LOGINISABELA
Acordei com o despertador a tocar pela terceira vez e, durante alguns segundos, considerei seriamente atirá-lo contra a parede. Não o fiz porque o telemóvel custou dinheiro suficiente para eu não me poder dar ao luxo de o destruir por causa de uma manhã de sono mal dormido. Em vez disso, estiquei o braço para a mesa de cabeceira, desliguei o alarme e escondi a cabeça debaixo da almofada. — Isabela, se não te levantares agora, vou tomar banho primeiro e gastar toda a água quente! A voz de Mariana chegou do corredor. Abri um olho. — Tu não podes gastar toda a água quente. Temos um acordo! — Temos um acordo que diz que quem acorda primeiro tem prioridade. — Esse acordo nunca existiu! — Acabei de o criar. Ouvi a gargalhada dela e revirei os olhos. Mariana tinha uma capacidade extraordinária de inventar regras quando lhe eram convenientes. Era uma das razões pelas quais eu gostava tanto dela e simultaneamente, uma das razões pelas quais em determinadas manhãs, imaginava como seria viver sozinha. Levantei-me, peguei na toalha e saí do quarto. Encontrei a minha melhor amiga diante do espelho do corredor, a tentar prender o cabelo com uma mola enquanto segurava o telemóvel entre o ombro e a orelha. — Sim, querido, eu também tenho saudades tuas — dizia ela, com uma voz tão doce que quase não a reconheci. — Não, não estou a fugir de ti. Tenho aulas, sabia? Passei por ela e dirigi-me à casa de banho. — Claro que tens aulas — ouvi-a responder. — E eu tenho de estudar, mas podemos encontrar-nos depois. Talvez à tarde, se não estiveres ocupado. Sorri enquanto fechava a porta. Mariana tinha namorado, chamava-se Luís, tinha vinte e dois anos e estudava gestão numa instituição diferente da nossa. Conheciam-se havia alguns meses e a relação parecia estar a entrar naquela fase em que duas pessoas conseguiam passar uma tarde inteira juntas e mesmo assim, despedir-se com a sensação de que o tempo tinha sido insuficiente. Luís era um rapaz tranquilo, educado e bastante paciente com as brincadeiras de Mariana. Não era perfeito, segundo ela própria admitia, mas gostava dela e demonstrava-o sem precisar de transformar cada conversa numa declaração dramática. Eu gostava dele, principalmente porque nunca tentou ocupar o espaço da minha amizade com Mariana, nem parecia incomodado com o facto de ela ter uma melhor amiga que sabia praticamente tudo sobre a sua vida. Depois do banho, vesti umas calças de ganga claras, uma blusa cor-de-rosa e sapatilhas brancas. Deixei o cabelo solto, apliquei um pouco de brilho nos lábios e coloquei os brincos pequenos que costumava usar para ir à universidade. Quando cheguei à cozinha, Mariana estava sentada à mesa, a sorrir para o telemóvel. Parei diante dela. — Estás a sorrir assim por quê? Ela levantou os olhos. — Não posso sorrir? — Podes. Só quero saber se devo preocupar-me com a tua saúde mental. Mariana levou a mão ao peito. — Que amiga maravilhosa! Eu aqui, apaixonada, e tu a suspeitares de uma doença. — Apaixonada? Ontem disseste que o Luís te irritava porque demorava muito a responder às mensagens. — Uma mulher pode estar apaixonada e irritada ao mesmo tempo. — Vou escrever isso num livro. — Escreve. Mas coloca o meu nome nos agradecimentos. Sentei-me à mesa e servi-me de chá. Mariana empurrou o prato com pão na minha direcção. — O Luís quer levar-me para almoçar no sábado. — Que bom. — E depois vamos ao cinema. — Muito bom. Ela estreitou os olhos. — Estás a responder como se estivesses a ler um comunicado oficial. — Queres que faça o quê? Que me levante e bata palmas? — Não seria má ideia. Bati duas vezes com as mãos, sem qualquer entusiasmo. Mariana começou a rir. — És impossível, Isabela. — E tu és dramática. — Por isso é que nos damos tão bem. Terminei o pequeno-almoço, lavei a chávena e fui buscar a mochila. Tínhamos aulas de manhã e uma apresentação em grupo à tarde. Além disso, eu queria passar pela biblioteca para terminar uma pesquisa que vinha a adiar havia dias. Antes de sairmos, Mariana recebeu uma mensagem de Luís. Leu-a e soltou um pequeno suspiro satisfeito. — O que foi agora? — perguntei. — Ele perguntou se já tomei o pequeno-almoço. — E isso merece um suspiro? — Merece. É bom quando alguém se lembra de ti nas pequenas coisas. Fiquei a observá-la por um instante. Havia qualquer coisa de bonito naquela simplicidade. Mariana gostava de receber flores, adorava sair e não recusava um presente, mas eram as pequenas demonstrações de atenção que pareciam deixá-la verdadeiramente feliz. — Espero que ele nunca se esqueça de te alimentar — comentei. — Não estou preparada para cuidar de ti emocionalmente e ainda ter de te lembrar