INICIAR SESIÓNLívia olhou para o próprio pulso.
— Que marca?
A pergunta de Dante continuava ecoando em sua cabeça. Ele estava diferente. Até alguns segundos antes, parecia apenas um homem poderoso que havia aparecido para reivindicar uma filha que nunca soube que existia.
Agora, porém, seus olhos estavam fixos em seu pulso como se tivesse acabado de descobrir algo assustador.
— Estou perguntando sobre isso.
Dante apontou para uma pequena marca localizada abaixo do pulso esquerdo. Lívia franziu a testa.
— Isso?
— Sim.
Ela olhou novamente. Era uma marca que possuía desde criança. Uma pequena cicatriz em formato de meia-lua, atravessada por três linhas finas. Nunca havia dado importância àquilo. Sua mãe dizia que era apenas uma marca de nascença.
— Eu nasci com ela.
Dante permaneceu imóvel.
— Tem certeza?
— Minha mãe sempre disse isso.
O maxilar dele se contraiu.
— Sua mãe está viva?
A pergunta pegou Lívia de surpresa.
— Não.
Dante baixou os olhos.
— Quando ela morreu?
— Há dez anos.
— E seu pai?
Lívia ficou desconfortável.
— Também morreu.
Dante percebeu a mudança em sua expressão.
— Como?
— Um acidente.
Ele continuou olhando para ela.
— Que tipo de acidente?
Lívia apertou os lábios.
— Por que está fazendo tantas perguntas?
— Porque talvez sua vida esteja em perigo.
Ela soltou uma risada nervosa.
— Minha vida já virou um desastre desde que minha filha nasceu.
Dante não sorriu.
— Você ainda não entendeu.
— Então explique.
Ele se aproximou. Lívia imediatamente colocou uma das mãos sobre Aurora.
— Não chegue mais perto.
Dante parou. Seus olhos encontraram os dela. Por um instante, os dois ficaram em silêncio. Havia algo naquela mulher que o desafiava. Não era apenas coragem. Era uma força que ele não conseguia identificar. E isso o incomodava. Muito.
— Sua mãe alguma vez falou sobre sua família? — perguntou.
— Claro.
— Sobre seus antepassados?
Lívia franziu a testa.
— Não entendo onde quer chegar.
— Pense.
Ela desviou o olhar.
— Minha mãe nunca gostava de falar sobre o passado.
Dante percebeu.
— Por quê?
— Não sei.
— Nunca encontrou documentos antigos? Fotografias? Objetos?
Lívia hesitou. Uma lembrança surgiu em sua mente. Uma caixa. Pequena. De madeira escura. Guardada no fundo do armário de sua mãe. Ela nunca havia conseguido abri-la.
— Existe uma caixa.
Dante ficou atento.
— Onde?
— Na casa onde cresci.
— Você ainda a possui?
— Sim.
— Preciso vê-la.
Lívia imediatamente balançou a cabeça.
— Não.
— Lívia...
— Você aparece depois do nascimento da minha filha, diz que é o pai dela, pessoas armadas invadem minha casa e agora quer vasculhar as coisas da minha mãe?
Dante permaneceu em silêncio. Ela tinha razão.
— Não confio em você.
Ele sustentou o olhar dela.
— Ainda não.
Lívia não esperava aquela resposta.
— O que isso significa?
— Que vai confiar.
— Não conte com isso.
Pela primeira vez, algo parecido com um sorriso surgiu no rosto de Dante. Pequeno. Quase imperceptível.
— Você é difícil.
— E você é arrogante.
— Sou o Alfa Supremo.
— Não me impressiona.
O sorriso desapareceu.
Rafael, que observava tudo de longe, precisou esconder a surpresa. Ninguém falava daquele jeito com Dante. Ninguém.
***
Naquela noite, Lívia colocou Aurora para dormir. A menina estava tranquila. Mas havia algo diferente. Desde que Dante chegara, Aurora parecia inquieta. Como se sentisse a presença dele. Lívia acariciou seus cabelos.
— Eu não sei o que está acontecendo, meu amor.
Aurora abriu os olhos. Dourados. Intensos. Lívia sentiu um arrepio.
— Você sabe quem ele é?
A criança fechou os dedos ao redor da mão da mãe. Então aconteceu. Uma pequena luz dourada surgiu por um instante sob a pele de Aurora. Lívia recuou.
— O que foi isso?
A luz desapareceu. Ela piscou várias vezes. Talvez tivesse imaginado. Talvez estivesse cansada.
Mas, no corredor, Dante havia visto. E ele não estava cansado. Ele sabia exatamente o que tinha visto.
***
Dante entrou em uma sala reservada. Rafael o acompanhou.
— Você reconheceu a marca.
Não era uma pergunta. Dante ficou diante da janela.
— Sim.
— Então é verdade?
— Ainda não.
Rafael abaixou a voz.
— Os Caçadores morreram há mais de vinte anos.
