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Entre o Desejo e o Pecado
Entre o Desejo e o Pecado
Autor: Cláu

Capítulo 1

Autor: Cláu
last update Data de publicação: 2026-10-15 02:02:59

Isabela

O meu maior problema naquela sexta-feira não era o exame de segunda-feira, nem o facto de ter apenas mil e duzentos meticais na conta bancária para sobreviver até ao final da semana. Era o vestido.

— Isa, se continuares a olhar para essa coisa como se ela tivesse assassinado alguém da tua família, o tecido não vai ficar mais comprido.

Levantei os olhos para a minha melhor amiga, que estava sentada na minha cama, com as pernas cruzadas e um pacote de batatas fritas aberto ao lado.

— Não tem graça, Mariana.

— Tem, sim. Sobretudo porque foste tu que compraste o vestido.

Olhei novamente para o espelho. O vestido preto era simples, justo na cintura e nas ancas, com um decote discreto e uma abertura lateral que deixava parte da minha perna à mostra quando caminhava. Não era vulgar, mas também não era o tipo de roupa que costumava usar para ir à universidade. O problema era o comprimento.

— Eu devia ter experimentado melhor antes de comprar.

— Experimentaste, deste três voltas em frente ao espelho da loja e perguntaste se estavas bonita.

— E tu disseste que sim.

— Porque estavas.

Virei-me para ela.

— Então a culpa é tua.

Mariana soltou uma gargalhada. Era assim que funcionavamos, eu a culpava pelas minhas decisões questionáveis, ela culpava-me pelas dela e depois dividíamos o último pacote de bolachas como se estivéssemos a celebrar uma grande vitória.

Moravamos juntas havia quase um ano, desde que eu me mudara para a cidade para frequentar a universidade. A minha família vivia longe e, embora a minha mãe ligasse quase todos os dias para saber se eu estava a comer bem, ela não precisava de conhecer todos os detalhes da minha vida financeira. Principalmente o facto de eu ter comprado um vestido de que não precisava.

— Ainda não percebi por que razão temos de ir a um hotel tão caro para um evento de estudantes — murmurei.

Mariana levantou-se imediatamente.

— Porque a universidade conseguiu uma parceria com uma empresa que vai financiar um programa de estágios. E porque a coordenadora disse que seria uma excelente oportunidade para conhecermos pessoas influentes.

— Pessoas influentes não vão contratar-me porque tenho um vestido bonito.

— Talvez não, mas um homem rico pode apaixonar-se por ti à primeira vista e oferecer-te uma vida de princesa.

Atirei-lhe uma almofada.

— Cresce, Mariana.

Ela apanhou-a, ainda a rir.

— Estou a falar a sério. Tens vinte anos, és linda e tens um corpo que devia pagar renda por ocupar tanto espaço neste mundo. Eu, no teu lugar, aproveitava.

— Para quê? Para arranjar um velho rico?

— Quarenta anos não é velho.

— É quase o dobro da minha idade!

— E, normalmente, o dobro do dinheiro.

Desta vez, não consegui evitar o riso.

— És impossível.

— E tu és demasiado exigente. Um dia vais conhecer um homem que te vai fazer esquecer todos esses discursos sobre independência.

— Se algum homem me fizer esquecer a minha independência, podes internar-me.

Mariana ergueu as mãos.

— Está bem, senhora futura directora de uma multinacional. Agora acaba de te arranjar, porque o carro chega dentro de vinte minutos.

Suspirei e voltei a olhar para o espelho.

**

O Hotel Imperial era ainda mais impressionante do que eu imaginara. O edifício erguia-se no centro da cidade, com uma fachada de vidro que reflectia as luzes dos automóveis e uma entrada ladeada por palmeiras cuidadosamente iluminadas. No interior, o chão de mármore brilhava sob os lustres, enquanto funcionários impecavelmente vestidos recebiam convidados cujos relógios provavelmente custavam mais do que o apartamento onde eu vivia.

Olhei discretamente para Mariana.

— Se eu desaparecer, procura-me junto à saída.

