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Emilie Carmody
Um romance Capítulo 1 O sol de domingo entrava pela janela do meu quarto como se tivesse pressa, um facho quente atravessando a cortina fina, quando a voz da minha mãe cortou o silêncio da manhã. — Emy! Vai se atrasar para o culto de hoje! Emy. Assim é que todos me chamam, desde que me entendo por gente. Levantei de um salto, o coração ainda meio adormecido, e corri para o banheiro. — Por que não me acordou mais cedo, mamãe? — gritei por cima do barulho da água. Minha mãe, Maria, apareceu na porta do banheiro com aquele sorriso de sempre, os cabelos pretos já roubados por alguns fios grisalhos, o corpo robusto e as mãos ainda com cheiro de café. Baixinha, forte, bonita à sua maneira simples. Vivíamos numa casinha modesta, na pequena e tranquila Hill City — o tipo de lugar onde todo mundo sabe o nome de todo mundo, e os segredos, quando existem, custam caro. — Ora, Emilie Carmody — ela riu —, você já é uma jovem adulta. Sua mãe não vai viver para sempre. — Não gosto quando você fala essas coisas — respondi, a voz já embargada. — Como eu viveria sem vocês dois? Sou filha única. Meus pais são tudo o que tenho de mais precioso neste mundo — meus melhores amigos, minha base, meu chão. Não sei o que seria de mim sem eles. — Nós te mimamos demais — ela disse, beijando minha testa molhada. — Agora vá se arrumar, que eu vou terminar o café. Me arrumei rápido e desci. Meu pai estava à mesa, o jornal aberto entre os dedos, o cheiro de café fresco pairando na cozinha pequena. — Bom dia, papai lindo — falei, dando um beijo estalado no seu rosto. — Bom dia, princesa do papai — ele respondeu, sem tirar os olhos do jornal, mas com aquele sorriso que só ele tinha para mim. Joshua Carmody. Alto, olhos verdes, cabelos loiros, corpo robusto de quem trabalha duro a vida inteira. Trabalhava nos Correios da cidade; minha mãe, como cozinheira na mansão Kessler. Éramos pobres — isso ninguém em Hill City deixava a gente esquecer — mas éramos felizes, e meus pais se amavam de um jeito que eu só via nos livros que vendia na livraria. — Despachem, estamos atrasados! — a voz da minha mãe ecoou da sala. Tomamos o café-da-manhã correndo, como quase todo domingo, e seguimos para o culto. Fui criada dentro daquela igreja, entre hinos e orações, e ali, entre aquelas paredes simples, sempre senti que estava na presença de Deus. Naquele dia havia uma atividade especial para os jovens; o pastor conduziu o sermão com sua voz cheia e pausada. Quando o culto terminou, meus pais ficaram do lado de fora conversando com os conhecidos de sempre, e eu fui correndo ao encontro das minhas duas melhores amigas: Diana e Célia. Diana, filha do pastor, baixinha, cabelos cacheados, pele escura, o tipo de pessoa que parece ter nascido sabendo o que é certo. Inteligente, doce, com os pés bem fincados no chão. Vivia repetindo, brincando, que “filha de pastor não é neta de Deus” — como se precisasse provar que também era humana. Célia era diferente. Não veio de família de igreja; converteu-se sozinha, já mais velha que nós duas, com uma vida inteira de histórias que nos deixavam de boca aberta. Loira, olhos azuis, alta como uma modelo de revista. Eu era a sonhadora do trio — cada uma com sua personalidade, e talvez fosse exatamente isso que nos tornava inseparáveis. Voltei para casa e fui direto para o quarto, que estava uma bagunça só. — Emilie Scott arrumando o quarto sem eu precisar falar nada… glória a Deus — minha mãe debochou, encostada na porta. — Para, mãe, sabe que eu sempre arrumo, só não tive tempo essa semana. Cursinho, igreja, trabalho… está me matando — Eu sei, minha vida, estou brincando — ela disse, me envolvendo num abraço apertado. — Quer ajuda com o jantar? — perguntei. — Adoraria. Fomos para a cozinha. Amo cozinhar com a minha mãe; ela tem as mãos cheias de talento, e às vezes, quando há algum evento na mansão, eu vou junto ajudá-la. Terminamos o