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Entre leões e paixões
Entre leões e paixões
Penulis: Pah

Alicerces e Sombras

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last update Tanggal publikasi: 2026-09-14 13:24:53

(POV: Jasmim)

Quatro anos na capital não apagaram a rota do condomínio da minha memória. Pelo contrário: transformaram cada viagem de volta para casa num exercício contínuo de observação e antecipação. A cada quinze dias, quando eu cruzava o portão de ferro na sexta-feira à noite, o terreno parecia mais imponente, mais denso. O projeto audacioso que nossos pais idealizaram quando ainda éramos crianças no colo finalmente atingira sua forma definitiva.

Era uma obra-prima de arquitetura integrada, sem muros, projetada para nos manter presos ao mesmo núcleo. Do lado leste, mais alta e batida pela brisa constante, erguia-se a casa dos Costa Marques. Do lado oeste, envolvida pela vegetação densa e pelo ar mais fresco da reserva, ficava a nossa, a dos Carvalho Lemes. Ambas guardavam exatamente a mesma estrutura espelhada, a mesma metragem suntuosa e a divisão estrita de todos os quartos na parte superior.

Mas era o miolo do terreno que contava a verdadeira história do "Grupo dos Nove".

Ali, num espaço amplo, vivo e sem divisórias, ficavam as instalações que compartilhávamos diariamente: a horta comunitária e o pomar cuidados pelo Seu Arnaldo, a academia de vidro com equipamentos industriais, a biblioteca acoplada à sala de estudos, a sala de jogos subterrânea, a garagem para a frota inteira e a imensa área gourmet integrada à piscina principal.

Naquela tarde quente de sábado do meu último mês de mestrado, o movimento no miolo do terreno refletia o novo ritmo — e a nova força — das nossas famílias. Os negócios dos nossos pais já não eram apenas empresas locais; eram impérios que havíamos assumido a responsabilidade de gerir e expandir. A infância tinha ficado para trás, e a matilha crescera com garras afiadas.

Perto do canteiro de ervas, Seu Arnaldo conversava com Conceição e Lourdes sobre os cortes e hortaliças para o almoço. Na área gourmet, o clima era de expediente estendido e pura pressão.

Lavínia estava debruçada sobre uma prancha de desenho na bancada de mármore preto, ajustando com traços rápidos o detalhamento de um projeto residencial da Costa & Lemes. Ela estava no último período de Arquitetura, estagiando sob o olhar implacável do meu pai e do tio Fernando, e tinha aquele olhar afiado de quem não aceita erro de milímetro. Ao lado dela, Murilo e Nikolas analisavam planilhas de cálculo estrutural e orçamentos de grande porte. Os dois, recém-formados em Engenharia Ambiental e Civil, já comandavam visitas de campo e rotinas pesadas de canteiro de obras com a firmeza de homens feitos, sem espaço para hesitações.

Mais à esquerda, na mesa redonda de madeira de demolição, Noah revisava contratos de prestação de serviços e fusões para a holding. Formado em Direito, sua postura analítica, fria e cirúrgica já dava o tom jurídico de todos os novos empreendimentos da família. Dandara estava ao seu lado. Ela encarava o último ano da residência em Cirurgia Plástica — uma rotina insana de plantões e reconstruções —, mas ali, descalça, com as pernas cruzadas sobre a cadeira e os pés tocando os de Noah sob a mesa, mantinha uma sintonia muda, possessiva e inabalável que resistira a todas as tempestades dos últimos anos. Eles não precisavam se tocar abertamente para que todos no raio de dez quilômetros soubessem a quem pertenciam.

— Se o custo desse concreto armado continuar subindo nesse ritmo no segundo semestre, o orçamento da fase três estoura e a margem de lucro cai para a vala — Nikolas comentou. A voz dele, mais grave e encorpada, tinha o tom prático e duro de quem passava o dia comandando peões e mestres de obra debaixo do sol quente. Ele usava uma camisa preta com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando antebraços largos, bronzeados e marcados por veias sob a pele.

— Não estoura se a gente renegociar a tabela do fornecedor de São Paulo diretamente na fonte, cortando os intermediários — pontuei devagar, descendo os três degraus de madeira da varanda da minha casa com um fichário pesado sob o braço.

O som do meu salto de madeira no piso da varanda fez todos os rostos da mesa se voltarem na minha direção.

— A mestre em Economia resolveu dar o ar da graça para doutrinar os leigos? — Kaio provocou do sofá da sala de jogos aberta, onde descansava do treino ao lado de Logan.

Os gêmeos, no último período de Nutrição com foco em Nutrição Esportiva, já dividiam o atendimento clínico de atletas e dieta de alta performance na Carvalho Marques Estética e Nutrição ao lado das nossas mães, além de manterem a rotina pesada de treinos na nossa academia de vidro. Teodoro, que estava a poucos meses de concluir a residência em Dermatologia para assumir em definitivo a ala estética avançada da clínica, apenas ergueu a xícara de café preto em uma saudação silenciosa. Tinha olheiras discretas de quem viera de um plantão noturno no pronto-socorro, mas o olhar atento e refinado de um médico experiente.

— Alguém precisa garantir que vocês não esbanjem o patrimônio da família em decisões passionais antes de eu assumir a diretoria de custos — respondi sem me abalar, ajeitando meus óculos de armação fina e puxando uma cadeira pesada de ferro ao lado de Lavínia.