— Não sejas dramática.

— Mariana, aquele homem tem um relógio que deve valer mais do que a minha licenciatura inteira.

Ela olhou na direcção que eu indicara.

— E aquele outro tem um fato que provavelmente vale mais do que o nosso apartamento.

— É precisamente por isso que não gosto destes ambientes.

— Mentira. Gostas de comida grátis.

Sorri. Ela conhecia-me demasiado bem.

A recepção estava cheia de empresários, investidores e convidados da universidade. Alguns estudantes circulavam pelo salão, tentando parecer confortáveis entre pessoas que tinham o hábito de falar de investimentos como quem comenta o tempo. Eu tentava concentrar-me no motivo pelo qual estava ali: estágios, contactos profissionais e oportunidades.

Nada de homens ricos. Nada de fantasias absurdas. E, definitivamente, nada de criar problemas.

— Vou buscar alguma coisa para beber — disse eu.

— Traz-me sumo.

Atravessei o salão, desviando-me de um grupo de convidados, quando cheguei à mesa das bebidas, peguei num copo de água e virei-me depressa demais. O meu ombro bateu contra alguém, o copo inclinou-se, a água caiu e, durante um segundo absolutamente horrível, vi o líquido escorrer pelo peito de uma camisa branca.

Fiquei imóvel.

O homem à minha frente baixou os olhos para a camisa molhada e depois voltou a olhar para mim.

Meu Deus.

Era alto, muito alto. Usava um fato escuro perfeitamente ajustado ao corpo e a camisa branca, agora manchada, realçava os ombros largos. Tinha cabelos escuros, ligeiramente desalinhados, uma barba curta e olhos tão escuros que pareciam ainda mais intensos sob a iluminação do salão.

Não era apenas bonito. Era o tipo de homem que fazia uma mulher esquecer a frase que estava prestes a dizer.

Infelizmente, eu estava prestes a descobrir se também fazia uma mulher perder o juízo.

— Eu... desculpe.

Foi a primeira coisa que consegui dizer.

Ele olhou para o copo na minha mão.

— Costumas cumprimentar as pessoas assim?

A voz era grave, tranquila e carregada de uma ironia que me irritou imediatamente.

— Só quando elas aparecem à minha frente sem avisar.

Uma das sobrancelhas dele ergueu-se. Olhei para o espaço à minha volta e tive de admitir que não estava propriamente a prestar atenção ao caminho.

— Está bem. Tecnicamente fui eu que bati contra si.

— Uma observação brilhante.

— Já pedi desculpa.

— Ouvi.

— Então estamos entendidos.

Tentei passar por ele, mas o homem deslocou-se ligeiramente, sem me tocar, e indicou a mancha na camisa.

— E quanto a isto?

Olhei novamente para o estrago.

— Posso pagar a limpeza.

Ele baixou os olhos para mim.

— Podes?

A pergunta fez-me franzir a testa.

— Sim.

— Tens a certeza?

A maneira como disse aquilo fez o meu orgulho despertar.

— Senhor, não sei quem pensa que é, mas uma camisa molhada não é motivo para me interrogar sobre as minhas possibilidades financeiras.

Durante um instante, ele ficou calado, depois sorriu. Não foi um sorriso aberto, foi uma pequena alteração na expressão, quase imperceptível, mas suficiente para transformar completamente o rosto dele e por alguma razão profundamente inconveniente, senti calor nas faces.

— Tens sempre essa maneira de falar com desconhecidos?

— Só com os mal-educados.

O sorriso desapareceu lentamente. Pensei que tivesse ultrapassado os limites, mas ele apenas inclinou a cabeça.

— Interessante.

— O quê?

— Ainda não decidiste se sou mal-educado, arrogante ou simplesmente desagradável.

— Preciso de mais cinco minutos para completar a avaliação.

Ele soltou uma gargalhada baixa, aquele som surpreendeu-me. Um homem com aquela aparência devia rir menos, porque era um desperdício de concentração para qualquer mulher que estivesse por perto.

