INICIAR SESIÓNO quarto voltara a mergulhar no silêncio.
Mia permanecia sentada diante da grande janela, observando os jardins da Mansão Alfa sem realmente enxergá-los. O vestido branco cuidadosamente disposto sobre um biombo próximo à cama parecia lembrá-la, a cada instante, do que aconteceria dentro de poucas horas. Seu casamento. A palavra ainda lhe parecia estranha. Todas as vezes que imaginara aquele momento… Ian sorrindo para ela. Theron orgulhoso. Elowin emocionada. Darian conduzindo-a até o altar. Agora… O pai não estava mais ali. Theron mal conseguia permanecer de pé. E Ian… Mia fechou os olhos. Nem sequer conseguia imaginar qual expressão encontraria quando voltassem a se encarar. Três batidas animadas romperam seus pensamentos. Antes mesmo que pudesse responder, a porta se abriu. — Nós resolvemos ignorar completamente qualquer possibilidade de você dizer “não entrem”. A voz divertida de Zara arrancou de Mia o primeiro sorriso verdadeiro em semanas. — Porque você diria. — completou Elara, entrando logo atrás da amiga. — E nós entraríamos mesmo assim. — Kiara fechou a porta atrás de si, segurando uma enorme caixa de madeira. Por um instante… Mia apenas ficou olhando para as três. Sentiu um aperto inesperado no peito. Não de tristeza. Mas de saudade. Saudade da vida simples que dividia com elas. Das tardes em Arkhavel. Das risadas depois dos treinamentos. Das discussões bobas que sempre terminavam com alguma das quatro implicando com Zara. Sem pensar, levantou-se. Kiara foi a primeira a abraçá-la. Depois Elara. Por último, Zara. Nenhuma delas disse nada. Não era preciso. Às vezes… O silêncio também abraçava. Foi Zara quem desfez o momento. — Certo. Já choramos demais no último mês. Hoje ninguém vai estragar sua maquiagem antes mesmo de ela existir. Mia soltou uma risada baixa. — Nem comecei a me arrumar. — Ainda bem. — Porque nós expulsamos todas as criadas. Mia arqueou uma sobrancelha. — Vocês fizeram o quê? — Expulsamos. — Zara respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Você realmente achou que deixaríamos outra pessoa preparar você para o próprio casamento? Elara cruzou os braços. — Nem pensar. Kiara colocou a caixa sobre a cama. — Essa missão é nossa. Mia olhou para as três. Pela primeira vez desde a morte do pai… Sentiu o peito um pouco mais leve. Enquanto Elara organizava pincéis, pequenos frascos de perfume e joias sobre a penteadeira, Zara caminhou até o vestido. — Preciso admitir… Ela passou delicadamente os dedos pelo tecido branco. — A Luna tem um gosto impecável. Kiara sorriu. — Ela acompanhou tudo pessoalmente. Disse que queria que a Mia parecesse… Parou por um instante. — Uma verdadeira Luna. Mia desviou os olhos. Ainda não conseguia enxergar a si mesma daquela forma. Zara percebeu. Como sempre. Mudou completamente de assunto. — Aliás… Você soube da novidade? Mia voltou a encará-la. — Que novidade? — Adrian. Ela piscou. — Agora ele é oficialmente o Beta do Ian. Mia franziu a testa. — Mas… E Lucca? Foi Kiara quem respondeu. — Adrian se ofereceu. Mia permaneceu em silêncio. Elara continuou. — Disse que jurou lealdade à Coroa muito antes de qualquer outra coisa. — E que Lucca precisa estar livre para recuperar Coluna. — completou Kiara. Um pequeno sorriso apareceu em seus lábios ao falar do marido. — Agora ele não é mais o Beta de ninguém. É o futuro Alfa da nossa alcateia. Os olhos de Kiara brilharam com orgulho. Mia sorriu. — Ele sempre sonhou em proteger Coluna. — E vai conseguir. Kiara respondeu com tanta convicção que ninguém ousou discordar. Zara voltou a falar. — Adrian também disse uma coisa que achei bonita. — O quê? — Que Lucca tem um povo esperando por ele. Então o lugar ao lado do Rei Alfa podia ser ocupado por qualquer Beta. Mas o lugar de Alfa de Coluna… Só podia ser ocupado por Lucca. Mia abaixou a cabeça. Adrian sempre fora assim. Leal. Honrado. Disposto a colocar o dever acima de qualquer interesse pessoal. Enquanto Elara prendia delicadamente parte dos cabelos de Mia para começar o penteado, Zara aproximou uma cadeira. — Sente. Hoje você só tem uma obrigação. — Qual? — Ser bonita. Kiara caiu na risada. — Zara… — O quê? Ela deu de ombros. — Ela já vai salvar o reino. A parte difícil fica comigo. As quatro riram. Aquele som pareceu devolver vida ao quarto. Por alguns instantes… A guerra. A profecia. A rejeição. Tudo ficou do lado de fora. Era apenas Mia… Ao lado da irmã, da cunhada e da melhor amiga. Como deveria ter sido desde o começo.Os dias seguintes de regressão foram diferentes. As primeiras lembranças haviam mostrado o amor. A infância. A amizade. A escolha. O casamento. Os sete anos em que Ethan e Serina haviam construído uma vida juntos. Mas, depois daquela sequência de memórias felizes, alguma coisa começou a mudar. E quanto mais as regressões avançavam, menos felizes elas se tornavam. No começo, eram apenas pequenos detalhes. Uma discussão. Um olhar. Um silêncio. Nada que parecesse importante. Mas, conforme os dias passavam, aqueles pequenos detalhes começaram a se repetir. Ethan parecia mais distante. Serina, mais insegura. Às vezes, os dois discutiam por coisas que, para Mia, pareciam insignificantes. Em uma das memórias, Serina perguntou por que Ethan havia demorado tanto para voltar. Ele respondeu que tinha se ocupado com assuntos da alcateia. Ela acreditou. Mas não parecia completamente convencida. Em outra, Ethan chegou aos aposentos e encontrou Serina conv