de comer. Ela atirou-me a pequena bolsa que estava ao seu lado. — Anda, palhaça! Saímos de casa entre gargalhadas. A universidade estava mais movimentada do que o habitual. Havia estudantes espalhados pelo pátio, alguns sentados nos bancos, outros reunidos à sombra das árvores, enquanto um grupo discutia animadamente sobre um jogo de futebol que aconteceu na noite anterior. Mal entramos no recinto, ouvi alguém chamar o meu nome. — Isabela! Virei-me e encontrei Daniela a caminhar na nossa direcção, com uma pasta debaixo do braço e os auscultadores pendurados ao pescoço. Daniela era uma das minhas amigas da universidade. Conhecemo-nos no início do ano lectivo, quando ficamos no mesmo grupo para um trabalho. No primeiro dia, discutimos durante quase vinte minutos porque ela queria dividir as tarefas de uma maneira que eu considerava injusta. No fim, descobrimos que ambas eramos teimosas, gostávamos de trabalhar bem e tinhamos o hábito de dizer exactamente o que pensávamos. Desde então, tornámo-nos amigas. Atrás dela vinha o Tomás, um rapaz da nossa turma que parecia conhecer toda a gente. Tomás tinha vinte e um anos, era brincalhão, falava com facilidade e estava sempre a organizar alguma coisa, desde sessões de estudo até saídas que, segundo ele, eram indispensáveis para a saúde mental dos estudantes. — Finalmente! — exclamou Daniela, aproximando-se. — Pensei que vocês tinham decidido abandonar a universidade e abrir um restaurante. — Se abrirmos um restaurante, tu serás a primeira cliente — respondeu Mariana. — Principalmente se continuarmos a cozinhar como ontem. Tomás fez uma careta. — Ainda estou traumatizado com o arroz que vocês me deram na semana passada. — Comeste duas vezes — lembrei-lhe. — Porque tinha fome! Não confundas necessidade com satisfação. Todos nos rimos. Tomás tinha sido nosso convidado para um jantar em casa alguns dias antes. Mariana insistiu que sabia preparar uma refeição maravilhosa, mas descobrimos demasiado tarde que a sua confiança era consideravelmente superior às suas capacidades culinárias. O arroz ficou demasiado cozido e o molho demasiado salgado. Ainda assim, comemos tudo, porque ninguém queria ferir o orgulho da cozinheira. — Hoje não temos tempo para falar da minha carreira na cozinha — anunciou Mariana. — Temos uma apresentação para preparar. — Falando nisso — disse Daniela, olhando para mim —fizeste a parte que combinamos? Assenti e abri a mochila para lhe mostrar os apontamentos. — Está tudo aqui. Só precisamos de rever a introdução e organizar os últimos slides. — Sabia que podia confiar em ti. — Não digas isso antes de veres o trabalho. Ainda posso ter cometido um erro desastroso. Tomás espreitou por cima do meu ombro. — Se houver um erro, culpamos o professor. É uma estratégia académica antiga. — É por isso que nunca te deixam liderar os grupos — respondeu Daniela. — Não me deixam liderar porque têm medo do meu potencial. O sinal que anunciava o início da aula interrompeu a conversa. Guardamos os materiais e seguimos para a sala. Durante a manhã, concentrei-me nas explicações do professor. Fiz anotações, respondi a algumas perguntas e ajudei Daniela a esclarecer uma dúvida sobre o trabalho. Não havia muito espaço para distrações, sobretudo porque o professor tinha o hábito de chamar os estudantes que pareciam demasiado entretidos com os telemóveis.ISABELA A segunda-feira começou com o som insistente do despertador e a voz de Mariana a reclamar do calor antes mesmo de abrir os olhos. Eu já estava acordada, deitada de costas, a olhar para o tecto enquanto organizava mentalmente as tarefas que precisava de cumprir naquele dia. Tinha uma aula pela manhã, um trabalho de grupo para discutir com Daniela e, à tarde, uma entrevista numa empresa onde me tinha candidatado a uma oportunidade de estágio. Era esta última que mais me preocupava, embora eu tentasse não demonstrar. Não se tratava apenas de conseguir um estágio. Eu precisava de uma oportunidade que me permitisse adquirir experiência, aprender com profissionais e começar a construir um caminho que não dependesse constantemente da ajuda da minha família. Gostava de estudar, tinha objectivos e estava disposta a trabalhar para os alcançar, mas sabia que o diploma, por si só, não me abriria todas as portas. Precisava de começar por algum lado, mesmo que isso significasse aceitar ta