Recuei um passo.

— Peço novamente desculpa pela camisa. Vou buscar alguns guardanapos.

— Não é necessário.

— Então tenha uma boa noite.

Desta vez, consegui passar por ele. Dei três passos antes de ouvir a voz grave atrás de mim.

— Como te chamas?

Parei. Não devia responder, não tinha qualquer obrigação de dizer o meu nome a um homem que acabara de conhecer e que parecia divertir-se à minha custa. Ainda assim, virei-me.

— Isabela.

Ele sustentou o meu olhar.

— Isabela de quê?

— Isso já é curiosidade a mais para alguém que acabou de conhecer.

Aquele sorriso voltou.

— Dante.

Esperei. Ele não acrescentou mais nada.

— Dante o quê?

O homem pareceu genuinamente surpreendido.

— Vasconcelos.

O apelido não me disse absolutamente nada.

— Muito prazer, Dante Vasconcelos. Agora, se me dá licença...

Afastei-me antes que ele pudesse responder. Só quando regressei para junto de Mariana é que percebi que estava a sorrir e isso irritou-me ainda mais do que a conversa.

---

Dante

Observei a jovem desaparecer entre os convidados.

Isabela.

Vinte e poucos anos, talvez. Jovem, bonita e com uma língua que não parecia conhecer o significado da prudência. Não era o tipo de mulher que costumava frequentar os meus eventos e definitivamente, não era o tipo de mulher que se atrevia a falar comigo daquela maneira.

— Estás a sorrir.

A voz de Henrique, o meu director financeiro, interrompeu os meus pensamentos.

Olhei para ele.

— Estou?

— Não te preocupes. Ainda não é suficientemente evidente para alguém chamar um médico.

Ignorei-o e peguei num copo de água. Henrique acompanhou a direcção do meu olhar.

— Quem é ela?

— Não sei.

— E conseguiste molhar a camisa antes de descobrires o nome completo?

Olhei para ele lentamente.

— Cuidado.

Ele riu-se.

— Está bem. Não vou perguntar mais nada, mas devo admitir que é a primeira vez que te vejo conversar com uma mulher durante tanto tempo sem olhar para o relógio.

— Foram dois minutos.

— Dois minutos e trinta segundos.

— Tens trabalho a fazer.

— Tenho. Tu é que pareces ter encontrado o teu.

Antes que eu pudesse responder, um dos organizadores aproximou-se para me avisar de que a apresentação começaria dentro de poucos minutos. Assenti, mas os meus olhos voltaram a percorrer o salão.

Encontrei-a perto de uma coluna, conversando com outra jovem. Isabela gesticulava enquanto falava e o seu sorriso parecia completamente alheio ao ambiente sofisticado que a rodeava. Não estava a tentar impressionar ninguém. Não parecia sequer interessada em saber quem eu era.

Aquilo deveria ser irrelevante.

Eu tinha quarenta anos, empresas para administrar e uma reunião internacional na manhã seguinte. Não precisava de mais uma distração, muito menos de uma estudante universitária que me olhara nos olhos para me chamar mal-educado.

Virei-me para o palco.

O apresentador aproximou-se do microfone.

— Senhoras e senhores, agradecemos a vossa presença. É uma honra receber esta noite o principal investidor do nosso novo programa de estágios, o fundador do Grupo Vasconcelos e um dos empresários mais influentes do país...

Ouvi o meu nome, os aplausos começaram e por algum motivo, antes de subir ao palco, voltei a olhar para Isabela.

Ela estava imóvel, o sorriso desaparecera-lhe do rosto, os olhos encontraram os meus do outro lado do salão, e eu soube imediatamente que acabara de perceber quem eu era.

Pela primeira vez naquela noite, não pareceu ter uma resposta pronta. Sorri ligeiramente, ela estreitou os olhos. Mesmo à distância, consegui ler a expressão no seu rosto.

Não pode ser.

Quase ri.

A noite acabara de ficar interessante e eu ainda não tinha descoberto o apelido dela.

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