LOGINISABELA
O despertador tocou às seis horas da manhã, mas eu já estava acordada havia alguns minutos. Estava deitada de barriga para cima, a olhar para o teto do quarto, enquanto tentava convencer-me de que sair da cama era realmente necessário. O meu corpo pedia mais meia hora de sono, a minha cabeça lembrava-me das aulas que tinha e a minha conta bancária, infelizmente, não me permitia faltar às responsabilidades só porque eu estava cansada. Estiquei o braço e desliguei o despertador. — Mais cinco minutos — murmurei, puxando o lençol até ao queixo. — Isabela, se não te levantares agora, vais acabar por tomar banho com a água fria e correr para a paragem com um sapato em cada mão! A voz de Mariana atravessou a porta do quarto. Abri os olhos imediatamente. — Tu tens algum problema em deixar uma pessoa dormir? — Tenho um problema com pessoas que dizem mais cinco minutos e depois me pedem para emprestar dinheiro para o transporte porque perderam o autocarro. Soltei um suspiro e sentei-me na cama. Mariana era assim. Tinha sempre uma resposta pronta, mesmo quando ninguém lhe perguntava nada. Era a minha melhor amiga, a minha companheira de casa e em determinadas manhãs, a pessoa que mais me fazia questionar as minhas escolhas de amizade. Apesar disso, não trocaria a sua companhia por nada. Desde que me mudei para essa cidade para continuar os meus estudos, ela tornou-se uma espécie de família que eu escolhi para mim. Levantei-me, dobrei o lençol de qualquer maneira e fui à casa de banho. Enquanto a água caía sobre os meus ombros, organizei mentalmente o dia. Tinha duas aulas, precisava de rever alguns apontamentos e queria passar pela biblioteca para consultar informações sobre os programas de estágio que a universidade divulgara recentemente. A oportunidade de conseguir um estágio remunerado parecia cada vez mais importante. Não porque eu tivesse desistido dos meus sonhos, mas porque os sonhos também precisavam de dinheiro para sobreviver. Eu gostava de estudar, gostava de imaginar o futuro e acreditava que podia construir uma vida melhor para mim. No entanto, a realidade tinha o hábito desagradável de me recordar que a determinação, por si só, não pagava a renda, a alimentação nem o transporte. Depois do banho, vesti umas calças de ganga, uma blusa branca e umas sapatilhas confortáveis. Prendi parte do cabelo, deixando o restante cair sobre os ombros, e apliquei apenas um pouco de brilho nos lábios. Não era uma pessoa que precisasse de muito tempo diante do espelho, embora Mariana insistisse que eu tinha uma beleza que devia aproveitar melhor. Eu discordava dela em várias coisas. Naquela, preferia não discutir. Quando cheguei à cozinha, encontrei-a sentada à mesa, a comer pão com ovo e a consultar o telemóvel. Tinha o cabelo preso num rabo de cavalo desalinhado e vestia uma camisola larga que provavelmente usava desde o dia anterior. Olhei para o relógio da parede. — São seis e quarenta e cinco. Não tinhas dito que precisávamos de sair às sete? — Precisamos. E vamos sair às sete. — Ainda estás de pijama. Mariana olhou para a própria roupa, depois para mim. — Isto é uma escolha de estilo. — Claro. Uma escolha muito corajosa. Ela atirou-me um guardanapo, rindo-se. Sentei-me à sua frente e servi-me de chá. Enquanto comíamos, falámos das aulas, de uma colega que tinha terminado recentemente o namoro e de um professor que parecia acreditar que todos os estudantes tinham o dia inteiro disponível para fazer os trabalhos que ele recomendava. A conversa seguia normalmente até Mariana pousar o telemóvel e me olhar com uma expressão que eu conhecia demasiado bem. — Então, vamos falar do senhor camisa branca? Fechei os olhos por um instante. — Mariana, são quase sete da manhã. — E daí? O homem continua a existir às sete da manhã. — Não há nada para falar. — Isabela, tu derramaste água num homem que parecia ter saído de uma revista de negócios e ainda tiveste coragem de discutir com ele. — Eu não discuti com ele. — Ah, não? Então chamamos aquilo uma reunião diplomática? Revirei os olhos, mas não