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Capítulo 3

Author: Cláu
last update publish date: 2026-10-15 18:14:23

DANTE

Acordei às cinco e meia da manhã, antes de o despertador tocar. Não era uma particularidade de que me orgulhasse, mas depois de tantos anos a organizar a vida em função do trabalho, o meu corpo parecia ter aprendido a obedecer a horários que eu próprio já não questionava.

Fiquei alguns segundos deitado, a observar a luz discreta que começava a atravessar as cortinas do quarto. Depois, levantei-me, caminhei até à casa de banho e tomei um duche.

Aos quarenta anos, tinha uma vida que muitas pessoas considerariam invejável. Era proprietário de um grupo empresarial consolidado, tinha uma casa confortável, estabilidade financeira e uma posição que me permitia tomar decisões importantes. Não precisava de verificar o saldo da conta antes de fazer uma compra, nem de calcular se conseguiria pagar as despesas no fim do mês.

Isso não significava que a minha vida fosse simples. O meu trabalho exigia atenção constante, capacidade de negociação e uma disposição para resolver problemas que raramente apareciam em momentos convenientes. Um contrato podia parecer perfeito durante semanas e revelar uma falha no momento da assinatura. Um sócio podia prometer lealdade numa reunião e mudar de posição assim que recebesse uma proposta melhor. Aprendi a não confiar apenas nas palavras.

Depois do banho, vesti um fato azul-escuro, uma camisa branca e uma gravata discreta. Ajustei os punhos, observei-me brevemente ao espelho e saí do quarto.

A minha casa era ampla, silenciosa e organizada. Tinha escolhido aquele lugar pela privacidade e pela proximidade ao escritório. Não precisava de empregados a circular de um lado para o outro durante toda a manhã, nem de conversas desnecessárias enquanto tentava organizar os pensamentos.

Na cozinha, o pequeno-almoço já estava preparado. Sentei-me, tomei café e consultei as mensagens que recebi durante a madrugada.

Havia três assuntos que precisavam da minha atenção antes das nove horas: uma proposta de aquisição, um relatório financeiro e uma reunião que o departamento jurídico insistia em antecipar.

Respondi às mensagens mais urgentes e terminei o café.

Quando cheguei ao escritório, Henrique já estava à minha espera.

Era director financeiro do grupo e um dos poucos homens que se permitiam falar comigo sem medir cuidadosamente cada palavra. Trabalhavamos juntos havia anos e a nossa relação sobrevivera a negociações complicadas, divergências profissionais e algumas discussões que teriam levado outras pessoas a procurar emprego noutro lugar.

Henrique tinha uma confiança quase irritante na própria capacidade de me provocar.

Assim que entrei no gabinete, ele levantou os olhos do tablet.

— Bom dia, chefe. A camisa de hoje está segura?

Parei junto à secretária.

— Bom dia para ti também.

Ele sorriu.

— Só estou a demonstrar preocupação com o património da empresa. Não podemos permitir que outra pessoa apareça e destrua uma camisa de qualidade.

Retirei o casaco e pendurei-o nas costas da cadeira.

— Se vieste até aqui para falar de roupa, vou pedir à tua assistente que marque uma consulta para ti.

Henrique soltou uma gargalhada.

— Então ainda te lembras da rapariga.

Abri o primeiro documento que ele deixei sobre a mesa.

— Lembro-me de um copo de água, de uma camisa molhada e de uma pessoa que não parecia particularmente preocupada com as consequências do que tinha feito.

— Isso é uma maneira muito elegante de descrever uma mulher que não ficou impressionada contigo.

Levantei os olhos lentamente.

— Não preciso de impressionar todas as pessoas que encontro.

— Ainda bem. Seria um trabalho a tempo inteiro.

Voltei ao relatório.

Henrique continuou a sorrir durante alguns segundos, mas acabou por perceber que eu não lhe daria o prazer de prolongar a conversa.

A rapariga do hotel tinha sido inesperada, admitia-o. Não pela água derramada, mas pela maneira como reagira depois. Muitas pessoas mudavam de comportamento quando descobriam quem eu era. Algumas tornavam-se excessivamente simpáticas, outras procuravam imediatamente uma oportunidade para me pedir alguma coisa.

Isabela, pelo contrário, pareceu mais preocupada com o embaraço da situação do que com o meu nome. Não tinha tentado prolongar a conversa, não me pediu um contacto e não demonstrou qualquer interesse em descobrir o que eu poderia fazer por ela.

Era uma reacção pouco habitual, mas não suficientemente importante para alterar a minha rotina.

Fechei o relatório.

— Vamos começar. O que temos para hoje?

Henrique sentou-se na cadeira em frente à minha secretária e abriu a pasta financeira.

Passamos a manhã a analisar números, rever uma proposta e discutir os riscos de um investimento que alguns membros da administração queriam aprovar com demasiada rapidez. Discordei de duas estimativas, pedi esclarecimentos sobre os custos operacionais e devolvi o documento ao departamento responsável para que corrigisse as falhas.

Não gostava de tomar decisões com base no entusiasmo de outras pessoas.

Ao meio-dia, almocei no escritório. A reunião seguinte começou pouco depois e prolongou-se mais do que o previsto. Um dos participantes insistia em apresentar justificações para atrasos que já tinham sido discutidos na semana anterior.

Ouvi-o até ao fim, fiz algumas perguntas e deixei claro que esperava resultados concretos antes da próxima reunião.

Não levantei a voz. Raramente precisava de o fazer.