— Você fala com uma marra como se já tivesse a caneta de diretora na mão, pirralha — Murilo brincou, estendendo o braço para bagunçar meu cabelo, mas o orgulho no olhar dele era denso, visceral. Ninguém ali duvidava da minha capacidade.

— Falta um mês para a defesa da tese, Mumu. Os documentos da nova diretoria já estão prontos na mesa do papai — afirmei, mantendo o tom firme e fixando os olhos na papelada espalhada.

Senti a presença de Nikolas antes mesmo que seus passos curtos cortassem a distância. Ele não disse uma palavra de imediato. Puxou uma cadeira de alumínio com um ruído seco contra o piso e sentou-se exatamente de frente para mim, dominando o espaço com a sua envergadura.

Aos vinte e três anos, Nikolas Costa Marques não guardava mais absolutamente nada do garoto abusado dos dezessete. O corpo tinha ganhado a densidade pesada de um homem que treinava pesado e trabalhava no pesado; o maxilar era travado, marcado, e a postura exalava uma autoridade natural que impunha respeito imediato. Mas a forma como ele me encarava através da mesa... essa era exatamente a mesma. Carregada de um desafio antigo, uma possessividade crua e uma fome perigosa que quatro anos de encontros quinzenais, distância e farpas trocadas não tinham conseguido arrefecer.

— Você andou checando os relatórios financeiros da Costa & Lemes em São Paulo antes de colocar os pés aqui, Jasmim? — ele perguntou. A voz aveludada e rouca caiu num tom pessoal, denso, fazendo o falatório dos outros ao redor virar mero ruído de fundo.

— Checo os relatórios da empresa todas as semanas do meu apartamento na capital, Costa Marques — respondi, sustentando os olhos azuis e profundos dele sem piscar um milímetro. — É o meu trabalho. E notei que a sua margem de desperdício em ferragens na obra do condomínio vizinho ficou dois por cento acima da média permitida no último mês.

Nikolas inclinou a cabeça devagar um sorriso lento, de canto de boca, desenhou-se em seus lábios. Um sorriso que não trazia qualquer deboche imaturo, mas sim a confiança perigosa e quente de um homem que sabia o efeito que causava.

— Dois por cento por conta do reajuste bruto de transporte na rodovia estadual, doutora — ele retrucou, inclinando o tórax para a frente, apoiando os cotovelos na mesa e reduzindo a distância entre nossos rostos a um espaço mínimo. — Eu apertei a margem no material de acabamento importado para neutralizar o impacto. Pode checar no demonstrativo da folha quatro se quiser me testar.

Aproximei meu corpo da mesa, o suficiente para sentir o calor que emanava da pele dele e aquele perfume característico — uma mistura marcante de notas cítricas, amadeiradas e o cheiro sutil do sol de canteiro.

— Já chequei — disse, a voz caindo para um sussurro firme, carregado de autoridade. — A manobra foi aceitável para um recém-formado. Mas na segunda-feira em que eu pisar definitivamente naquele escritório, não vou aceitar compensações improvisadas. Eu exijo margem de erro zero.

— Puta que pariu, a empresa vai virar um campo de batalha — Kaio e Logan riram da ponta do sofá, balançando a cabeça.

— Calado, Kaio — Lavínia disparou sem tirar os olhos do prancha de desenho, acertando-o com uma caneta hidrográfica no peito com precisão cirúrgica. — Deixa a Jasmim colocar rédea nesses engenheiros que acham que mandam no mundo.

— Você volta definitivamente em um mês, Jas? — Martina perguntou, cortando a corrente elétrica que faiscava entre mim e o irmão dela. A leoa mais velha, recém-formada em Moda e Design de Interiores, ajeitou seus óculos escuros no topo da cabeça e nos encarava com um olhar afiado, sabendo exatamente o que estava acontecendo ali.

— Definitivamente, Tina — confirmei, virando o rosto para ela e me forçando a quebrar a fixação no olhar de Nikolas. — Defesa da tese na terça, mudança definitiva na quinta e mesa da diretoria na segunda seguinte.

— A construtora nunca mais vai ter um segundo de paz — Logan comentou, dando um gole no seu shake de proteína e rindo da cara de Nikolas.

Nikolas recostou-se na cadeira devagar, sem nunca desviar a atenção do meu rosto. Ele pegou uma caneta de metal pesada, girando-a entre os dedos compridos com uma habilidade preguiçosa e perigosa.

— Paz é coisa para quem não tem capacidade de aguentar a pressão, Jasmim — ele pronunciou meu nome com uma lentidão calculada, a voz descendo uma oitava, roçando na minha pele como uma provocação direta. — A Costa & Lemes fica muito mais interessante quando você está por perto para me fazer gastar energia.

Sustentei o olhar dele por mais três segundos inteiros, denti meu pulso acelerar sob o tecido do blazer, o sangue fervendo com aquela mistura de fúria e atração inconfessável que ele sempre conseguia arrancar de mim, antes de fechar o fichário de alumínio com um estalo seco sobre a mesa.

A estrutura física do nosso terreno integrado estava pronta. O "Grupo dos Nove" não era mais uma turma de adolescentes brincando no condomínio; éramos uma engrenagem pesada, formada por profissionais adultos, ambiciosos e dominantes. Mas a verdadeira conta a ser paga — aquela tensão sufocada e acumulada a cada reencontro quinzenal — começaria a ser cobrada no segundo em que minhas malas pousassem definitivamente no meu quarto no lado oeste da casa. E Nikolas sabia disso tão bem quanto eu.

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