LOGINCapítulo 5
O verão estava quase no fim; eu sentia o outono se anunciando no ar de Hill City, que naquela época do ano se vestia com suas cores mais bonitas — as folhas caindo, o vento mais fresco pela manhã. Faltava pouco para o meu primeiro semestre na faculdade, e a ansiedade de uma nova etapa começando me acompanhava para todo lugar. Combinamos, eu e as meninas, de sair para fazer compras antes das aulas começarem. Ligação ativada — Onde vocês estão? — perguntei. — Estamos chegando — responderam. Desliguei e fui esperar na feira, movimentada como sempre naquela época do ano. — Até que enfim vocês chegaram — reclamei, um pouco impaciente. — Nossa, Emy, você não tem paciência nenhuma — provocou Célia. — Pois é, paciência é uma virtude, querida — completou Diana, e eu apenas revirei os olhos e comecei a andar. Depois da feira, seguimos para uma loja no shopping — coisas lindas, preços justos, segundo Diana. — Será que o dinheiro que temos vai dar? — perguntei, receosa. — Com certeza, economizamos o verão inteiro — garantiu Célia. Compramos roupas e acessórios, cada uma no seu estilo: eu prefiro tons neutros, Diana ama estampas, Célia gosta dos dois extremos. No caminho, contei a elas sobre a visita de Damian à livraria, e como minha mãe tinha ficado preocupada. — Ela tem razão em se preocupar. Essa família é uma escória, é bom ficar bem longe — disse Diana. — É verdade, eles são capazes de tudo — concordou Célia. Terminamos as compras, almoçamos fora do shopping — não sobrara dinheiro para mais nada — e voltamos, cada uma para sua casa. Naquela noite, depois do jantar, já no meu quarto, recebi uma mensagem. Mensagem Célia: Hoje no bar ouvi dizer que vai chegar um grupo de turistas, vai ter uma festa num barco perto de uma ilha aqui perto. Vão precisar de gente pra servir, são bem ricos. Vocês toparim me ajudar? A grana é boa e eu preciso. Eu: Como vai ser a festa? Célia: Aniversário de uma mulher. Diana: Se for festa de aniversário, eu topo. Eu: Eu também. Célia: Vocês são as melhores amigas do mundo, obrigada. Sábado à noite. Nos encontramos no cais ao meio-dia pra pegar a lancha que leva até o barco. Eu: Está bem. Diana: Combinado, meninas. Mensagem encerrada A semana passou correndo, cada uma presa em seus próprios compromissos — só nos falávamos por mensagem. No sábado de manhã, me arrumei animada para o encontro no cais. Cheguei e não vi sinal de nenhuma das duas. Liguei; a ligação não completava. Estranhei. — Você é a Emilie? — perguntou um rapaz que se aproximou, do nada. — Sim, sou eu. Eu te conheço? — Não. Suas amigas já foram até o barco ajudar na limpeza. Vou te levar até a ilha. — Estranho elas não terem me avisado nada, e o telefone não completar… — pensei alto, hesitante. — Mas tudo bem, vamos. Quando nos aproximamos do iate — enorme, luxuoso — não vi ninguém no convés. “Devem estar lá dentro, arrumando as coisas”, pensei, subindo a bordo. Chamei pelas meninas. Silêncio. Foi então que o vi. Alto, forte, um olhar carregado de algo que gelou meu sangue instantaneamente. Damian Kessler. — O que você está fazendo aqui? — perguntei, a voz já traindo o medo. — Este barco é meu — respondeu, com uma calma que só piorava tudo. — Então estou no lugar errado. Você pode chamar alguém pra me buscar — Você está exatamente no lugar certo. — Onde estão as minhas amigas? — perguntei, o coração disparado. — Mandei elas para bem longe. — O que você fez com elas?! — gritei, raiva e pavor se misturando dentro de mim. — Nada. Só quero um tempo a sós com você. — Por favor, eu quero ir embora — implorei. — Damian. Pra você, é Damian — disse, aproximando-se devagar. Recuei um passo, depois outro, até sentir a mesa às minhas costas. Ele segurou minha cintura e me puxou para perto; eu o empurrei com toda a força que tinha. — O que você está fazendo? Não chega perto ou eu grito — avisei, tentando parecer mais forte do que me sentia. — Pode gritar. Estamos numa ilha privada. Aqui ninguém vai te ouvir. — Por favor, eu só quero ir para casa — chorei, e ele se aproximou mais e me beijou à força. — O que você fez comigo? Não consigo tirar você da cabeça desde que te vi no rio. Estou louco por você. Hoje você vai ser minha — disse, segurando minha cintura, colando meu corpo ao dele. Reagi com tudo o que tinha: um chute certeiro, e me joguei no mar antes que ele pudesse me segurar de novo. * * * Fiquei quinze minutos na água, sem saber quanto tempo aguentaria. Ele gritava da amurada, pedindo que eu voltasse. — Emilie, volta pro barco, vai pegar um resfriado — disse, com aquele sorriso que eu já tinha aprendido a temer. — Prefiro morrer aqui — respondi, o corpo já