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capítulo 2

last update Data de publicação: 2026-09-02 18:15:50

Capítulo 2

O sol batia na janela do meu quarto naquela segunda-feira de um jeito quase impaciente. Meus pais já deviam ter saído para o trabalho havia horas.

Arrumei a cama, tomei banho depressa e segui para o meu próprio expediente.

Trabalho meio período no caixa de uma pequena livraria da cidade — e adoro. Amo livros, principalmente os de drama, romance e moda; é como se

cada capa escondesse uma vida que eu nunca teria coragem de viver.

Hill City é uma cidadezinha do sul do país, dessas em que quase todo mundo conhece todo mundo. Não há muitos pontos turísticos, mas há algo pior

do que a falta de atrações: a sombra da família Kessler pairando sobre cada esquina. Eles comandam a cidade. Todos os temem — inclusive as

autoridades, que parecem existir apenas de nome, já que na prática pertencem a eles. A regra não-escrita que todo mundo em Hill City aprende cedo é

simples: fique longe dos Kessler, e talvez você tenha uma vida tranquila.

Depois da livraria, seguia para o cursinho, e à noite, para o ensaio do coral na igreja. Faço faculdade de Administração — não porque é o que eu amo,

mas porque foi o sonho do meu pai. Diz ele que preciso “sair dessa cidade corrupta” se quiser crescer de verdade. O que eu amo mesmo é desenhar; meu

plano é cursar design de interiores assim que puder.

Voltei para casa já era noite. Encontrei meus pais na cozinha, terminando o jantar.

— Estou morrendo de fome — falei, jogando-me na cadeira.

— Boa noite, macaquinha — disse meu pai, beijando minha testa.

— Boa noite, papai.

— Vá tomar banho, o jantar já está quase pronto — disse minha mãe, sem tirar os olhos da panela.

Obedeci, subindo correndo para o quarto, separando a roupa, entrando debaixo do chuveiro num ritmo automático. Quando voltei à mesa, já estava

posta, meus pais sentados, me esperando.

— Estávamos esperando você — disse meu pai, e nos sentamos para agradecer a refeição antes de comer.

— Emy, vou precisar da sua ajuda no sábado — disse minha mãe, entre uma garfada e outra.

— Ajuda com o quê?

— O herdeiro dos Kessler está voltando para a cidade para assumir os negócios da família. A senhora Kessler vai dar um jantar para comemorar.

— Tudo bem, mamãe, eu ajudo a senhora — respondi, sem entusiasmo algum.

Detesto ir àquela mansão. Aquela gente é podre por dentro, não perde uma chance de humilhar quem trabalha para eles, e a senhora Kessler em

particular parece nutrir um desprezo especial pelos pobres. Mas eu jamais deixaria minha mãe sozinha naquele ninho de cobras.

Terminamos o jantar; meus pais foram descansar, exaustos como sempre. Lavei a louça, arrumei a cozinha e subi para o quarto, onde uma música

baixinha me acompanhou até o sono chegar.

* * *

Sexta-feira: o dia combinado com as meninas para celebrar o aniversário do nosso CDE. Levei a comida; Diana ficou com as bebidas; Célia, claro, os

biquínis. Nos encontramos no parque e seguimos direto para o rio.

O rio fica bem afastado da cidade — um refúgio que quase ninguém conhece. De vez em quando, fugíamos até ali para relaxar longe de tudo.

Chegamos, e o clima de expectativa era quase palpável.

— Cadê os biquínis? — perguntou Diana.

— Preparada? — Célia sorriu, tirando as peças da bolsa.

— O que é isso?! — Diana quase gritou, os olhos arregalados diante do tamanho minúsculo do tecido.

— Biquínis! — respondeu Célia, como se fosse óbvio.

— São bem sensuais — comentei, sem conseguir esconder o riso.

— Meninas, aqui não tem ninguém além de nós — argumentou Célia.

— Nunca mais deixo você comprar biquíni sozinha — resmungou Diana, e eu não aguentei, ri até doer a barriga.

Vestimos aquelas peças minúsculas, arrumamos a comida na margem e fomos para a água — estava um calor de doer. Brincamos como crianças,

saímos para comer, bebemos um pouco e voltamos para o rio.

Foi então que ouvimos o barulho de cascos batendo contra a terra, se aproximando rápido demais. Tentamos correr para fora da água, mas, antes que

eu conseguisse me cobrir, um homem surgiu montado num cavalo, parando bem à minha frente. Branco, cabelos escuros, alto, com um corpo que

denunciava força. Assustei-me tanto que caí sentada na água; as meninas correram para me cobrir com as toalhas.

Ele ficou ali, parado, olhando fixamente para mim — um olhar que gelou algo dentro de mim — e então, sem dizer palavra, deu meia-volta e foi

embora.

— Você está bem?! — perguntaram as duas, quase em uníssono.

— Levei um susto enorme, mas estou bem — respondi, ainda tremendo.

— Que homem estranho — murmurou Célia.

— Verdade, nunca vi ele na cidade. É melhor a gente ir embora, vai que ele volta com mais gente — disse Diana, a preocupação estampada no rosto.

Concordamos sem hesitar. Trocamos de roupa às pressas e voltamos, cada uma para sua casa, em silêncio.

Naquela noite, depois do jantar, deitada no meu quarto, o rosto daquele homem não saía da minha cabeça. Só de lembrar, meu coração se apertava de

um jeito que eu não sabia explicar. Tinha medo dele — um medo sem nome, sem motivo aparente, mas real. Torci para nunca mais cruzar seu caminho.

“Amanhã preciso acordar cedo para ajudar minha mãe na mansão Kessler”, pensei, antes de finalmente adormecer. -

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