— Oficialmente.
— Você acha que existem sobreviventes?
Dante olhou para ele.
— Acho que alguém fez questão de esconder uma linhagem inteira.
Rafael ficou em silêncio.
— E Lívia?
— Ela não sabe.
— Tem certeza?
— O jeito como reagiu foi verdadeiro.
Rafael passou a mão pelo rosto.
— Então ela pode ser uma descendente sem sequer saber.
Dante voltou os olhos para a janela.
— E isso significa que alguém pode estar procurando por ela.
— Por causa da criança?
— Talvez.
— Ou por causa dela?
Dante não respondeu. Porque aquela era exatamente a pergunta que o preocupava.
***
Na manhã seguinte, Lívia decidiu voltar para casa. Não queria continuar escondida. Não queria viver cercada por homens que não conhecia. E, principalmente, queria recuperar a caixa de sua mãe. Dante tentou impedi-la.
— Você não vai sozinha.
— Não pedi companhia.
— Não é uma negociação.
Lívia virou-se.
— Na minha vida, é.
Dante respirou fundo.
— Você não sabe com quem está lidando.
— E você sabe?
— Sei o suficiente.
— Então me conte.
Ele ficou em silêncio. Lívia se aproximou.
— Você sabe alguma coisa sobre minha mãe?
Dante desviou o olhar. Foi o suficiente para ela perceber.
— Você sabe.
— Tenho suspeitas.
— Que suspeitas?
Dante olhou diretamente para ela.
— Sua família pode não ser quem você pensa.
Lívia sentiu um frio no estômago.
— O que isso significa?
Antes que ele pudesse responder, um barulho veio do lado de fora. Rafael entrou rapidamente.
— Alfa.
Dante virou-se.
— O quê?
— Encontramos um símbolo.
Rafael entregou-lhe uma fotografia. Dante observou. Era o mesmo símbolo da marca no pulso de Lívia. Mas havia algo ainda mais assustador. O símbolo estava gravado em uma pedra antiga encontrada nas proximidades da casa onde Lívia havia crescido. Dante ficou imóvel.
— Quem encontrou isso?
— Nossa equipe.
— E há quanto tempo essa pedra está lá?
— Pelo que descobrimos, há pelo menos cinquenta anos.
Lívia se aproximou.
— O que é isso?
Dante não respondeu imediatamente. Ela tomou a fotografia de sua mão. Ao reconhecer o desenho, seu coração acelerou. Era exatamente igual à marca em seu pulso.
— Minha mãe conhecia esse símbolo.
Dante a encarou.
— Como sabe?
Lívia respirou fundo.
— Porque lembro de uma coisa.
Sua voz ficou baixa.
— Quando eu era criança, minha mãe me proibiu de perguntar sobre ele.
Dante sentiu seu lobo despertar. Então Lívia levantou os olhos.
— E agora eu quero saber por quê.
Dante sustentou seu olhar. Pela primeira vez, não havia dúvida. O passado de Lívia estava ligado ao mundo que ele passara a vida protegendo. E alguém havia mantido esse segredo durante décadas. Mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, um grito ecoou do lado de fora. Depois outro. Dante imediatamente se virou.
— Fique aqui.
— O que aconteceu?
Ele não respondeu. Correu para fora. Lívia ficou parada, segurando Aurora. Então ouviu uma voz desconhecida do lado de fora:
— A descendente dos Caçadores está aqui.
O coração de Lívia parou. Ela olhou para a filha. Depois para a porta. E percebeu que, pela primeira vez, alguém havia pronunciado em voz alta um segredo que ela sequer sabia que existia.
