Share

capítulo 3

last update publish date: 2026-09-02 18:15:56

Capítulo 3

— Emy, despacha! Se a gente se atrasar, aquela mulher vai surtar — gritou minha mãe do carro, já esperando por mim na garagem.

— Já estou indo! — respondi, correndo com os sapatos ainda na mão.

A mansão Kessler nos recebeu com sua decoração fria e elegante — tons neutros por todos os cantos, uma piscina enorme cortando o jardim ao meio,

a casa principal de dois andares imponentes. Naquele dia, tudo era correria: os empregados praticamente voando de um lado para o outro.

— Aqui está o cardápio que a senhora pediu — disse minha mãe, me mostrando a lista.

Dividimos os pratos entre nós e começamos a trabalhar. Desde pequena acompanho minha mãe para todo lugar; foi assim, ajudando-a, que aprendi a

cozinhar quase tudo que sei.

Horas depois, estávamos quase terminando quando a senhora Eleanor Kessler entrou na cozinha, o vestido champanhe esvoaçante contrastando com a

expressão severa.

— Espero que esteja tudo pronto. Meus convidados já devem estar chegando — disse, sem cumprimentar ninguém.

Alta, loira, cabelos lisos e curtos, magra, talvez uns cinquenta e cinco anos — Eleanor Kessler tinha o tipo de beleza que parecia ter sido esculpida

para intimidar.

— Está tudo pronto, senhora — respondeu minha mãe.

— Vejo que trouxe sua filha. Não quero ela circulando pela casa vestida com esses trapos — disse, e saiu sem esperar resposta.

Fiquei ali, fervendo por dentro. “Trapo é a boca dela”, pensei, engolindo a raiva.

— Não liga, filha — disse minha mãe, beijando minha testa. — Você vai se formar, e não vai precisar viver esse tipo de situação nunca mais.

— Vamos terminar logo pra gente ir embora — falei, tentando esconder o quanto aquilo me incomodava.

Voltamos ao trabalho; os pratos ficaram lindos, cheirosos, dignos de qualquer revista. Estávamos nos preparando para sair quando a senhora Eleanor

reapareceu, o uniforme de garçonete estendido em minha direção.

— Vou precisar que ela fique para servir os convidados — disse à minha mãe, entregando-me a peça e saindo sem esperar resposta, como sempre.

— Mamãe, eu não quero ficar aqui — sussurrei, tentando não parecer desesperada.

— Você sabe que não podemos arrumar problema com essa mulher. Por favor, faz isso por mim — pediu minha mãe, os olhos suplicantes.

— Tudo bem, fico. Por você.

— Vou te esperar terminar.

— Não, mãe, a senhora trabalhou o dia inteiro. Vá para casa descansar, eu fico bem.

— Tudo bem. Qualquer coisa, me liga — ela disse, me abraçando antes de ir.

Vesti o uniforme e segui até a cozinha, onde a governanta me explicou rapidamente como deveria servir os convidados. Entrei na sala de jantar —

repleta de gente rica, arrogante, sorrisos que não chegavam aos olhos. “Odeio essa gente”, pensei, tentando manter a postura.

Enquanto servia as bebidas, meus olhos cruzaram com os de um homem de cabelos pretos e olhar escuro, alto, que me chamou com um simples gesto

de mão. Aproximei-me. Ao redor dele, outros playboys da cidade — o tipo de gente que eu evitava a todo custo. Entreguei as bebidas, ele sorriu de um

jeito estranho, e voltei rapidamente para a cozinha.

O olhar daquele homem me deixou arrepiada, um mau pressentimento que eu não sabia explicar. Evitei ao máximo voltar para a sala, permanecendo

na cozinha — até que senti braços me envolverem por trás. Assustei-me, virei-me de supetão e me deparei com o mesmo homem.

— Calma, garota do rio — ele disse, rindo.

— O senhor deseja alguma coisa? — perguntei, mantendo a voz firme apesar do coração acelerado.

— Você é a garota mais linda que eu já vi — respondeu, e eu não soube o que dizer.