A próxima regressão começou de maneira diferente. Não havia tensão. Não havia medo. Não havia aquela sensação pesada que costumava acompanhar as memórias anteriores. Dessa vez, quando a escuridão se dissipou, Mia encontrou luz. Muita luz. O som de risadas chegou primeiro. Depois, música. Uma melodia antiga, tocada por instrumentos que ela não reconhecia, mas que parecia familiar de alguma maneira. Quando a visão finalmente se formou, ela viu Serina. Mais velha. Ainda jovem, mas diferente da garota que conhecera nas primeiras memórias. Ela estava sorrindo. Ethan estava diante dela. Os dois dançavam. Não havia ninguém ao redor. Apenas os dois. Ele segurava uma de suas mãos e mantinha a outra em sua cintura, conduzindo-a pelos passos de uma dança antiga. Serina ria quando errava. Ethan ria dela. Então ela pisava no pé dele de propósito. Ele fingia indignação. Ela gargalhava. A memória mudou. Serina e Ethan caminhavam lado a lado por uma floresta. Ele carregava a
A escuridão voltou a envolvê-los. Dessa vez, Mia já sabia que não seria uma lembrança fácil. Ela sentia isso na forma como o peito apertava antes mesmo de a visão se formar completamente. O ancião havia explicado que as memórias não vinham necessariamente em ordem. Algumas mostravam momentos felizes. Outras revelavam acontecimentos que haviam mudado tudo. E aquela parecia ser uma dessas. A primeira coisa que Mia ouviu foi uma voz. — Desde quando? Ela reconheceu imediatamente. Isaac. A visão começou a tomar forma. Uma sala simples. Paredes de pedra. Uma janela aberta para a noite. Ethan estava de pé próximo à mesa, enquanto Serina permanecia ao lado dele. Os dois pareciam tensos. Isaac estava diante deles. Os braços cruzados. O olhar fixo nos dois. — Desde quando vocês estão juntos? Serina abaixou os olhos. Ethan respirou fundo. — Isaac… — Não. Isaac levantou uma mão. — Eu quero saber. Ethan permaneceu em silêncio por alguns segundos. Então respondeu: — Há
Quando a regressão terminou, Mia demorou alguns segundos para abrir os olhos. Ainda conseguia sentir. A emoção. A felicidade. O amor que havia atravessado aquela memória como algo quase físico. Quando finalmente abriu os olhos, encontrou Ian olhando para ela. Os dois permaneceram em silêncio. Nenhum deles parecia saber exatamente o que dizer. Então Mia sorriu. Um sorriso pequeno, emocionado. — Eles se escolheram. Ian apertou sua mão. — Se escolheram. A palavra pareceu ganhar um peso diferente entre eles. Escolha. Serina poderia ter esperado que a Lua decidisse seu destino. Poderia ter desejado um vínculo que confirmasse aquilo que sentia. Mas não. Quando recebeu a liberdade de escolher, escolheu Ethan. Porque o amava. Porque queria estar com ele. Porque, naquele momento, não havia dúvida alguma em seu coração. Mia sentiu os olhos arderem. — Ela realmente amava ele. Ian se aproximou. — Amava. — E ele também amava ela. — Sim. Mia soltou uma risada baixa, ain
O rosto de Ethan perdeu um pouco da cor. Serina sentiu o próprio coração afundar. Então seus olhos se moveram. Isaac. Ela olhou para ele. Por um instante, o silêncio pareceu durar uma eternidade. Mas novamente… Nada. Nenhum vínculo. Nenhuma resposta da loba. Serina respirou fundo. E, inesperadamente, sentiu alívio. Não havia vínculo com Isaac. Para ela, aquilo apenas confirmava aquilo que sempre acreditara. Eles eram amigos. Família. Irmãos de coração. Mas Isaac continuava olhando para ela. E seu olhar mudou no instante em que percebeu que também não havia vínculo entre os dois. Por alguns segundos, ele pareceu perdido. Serina não percebeu aquilo. Para ela, Isaac apenas parecia surpreso. Talvez até confuso. E foi justamente por isso que seu primeiro pensamento foi falar com ele. Ela não queria que o amigo interpretasse sua escolha de outra maneira. Não queria feri-lo. O ancião observava tudo com atenção. Então sua expressão mudou.
A escuridão da regressão começou a se desfazer lentamente. A cachoeira desapareceu. O som da água foi ficando distante até desaparecer por completo. Mia sentiu o próprio corpo novamente. A respiração. O peso da mão de Ian entrelaçada à sua. Quando abriu os olhos, encontrou o teto da sala de regressão. Ian também despertou ao seu lado. O ancião estava diante do círculo, mas, dessa vez, sua expressão era diferente. Mais séria. — Chega por hoje. Mia ainda estava tentando recuperar o fôlego. — Não. O ancião a encarou. — Mia… — Eu quero continuar. Ian virou o rosto para ela. — Você tem certeza? Ela assentiu. — Tenho. O ancião permaneceu em silêncio por alguns segundos. — As memórias que estão vindo agora podem ser mais intensas. — Eu sei. Mia apertou a mão de Ian. — Quero saber. O ancião finalmente assentiu. — Então vamos continuar. As runas voltaram a brilhar. As chamas das velas se ergueram. E a escuridão os envolveu novamente.







