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Capítulo 2

Author: Nina Nunes
Deixei o celular sobre a mesa de centro e peguei o controle remoto para mudar de canal.

Na televisão, passava um programa de variedades. Alguns famosos riam e faziam brincadeiras no palco, embalados por gargalhadas altas e exageradas da plateia.

Recostei-me no sofá e, de repente, tudo aquilo me pareceu ridículo.

Eu estava sozinha numa casa de duzentos metros quadrados, presa a um casamento que só existia no papel, esperando por um homem que jamais me colocaria em primeiro lugar.

Enquanto isso, ele estava com o primeiro amor.

E nem precisava esconder.

Podia acompanhá-la para onde quisesse, cuidar dela, passar a noite em sua casa, tudo com a maior naturalidade do mundo, como se tivesse pleno direito de fazer aquilo.

Afinal, desde o começo ele havia deixado bem claro:

— Se não fosse por você, a gente não teria chegado a esse ponto.

Não era difícil entender o que ele queria dizer.

Para ele, eu tinha sido a responsável por separar os dois.

Eu havia me colocado entre ele e Paty e destruído o relacionamento deles.

Na versão que Cristiano parecia ter construído para si mesmo, eu tinha me aproveitado da influência da minha família e do processo judicial que ameaçava a empresa dele para praticamente obrigá-lo a se casar comigo.

Mas a verdade não era tão simples.

Naquela época, a empresa do meu pai enfrentava sérios problemas de fluxo de caixa e precisava urgentemente de capital para continuar funcionando.

Ao mesmo tempo, a empresa de Cristiano estava envolvida em uma disputa judicial complicada e precisava dos contatos e da influência da minha família para encontrar uma saída.

Os mais velhos das duas famílias se reuniram para jantar.

Foi naquela mesa que decidiram nosso casamento.

Ninguém perguntou se eu queria me casar com ele.

Também ninguém perguntou se ele queria se casar comigo.

Para nossas famílias, porém, o acordo parecia perfeito.

A família dele forneceria o dinheiro de que a minha precisava.

A minha usaria seus contatos e influência para ajudá-los a resolver o processo.

Cada lado conseguiria exatamente o que queria.

No fim das contas, havia apenas uma pessoa que parecia ter saído perdendo naquela negociação.

Paty.

Ela tinha se tornado a vítima daquele acordo.

Talvez, para Cristiano, eu tivesse ocupado o lugar que sempre deveria ter sido dela.

Talvez ele acreditasse que, por minha causa, Paty tinha deixado de ser sua namorada para se tornar uma mulher que precisava ficar à margem da vida dele.

E talvez fosse justamente por isso que ele se esforçasse tanto para compensá-la.

Tudo o que tinha de cuidado, paciência e consideração, ele reservava para ela.

Para mim, sobrava apenas a frieza.

Na noite do nosso casamento, Cristiano bebeu demais e precisou de ajuda para chegar ao quarto.

Eu o ajudei a tirar o paletó e estava afrouxando sua gravata quando ele agarrou meu pulso com tanta força que me assustei.

— Júlia Silva.

Pronunciou meu nome completo, a voz rouca por causa do álcool.

— Você sabe muito bem por que esse casamento existe. Eu não amo você e nunca vou amar. Então, se tiver um mínimo de bom senso, fique no seu lugar e se contente em ser a senhora Rodrigues. E nem pense que algum dia eu vou tocar em você.

Em seguida, soltou meu pulso e, ainda cambaleando, foi para o quarto de hóspedes.

Desde aquela noite, passamos a dormir separados.

Ele ficava no quarto de hóspedes.

Eu, na suíte principal.

Pensando nisso agora, percebi que, em três anos, Cristiano só tinha entrado no meu quarto duas vezes.

A primeira foi justamente na noite do casamento, para deixar claro o que eu podia ou não esperar daquela relação.

A segunda aconteceu no ano anterior.

Eu estava com trinta e nove graus e meio de febre, tão fraca e tonta que mal conseguia manter os olhos abertos.

Ana, a empregada, ligou para ele.

Cristiano só apareceu duas horas depois.

Parou à porta, olhou para mim por alguns segundos e disse a Ana:

— Leva ela para o hospital.

Depois foi embora outra vez.

Paty tinha um evento importante naquela noite.

E, claro, ele precisava estar lá.

Cristiano não voltou para casa.

Quando acordei às sete da manhã, peguei o celular e conferi a tela.

Nenhuma mensagem.

Depois de me arrumar, desci.

Ana já preparava o café da manhã.

Ao me ver descendo sozinha, abriu a boca, como se quisesse dizer alguma coisa, mas acabou apenas perguntando:

— Senhora, o que gostaria de comer hoje?

— Só uma canja.

Sentei-me à mesa.

Pouco depois, a tela do celular se acendeu.

Era uma mensagem dele.

[Paty bebeu demais ontem. Fiquei na casa dela cuidando dela a noite toda. Tenho uma reunião hoje de manhã, então não vou voltar para casa.]

Li uma vez e coloquei o celular de lado.

Depois levei uma colherada de mingau à boca.

— Ana, compra algumas caixas de papelão para mim nos próximos dias.

Ela interrompeu o que estava fazendo.

— A senhora vai se mudar?

— Vou. Daqui a alguns dias.

Ana abriu a boca outra vez, claramente querendo perguntar alguma coisa.

Mas bastou olhar para mim para desistir.

Ela trabalhava naquela casa havia três anos.

Tinha visto tudo.

Não precisava que eu explicasse nada.

— Está bem, senhora.

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