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Parei na entrada do prédio e me virei para encará-lo.Cristiano estava encharcado.O cabelo grudava na testa, a camisa molhada colava ao corpo e os lábios tinham adquirido um tom levemente arroxeado por causa do frio.Mesmo assim, ele ainda tentava sorrir.Era um sorriso cauteloso, quase sem jeito, como se qualquer movimento em falso pudesse me irritar ainda mais.— Cristiano, afinal, o que você quer de mim?— Quero te convidar para jantar.Ele se apressou em completar:— Só um jantar.Hesitou por um instante.— Depois disso, eu vou embora. Não vou mais ficar aparecendo na sua frente.Fiquei olhando para ele por alguns segundos.— Você vai cumprir o que está prometendo?— Vou.Soltei um suspiro.— Está bem. Só um jantar.O rosto dele se iluminou de imediato.Pela reação, parecia que eu tinha acabado de lhe dar a melhor notícia do mundo.— Tá. O que você quer comer? Tem um lugar aqui perto que...— Tanto faz. Você escolhe.Cristiano acabou escolhendo um restaurante japonês tranquilo ali
Assim que saí da cafeteria, ouvi uma cadeira arrastando atrás de mim.Ele veio atrás.— Júlia!Não olhei para trás. Apenas apressei o passo.Cristiano correu até me alcançar e parou na minha frente, bloqueando a passagem.— Você tem razão. — Ainda estava um pouco sem fôlego. — Eu realmente não sei lidar com o fato de ter te perdido. Mas não é só isso.Parei e encarei-o.— A coisa mais idiota que eu fiz na vida não foi ter me casado com você.Cristiano sustentou meu olhar.— Foi ter você ao meu lado e nunca ter dado valor.Sua voz estava baixa, mas firme.— A Paty foi meu primeiro amor. Durante muito tempo, eu achei que ainda amava ela. Só que, depois de passar três anos com você, finalmente entendi a diferença.Ele puxou o ar.— É de você que eu gosto.Fiquei em silêncio.Cristiano continuou:— Eu gostava de chegar em casa e encontrar você na cozinha. Me acostumei a ver minhas coisas arrumadas por você, a encontrar a luz da sala acesa quando eu voltava tarde...Hesitou antes de complet
Respirei fundo.Com a mão livre, peguei o celular e, bem na frente dele, digitei três números.1-9-0.Assim que Cristiano viu o número na tela, a pressão dos dedos em meu pulso diminuiu. Devagar, ele acabou me soltando.Fechei a porta na cara dele.No instante em que a porta bateu, apoiei as costas na madeira.Meu coração estava disparado.Do lado de fora, não se ouviu nada por um bom tempo.Então veio um suspiro baixo.Pouco depois, ouvi os passos dele se afastando.Fui até a janela, puxei discretamente uma ponta da cortina e olhei para baixo.Cristiano estava parado perto do jardim do prédio, olhando na direção da minha janela.Ficou ali por um bom tempo.Dez minutos. Talvez quinze.Depois tirou um maço de cigarros do bolso, acendeu um e ficou fumando em silêncio.A fumaça se dispersava sob a luz suave da manhã. Visto dali de cima, ele parecia estranhamente sozinho.No fim, apagou o cigarro e foi embora.Caminhava devagar, com os ombros caídos, num estado tão abatido que parecia ter
Fiquei alguns segundos em silêncio, com o celular ainda junto ao ouvido.— Cristiano.Quando finalmente falei, minha voz saiu muito mais calma do que eu esperava.— Você tem noção do quanto é absurdo dizer uma coisa dessas agora?— Tenho.— Na nossa noite de núpcias, você olhou para mim e disse que nunca ia me amar. Disse que eu devia me contentar em ser sua esposa só no papel e que nem esperasse que você encostasse em mim.Ele não respondeu.Continuei:— Durante três anos, você passou todas as datas importantes com a Patrícia. Quando eu estava com quase quarenta graus de febre, você apareceu na porta do quarto, me olhou por alguns segundos e foi embora. Teve uma vez em que eu passei horas preparando um jantar inteiro e fiquei esperando você voltar. Você chegou com ela e simplesmente disse que os dois iam sair para comer.Fiz uma breve pausa.— Você sabe que dia era?Cristiano demorou a responder.— Que dia?— Nosso aniversário de casamento.Do outro lado da linha, ele ficou mudo.Só a
Depois de enviar a mensagem, virei o celular para baixo sobre a mesa de centro e continuei assistindo ao filme.Mas Cristiano passou a me mandar mensagens com cada vez mais frequência.Às vezes, escrevia tarde da noite.Outras, de madrugada.E o conteúdo ficava cada vez mais estranho.[Hoje trabalhei até tarde. Quando cheguei em casa, quase falei "cheguei" por força do hábito. Só que não tinha ninguém lá.][Quando você morava aqui, a luz da sala estava sempre acesa quando eu voltava.][Hoje passei em frente àquela confeitaria e lembrei que você também gostava de doces.]Aguentei aquilo por alguns dias.Até que perdi a paciência.[Cristiano, você é casado. Se quiser conversar, conversa com a sua esposa.]Dessa vez, ele não respondeu.Passou o dia inteiro em silêncio.Na noite seguinte, porém, meu celular começou a vibrar sem parar.[Júlia, eu não sei o que está acontecendo comigo.][Depois que me casei com a Paty, comecei a sentir que tem alguma coisa errada.][Estou percebendo coisas n
Fiquei alguns segundos olhando para o convite.Depois, soltei uma risada.Tinham sido rápidos.Mal fazia duas semanas desde o divórcio, e os convites já estavam prontos.Pelo visto, o casamento vinha sendo preparado havia algum tempo. Só faltava eu, o obstáculo no meio do caminho, finalmente sair de cena.Virei o convite e encontrei uma frase impressa em letras pequenas no verso:"Venha testemunhar o nosso amor e compartilhar a nossa felicidade."Amor.Felicidade.Associadas a Cristiano, aquelas duas palavras soavam quase irônicas.Deixei o convite sobre a mesa de centro e me recostei no sofá."Será que eu deveria ir?"Em teoria, talvez fosse melhor.Se eu não aparecesse, poderiam achar que ainda não tinha superado. Se fosse, mostraria justamente o contrário.Mas, para ser sincera, eu não tinha o menor interesse em assistir ao casamento dos dois.Peguei o celular e mandei uma mensagem para Cristiano.[Recebi o convite. Parabéns.]Dessa vez, a resposta veio quase na mesma hora.[Você va