— Que bom te encontrar de novo. Prazer, eu sou…

Não terminou a frase. A senhora Eleanor surgiu na porta, interrompendo.

—Damiam , meu filho, o que está fazendo aqui? — perguntou, a voz mudando completamente de tom.

— Nada, mamãe querida, só vim beber um copo d’água — respondeu ele, sorrindo com uma tranquilidade que me pareceu falsa.

— Vamos, quero te apresentar a todo mundo — disse ela, animada, levando-o dali.

Fiquei paralisada por um segundo. Então era esse o herdeiro dos Kessler. O homem do rio. Ele não tinha esquecido — e agora sabia exatamente onde

me encontrar. Um arrepio gelado desceu pela minha espinha, mas engoli o medo e voltei ao trabalho, contando os minutos até poder ir embora.

Quando finalmente cheguei em casa, estava exausta, o corpo e a mente pesados. Meus pais me esperavam acordados.

— Ainda acordados? — perguntei, surpresa.

— Por que não ligou? Eu teria ido buscar você — disse meu pai, a preocupação visível no rosto.

— Não quis dar trabalho.

— Sabe que não gostamos que ande pela cidade tão tarde — completou minha mãe.

— Está bem, mãe. Vou para o quarto descansar.

— Durma bem, filha — disseram os dois, quase em coro.

Tomei um banho demorado, deitei-me e não demorou nada para o sono me levar embora. -

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Fugindo do Passado   capítulo 20

    Capítulo 20 Emilie Acordei sentindo a luz do sol bater de leve no rosto, e a cabeça latejando como se fosse explodir a qualquer momento. Sentei-me na cama, as costas apoiadas na cabeceira estofada de um colchão enorme e confortável demais para ser meu. Reparei que estava sozinha no quarto — e não fazia a menor ideia de como tinha chegado ali. Notei também que não estava com meu vestido, e levei a mão à boca. “Meu Deus, como eu vim parar aqui? Será que…?” Balancei a cabeça, recusando aquele pensamento. Eu jamais me deitaria com um desconhecido — muito menos depois de tudo que já tinha vivido. Levantei-me em busca da minha roupa, mas não encontrei em lugar nenhum. Parei, a dor de cabeça latejando ainda mais forte. “Eu nunca mais bebo na minha vida”, jurei a mim mesma. Ouvi um barulho na porta, que se abriu revelando exatamente quem eu menos esperava — ou talvez, no fundo, quem eu já suspeitava que seria. — Bom dia — disse o senhor Christian, entrando com al

  • Fugindo do Passado   capítulo 19

    Capítulo 19 Christian Saí correndo daquela mansão. Eu não sou esse tipo de homem — mas perto daquela garota, eu simplesmente não sabia mais como agir. Voltei para minha cobertura e passei o fim de semana inteiro bebendo até não sentir mais nada. Voltei ao trabalho na segunda como se nada tivesse acontecido, mas não posso negar que, em várias noites seguidas, o olhar de puro pavor de Emilie me assombrou antes de eu conseguir dormir. Um mês se passou, e eu não tive coragem de voltar à mansão. Ela sentia nojo de mim — eu sabia disso. Algumas mulheres sentem raiva de mim, outras chegam a me odiar, mas nunca, em toda minha vida, alguém tinha olhado para mim com aquele tipo específico de repulsa. Era sexta-feira. Decidi ir para uma balada, beber, distrair a cabeça, tentar tirar o gosto amargo daquele dia da minha mente. Eu nem sabia direito por que aquela garota insistia em não sair dos meus pensamentos — nunca tinha sequer gostado dela. Liguei para Hamilton, comb