exausto, os braços pesados. O tempo passava e eu sentia minhas forças se esvaindo. Só pensava na minha mãe. — Emilie, se você voltar, prometo que não toco em você — ele insistiu. — Está falando sério? — perguntei, sem forças para continuar lutando contra a correnteza. — Sim. Pode confiar. Aceitei, contra toda a razão que ainda me restava. Ele lançou a escada e me ajudou a subir. — Vá lá dentro tomar banho e trocar de roupa, ou vai ficar doente — disse, apontando para o interior do iate. Obedeci, exausta demais para discutir. Tomei um banho rápido; minhas roupas ainda secavam do lado de fora. Quando saí, ele estava sentado na cama da suíte, me esperando. — O que você está fazendo aqui? Preciso me trocar, pode sair? — pedi, a voz trêmula. — Assim está perfeita — ele disse, se aproximando. Recuei até a porta do banheiro; ele segurou minha cintura. — O senhor prometeu que não ia me tocar — gaguejei, as lágrimas já descendo. — Não me lembro de nada disso — respondeu, e me beijou à força. Mordi seu lábio com toda a raiva e o medo que tinha dentro de mim, até sentir o gosto de sangue, e corri. Ele me alcançou antes que eu chegasse à porta. — Socorro! Alguém, por favor! — gritei, com toda a força que ainda tinha. — Pode gritar. Ninguém vai te ouvir — repetiu, o sorriso agora completamente desprovido de qualquer humanidade. — Por favor, senhor, não faça isso comigo, eu imploro — supliquei, e foi a última coisa que consegui dizer antes que um tapa me derrubasse. O que aconteceu depois eu prefiro não revisitar em detalhes — nem para mim mesma. Sei que houve mais golpes. Sei que tentei fugir, gritar, lutar, que nada disso foi suficiente. Sei que, em algum momento, meu corpo parou de me obedecer e minha mente se afastou de tudo, como se pudesse fugir para algum lugar onde aquilo não estivesse acontecendo. Quando voltei a mim, o quarto estava vazio, o silêncio pesando sobre mim como uma pedra. O lençol branco estava manchado de sangue. Eu estava sozinha, nua, e nada dentro de mim parecia mais inteiro. Levantei-me como pude, vesti as roupas espalhadas sobre a cama, e saí. Já era noite; o barco se aproximava das docas. Ele estava sentado no convés, bebendo, como se nada tivesse acontecido. Desci correndo, sem olhar para trás, as lágrimas se misturando ao vento gelado da noite. Cheguei em casa. Meus pais estavam à porta, o rosto tomado pela preocupação que só se transforma em pânico quando finalmente me viram. — O que foi que aconteceu?! — meu pai correu até mim, e foi a última coisa que registrei antes de desmaiar em seus braços. * * * Acordei num quarto de hospital. Minha mãe estava sentada ao meu lado, os olhos vermelhos de tanto chorar. — Mamãe? — sussurrei, a voz rouca. — Estou aqui, meu amor. Tudo vai ficar bem — ela disse, segurando minha mão com força. — Cadê o papai? — Foi até a delegacia registrar queixa. Os exames mostraram que você teve relação sexual, Emilie. Achamos… achamos que você foi estuprada. As lágrimas vieram sem que eu pudesse controlar. — Quem fez isso com você? — meu pai entrou no quarto naquele instante, o rosto desfigurado por uma dor que eu nunca tinha visto nele. — Foi aquele homem. O herdeiro dos Kessler — consegui dizer, entre soluços. — Eu vou matar aquele canalha — ele disse, a voz rachada de raiva. — Papai, por favor, tenho medo. Não vai atrás dele — implorei. Ele me abraçou, e ali, os três juntos, choramos como nunca tínhamos chorado antes. -Capítulo 20 Emilie Acordei sentindo a luz do sol bater de leve no rosto, e a cabeça latejando como se fosse explodir a qualquer momento. Sentei-me na cama, as costas apoiadas na cabeceira estofada de um colchão enorme e confortável demais para ser meu. Reparei que estava sozinha no quarto — e não fazia a menor ideia de como tinha chegado ali. Notei também que não estava com meu vestido, e levei a mão à boca. “Meu Deus, como eu vim parar aqui? Será que…?” Balancei a cabeça, recusando aquele pensamento. Eu jamais me deitaria com um desconhecido — muito menos depois de tudo que já tinha vivido. Levantei-me em busca da minha roupa, mas não encontrei em lugar nenhum. Parei, a dor de cabeça latejando ainda mais forte. “Eu nunca mais bebo na minha vida”, jurei a mim mesma. Ouvi um barulho na porta, que se abriu revelando exatamente quem eu menos esperava — ou talvez, no fundo, quem eu já suspeitava que seria. — Bom dia — disse o senhor Christian, entrando com al
