo dela, aquele gesto pequeno que carregava mais do que qualquer frase poderia carregar. Os olhos dela se levantaram, encontrando os meus, e houve um instante — breve, mas inteiro — em que eu juro que vi algo ali. Uma pergunta silenciosa. Um sentimento prestes a ser nomeado. Uma coragem se formando. Ou talvez uma certeza que ela ainda não sabia dizer em voz alta. Mas eu fui covarde. Eu recuei.
— Se cuida, cometa. Tá dirigindo bem melhor do que eu esperava — falei com o tom mais brincalhão que consegui, tentando transformar em leveza o peso que se acumulava no meu peito.
Ela cruzou os braços e fez aquela expressão debochada que sempre me desmontava, um sorriso torto que dizia mais do que ela jamais admitiria.
— E você tá mais careta do que eu me lembrava.
A risada escapou de mim antes que eu pudesse conter. Tinha gosto de coisa antiga, de verão passado, de quintais compartilhados. Eu queria segurá-la ali, naquela ironia, naquele sarcasmo cúmplice, só mais um pouco.
— Me escreve, tá? — ela pediu então, a voz mais baixa, como se não quisesse que o pedido soasse como uma súplica. — Quando puder.
— Sempre — respondi. E era verdade. Mesmo que eu nunca tivesse coragem de mandar todas as cartas que escreveria para ela.
Abri a porta do carro e me sentei ao volante, sentindo a presença dela do lado de fora como uma força que empurrava contra mim. Dei partida e, antes de dobrar a esquina, olhei pelo espelho retrovisor. Ela ainda estava ali, de braços cruzados, me observando como se pudesse me prender com o olhar. E por um momento, a estrada à frente parecia uma traição.
Quando finalmente virei e ela sumiu do meu campo de visão, algo apertou dentro de mim como se eu estivesse deixando um pedaço real do meu corpo para trás. E, de certo modo, era isso mesmo. Sadie não era mais uma garotinha. E o problema era exatamente esse.
Porque agora... agora ela era tudo.
O som das risadinhas infantis atravessava o quintal como música. Eu estava sentada na espreguiçadeira de madeira, sob a sombra generosa da pérgola, sentindo o sol morno da tarde tocar minha pele enquanto observava minha filha correr descalça pela grama. Os cachos castanhos de Olivia voavam livres ao vento, e cada gargalhada dela parecia ocupar um espaço inteiro dentro do meu peito.Ao meu lado, Alec estava ajoelhado no chão, completamente concentrado em montar uma barraca improvisada com lençóis, prendedores e uma convicção quase solene. Ele tratava aquela missão como se estivesse novamente em uma base aérea, seguindo protocolos invisíveis que só existiam na cabeça dele.Nós chamávamos aquilo de acampamento da tarde.— Capitão Gallagher — provoquei, erguendo um pouco a sobrancelha enquanto apoiava o livro fechado sobre o colo —, nossa tenda está segura?Ele virou o rosto por cima do ombro, o cabelo levemente úmido de suor, a camiseta grudando nas costas largas, e me lançou aquele sorr
O cheiro de café fresco sempre foi uma das minhas coisas favoritas no mundo. Naquela manhã, ele parecia ainda mais intenso, espalhando-se pela cozinha como um abraço silencioso. Eu girava lentamente a colher dentro da minha caneca azul — a mesma que Alec insistia em chamar de “a sua favorita”, mesmo que eu jurasse já ter usado pelo menos outras cinco canecas diferentes naquela semana.Mas ele sempre dizia que essa era a minha.E, de algum jeito, aquilo acabava sendo verdade.Do outro lado da bancada, Alec estava concentrado no celular, lendo um e-mail com aquela expressão séria que ele fazia quando tentava entender alguma coisa complicada. A testa levemente franzida, o polegar deslizando pela tela, completamente imerso.Mesmo assim, a mão dele estava sobre a minha barriga.Instintivamente.Como se aquele gesto tivesse se tornado tão natural quanto respirar.Três meses.Ainda parecia surreal pensar nisso.Três meses de uma nova vida crescendo dentro de mim. Três meses desde o momento e
