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Capítulo 5

Author: Cláu
last update publish date: 2026-10-16 16:35:46

Na pausa, saimos para o pátio e juntamo-nos a mais dois colegas, o Samuel e a Rita. Samuel era reservado, mas tinha um humor inesperado. Rita, por outro lado, era faladora, gostava de música e tinha sempre uma opinião sobre tudo.

A conversa começou com as dificuldades do trabalho de grupo e acabou nos planos para o fim de semana.

— Podemos ir à praia no sábado — sugeriu Rita. — Já estou cansada de passar os fins de semana a estudar.

— Concordo — disse Tomás. — O meu cérebro está a pedir férias.

Daniela olhou para ele.

— O teu cérebro ainda nem começou a trabalhar este semestre.

— E é exactamente por isso que precisa de descansar antes de começar.

— Eu não posso no sábado — anunciou Mariana. — Tenho um encontro com o Luís.

Rita levou a mão ao peito.

— Outra vez o Luís?

— Sim, outra vez o Luís. É o meu namorado, caso te tenhas esquecido.

— Não me esqueci. Só estou a tentar perceber se ainda te lembras de nós.

Mariana mostrou-lhe a língua.

— No domingo estou livre. Podemos fazer alguma coisa.

Todos olharam para mim.

— Isabela?

Pensei durante alguns segundos.

— No sábado tenho de estudar, mas no domingo posso ir.

— Está decidido — declarou Tomás. — Domingo, praia. E ninguém vai inventar desculpas.

— Se chover, a culpa será tua — avisou Samuel.

— Aceito a responsabilidade.

Rita tirou o telemóvel do bolso e começou a organizar o grupo. Em poucos minutos, já tínhamos um novo grupo de mensagens, duas sugestões de lugares para almoçar e uma discussão sobre quem levaria as bebidas.

Olhei para aquela confusão e sorri.

Gostava daqueles momentos. Não precisávamos de gastar muito dinheiro para nos divertirmos. Às vezes, bastava sentarmo-nos juntos, conversar, ouvir música e rir das pequenas desgraças que pareciam enormes enquanto ainda estávamos a vivê-las.

A vida universitária não era apenas estudar e preocupar-me com o futuro. Também era fazer amizades, conhecer pessoas diferentes, descobrir os meus gostos e guardar recordações que, mais tarde, provavelmente me fariam rir.

Eu não queria passar os meus vinte anos a comportar-me como se tivesse cinquenta.

Tinha responsabilidades, sim, mas também tinha o direito de ser jovem.

Depois das aulas, fomos à cantina almoçar. A comida estava razoável, embora Tomás tivesse passado boa parte do tempo a reclamar da quantidade de molho no prato.

— Um dia destes, vou trazer a minha própria comida — anunciou ele.

— E nós vamos comê-la — respondeu Mariana.

— Não vou partilhar.

— Então vais almoçar sozinho.

Tomás olhou para ela, indignado.

— Vocês são as piores pessoas que conheço.

— E, mesmo assim, continuas connosco — observei.

— É porque tenho um coração enorme.

— Ou porque não tens outros amigos — sugeriu Daniela.

Ele levantou-se teatralmente.

— Vou embora. Não posso permanecer num ambiente tão hostil.

Ninguém se mexeu.

Tomás voltou a sentar-se.

— Estava a dar-vos uma oportunidade de me impedirem.

Olhei para ela, desconfiada.

— Não comeces.

— Eu não comecei nada. Só acho engraçado que um rapaz que nunca te pede nada de repente descubra que precisa dos teus apontamentos.

— Ele está na minha turma. É normal pedir apontamentos.

— Claro. E eu sou a directora da universidade.

Revirei os olhos.

— Tu vês romance em tudo.

— Não em tudo. Só quando vale a pena observar.

Ignorei-a e voltei ao computador, embora a minha amiga continuasse a sorrir como se tivesse descoberto um segredo importante.

Mateus podia simplesmente precisar dos apontamentos. Não havia motivo para transformar uma mensagem numa investigação sentimental. E mesmo que estivesse interessado em mim, isso não significava que eu tivesse de sentir o mesmo.

Naquele momento, a minha prioridade continuava a ser terminar a apresentação.

Saímos da biblioteca pouco depois das dezasseis horas. Daniela precisava de passar por uma loja antes de regressar a casa, por isso despedimo-nos junto ao portão da universidade.

Caminhei até à paragem, com a mochila pendurada num ombro e o telemóvel na mão. Estava a responder a uma mensagem de Mariana quando ouvi alguém chamar-me.

— Isabela!

Virei-me.

Mateus aproximava-se com a mochila às costas e um sorriso que parecia ligeiramente nervoso.

— Olá — cumprimentei.

— Olá. Estava a pensar que talvez conseguisses enviar-me os apontamentos agora. Mas, se estiveres ocupada, posso esperar.

— Não estou ocupada. Posso enviar-te quando chegar a casa.

Ele assentiu.

— Obrigado. A sério.

Ficámos em silêncio durante alguns segundos. Não era um silêncio desagradável, mas percebi que ele procurava alguma coisa para dizer.

— Vais para casa? — perguntou finalmente.

Olhei para a estrada, onde alguns veículos passavam lentamente.

— Vou. Tenho de estudar e preparar o jantar.

— Compreendo. Também tenho de estudar. Quer dizer, devia estudar. Ainda não decidi se vou realmente fazê-lo.

Sorri.

— Pelo menos, és honesto.

— Tento ser.

Um autocarro aproximou-se da paragem, mas estava tão cheio que nem sequer consegui entrar. Suspirei, recuando para dar espaço às pessoas que se apressavam a subir.

Mateus observou a confusão e voltou-se para mim.

— Parece que vamos ficar aqui algum tempo.

— É provável.

— Então posso fazer-te uma pergunta?

— Depende da pergunta.

Ele riu-se.

— Queria saber se tu e os teus amigos vão participar naquela actividade de domingo. Ouvi o Tomás falar sobre uma ida à praia.

Surpreendi-me.

— Também ouviste?

— Estava perto da sala quando ele começou a organizar tudo. Ele não é propriamente discreto.

— Isso é verdade.

Mateus passou a mão pela nuca.

— Gostava de ir. Se não houver problema.

— Não há problema nenhum. O Tomás está a organizar o grupo. Posso pedir-lhe que te inclua.

O rosto dele iluminou-se.

— Obrigado. Seria bom passar algum tempo convosco fora das aulas.

Assenti, sem atribuir grande importância à frase.

O autocarro seguinte chegou alguns minutos depois. Conseguimos entrar, embora tivéssemos de viajar de pé durante boa parte do percurso. Mateus desceu duas paragens antes de mim, despedindo-se com um sorriso e prometendo enviar-me uma mensagem quando recebesse os apontamentos.

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