E, como previsto, assim que entramos no nosso apê, Mariana voltou ao assunto enquanto procurava o carregador do telemóvel. — Achas que ele te vai mandar mensagem hoje? Atirei uma almofada na direcção dela. — Se continuares, vou começar a cobrar-te pelas perguntas. — Isso significa que estás à espera da mensagem! — Significa que preciso de um banho e de paz. Fui tomar banho antes que ela encontrasse outra maneira de me provocar. Depois, vesti uma roupa confortável, preparei qualquer coisa simples para jantar e sentei-me na cama com o computador aberto, determinada a aproveitar o resto da noite para organizar algumas tarefas da universidade. O telemóvel vibrou quando eu estava a rever as minhas anotações. Era uma mensagem de Mateus. Mateus: Chegaste bem a casa? Sorri ligeiramente antes de responder. Eu: Sim, cheguei. E tu? A resposta veio pouco depois. Mateus: Também. Obrigado pela companhia de hoje. Foi bom conhecer-te um pouco melhor fora da universidade. Eu: Também gost
— Estávamos a tentar descobrir quem conseguia ficar mais tempo dentro de água sem reclamar do frio. — E quem ganhou? — Ninguém. A competição foi interrompida por falta de dignidade. Mateus riu-se, e Luís, que observava a conversa, olhou para ele com uma expressão divertida. — Afinal, conheces a Isabela? — Estudamos na mesma universidade — respondeu Mateus. — Já nos tínhamos cruzado algumas vezes. — E ele até já me pediu apontamentos — acrescentei. — Portanto, suspeito que a nossa amizade tenha começado por motivos académicos. — Não espalhes isso. Estou a tentar construir uma reputação de pessoa interessante. — Então talvez devesses começar por estudar antes dos testes. — Essa foi desnecessária. Voltei a rir-me, e ele abanou a cabeça, fingindo estar ofendido. Não havia nada de desconfortável na presença de Mateus. Era simpático, sabia conversar e não parecia precisar de transformar cada frase numa tentativa de impressionar alguém. Mariana aproximou-se de nós e abraçou Luís
ISABELAAcordei com a sensação de que tinha dormido muito pouco, embora o meu telemóvel indicasse que já passava das oito da manhã. Estiquei o braço para desligar o despertador, virei-me para o outro lado e tentei convencer-me de que podia ficar mais cinco minutos na cama. O problema era que, na noite anterior, tinha concordado em ir à praia com Mariana e os nossos amigos, e conhecia suficientemente bem a minha melhor amiga para saber que, se eu me atrasasse, ela não me daria descanso durante o resto da semana.— Isabela! — ouvi-a chamar do outro lado da porta. — Não me digas que ainda estás a dormir!Fechei os olhos e puxei o lençol até ao pescoço.— Estou a meditar.— A meditar sobre o quê? Sobre a possibilidade de os teus pés começarem a andar sozinhos até à casa de banho?Soltei uma gargalhada antes de me sentar na cama.— Mariana, são oito da manhã de domingo!— Exactamente! Um domingo lindo, com sol, praia e pessoas normais que não querem passar o dia inteiro enfiadas em casa a
MATEUSEu não era o tipo de pessoa que se apaixonava só porque uma rapariga sorria para mim.Pelo menos, era o que dizia aos meus amigos.A verdade era que já tinha reparado em Isabela muito antes de lhe enviar aquela mensagem sobre os apontamentos. Frequentávamos algumas aulas juntos, e eu conhecia o seu rosto, a maneira como prendia o cabelo quando estava concentrada e o hábito de franzir ligeiramente a testa quando um professor apresentava uma explicação que não lhe parecia fazer sentido.Nunca tínhamos conversado muito. Ela costumava estar com Mariana, Daniela e os outros colegas, e eu não queria aproximar-me de forma forçada.Além disso, tinha as minhas próprias responsabilidades.Tinha vinte e dois anos, estudava e fazia alguns trabalhos ocasionais para ajudar com as despesas pessoais. Não era rico, nem pretendia fingir que era. A minha família fazia o possível para me apoiar, mas eu sabia que precisava de aprender a gerir o meu dinheiro e a construir o meu futuro.Gostava de fu
ISABELAAcordei às oito horas da manhã com o som insistente de alguém a bater à porta do meu quarto. Virei-me para o outro lado, puxei a almofada sobre a cabeça e decidi que, fosse quem fosse, teria de aprender a respeitar o sono alheio. Afinal, era sábado. Depois de uma semana inteira de aulas, trabalhos académicos e corridas para apanhar transporte, eu merecia pelo menos uma manhã sem obrigações.— Isabela! — chamou Mariana do outro lado da porta. — Estás viva?— Não!— Óptimo. Então posso ficar com os teus brincos novos?Abri os olhos imediatamente.— Nem penses nisso!Ouvi-a rir-se no corredor.— Sabia que estavas viva!Levantei-me da cama, caminhei até à porta e abri apenas o suficiente para a encarar. Mariana estava diante de mim, já vestida, com uns calções de ganga, uma camisola amarela e o cabelo preso num rabo-de-cavalo. Tinha o telemóvel numa mão e um sorriso suspeito no rosto.— São oito horas — resmunguei. — O que queres?— Bom dia para ti também.— Mariana.— Está bem, e







