FAZER LOGINque nada disso foi suficiente. Sei que, em algum momento, meu corpo parou de me obedecer e minha mente se afastou de tudo, como se pudesse fugir
para algum lugar onde aquilo não estivesse acontecendo. Quando voltei a mim, o quarto estava vazio, o silêncio pesando sobre mim como uma pedra. O lençol branco estava manchado de sangue. Eu estava sozinha, nua, e nada dentro de mim parecia mais inteiro. Levantei-me como pude, vesti as roupas espalhadas sobre a cama, e saí. Já era noite; o barco se aproximava das docas. Ele estava sentado no convés, bebendo, como se nada tivesse acontecido. Desci correndo, sem olhar para trás, as lágrimas se misturando ao vento gelado da noite. Cheguei em casa. Meus pais estavam à porta, o rosto tomado pela preocupação que só se transforma em pânico quando finalmente me viram. — O que foi que aconteceu?! — meu pai correu até mim, e foi a última coisa que registrei antes de desmaiar em seus braços. * * * Acordei num quarto de hospital. Minha mãe estava sentada ao meu lado, os olhos vermelhos de tanto chorar. — Mamãe? — sussurrei, a voz rouca. — Estou aqui, meu amor. Tudo vai ficar bem — ela disse, segurando minha mão com força. — Cadê o papai? — Foi até a delegacia registrar queixa. Os exames mostraram que você teve relação sexual, Emilie. Achamos… achamos que você foi estuprada. As lágrimas vieram sem que eu pudesse controlar. — Quem fez isso com você? — meu pai entrou no quarto naquele instante, o rosto desfigurado por uma dor que eu nunca tinha visto nele. — Foi aquele homem. O herdeiro dos Kessler — consegui dizer, entre soluços. — Eu vou matar aquele canalha — ele disse, a voz rachada de raiva. — Papai, por favor, tenho medo. Não vai atrás dele — implorei. Ele me abraçou, e ali, os três juntos, choramos como nunca tínhamos chorado antes. -— Não temos nada para falar com você — gritou minha mãe. — Calma, senhora, eu tenho uma proposta — ele continuou, o tom calmo e cínico ao mesmo tempo. — Não estamos interessados — disse meu pai, a voz tremendo de raiva contida. — Escutem: a reputação da sua filha está arrastada pela lama em toda a cidade. Estou disposto a reparar isso, a limpar o nome dela — se ela se casar comigo. Eu chorava, sentindo minha mãe apertar meus ombros com força, como se pudesse me blindar apenas com as próprias mãos. — Eu nunca vou deixar minha filha se casar com um homem como você. Um estuprador — disse meu pai, cada palavra saindo como uma pedra atirada. — Como você ousa vir até a nossa casa dizer uma coisa dessas? Acha que deixaríamos nossa filha nas suas mãos imundas? — completou minha mãe. — Eu só estou tentando limpar o nome dela — insistiu ele, o sorriso cínico não desaparecendo do rosto nem por um segundo. — Minha filha não precisa de você para nada. Ela tem pai e mãe para cuidar dela — disse meu pai, dando um passo à frente. — Agora saia da nossa casa e fique longe da minha filha — completou minha mãe. — Tudo bem. Vou deixar vocês pensarem com calma — ele disse, e saiu, furioso, levando os capangas atrás de si. — Nunca. Ouviu bem? Só por cima do meu cadáver — gritou meu pai para a porta já fechada. — Estou com medo — sussurrei, chorando. — Papai não vai deixar nada de ruim acontecer com vocês. Se for preciso, a gente vai embora dessa cidade — disse ele, me abraçando com uma força que eu sabia que escondia o mesmo medo que eu sentia. Eu não sabia, naquele momento, que aquela promessa seria posta à prova mais cedo — e de forma muito mais cruel — do que qualquer um de nós poderia imaginar. -Capítulo 10Fazia uma semana que eu tinha fugido da minha cidade. No dia seguinte seguiria para a capital. Não tinha nenhuma notícia dos meus pais, e mal saíado quarto da pousada onde me escondia. O medo era uma sombra constante — não sabia se eles ainda estavam vivos, ou se aquele monstro haviacolocado um fim nas duas únicas pessoas que me restavam neste mundo. Não sabia mais o que seria da minha vida.Saía apenas o essencial: comprar comida, algumas roupas simples. Aquela cidade se parecia muito com a minha, e por vezes eu tinha certeza de queDamian apareceria a qualquer esquina — por isso andava sempre disfarçada, o rosto semiescondido, os passos rápidos e curtos.No momento em que deixei meus pais dentro daquele carro, uma parte de mim ficou ali também. Rezava todos os dias para que estivessem bem,sabendo que tinham arriscado a própria vida por mim. Faria o que minha mãe pedira: iria para o mais longe possível, para onde aquele homem jamaispudesse me alcançar.Comecei a frequ
