FAZER LOGINCapítulo 4
Segunda-feira de manhã, a caminho da livraria. Cheguei, fiz a limpeza de sempre e abri as portas. Horas depois, vi Diana e Célia entrando, os rostos animados. — Muito trabalho hoje? — perguntaram. — Poucos clientes — respondi, dando de ombros. — Não te vimos no culto ontem — comentou Diana. — Estava exausta demais. — E como foi o jantar lá na casa dos Kessler? — quis saber Célia. — Sabe quem eu encontrei lá? — perguntei, meio hesitante. — Quem?! — perguntaram quase juntas. — O cara do rio. — O cara do cavalo?! — Célia arregalou os olhos. — Ele mesmo. — O que ele estava fazendo lá? — perguntou Diana, franzindo a testa. — Ele é o herdeiro dos Kessler. Vocês acreditam que ele foi até a cozinha? Quase morri de susto. — Não gostei nada disso — murmurou Diana. — O que ele te disse? — perguntou Célia. — Que eu sou a garota mais linda que ele já viu. — Hmm, não gostei. Toma cuidado com esse cara — insistiu Diana. — Ela tem razão. Essa gente é perigosa, fica longe — reforçou Célia. — Eu sei. Também não fui com a cara dele. Tenho uma sensação estranha em relação a ele — admiti, sentindo um arrepio só de lembrar. — Vamos mudar de assunto, vamos falar de coisa boa — Célia sorriu, puxando uma revista da bolsa. — Saiu uma matéria sobre o meu crush, Christian Dumont. Está um deus nessas fotos. — Deixa eu ver — pedi, curiosa. Ele era, de fato, lindo — o tipo de homem que parece ter saído de um sonho impossível. Suspirei sem conseguir evitar. — É pecado cobiçar o homem dos outros — provocou Diana. — Que outra? Dizem que ele teve uma noiva, mas ela o traiu com o melhor amigo dele. Desde então, ele não quer saber de mulher nenhuma — explicou Célia. — Nunca é visto na companhia de ninguém. Dizem que não fica muito tempo com garota alguma. — Deixa eu ver também — Diana puxou a revista, e não conseguiu esconder o encanto. — Realmente, é um homem formoso. — Formoso?! — Célia e eu perguntamos ao mesmo tempo, explodindo em risadas com a palavra tão fora de moda. — Ele é muito gostoso — insistiu Célia. — De que adianta ser gostoso e lindo se não sabe cuidar de uma mulher? Eu prefiro um homem carinhoso, romântico, fiel, companheiro — respondi, convicta. — Lá vem a sonhadora — Célia revirou os olhos, sorrindo. — A Emy tem razão. Olha aqui, as ex-namoradas dizem que ele é muito frio. A gente não precisa de homem assim — concordou Diana. — Um homem como ele nunca olharia pra uma garota como a gente — completou Célia, e todas rimos, concordando. Foi então que a porta da livraria se abriu. — Vai com calma, cara, não assusta a garota — disse Daniel Foller, entrando ao lado de Damian Kessler — Boa tarde, meninas! — cumprimentaram, sorrindo. — Boa tarde — respondemos, um tanto surpresas. — Em que posso ajudar, senhores? — perguntei, tentando parecer serena. — Estava procurando por você, garota do rio — disse Damian, os olhos fixos nos meus. — Meu nome é Emilie — corrigi, firme. — Tudo bem, Emilie. Gostei muito de você. Vamos marcar um dia para sairmos. — Senhor… — tentei protestar, mas ele não me deixou terminar. — Damian, para você. — Não pretendo sair com homem nenhum por agora — respondi, mantendo a voz o mais controlada possível. — Tudo bem, Emilie. Nos vemos em breve — disse ele, e saiu com os irmãos Foller sem esperar mais nada. — Nossa, que homem desagradável — comentou Célia assim que a porta se fechou. — Verdade, fiquei com medo — admitiu Diana. — É melhor você não andar sozinha pela cidade por uns tempos — sugeriu Célia. — Vocês me acompanham até em casa? — pedi. — Claro! — responderam juntas. Assim que meu turno terminou, seguimos as três para minha casa. Nos despedimos na porta. — Que cara é essa? — perguntou minha mãe, assim que entrei. — O herdeiro dos Kessler apareceu hoje na livraria — contei. — E o que ele queria lá? — a preocupação já transbordando na voz dela. — Me convidou para sair. — Você aceitou?! — perguntou, alarmada. — Claro que não, mãe. — E o que ele fez depois? — Nada, foi embora. — Não sei, filha… essa gente não está acostumada a ouvir “não”, principalmente nesta cidade — disse minha mãe, séria. — Eu sei, mamãe. Também achei estranha a reação dele. Talvez ele não seja como o resto da família, quem sabe ele tenha um pouco de caráter — falei, tentando me convencer daquilo mais do que ela. — Vou falar com a senhora Eleanor. — Por agora não precisa, mãe. Ele só me convidou, eu recusei. Prometo que vou ficar bem longe dele. — Está bem. Agora vamos fazer o jantar, que seu pai deve estar morrendo de fome. — Tudo bem — concordei, e seguimos juntas para a cozinha, o assunto por ora encerrado — mas não esquecido. -Capítulo 10Fazia uma semana que eu tinha fugido da minha cidade. No dia seguinte seguiria para a capital. Não tinha nenhuma notícia dos meus pais, e mal saíado quarto da pousada onde me escondia. O medo era uma sombra constante — não sabia se eles ainda estavam vivos, ou se aquele monstro haviacolocado um fim nas duas únicas pessoas que me restavam neste mundo. Não sabia mais o que seria da minha vida.Saía apenas o essencial: comprar comida, algumas roupas simples. Aquela cidade se parecia muito com a minha, e por vezes eu tinha certeza de queDamian apareceria a qualquer esquina — por isso andava sempre disfarçada, o rosto semiescondido, os passos rápidos e curtos.No momento em que deixei meus pais dentro daquele carro, uma parte de mim ficou ali também. Rezava todos os dias para que estivessem bem,sabendo que tinham arriscado a própria vida por mim. Faria o que minha mãe pedira: iria para o mais longe possível, para onde aquele homem jamaispudesse me alcançar.Comecei a frequ