Capítulo 19 Christian Saí correndo daquela mansão. Eu não sou esse tipo de homem — mas perto daquela garota, eu simplesmente não sabia mais como agir. Voltei para minha cobertura e passei o fim de semana inteiro bebendo até não sentir mais nada. Voltei ao trabalho na segunda como se nada tivesse acontecido, mas não posso negar que, em várias noites seguidas, o olhar de puro pavor de Emilie me assombrou antes de eu conseguir dormir. Um mês se passou, e eu não tive coragem de voltar à mansão. Ela sentia nojo de mim — eu sabia disso. Algumas mulheres sentem raiva de mim, outras chegam a me odiar, mas nunca, em toda minha vida, alguém tinha olhado para mim com aquele tipo específico de repulsa. Era sexta-feira. Decidi ir para uma balada, beber, distrair a cabeça, tentar tirar o gosto amargo daquele dia da minha mente. Eu nem sabia direito por que aquela garota insistia em não sair dos meus pensamentos — nunca tinha sequer gostado dela. Liguei para Hamilton, comb
Capítulo 18 Emilie Não consegui gritar. Era como se tudo que eu tinha construído naqueles meses estivesse prestes a desmoronar, ali, com aquele homem sobre mim. Ele também vai me destruir, pensei. Ele também é um monstro. Se ele fizer isso comigo, eu juro que não vou aguentar viver esse pesadelo de novo. Não seria capaz. — O que estou fazendo? — ele perguntou para si mesmo, e finalmente se afastou, levantando-se de um salto. Sentei-me na cama, abraçando o próprio corpo, chorando baixinho, com medo até de fazer barulho. Corri para o banheiro e vomitei, limpando a boca com as mãos trêmulas. Ele veio atrás de mim. — Emilie, me perdoa. Eu nunca faria isso de propósito, nunca te obrigaria a nada que você não quisesse. Fui um idiota. Me desculpa — disse, antes de sair do quarto, batendo a porta atrás de si. Levantei-me segurando o vestido junto ao corpo, já que alguns botões tinham se soltado, e caminhei de volta ao meu quarto — graças a Deus, sem com ningué
Capítulo 17 Christian Fazia uma semana que eu tinha saído da mansão Dumont, e não conseguia parar de pensar naquela cena no meu escritório. Depois daquele dia, a garota passou a me evitar de todas as formas possíveis. Normalmente, as mulheres se atiram aos meus pés, implorando por um pouco da minha atenção. Ela, não. Eu conheço bem o olhar de desejo de uma mulher sobre mim — e ela nunca me olhou assim. Era como se eu simplesmente não existisse para ela, e isso, de um jeito que eu não sabia explicar, estava me tirando do sério. Passei a semana inteira resistindo à vontade de ir até a mansão no meio da semana — fazer o quê, eu nem sabia dizer. O olhar dela não saía da minha cabeça. Maldita garota. Estava na minha sala, na empresa, quando o celular tocou. Já sabia quem seria: Hamilton, meu amigo de longa data — o maior conquistador que eu já conheci, embora às vezes exagerasse na dose. — E aí, cara, vamos pra alguma das suas boates? Beber um pouco, curtir
Capítulo 16 Semanas se passaram, e eu tenho evitado Christian ao máximo. No pouco tempo em que ele ficou na mansão, quase não cruzamos caminhos — achei melhor manter distância, e, graças a Deus, ele também não voltou a me incomodar. Comecei minhas aulas na faculdade, e estou genuinamente feliz. Não vou negar que meus pensamentos voam constantemente para meus pais — a saudade dói de um jeito que não diminui com o tempo. Aquele monstro disse que os tinha matado, mas prefiro acreditar que era mentira, uma ameaça vazia para me manter obediente. Prefiro acreditar que, algum dia, quando finalmente me sentir segura, poderei ir atrás deles. E se, de fato, estiverem mortos, então farei justiça com as próprias mãos, nem que seja a última coisa que eu faça nesta vida. É essa esperança teimosa que segura minhas loágrimas no lugar certo. Conheci dois colegas de turma, Milan e Jenna. São muito legais, dividimos algumas matérias juntos. Milan é loiro, olhos azuis idênticos aos meus, ma
Capítulo 15Saí daquele escritório sentindo-me jogada fora como lixo. Quem ele pensava que era? Eu nunca tinha feito nada contra ele, e mesmo assim aquelehomem parecia me odiar de graça, gratuitamente, como se eu carregasse alguma culpa só por existir.Voltei ao meu quarto para me arrumar — hoje conheceria minha universidade, com a senhora Laura me acompanhando. Estava no quarto que dividocom as outras funcionárias quando Natália entrou, um sorriso sarcástico estampado no rosto. Revirei os olhos e a ignorei.— O que foi que você achou, que a senhora Laura ia te defender depois de você me agredir? Fica sabendo que nem ela se atreve a contrariar oChristian. Então toma cuidado — se ele quiser, te joga na rua num piscar de olhos — disse ela, rindo.— Natália, por que você me odeia tanto? Eu nunca fiz nada contra você — falei, cansada daquela hostilidade constante.— Eu odeio garotas do seu tipo. Que se fazem de santinha, encantam todo mundo, mas no fundo não passam de umas fingidas, um