jantar e ainda decidimos fazer um bolo de chocolate — o favorito do meu pai. Sentamos os três à mesa, entre risadas e histórias, como sempre. Mais tarde, já no meu quarto, liguei o telefone para falar com as meninas. Chamada ativada Eu: Alguém aí? Célia: Oiii, gatas! Diana: Presente! Célia: (risos, em áudio) Que rebelde, Diana! Diana: Vocês viram que hoje meu irmão não tirou os olhos da Célia? Eu: Eu também notei. Formam um lindo casal, já shipo os dois. Célia: Parem com isso, gente. Ele é filho de pastor, eu não sou a mulher ideal pra ele. Diana: E por quê? Se os dois se gostam, o que tem de errado nisso? Célia: Vocês sabem que eu não cresci na igreja. Não sou virgem como vocês. Sabem a fama que eu tenho na cidade. Célia cresceu com uma mãe dependente química, e desde cedo teve que cuidar sozinha dos irmãos mais novos. Por necessidade, acabou entrando na prostituição ainda adolescente. Quando a mãe finalmente se converteu e voltou para casa, Célia deixou as ruas para trás e retomou os estudos. Nunca escondeu isso de nós — pelo contrário, falava com uma coragem que eu admirava. Eu: Concordo com a Diana. Você não é a única garota não-virgem da igreja, só que as outras fingem que são. Célia: (mudando de assunto) Está chegando o dia do CDE! Como vamos comemorar? CDE — Célia, Diana e Emilie. O dia em que nos conhecemos e viramos inseparáveis. Eu: Piquenique no rio? Célia: Combinado. Eu cuido dos biquínis. Diana: Cuidado com indecência, hein — (rimos todas) Célia: Pode deixar, pastora. Diana: Estou tão ansiosa pra gente entrar na faculdade juntas. Eu: Graças à igreja, que conseguiu bolsa pra gente. Nossos pais nunca teriam como pagar. Célia: A Emy tem razão. Diana: Parem com isso — a gente estudou muito pra merecer essas bolsas. A igreja apostou em nós porque viu nossa vontade de estudar. Vamos nos formar com honras, ponto final. Eu: Gente, estou morrendo de sono. Vou dormir. Todas: Até amanhã! Desliguei o telefone, apaguei a luz e deitei. Amanhã seria só mais um dia — ou pelo menos era o que eu pensava. -Capítulo 20 Emilie Acordei sentindo a luz do sol bater de leve no rosto, e a cabeça latejando como se fosse explodir a qualquer momento. Sentei-me na cama, as costas apoiadas na cabeceira estofada de um colchão enorme e confortável demais para ser meu. Reparei que estava sozinha no quarto — e não fazia a menor ideia de como tinha chegado ali. Notei também que não estava com meu vestido, e levei a mão à boca. “Meu Deus, como eu vim parar aqui? Será que…?” Balancei a cabeça, recusando aquele pensamento. Eu jamais me deitaria com um desconhecido — muito menos depois de tudo que já tinha vivido. Levantei-me em busca da minha roupa, mas não encontrei em lugar nenhum. Parei, a dor de cabeça latejando ainda mais forte. “Eu nunca mais bebo na minha vida”, jurei a mim mesma. Ouvi um barulho na porta, que se abriu revelando exatamente quem eu menos esperava — ou talvez, no fundo, quem eu já suspeitava que seria. — Bom dia — disse o senhor Christian, entrando com al
Capítulo 19 Christian Saí correndo daquela mansão. Eu não sou esse tipo de homem — mas perto daquela garota, eu simplesmente não sabia mais como agir. Voltei para minha cobertura e passei o fim de semana inteiro bebendo até não sentir mais nada. Voltei ao trabalho na segunda como se nada tivesse acontecido, mas não posso negar que, em várias noites seguidas, o olhar de puro pavor de Emilie me assombrou antes de eu conseguir dormir. Um mês se passou, e eu não tive coragem de voltar à mansão. Ela sentia nojo de mim — eu sabia disso. Algumas mulheres sentem raiva de mim, outras chegam a me odiar, mas nunca, em toda minha vida, alguém tinha olhado para mim com aquele tipo específico de repulsa. Era sexta-feira. Decidi ir para uma balada, beber, distrair a cabeça, tentar tirar o gosto amargo daquele dia da minha mente. Eu nem sabia direito por que aquela garota insistia em não sair dos meus pensamentos — nunca tinha sequer gostado dela. Liguei para Hamilton, comb