Quando as pessoas terminavam de falar comigo, costumavam perceber que a minha paciência tinha limites, mesmo quando o meu tom permanecia calmo.

Ao fim da tarde, recebi uma chamada de um parceiro comercial que queria alterar algumas condições do acordo. Afastei a cadeira, caminhei até a janela e ouvi a proposta sem o interromper.

— Compreendo o que pretende — respondi, quando ele terminou. — Mas as condições foram definidas pelas duas partes. Se deseja alterar os termos, terá de apresentar uma justificação que seja aceitável para ambas.

Ele começou a argumentar novamente.

Esperei. Depois de alguns minutos, chegamos a um compromisso provisório. Pedi que me enviassem a nova versão do documento e desliguei.

O meu assistente entrou pouco depois para confirmar a agenda do dia seguinte. Fiz duas alterações, autorizei uma reunião e pedi que me trouxesse os documentos que precisaria de analisar em casa.

Quando finalmente saí do escritório, já passava das dezanove horas.

O trânsito estava intenso e aproveitei o percurso para ouvir as mensagens que ainda não tinha conseguido consultar. Havia um convite para um jantar empresarial, um pedido de reunião e uma mensagem de um antigo colega que queria conversar sobre um possível investimento.

Respondi apenas ao que era urgente.

Ao chegar a casa, tirei o casaco, afrouxei a gravata e fui directamente para a cozinha. Pedi que preparassem uma refeição simples, mas acabei por comer sozinho, como fazia na maioria das noites em que regressava tarde.

Não me incomodava particularmente estar sozinho. Aprendi a apreciar o silêncio e a liberdade de organizar os meus horários sem precisar de negociar cada decisão com outra pessoa.

Depois do jantar, levei um copo de água para o gabinete que tinha em casa e abri o computador. Ainda precisava de rever um contrato antes de o enviar ao departamento jurídico.

Trabalhei durante quase uma hora. Quando terminei, fechei os documentos e consultei rapidamente a agenda do dia seguinte. Havia mais reuniões, mais decisões e mais números para analisar.

A minha vida seguia uma estrutura previsível, construída ao longo de muitos anos. Eu gostava dessa previsibilidade, não precisava de acontecimentos inesperados para sentir que os meus dias tinham valor.

Antes de me deitar, lembrei-me vagamente do comentário de Henrique sobre a rapariga do hotel. Sorri com pouco entusiasmo, mais pela insistência do meu colega do que pela recordação em si, e deixei o assunto de lado.

Na manhã seguinte, teria outros problemas para resolver e ao contrário de uma camisa molhada, esses problemas não desapareceriam depois de uma lavagem.

---

ISABELA

As semanas seguintes passaram entre aulas, trabalhos académicos e pequenas preocupações que pareciam multiplicar-se sempre que eu conseguia resolver uma delas.

A candidatura ao estágio ainda não tinha recebido resposta, mas eu não queria ficar parada a espera. Procurei outras oportunidades, actualizei o currículo e perguntei a duas colegas se conheciam empresas que aceitassem estudantes para estágios curriculares.

Uma delas indicou-me uma organização que estava a receber candidaturas. Tomei nota do endereço electrónico e prometi enviar os documentos assim que chegasse a casa.

Naquela manhã, acordei com o despertador a tocar às seis horas e a sensação de que precisava de mais um dia inteiro para terminar tudo o que tinha começado.

Levantei-me, tomei banho e preparei o pequeno-almoço. Mariana apareceu na cozinha com o telemóvel na mão, ainda a bocejar.

— Tenho uma pergunta importante — anunciou.

Continuei a barrar manteiga no pão.

— Se for sobre o homem da camisa branca, não estou interessada.

— Eu ia perguntar se viste a minha carteira.

Parei e olhei para ela.

Mariana começou a rir.

— Mas agora que falaste nele, podemos aproveitar a oportunidade.

Atirei-lhe um guardanapo.

— Vai vestir-te.

— Estás a fugir da conversa!

— Estou a fugir de ti.

Saímos de casa pouco depois e a manhã decorreu sem grandes acontecimentos. Assisti as aulas, fiz anotações e passei pela biblioteca para consultar alguns livros. Durante a tarde, encontrei uma colega que me pediu ajuda com um trabalho e acabámos por ficar na universidade mais tempo do que eu tinha planeado.

Quando cheguei a casa, estava cansada, mas ainda precisava de preparar o jantar e terminar a carta de apresentação para a nova candidatura.

A vida não parava só porque eu tinha outras coisas em mente.

Nos dias seguintes, continuei a fazer o que precisava de ser feito. Algumas noites eram dedicadas aos estudos, noutras, conversava com Mariana enquanto preparavamos a refeição ou organizavamos as despesas da casa. Ao fim de semana, aproveitava para lavar roupa, limpar o quarto e falar com a minha família.

Havia dias bons e dias menos bons. As vezes, sentia falta de estar perto das pessoas com quem crescera. Noutras ocasiões, sentia orgulho por conseguir resolver os meus problemas sem depender de ninguém.

Não tinha uma vida extraordinária, mas era a minha vida e eu estava a tentar construir algo com ela.

Quanto a Dante Vasconcelos, o seu nome apareceu ocasionalmente nas notícias empresariais que surgiam no telemóvel de Mariana ou nos comentários de pessoas que acompanhavam os negócios. Eu não procurava informações sobre ele e também não tinha motivo para o fazer.

O encontro no hotel foi apenas um episódio inesperado no meio de uma noite diferente e acredito que ele nem se lembre mim.

Eu tinha aulas para frequentar, candidaturas para enviar e contas para organizar.

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