O domingo estava preguiçoso. Do jeito que eu gostava. Eu estava estirado na cama, o controle remoto largado em uma mão e a caneca de café quente na outra, usando só uma camiseta velha e a cueca mais confortável que eu tinha. Na televisão, os noticiários falavam sobre Liam — o mundo finalmente descobrindo tudo aquilo que Sadie e eu já sabíamos há tanto tempo. Mas aquele escândalo parecia distante, irrelevante, quase irreconhecível diante da paz silenciosa que preenchia o quarto.O que realmente prendia minha atenção era o som do chuveiro no banheiro. Ou melhor, o momento em que ele se desligou depois de longos minutos. Sadie vinha diferente nos últimos dias. Mais cansada. Mais quieta. Eu reparava nessas coisas sem esforço: o jeito como ela encarava o nada, como cheirava o café e depois empurrava a xícara para longe, como tocava o próprio ventre distraidamente, como se o corpo dela estivesse tentando dizer algo antes da mente alcançar.Dei mais um gole no café, tentando não pensar demai
O sol da manhã atravessava as cortinas brancas em faixas douradas, desenhando luz sobre o lençol ainda amarrotado da cama. Eu ouvia, ao fundo, a voz do apresentador de notícias falando com uma excitação quase indecente sobre o novo escândalo envolvendo Liam Ashford — ex-noivo, ex-verdade, ex-vida. As palavras passavam por mim como ruído distante. Aquilo já não me pertencia.Eu estava sentada na beirada da banheira, o azulejo frio sob a pele, segurando um pacotinho pequeno demais para conter algo tão grande. O banheiro estava em silêncio, quebrado apenas pelo ar entrando pela janela entreaberta e pelo som do meu próprio coração, acelerado, insistente.Dois risquinhos.Olhei de novo. E mais uma vez.Como se, encarando com força suficiente, o resultado pudesse se transformar em outra coisa. No espelho à minha frente, meu rosto parecia o de alguém que acabou de atravessar uma fronteira invisível. Surpresa. Espanto. Uma alegria tímida misturada com um medo que não machucava — só pedia cui
O mundo parou.Eu senti o tempo se romper no exato instante em que Alec se ajoelhou diante de mim. Não foi algo poético ou simbólico demais — foi físico. Meu estômago se contraiu, minhas mãos ficaram frias, e o coração começou a bater tão forte que eu podia ouvi-lo nos próprios ouvidos. Como se todo o meu corpo soubesse, antes da minha mente, que aquele momento mudaria tudo.E então ele começou a falar.Eu sempre achei que conhecia Alec em todas as suas versões. O amigo protetor, o garoto silencioso que me observava de longe, o homem firme que me segurava quando tudo parecia desabar, o amante que me tocava como se eu fosse algo raro. Mas ali, ajoelhado à minha frente, com a voz levemente trêmula e os olhos presos nos meus como se não existisse mais nada no mundo… eu vi um Alec diferente. Mais nu. Mais vulnerável. Um Alec que abriu uma parte de si que ele sempre manteve guardada — não por falta de coragem, mas por amor.Cada palavra dele me atravessava com precisão dolorosa.As lembran
O jantar já tinha acabado, mas os pratos ainda estavam sobre a mesa, esquecidos, porque nada mais importava além dela ali — sentada à minha frente, com aquele olhar azul que eu conhecia desde sempre e que agora me atravessava de um jeito quase físico, fazendo tudo dentro de mim tremer.Sadie ria baixinho de alguma piada que eu nem lembrava direito de ter feito. Usava um vestido simples, o cabelo solto caindo pelos ombros, e ainda assim parecia a mulher mais linda que eu já tinha visto na vida. Era injusto pensar em quanto tempo o mundo nos manteve afastados. E, ao mesmo tempo, era impossível não agradecer por ele ter nos trazido exatamente até ali.Levantei devagar, respirando fundo. Meu coração batia forte demais contra as costelas, como se soubesse antes de mim o que estava prestes a acontecer. Cada passo até a cômoda da sala parecia atravessar décadas, como se eu estivesse caminhando entre quem fui e quem queria ser a partir daquele instante.Abri a gaveta com cuidado e tirei de de