Capítulo 9 Enquanto elas almoçavam, pensei que aquela seria minha chance de fugir. Mas o medo de saber meus pais nas mãos daquele homem me paralisava por completo. Não podia fazer nada além de observar as pessoas ao redor — famílias inteiras, casais de mãos dadas, garotas rindo entre sacolas de compras. Um dia eu também fui como elas. Cheia de sonhos. Uma garota normal, saindo com as amigas, sem saber que a vida podia ser tão cruel. A garota que caminhava agora por aquele shopping, sentindo um resquício de liberdade, não passava de um corpo vazio — a alma arrancada da forma mais suja possível, restando apenas o sofrimento e a dor como companheiros diários. “Mamãe… que saudade eu tenho de você”, pensei, sentindo o peito apertar. Mas o medo de perder meus pais era maior que qualquer desejo de fuga. Seria obediente. Enquanto aquele homem não me matasse, eu tentaria resistir. Que Deus me ajudasse. Fui até o banheiro do shopping. Precisava de um instante sozinha. Ao
Capítulo 8 Lembranças — Por favor, Damian, não estou me sentindo bem. Estou com muita dor, no corpo inteiro. Me deixa descansar, só hoje, por favor — implorei, abraçando o próprio corpo exausto. — O que você disse? Quem te deu o direito de decidir isso? Quer apanhar, garota estúpida? — perguntou ele, segurando meu braço com força demais. — Não… não é isso, é que… — não me deixou terminar. Segurou meu queixo com força, me obrigando a olhar para ele. “Mais uma noite terrível nas mãos desse monstro”, pensei, sentindo o corpo já tremer de antecipação. — Hoje eu preciso relaxar, e você vai me ajudar. Ficando calada. — Que tipo de homem trata assim a mulher que diz amar? Por que não me mata logo? Eu não aguento mais, você está me matando aos poucos — perguntei, chorando, num fôlego de coragem que eu não sabia de onde tinha vindo. — Cala a boca — foi tudo que ele disse antes de me bater. E não parou por ali. Fim das lembranças * * * Não sei que horas
— Não temos nada para falar com você — gritou minha mãe. — Calma, senhora, eu tenho uma proposta — ele continuou, o tom calmo e cínico ao mesmo tempo. — Não estamos interessados — disse meu pai, a voz tremendo de raiva contida. — Escutem: a reputação da sua filha está arrastada pela lama em toda a cidade. Estou disposto a reparar isso, a limpar o nome dela — se ela se casar comigo. Eu chorava, sentindo minha mãe apertar meus ombros com força, como se pudesse me blindar apenas com as próprias mãos. — Eu nunca vou deixar minha filha se casar com um homem como você. Um estuprador — disse meu pai, cada palavra saindo como uma pedra atirada. — Como você ousa vir até a nossa casa dizer uma coisa dessas? Acha que deixaríamos nossa filha nas suas mãos imundas? — completou minha mãe. — Eu só estou tentando limpar o nome dela — insistiu ele, o sorriso cínico não desaparecendo do rosto nem por um segundo. — Minha filha não precisa de você para nada. Ela tem pai e mã
que nada disso foi suficiente. Sei que, em algum momento, meu corpo parou de me obedecer e minha mente se afastou de tudo, como se pudesse fugir para algum lugar onde aquilo não estivesse acontecendo. Quando voltei a mim, o quarto estava vazio, o silêncio pesando sobre mim como uma pedra. O lençol branco estava manchado de sangue. Eu estava sozinha, nua, e nada dentro de mim parecia mais inteiro. Levantei-me como pude, vesti as roupas espalhadas sobre a cama, e saí. Já era noite; o barco se aproximava das docas. Ele estava sentado no convés, bebendo, como se nada tivesse acontecido. Desci correndo, sem olhar para trás, as lágrimas se misturando ao vento gelado da noite. Cheguei em casa. Meus pais estavam à porta, o rosto tomado pela preocupação que só se transforma em pânico quando finalmente me viram. — O que foi que aconteceu?! — meu pai correu até mim, e foi a última coisa que registrei antes de desmaiar em seus braços. * * * Acordei num quarto de hospital.
Capítulo 5 O verão estava quase no fim; eu sentia o outono se anunciando no ar de Hill City, que naquela época do ano se vestia com suas cores mais bonitas — as folhas caindo, o vento mais fresco pela manhã. Faltava pouco para o meu primeiro semestre na faculdade, e a ansiedade de uma nova etapa começando me acompanhava para todo lugar. Combinamos, eu e as meninas, de sair para fazer compras antes das aulas começarem. Ligação ativada — Onde vocês estão? — perguntei. — Estamos chegando — responderam. Desliguei e fui esperar na feira, movimentada como sempre naquela época do ano. — Até que enfim vocês chegaram — reclamei, um pouco impaciente. — Nossa, Emy, você não tem paciência nenhuma — provocou Célia. — Pois é, paciência é uma virtude, querida — completou Diana, e eu apenas revirei os olhos e comecei a andar. Depois da feira, seguimos para uma loja no shopping — coisas lindas, preços justos, segundo Diana. — Será que o dinheiro que temos vai dar? —







