LOGINO sol já estava alto quando o último cliente saiu do café, deixando para trás o cheiro de café fresco e croissants de amêndoas.
Elize recolheu os guardanapos das mesas do térreo com agilidade, lançando olhares rápidos para o relógio no pulso. — Mada, vou correndo. Se eu não sair agora, chego atrasada na prova! — Vai lá! Leva a minha scooter — respondeu Madalena, estendendo a chave. — Deixa na sua casa mesmo e põe a chave debaixo do tapetinho. — Você é um anjo — disse Elize, já ajeitando o avental para tirá-lo. — Boa sorte com o turno da tarde! — Boa sorte com as leis que você adora odiar! Elize riu e saiu em disparada pelas ruas inclinadas da Baía das Abelhas. Montou na pequena scooter branca de Madalena e subiu como uma flecha pelas ruelas estreitas, desviando com familiaridade das pedras soltas e dos gatos sonolentos estendidos no meio do caminho. Chegando em casa, estacionou rápido, escondeu a chave como prometido e subiu correndo os dois lances até seu apartamento. Tirou o uniforme com pressa, prendeu os cabelos em um coque improvisado e tomou um banho frio que serviu mais para despertar do que para relaxar. Vestiu jeans escuro, tênis e uma camisa branca. Pegou sua mochila, agora cheia de códigos e anotações grifadas em rosa. Dessa vez, pegou sua própria scooter — uma vermelha, já um pouco surrada, mas valente. Elize atravessou a cidade com o vento no rosto e um fone só no ouvido, ouvindo mentalmente o resumo das aulas que gravava com a própria voz. O prédio da universidade surgiu no horizonte, imponente, com seus vidros espelhados refletindo o sol da tarde. Ela entrou apressada e se jogou na cadeira antes mesmo da professora entregar as folhas da prova. Respirou fundo. — Vocês tem duas horas para responder todas as questões. Não esqueçam de marcar o gabarito com caneta preta! A professora terminou de explicar e a sala mergulhou no silêncio. Por mais caótico que fosse o seu dia, ali dentro Elize se transformava. Era quase como vestir outra pele: a de Elize, a aluna aplicada, futura advogada. Horas depois, ao sair da sala já de noite, soltou um suspiro longo. O pior tinha passado. Ela se espreguiçou no corredor vazio e, ao sair do prédio principal, parou diante do mural central da universidade. Entre eventos culturais e avisos de recuperação, um cartaz em destaque anunciava o Congresso Nacional de Direito Penal, que ocorreria dali a alguns dias. Vários nomes importantes estampavam o cartaz. Um, em especial, chamou sua atenção: Henrique Villamar Ela estreitou os olhos. Não havia foto do convidado, mas o nome lhe causou um arrepio estranho. — Direito Penal não é muito a minha área mesmo — murmurou, dando de ombros e virando-se para ir embora. — Mais um evento cheio de gente que fala difícil e não escuta ninguém. Descendo as escadas com os livros apertados contra o peito, montou novamente na scooter vermelha. Enquanto acelerava pelas avenidas já quase desertas, não fazia ideia de que aquele nome no cartaz carregava um pedaço de sua história. Nem que, em poucos dias, seus caminhos se cruzariam de novo.Elize acordou no bangalô em Maldivas e, ao abrir os olhos, se deparou com o mar brilhante e azul pela janela. Virou-se para o lado, mas a cama estava vazia. Com um suspiro, levantou-se com cuidado e caminhou até a varanda, encontrando Henrique sentado numa espreguiçadeira, o notebook aberto no colo. — O combinado era não trazer trabalho para as férias, senhor promotor de justiça — disse ela, cruzando os braços, meio brincando, meio séria. Ele resmungou qualquer coisa, mas antes que pudessem continuar, um grito animado ecoou do quarto: — Mãããe! Vamos andar de bicicleta! Quero ir até o final dos bangalôs! — Meu amor — respondeu ela, sorrindo, colocando a mão na barriga — olha o tamanho da mamãe! Não tenho essa coragem não. Leva seu pai junto, assim ele esquece um pouco do trabalho. Henrique fechou o notebook, levantou-se e veio até ela, passando a mão na barriga de Elize e dando um beijo suave na testa antes de sair com Gael: — Vê se cuida direitinho da Zoe, que a gente já volta.