Capítulo 9 Enquanto elas almoçavam, pensei que aquela seria minha chance de fugir. Mas o medo de saber meus pais nas mãos daquele homem me paralisava por completo. Não podia fazer nada além de observar as pessoas ao redor — famílias inteiras, casais de mãos dadas, garotas rindo entre sacolas de compras. Um dia eu também fui como elas. Cheia de sonhos. Uma garota normal, saindo com as amigas, sem saber que a vida podia ser tão cruel. A garota que caminhava agora por aquele shopping, sentindo um resquício de liberdade, não passava de um corpo vazio — a alma arrancada da forma mais suja possível, restando apenas o sofrimento e a dor como companheiros diários. “Mamãe… que saudade eu tenho de você”, pensei, sentindo o peito apertar. Mas o medo de perder meus pais era maior que qualquer desejo de fuga. Seria obediente. Enquanto aquele homem não me matasse, eu tentaria resistir. Que Deus me ajudasse. Fui até o banheiro do shopping. Precisava de um instante sozinha. Ao
Capítulo 8 Lembranças — Por favor, Damian, não estou me sentindo bem. Estou com muita dor, no corpo inteiro. Me deixa descansar, só hoje, por favor — implorei, abraçando o próprio corpo exausto. — O que você disse? Quem te deu o direito de decidir isso? Quer apanhar, garota estúpida? — perguntou ele, segurando meu braço com força demais. — Não… não é isso, é que… — não me deixou terminar. Segurou meu queixo com força, me obrigando a olhar para ele. “Mais uma noite terrível nas mãos desse monstro”, pensei, sentindo o corpo já tremer de antecipação. — Hoje eu preciso relaxar, e você vai me ajudar. Ficando calada. — Que tipo de homem trata assim a mulher que diz amar? Por que não me mata logo? Eu não aguento mais, você está me matando aos poucos — perguntei, chorando, num fôlego de coragem que eu não sabia de onde tinha vindo. — Cala a boca — foi tudo que ele disse antes de me bater. E não parou por ali. Fim das lembranças * * * Não sei que horas
— Não temos nada para falar com você — gritou minha mãe. — Calma, senhora, eu tenho uma proposta — ele continuou, o tom calmo e cínico ao mesmo tempo. — Não estamos interessados — disse meu pai, a voz tremendo de raiva contida. — Escutem: a reputação da sua filha está arrastada pela lama em toda a cidade. Estou disposto a reparar isso, a limpar o nome dela — se ela se casar comigo. Eu chorava, sentindo minha mãe apertar meus ombros com força, como se pudesse me blindar apenas com as próprias mãos. — Eu nunca vou deixar minha filha se casar com um homem como você. Um estuprador — disse meu pai, cada palavra saindo como uma pedra atirada. — Como você ousa vir até a nossa casa dizer uma coisa dessas? Acha que deixaríamos nossa filha nas suas mãos imundas? — completou minha mãe. — Eu só estou tentando limpar o nome dela — insistiu ele, o sorriso cínico não desaparecendo do rosto nem por um segundo. — Minha filha não precisa de você para nada. Ela tem pai e mã
que nada disso foi suficiente. Sei que, em algum momento, meu corpo parou de me obedecer e minha mente se afastou de tudo, como se pudesse fugir para algum lugar onde aquilo não estivesse acontecendo. Quando voltei a mim, o quarto estava vazio, o silêncio pesando sobre mim como uma pedra. O lençol branco estava manchado de sangue. Eu estava sozinha, nua, e nada dentro de mim parecia mais inteiro. Levantei-me como pude, vesti as roupas espalhadas sobre a cama, e saí. Já era noite; o barco se aproximava das docas. Ele estava sentado no convés, bebendo, como se nada tivesse acontecido. Desci correndo, sem olhar para trás, as lágrimas se misturando ao vento gelado da noite. Cheguei em casa. Meus pais estavam à porta, o rosto tomado pela preocupação que só se transforma em pânico quando finalmente me viram. — O que foi que aconteceu?! — meu pai correu até mim, e foi a última coisa que registrei antes de desmaiar em seus braços. * * * Acordei num quarto de hospital.
Capítulo 5 O verão estava quase no fim; eu sentia o outono se anunciando no ar de Hill City, que naquela época do ano se vestia com suas cores mais bonitas — as folhas caindo, o vento mais fresco pela manhã. Faltava pouco para o meu primeiro semestre na faculdade, e a ansiedade de uma nova etapa começando me acompanhava para todo lugar. Combinamos, eu e as meninas, de sair para fazer compras antes das aulas começarem. Ligação ativada — Onde vocês estão? — perguntei. — Estamos chegando — responderam. Desliguei e fui esperar na feira, movimentada como sempre naquela época do ano. — Até que enfim vocês chegaram — reclamei, um pouco impaciente. — Nossa, Emy, você não tem paciência nenhuma — provocou Célia. — Pois é, paciência é uma virtude, querida — completou Diana, e eu apenas revirei os olhos e comecei a andar. Depois da feira, seguimos para uma loja no shopping — coisas lindas, preços justos, segundo Diana. — Será que o dinheiro que temos vai dar? —