consegui evitar um sorriso. A verdade era que me lembrava do encontro. Lembrava-me da expressão séria de Dante Vasconcelos quando olhara para a camisa molhada, do tom controlado com que falou comigo e daquela maneira irritante de me observar como se estivesse a tentar perceber se eu era sempre tão atrevida ou se tinha decidido escolher justamente ele para testar a minha coragem. Também me lembrava do momento em que descobri quem ele era. Dante Vasconcelos, fundador de um dos grupos empresariais mais influentes do país. Um homem cujo nome era conhecido por pessoas que acompanhavam o mundo dos negócios, mesmo que não soubessem exactamente como ele se parecia. Eu não acompanhava esse mundo. Tinha outras preocupações. — Ele é bonito — admiti, levando a chávena aos lábios. — Mas isso não significa nada. — Ninguém disse que significava alguma coisa. — Estás a pensar em alguma coisa. — Estou sempre a pensar em alguma coisa. Sou uma mulher inteligente. — És uma mulher intrometida. — Também. Rimo-nos, e a conversa acabou por mudar quando Mariana se lembrou de que ainda precisava de procurar um documento antes de sairmos. Às sete horas em ponto, estávamos à porta de casa. Caminhámos até a paragem, onde nos juntamos a um grupo de pessoas que pareciam partilhar o mesmo cansaço matinal. O trânsito estava mais intenso do que o habitual e chegamos à universidade quando faltavam poucos minutos para a primeira aula. O meu dia começou como tantos outros. Sentei-me na segunda fila, tirei o caderno da mochila e procurei acompanhar a explicação do professor. Fiz anotações, respondi a uma pergunta quando fui chamada e troquei algumas palavras com uma colega durante o intervalo. Na pausa entre as aulas, fui à secretaria procurar informações sobre os estágios. A funcionária entregou-me uma folha com os requisitos e explicou que as candidaturas deveriam ser enviadas por correio electrónico, acompanhadas do currículo e de uma carta de apresentação. Agradeci, dobrei o documento e guardei-o na pasta. Aquela era uma oportunidade que eu queria aproveitar. Depois das aulas, almocei com Mariana num pequeno estabelecimento perto da universidade. A comida não era extraordinária, mas o preço cabia no nosso orçamento, e naquele momento isso era o que mais importava. Dividimos uma garrafa de água e conversámos sobre o trabalho que precisávamos de entregar na semana seguinte. — Hoje vou estudar até conseguir terminar aquela pesquisa — anunciei, enquanto organizava os talheres. Mariana soltou uma gargalhada. — Dizes isso todas as semanas. — E todas as semanas estudo. — Sim, mas também passas metade do tempo a reclamar. — Reclamar não me impede de trabalhar. — É verdade. És a única pessoa que conheço capaz de se queixar durante duas horas e no fim, apresentar um trabalho impecável. Sorri satisfeita com o elogio, embora não estivesse disposta a admitir que ela tinha razão. Regressamos a casa durante a tarde. Troquei de roupa, lavei a blusa que usara durante a manhã e sentei-me à secretária, com o computador aberto e os documentos espalhados diante de mim. Comecei por organizar os apontamentos das aulas, depois passei para a pesquisa e por fim, abri o ficheiro do currículo. Fiquei alguns minutos a olhar para o ecrã. O meu percurso ainda era modesto. Não tinha uma lista impressionante de experiências profissionais, nem contactos capazes de me abrir portas. Tinha, porém, vontade de aprender, responsabilidade e a disposição de começar por baixo, se fosse necessário. Actualizei os meus dados, revi os erros ortográficos e guardei o documento. Quando terminei, já passava das dezoito horas. Levantei-me para preparar alguma coisa para o jantar. Mariana apareceu pouco depois, trazendo consigo um saco com pão e alguns produtos que comprara no caminho. — Trouxe comida — anunciou, colocando o saco sobre a mesa. — Podes agradecer a tua amiga favorita. — És a minha única amiga que vive comigo. — Isso não diminui a minha importância. Preparamos o jantar juntas. Enquanto eu cortava os tomates, Mariana contava-me uma história sobre uma discussão