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Capítulo 3

Author: Nina Nunes
Ana respondeu em voz baixa e voltou para a cozinha.

Terminei o mingau, subi e fui me trocar.

Naquele dia, eu tinha combinado de visitar alguns apartamentos com uma corretora. Antes de sair daquela casa de vez, precisava encontrar um lugar para morar.

Eu não havia pedido nada na divisão de bens, mas isso não significava que estivesse sem dinheiro.

Já tinha algumas economias antes do casamento. Além disso, embora não tivesse trabalhado nos últimos três anos, a família Rodrigues depositava vinte mil reais por mês na minha conta para despesas pessoais.

Como quase nunca gastava tudo, acabei guardando boa parte.

Somando o que já tinha antes com o que economizara ao longo daqueles anos, havia dinheiro de sobra para alugar um bom apartamento e me manter por bastante tempo.

Quanto ao resto...

"Eu resolvo depois."

A corretora era uma jovem de rabo de cavalo que falava tão rápido que mal respirava entre uma frase e outra.

Ela me levou para conhecer um apartamento de dois quartos na zona leste, a uma distância razoável do centro. O condomínio era tranquilo, bem cuidado e tinha uma área comum agradável.

— Senhora Júlia, este apartamento é muito bem iluminado. O proprietário acabou de reformar tudo, e tanto os móveis quanto os eletrodomésticos são novos. O aluguel é de seis mil e quinhentos reais por mês. O que a senhora acha?

Fui até a varanda e observei a vista.

O espaço era amplo e, ao longe, dava para ver um parque.

O apartamento não era grande, mas para uma pessoa sozinha era mais do que suficiente.

E, melhor ainda, ali não havia uma única lembrança de Cristiano.

— Vou ficar com este.

A corretora piscou, surpresa com a rapidez da minha decisão, mas logo abriu um sorriso enorme.

— Perfeito! Vou falar com o proprietário agora mesmo para prepararmos o contrato.

Assinei um contrato de um ano, paguei a caução e o primeiro aluguel.

Quando saí do prédio com as chaves na mão, o sol brilhava forte, aquecendo minha pele.

Parei na calçada e fiquei alguns segundos olhando para elas.

Duas chaves pequenas.

Nada de especial.

Ainda assim, fazia muito tempo que eu não sentia aquela leveza.

À tarde, quando voltei para casa, Ana já havia deixado algumas caixas de papelão na sala.

Eu estava prestes a subir para começar a arrumar o closet quando ouvi a porta da entrada se abrir.

Não precisei me virar.

Por algum motivo, já sabia quem tinha chegado.

No instante seguinte, uma voz familiar soou atrás de mim.

— Olha só... Você está em casa.

Virei-me.

Patrícia estava parada no hall.

Seu olhar caiu sobre as caixas que eu segurava e permaneceu ali por alguns segundos antes de voltar para o meu rosto.

— Está arrumando suas coisas?

Ignorei a pergunta.

— O que você está fazendo aqui?

— Cristiano me trouxe. O contrato do meu apartamento acabou e eu ainda não encontrei outro lugar. Ele disse que eu podia ficar aqui por enquanto. Pelo tempo que eu quisesse.

Assenti.

— Ah.

Minha reação pareceu pegá-la de surpresa.

Por um instante, Patrícia não soube o que dizer.

— Você não se importa?

Ela inclinou a cabeça, me estudando.

— Para falar a verdade, eu até achei que poderia ser um pouco inconveniente. Mas o Cris insistiu para que eu viesse. Ele disse que...

— Se ele pediu para você ficar, fique. — Interrompi antes que terminasse. — Quarto é o que não falta nesta casa.

Patrícia apertou os lábios e caminhou até o sofá.

Sentou-se devagar, sem tirar os olhos de mim.

— Você é mesmo muito generosa. Foi generosa quando entrou para esta família e agora continua sendo, a ponto de me deixar morar aqui.

Olhei para ela.

Dessa vez, quase tive vontade de rir.

Sem responder, virei-me e comecei a subir as escadas.

Atrás de mim, a voz dela ficou mais alta.

— Júlia, eu estou falando com você.

Parei no meio da escada e olhei para trás.

— Eu ouvi. Mas você não veio aqui para conversar comigo. Então não vejo por que a gente deveria perder tempo fingindo que veio. — Ajeitei a caixa nos braços. — Eu ainda tenho muita coisa para arrumar.

O sorriso dela desapareceu.

Patrícia se levantou de repente.

— Você vai embora?

Dessa vez, a surpresa em sua voz era verdadeira.

— E você esperava o quê? — Fiz uma pausa. — Que eu ficasse aqui segurando vela para vocês dois?

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