Capítulo 18 Emilie Não consegui gritar. Era como se tudo que eu tinha construído naqueles meses estivesse prestes a desmoronar, ali, com aquele homem sobre mim. Ele também vai me destruir, pensei. Ele também é um monstro. Se ele fizer isso comigo, eu juro que não vou aguentar viver esse pesadelo de novo. Não seria capaz. — O que estou fazendo? — ele perguntou para si mesmo, e finalmente se afastou, levantando-se de um salto. Sentei-me na cama, abraçando o próprio corpo, chorando baixinho, com medo até de fazer barulho. Corri para o banheiro e vomitei, limpando a boca com as mãos trêmulas. Ele veio atrás de mim. — Emilie, me perdoa. Eu nunca faria isso de propósito, nunca te obrigaria a nada que você não quisesse. Fui um idiota. Me desculpa — disse, antes de sair do quarto, batendo a porta atrás de si. Levantei-me segurando o vestido junto ao corpo, já que alguns botões tinham se soltado, e caminhei de volta ao meu quarto — graças a Deus, sem com ningué
Capítulo 17 Christian Fazia uma semana que eu tinha saído da mansão Dumont, e não conseguia parar de pensar naquela cena no meu escritório. Depois daquele dia, a garota passou a me evitar de todas as formas possíveis. Normalmente, as mulheres se atiram aos meus pés, implorando por um pouco da minha atenção. Ela, não. Eu conheço bem o olhar de desejo de uma mulher sobre mim — e ela nunca me olhou assim. Era como se eu simplesmente não existisse para ela, e isso, de um jeito que eu não sabia explicar, estava me tirando do sério. Passei a semana inteira resistindo à vontade de ir até a mansão no meio da semana — fazer o quê, eu nem sabia dizer. O olhar dela não saía da minha cabeça. Maldita garota. Estava na minha sala, na empresa, quando o celular tocou. Já sabia quem seria: Hamilton, meu amigo de longa data — o maior conquistador que eu já conheci, embora às vezes exagerasse na dose. — E aí, cara, vamos pra alguma das suas boates? Beber um pouco, curtir
Capítulo 16 Semanas se passaram, e eu tenho evitado Christian ao máximo. No pouco tempo em que ele ficou na mansão, quase não cruzamos caminhos — achei melhor manter distância, e, graças a Deus, ele também não voltou a me incomodar. Comecei minhas aulas na faculdade, e estou genuinamente feliz. Não vou negar que meus pensamentos voam constantemente para meus pais — a saudade dói de um jeito que não diminui com o tempo. Aquele monstro disse que os tinha matado, mas prefiro acreditar que era mentira, uma ameaça vazia para me manter obediente. Prefiro acreditar que, algum dia, quando finalmente me sentir segura, poderei ir atrás deles. E se, de fato, estiverem mortos, então farei justiça com as próprias mãos, nem que seja a última coisa que eu faça nesta vida. É essa esperança teimosa que segura minhas loágrimas no lugar certo. Conheci dois colegas de turma, Milan e Jenna. São muito legais, dividimos algumas matérias juntos. Milan é loiro, olhos azuis idênticos aos meus, ma
Capítulo 15Saí daquele escritório sentindo-me jogada fora como lixo. Quem ele pensava que era? Eu nunca tinha feito nada contra ele, e mesmo assim aquelehomem parecia me odiar de graça, gratuitamente, como se eu carregasse alguma culpa só por existir.Voltei ao meu quarto para me arrumar — hoje conheceria minha universidade, com a senhora Laura me acompanhando. Estava no quarto que dividocom as outras funcionárias quando Natália entrou, um sorriso sarcástico estampado no rosto. Revirei os olhos e a ignorei.— O que foi que você achou, que a senhora Laura ia te defender depois de você me agredir? Fica sabendo que nem ela se atreve a contrariar oChristian. Então toma cuidado — se ele quiser, te joga na rua num piscar de olhos — disse ela, rindo.— Natália, por que você me odeia tanto? Eu nunca fiz nada contra você — falei, cansada daquela hostilidade constante.— Eu odeio garotas do seu tipo. Que se fazem de santinha, encantam todo mundo, mas no fundo não passam de umas fingidas, um