que tivera com uma colega. Ela dramatizava cada detalhe, mudava a voz para imitar as pessoas e fazia pausas estratégicas para garantir que eu estava a prestar atenção. — E depois ela disse que eu era exagerada — concluiu, indignada. — E eras? Mariana pousou a faca. — Isabela, estou a contar-te uma injustiça. — Estou apenas a recolher os factos. — Não preciso de uma investigadora. Preciso de apoio emocional. Ri-me e aproximei-me para lhe dar um abraço rápido. — Tens o meu apoio emocional, mesmo quando és insuportável. — Agora sim. É para isto que servem as amizades. Jantamos à mesa, conversando sobre os nossos planos para o fim de semana. Depois, lavei a loiça enquanto Mariana limpava o fogão. A divisão das tarefas domésticas era uma das regras que tinhamos estabelecido quando começamos a viver juntas. Nenhuma de nós tinha dinheiro para pagar alguém que tratasse da casa, por isso aprendemos a organizar-nos. Mais tarde, voltei ao quarto para rever a candidatura ao estágio. Escrevi a carta de apresentação, corrigi duas frases e li tudo novamente antes de anexar os documentos. Fiquei com o dedo suspenso sobre o botão de envio. Era estranho como uma coisa tão simples podia provocar tanta ansiedade. Não estava a candidatar-me a um cargo de directora nem a pedir um favor pessoal, estava apenas a tentar conseguir uma oportunidade. Respirei fundo e carreguei no botão. A mensagem apareceu no ecrã, confirmando que o correio electrónico tinha sido enviado. Encostei-me à cadeira e sorri. Não sabia se receberia uma resposta positiva, mas, pelo menos, tinha feito a minha parte. Desliguei o computador, preparei a roupa que usaria no dia seguinte e organizei a mochila. Antes de me deitar, respondi a algumas mensagens da minha família. A minha mãe perguntou-me se estava a comer bem, como fazia quase todas as noites. Respondi que sim, embora soubesse que ela continuaria preocupada mesmo depois de eu lhe enviar uma fotografia do jantar. Quando finalmente me deitei, senti o peso do dia nos ombros. Fechei os olhos e adormeci a pensar nas aulas do dia seguinte, na candidatura que acabara de enviar e na lista de tarefas que ainda precisava de cumprir.ISABELA A segunda-feira começou com o som insistente do despertador e a voz de Mariana a reclamar do calor antes mesmo de abrir os olhos. Eu já estava acordada, deitada de costas, a olhar para o tecto enquanto organizava mentalmente as tarefas que precisava de cumprir naquele dia. Tinha uma aula pela manhã, um trabalho de grupo para discutir com Daniela e, à tarde, uma entrevista numa empresa onde me tinha candidatado a uma oportunidade de estágio. Era esta última que mais me preocupava, embora eu tentasse não demonstrar. Não se tratava apenas de conseguir um estágio. Eu precisava de uma oportunidade que me permitisse adquirir experiência, aprender com profissionais e começar a construir um caminho que não dependesse constantemente da ajuda da minha família. Gostava de estudar, tinha objectivos e estava disposta a trabalhar para os alcançar, mas sabia que o diploma, por si só, não me abriria todas as portas. Precisava de começar por algum lado, mesmo que isso significasse aceitar ta
E, como previsto, assim que entramos no nosso apê, Mariana voltou ao assunto enquanto procurava o carregador do telemóvel. — Achas que ele te vai mandar mensagem hoje? Atirei uma almofada na direcção dela. — Se continuares, vou começar a cobrar-te pelas perguntas. — Isso significa que estás à espera da mensagem! — Significa que preciso de um banho e de paz. Fui tomar banho antes que ela encontrasse outra maneira de me provocar. Depois, vesti uma roupa confortável, preparei qualquer coisa simples para jantar e sentei-me na cama com o computador aberto, determinada a aproveitar o resto da noite para organizar algumas tarefas da universidade. O telemóvel vibrou quando eu estava a rever as minhas anotações. Era uma mensagem de Mateus. Mateus: Chegaste bem a casa? Sorri ligeiramente antes de responder. Eu: Sim, cheguei. E tu? A resposta veio pouco depois. Mateus: Também. Obrigado pela companhia de hoje. Foi bom conhecer-te um pouco melhor fora da universidade. Eu: Também gost