  • Fugindo do Passado   capítulo 18

    Capítulo 18 Emilie Não consegui gritar. Era como se tudo que eu tinha construído naqueles meses estivesse prestes a desmoronar, ali, com aquele homem sobre mim. Ele também vai me destruir, pensei. Ele também é um monstro. Se ele fizer isso comigo, eu juro que não vou aguentar viver esse pesadelo de novo. Não seria capaz. — O que estou fazendo? — ele perguntou para si mesmo, e finalmente se afastou, levantando-se de um salto. Sentei-me na cama, abraçando o próprio corpo, chorando baixinho, com medo até de fazer barulho. Corri para o banheiro e vomitei, limpando a boca com as mãos trêmulas. Ele veio atrás de mim. — Emilie, me perdoa. Eu nunca faria isso de propósito, nunca te obrigaria a nada que você não quisesse. Fui um idiota. Me desculpa — disse, antes de sair do quarto, batendo a porta atrás de si. Levantei-me segurando o vestido junto ao corpo, já que alguns botões tinham se soltado, e caminhei de volta ao meu quarto — graças a Deus, sem com ningué

  • Fugindo do Passado   capítulo 17

    Capítulo 17 Christian Fazia uma semana que eu tinha saído da mansão Dumont, e não conseguia parar de pensar naquela cena no meu escritório. Depois daquele dia, a garota passou a me evitar de todas as formas possíveis. Normalmente, as mulheres se atiram aos meus pés, implorando por um pouco da minha atenção. Ela, não. Eu conheço bem o olhar de desejo de uma mulher sobre mim — e ela nunca me olhou assim. Era como se eu simplesmente não existisse para ela, e isso, de um jeito que eu não sabia explicar, estava me tirando do sério. Passei a semana inteira resistindo à vontade de ir até a mansão no meio da semana — fazer o quê, eu nem sabia dizer. O olhar dela não saía da minha cabeça. Maldita garota. Estava na minha sala, na empresa, quando o celular tocou. Já sabia quem seria: Hamilton, meu amigo de longa data — o maior conquistador que eu já conheci, embora às vezes exagerasse na dose. — E aí, cara, vamos pra alguma das suas boates? Beber um pouco, curtir

  • Fugindo do Passado   capítulo 16

    Capítulo 16 Semanas se passaram, e eu tenho evitado Christian ao máximo. No pouco tempo em que ele ficou na mansão, quase não cruzamos caminhos — achei melhor manter distância, e, graças a Deus, ele também não voltou a me incomodar. Comecei minhas aulas na faculdade, e estou genuinamente feliz. Não vou negar que meus pensamentos voam constantemente para meus pais — a saudade dói de um jeito que não diminui com o tempo. Aquele monstro disse que os tinha matado, mas prefiro acreditar que era mentira, uma ameaça vazia para me manter obediente. Prefiro acreditar que, algum dia, quando finalmente me sentir segura, poderei ir atrás deles. E se, de fato, estiverem mortos, então farei justiça com as próprias mãos, nem que seja a última coisa que eu faça nesta vida. É essa esperança teimosa que segura minhas loágrimas no lugar certo. Conheci dois colegas de turma, Milan e Jenna. São muito legais, dividimos algumas matérias juntos. Milan é loiro, olhos azuis idênticos aos meus, ma

  • Fugindo do Passado   capítulo 15

    Capítulo 15Saí daquele escritório sentindo-me jogada fora como lixo. Quem ele pensava que era? Eu nunca tinha feito nada contra ele, e mesmo assim aquelehomem parecia me odiar de graça, gratuitamente, como se eu carregasse alguma culpa só por existir.Voltei ao meu quarto para me arrumar — hoje conheceria minha universidade, com a senhora Laura me acompanhando. Estava no quarto que dividocom as outras funcionárias quando Natália entrou, um sorriso sarcástico estampado no rosto. Revirei os olhos e a ignorei.— O que foi que você achou, que a senhora Laura ia te defender depois de você me agredir? Fica sabendo que nem ela se atreve a contrariar oChristian. Então toma cuidado — se ele quiser, te joga na rua num piscar de olhos — disse ela, rindo.— Natália, por que você me odeia tanto? Eu nunca fiz nada contra você — falei, cansada daquela hostilidade constante.— Eu odeio garotas do seu tipo. Que se fazem de santinha, encantam todo mundo, mas no fundo não passam de umas fingidas, um

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status