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Fui Embora e Meu Marido Entrou em Pânico
Fui Embora e Meu Marido Entrou em Pânico
Author: Nina Nunes

Capítulo 1

Author: Nina Nunes
Sentada no escritório, reli o acordo de divórcio do começo ao fim.

Estava tudo ali, preto no branco, exposto de forma clara e objetiva.

Na divisão de bens, eu não havia pedido absolutamente nada.

A casa já pertencia a ele antes do casamento e continuaria sendo dele. O carro também. Quanto às ações da empresa, nunca foram minhas e eu não fazia questão de reivindicar qualquer parte delas.

Eu sairia dali apenas com as minhas próprias economias.

Peguei a caneta e assinei no fim do documento.

Júlia Silva.

Três anos antes, eu ainda tinha esperança. Mesmo sabendo que nosso casamento havia começado por interesse, acreditava que talvez, com o tempo, conseguíssemos fazer aquilo dar certo.

"Como eu era ingênua."

Guardei o acordo em uma pasta e a deixei sobre a mesa de centro.

Depois, peguei o celular, abri nossa conversa e mandei uma mensagem.

[Volta mais cedo hoje. Quero conversar com você sobre uma coisa.]

Cerca de dois minutos depois, a resposta apareceu na tela.

[Tá.]

Bloqueei o celular e o larguei no sofá.

Fui até a cozinha e me servi um copo d'água.

A cozinha era enorme, equipada com uma geladeira de duas portas, forno embutido e utensílios alemães importados, todos impecavelmente organizados.

Eu, porém, quase nunca usava nada daquilo.

Logo depois do casamento, ainda tentei cozinhar algumas vezes.

Naquela época, gostava da ideia de vê-lo chegar em casa e encontrar uma refeição quente esperando por ele.

Na primeira vez, preparei carne de panela.

Ele provou um pouco e disse que estava boa.

Pouco depois, o celular tocou. Ele atendeu e se levantou.

— A Paty está com um problema. Preciso ir até lá.

E foi embora.

Na segunda vez, preparei frango assado com legumes.

Ele nem voltou para casa.

Na terceira, preparei vários pratos e deixei a mesa cheia.

Comecei a cozinhar às quatro da tarde e só terminei por volta das sete.

Dessa vez, ele voltou.

Só que Paty veio com ele.

Os dois entraram conversando e rindo, à vontade demais para quem acabava de chegar à casa de um homem casado.

Ao notar a mesa cheia de pratos, ele parou por um instante.

— Já combinamos de sair. Vamos jantar fora.

Paty estava logo atrás dele. Inclinou levemente a cabeça, passou os olhos pela mesa e sorriu para mim.

— Nossa, você teve tanto trabalho.

Até hoje, lembrar daquele sorriso ainda me embrulhava o estômago.

Depois daquela noite, nunca mais cozinhei para ele.

Às sete, ele ainda não havia chegado.

Às oito, também não.

Pouco depois das nove, meu celular vibrou.

Peguei o aparelho e li a mensagem.

[Aconteceu uma coisa com a Paty. Vou chegar mais tarde. Pode dormir, não precisa me esperar.]

Fiquei olhando para aquelas palavras por alguns segundos.

"Pode dormir, não precisa me esperar."

Eu lia aquela mesma frase havia três anos.

Era sempre assim.

E quase sempre por causa da Paty.

Com ela, alguma coisa sempre acontecia.

E ele sempre precisava largar tudo para correr até lá.

Se ela ficava resfriada, ele ia fazer companhia.

Se estava de mau humor, ele aparecia para consolá-la.

Se precisava se mudar, ele carregava as caixas.

Até quando resolveu adotar um gato, ele precisou participar.

Uma vez, Paty comentou que estava com vontade de comer um bolo de uma confeitaria do outro lado da cidade.

Ele dirigiu quarenta minutos só para buscar.

Depois levou o bolo até o apartamento dela e ficou lá até ela terminar de comer.

Quando voltou para casa, já passava da uma da manhã.

Naquela noite, ainda perguntei:

— Você jantou?

— Comi na casa da Paty.

Então tomou banho e foi direto para o escritório.

Eu deveria ter entendido naquele dia.

Mas não entendi.

Naquela época, ainda acreditava que, já que estávamos casados, precisávamos dar tempo ao tempo.

"Talvez, com os anos, ele perceba que eu não sou tão ruim assim.

Talvez, se eu me esforçar o bastante, um dia ele finalmente olhe para mim e enxergue este casamento de verdade."

Agora eu sabia o quanto aquilo tinha sido inútil.

Quando alguém não guarda nenhum espaço para você no coração, não importa o quanto você faça.

Nunca vai ser suficiente.

Ninguém passa a amar outra pessoa só porque é bem tratado.

No máximo, se acostuma.

E, depois de algum tempo, começa até a achar que tudo aquilo é natural, como se a sua dedicação não tivesse valor nenhum.

Não respondi à mensagem.

Antes, eu sempre mandava um simples:

[Tá bom.]

Só para mostrar que havia entendido.

Às vezes, ainda acrescentava:

[Se cuida na volta.]

Como se eu precisasse provar o tempo inteiro que era compreensiva, madura e razoável.

Naquela noite, porém, não senti vontade de responder.

Afinal, dali a poucos dias, eu nem receberia mais mensagens dele.

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