— Estávamos a tentar descobrir quem conseguia ficar mais tempo dentro de água sem reclamar do frio. — E quem ganhou? — Ninguém. A competição foi interrompida por falta de dignidade. Mateus riu-se, e Luís, que observava a conversa, olhou para ele com uma expressão divertida. — Afinal, conheces a Isabela? — Estudamos na mesma universidade — respondeu Mateus. — Já nos tínhamos cruzado algumas vezes. — E ele até já me pediu apontamentos — acrescentei. — Portanto, suspeito que a nossa amizade tenha começado por motivos académicos. — Não espalhes isso. Estou a tentar construir uma reputação de pessoa interessante. — Então talvez devesses começar por estudar antes dos testes. — Essa foi desnecessária. Voltei a rir-me, e ele abanou a cabeça, fingindo estar ofendido. Não havia nada de desconfortável na presença de Mateus. Era simpático, sabia conversar e não parecia precisar de transformar cada frase numa tentativa de impressionar alguém. Mariana aproximou-se de nós e abraçou Luís
ISABELAAcordei com a sensação de que tinha dormido muito pouco, embora o meu telemóvel indicasse que já passava das oito da manhã. Estiquei o braço para desligar o despertador, virei-me para o outro lado e tentei convencer-me de que podia ficar mais cinco minutos na cama. O problema era que, na noite anterior, tinha concordado em ir à praia com Mariana e os nossos amigos, e conhecia suficientemente bem a minha melhor amiga para saber que, se eu me atrasasse, ela não me daria descanso durante o resto da semana.— Isabela! — ouvi-a chamar do outro lado da porta. — Não me digas que ainda estás a dormir!Fechei os olhos e puxei o lençol até ao pescoço.— Estou a meditar.— A meditar sobre o quê? Sobre a possibilidade de os teus pés começarem a andar sozinhos até à casa de banho?Soltei uma gargalhada antes de me sentar na cama.— Mariana, são oito da manhã de domingo!— Exactamente! Um domingo lindo, com sol, praia e pessoas normais que não querem passar o dia inteiro enfiadas em casa a
MATEUSEu não era o tipo de pessoa que se apaixonava só porque uma rapariga sorria para mim.Pelo menos, era o que dizia aos meus amigos.A verdade era que já tinha reparado em Isabela muito antes de lhe enviar aquela mensagem sobre os apontamentos. Frequentávamos algumas aulas juntos, e eu conhecia o seu rosto, a maneira como prendia o cabelo quando estava concentrada e o hábito de franzir ligeiramente a testa quando um professor apresentava uma explicação que não lhe parecia fazer sentido.Nunca tínhamos conversado muito. Ela costumava estar com Mariana, Daniela e os outros colegas, e eu não queria aproximar-me de forma forçada.Além disso, tinha as minhas próprias responsabilidades.Tinha vinte e dois anos, estudava e fazia alguns trabalhos ocasionais para ajudar com as despesas pessoais. Não era rico, nem pretendia fingir que era. A minha família fazia o possível para me apoiar, mas eu sabia que precisava de aprender a gerir o meu dinheiro e a construir o meu futuro.Gostava de fu
ISABELAAcordei às oito horas da manhã com o som insistente de alguém a bater à porta do meu quarto. Virei-me para o outro lado, puxei a almofada sobre a cabeça e decidi que, fosse quem fosse, teria de aprender a respeitar o sono alheio. Afinal, era sábado. Depois de uma semana inteira de aulas, trabalhos académicos e corridas para apanhar transporte, eu merecia pelo menos uma manhã sem obrigações.— Isabela! — chamou Mariana do outro lado da porta. — Estás viva?— Não!— Óptimo. Então posso ficar com os teus brincos novos?Abri os olhos imediatamente.— Nem penses nisso!Ouvi-a rir-se no corredor.— Sabia que estavas viva!Levantei-me da cama, caminhei até à porta e abri apenas o suficiente para a encarar. Mariana estava diante de mim, já vestida, com uns calções de ganga, uma camisola amarela e o cabelo preso num rabo-de-cavalo. Tinha o telemóvel numa mão e um sorriso suspeito no rosto.— São oito horas — resmunguei. — O que queres?— Bom dia para ti também.— Mariana.— Está bem, e