A festa seguia animada, risadas e música preenchendo cada canto do café, agora transformado em um verdadeiro salão de celebração. Os convidados brindavam, dançavam, conversavam entre si, e Henrique e Elize eram o centro de todas as atenções. Cada sorriso dirigido a eles parecia refletir o amor e a felicidade que o casal irradiava, e por alguns momentos, tudo parecia perfeito, sem sombra do passado. Quando a noite começou a cair, a luz suave das lâmpadas penduradas no terraço transformou o ambiente em algo mágico. Entre um brinde e outro, Elize sussurrou para Henrique: — Vamos lá fora, quero jogar o buquê. Ele sorriu, pegando sua mão, e juntos se dirigiram para o lado de fora do café. O ar fresco da noite da Baía das Abelhas trouxe um silêncio momentâneo, quebrado apenas pelo riso das amigas na rua que se preparavam para disputar o buquê. Foi então que ela o viu. Vicentini. Parado ao lado do café, como se surgisse do nada, a postura rígida e o olhar fixo nela. Um arrepi
Elize olhou para Henrique com os olhos marejados, tentando manter a voz firme apesar da onda de lembranças que a invadia. Quando abriu a boca, cada palavra carregava o peso da dor que haviam superado e a leveza do amor que agora florescia entre eles. — Henrique, desde o primeiro momento em que nossas vidas se cruzaram, eu soube que você seria alguém impossível de esquecer. Por mais que o tempo, o silêncio e a distância tentassem me convencer do contrário, o meu coração encontrou um jeito de voltar até você. Ela respirou fundo, permitindo que a emoção transbordasse. — Eu poderia falar das noites em que pensei que tinha perdido tudo, da força que precisei ter para seguir em frente sem você. Mas hoje eu não quero falar da dor. Hoje eu quero falar da esperança que renasceu quando nossos caminhos se reencontraram, da surpresa de descobrir que o destino me devolveu não só você, mas também a chance de ver a nossa família completa com o Gael. O olhar de Elize se prendeu ao dele, firme
O coração de Elize batia tão alto que ela quase podia ouvir, mas, ao erguer o olhar, encontrou Henrique. E então tudo se aquietou dentro dela. Henrique sentiu o peito arder ao vê-la avançar. O sol, refletido na baía atrás do pergolado, parecia ter escolhido iluminar apenas o caminho dela. Quando os olhos dos dois se encontraram, nada mais parecia importar. Nem o burburinho emocionado dos convidados, nem o perfume das flores que decoravam o altar. Era como se aquele instante fosse só deles, suspenso no tempo. Henrique deu um passo à frente, estendendo a mão. Elize a segurou, e ambos respiraram fundo, como quem finalmente chegava em casa. Madalena pigarreou, a voz embargada, mas firme: — Queridos amigos e familiares, estamos aqui reunidos diante de Deus e desta vista que testemunhou tantas histórias… para celebrar o amor que vence o tempo, a distância e até mesmo a dor. Henrique apertou de leve a mão de Elize. Ela sorriu, com os olhos marejados. Madalena deu uma pausa n
O sol começava a se pôr sobre a Baía das Abelhas, tingindo o céu de tons de laranja, rosa e dourado. O terraço do café estava transformado: um pergolado delicadamente decorado com tecidos esvoaçantes e flores brancas e rosadas criava uma moldura perfeita para a vista da marina. O aroma sutil das flores se misturava com o cheiro do mar, trazendo uma sensação de calma e expectativa no ar. As cadeiras estavam alinhadas, os convidados começaram a se acomodar, e um burburinho de excitação tomava conta do ambiente. Glória se acomodou nas cadeiras do terraço, ajeitando discretamente a bolsa sobre o colo. Ao lado, um dos convidados próximos olhou para ela com curiosidade, e ela não perdeu a oportunidade de puxar conversa. — Ah, você viu como a decoração está linda? — comentou, com um sorriso satisfeito. — E tudo graças ao meu conselho: nada de rosas vermelhas desta vez. Acho que finalmente me ouviram. O convidado riu, balançando a cabeça, enquanto Glória observava atentamente o
Terça-feira começou com o escritório mais agitado do que o normal, mas nada podia preparar Henrique ou Elize para a visita inesperada. Augusto atravessou a recepção com passos firmes, a expressão rígida, e perguntou com voz cortante: — Henrique está na própria sala? Glória, sempre a primeira a captar qualquer nuance, levantou os olhos de seus papéis e respondeu: — Está sim. Bom dia, doutor Augusto. Augusto não se abalou, avançando pelo corredor. Assim que empurrou a porta da sala, o ambiente mudou instantaneamente. Elize e Henrique estavam rindo, imersos em uma conversa animada sobre um caso complicado, e o contraste com a presença severa do patriarca era imediato. O riso morreu, e o silêncio se tornou pesado, quase sufocante. — Posso ajudar, pai? — Henrique se recostou devagar na cadeira, mantendo a postura firme, mas a voz tranquila. — Henrique, eu não permito que você se case com essa mulher — Augusto disparou, cada palavra carregada de desprezo. Elize olhou para Henriq