De volta à cidade, Elara acordou durante a madrugada.Sentou-se na cama.Sentia alguém chamando por ela.Não era Aurora.Não era Lyra.Não era Lívia.Era outra coisa.Uma presença.Ela levantou-se e caminhou até a janela.No vidro apareceu lentamente uma marca negra.Elara tocou.Uma voz sussurrou:— Você não deveria ter sobrevivido.Elara recuou.— Quem está aí?A voz respondeu:— Aquele que nasceu antes de vocês.Elara ficou imóvel.— Antes?A marca desapareceu.Então outra frase apareceu no vidro:“A quarta herdeira não é uma criança.”Elara arregalou os olhos.— Então quem é?Nenhuma resposta.Apenas uma última palavra surgiu no vidro.“Procure.”Elara correu até a porta.Mas antes que pudesse sair, Aurora apareceu no corredor.— Elara?Lyra veio logo atrás.— O que aconteceu?Elara olhou para as duas.Seu rosto estava pálido.— Nós não somos as primeiras.Lyra ficou imóvel.— O que você quer dizer?Elara apontou para a janela.A marca negra havia desaparecido.— Existe alguém ant
Três meses haviam se passado desde a abertura do Santuário Original.Pela primeira vez em muitos anos, a cidade dos Caçadores estava em paz.Os muros haviam sido reconstruídos.As antigas diferenças entre lobos e humanos começavam, lentamente, a desaparecer.E, no centro de tudo, três meninas cresciam juntas.Aurora.Lyra.E Elara.Elara.Esse havia sido o nome escolhido pela própria menina.Um nome que, segundo Gabriel, significava algo próximo de luz e mistério.Ela gostava.Talvez porque sua vida inteira tivesse sido cercada pelos dois.Mistério.E escuridão.Agora, porém, ela finalmente tinha uma família.***Lívia observava as três brincando no jardim.Aurora corria atrás de Lyra, enquanto Elara permanecia alguns passos atrás, rindo.Era estranho pensar que, meses antes, nenhuma delas sabia da existência das outras.Aurora crescera acreditando que era filha única.Lyra passara anos acreditando que estava sozinha.E Elara sequer possuía um nome.Agora eram inseparáveis.Dante apro
As meninas se olharam.— Aurora — disse Lyra.— Lyra — respondeu Aurora.A terceira menina respirou fundo.— Eu não quero perder nenhuma de vocês.Lívia se ajoelhou diante delas.— Então não escolham entre vocês.As três olharam para ela.— Escolham umas às outras.Dante percebeu primeiro.— Lívia...Ela se levantou.— A magia quer que elas escolham um lado.Gabriel assentiu.— Porque é assim que a guerra continua.Lívia segurou as mãos das três.— Então elas não vão escolher um lado.Os três símbolos começaram a se unir.Serena recuou.— Não!Uma enorme luz tomou o templo.Lyra gritou.Aurora fechou os olhos.A terceira menina segurou as mãos das irmãs.A energia percorreu o templo.As correntes de Gabriel começaram a desaparecer.A marca da Lua Negra que estava gravada nas paredes começou a rachar.Serena caiu de joelhos.— Vocês não entendem!Lívia respondeu:— Talvez não.Olhou para as três meninas.— Mas entendemos que ninguém deve ser obrigado a escolher entre aqueles que ama.*
A porta se abriu completamente.Do outro lado não havia apenas escuridão.Havia silêncio.Um silêncio tão profundo que parecia engolir até mesmo o som da respiração.Lívia permaneceu parada diante da entrada.A voz de seu pai ainda ecoava em sua mente.“Se você abrir essa porta, a guerra que começou há vinte anos finalmente terminará.”Ela olhou para Aurora.Depois para Lyra.E finalmente para a terceira menina.As três estavam juntas.Pela primeira vez.Depois de tantos anos de separação.— Eu vou entrar — disse Lívia.Dante segurou sua mão.— Então eu vou com você.Lívia olhou para ele.— Pode ser perigoso.— Depois de tudo que enfrentamos, você realmente acha que vou deixar você entrar sozinha?Um pequeno sorriso apareceu no rosto dela.— Não.Dante apertou sua mão.— Nunca.As três meninas atravessaram a porta.E a escuridão as envolveu.***Quando Lívia abriu os olhos, não estava mais na montanha.Estava em um lugar impossível.O céu era prateado.Não havia sol.Nem lua.Ao redor
Do lado de fora, uma voz ecoou.— Helena!Ela fechou os olhos.— Eles chegaram.A voz continuou:— Entregue as crianças e ninguém precisará morrer.Dante respondeu:— Venha buscá-las.Um silêncio.Então uma mulher entrou na caverna.Ela usava um longo manto negro.No pescoço carregava um símbolo de lua.Seus olhos estavam fixos na terceira herdeira.A menina recuou.— Não...A mulher sorriu.— Minha pequena.— Não chega perto de mim.— Depois de tantos anos, ainda tem medo?Lívia se colocou entre as duas.— Quem é você?A mulher olhou para ela.— Você deve ser Lívia.— Como sabe meu nome?— Eu conheci seu pai.Lívia ficou imóvel.— Quem é você?A mulher sorriu.— Meu nome é Serena.Clara deu um passo para trás.— Serena Valen...Dante olhou para Clara.— Você conhece esse nome?Clara respondeu:— Todos acreditavam que ela estava morta.Serena riu.— Todos acreditavam errado.***Lívia não tirava os olhos dela.— O que você quer?Serena respondeu:— Quero recuperar aquilo que pertence
A risada ecoou pela caverna.Lenta.Baixa.Assustadoramente tranquila.A terceira herdeira apertou a mão de Lívia.— É ela.Lívia olhou para a passagem.— Quem?A menina engoliu em seco.— A mulher que me criou.Dante levantou a espada.— Todos para trás.Rafael posicionou-se ao lado dele.Lyra puxou Aurora para perto.Elias permaneceu imóvel.Clara, porém, parecia ter visto um fantasma.— Não...Lívia olhou para a mãe.— Você conhece essa mulher.Clara não respondeu.— Mãe!— Conheço.A voz de Clara saiu quase sem força.— Quem é ela?Clara respirou fundo.— Helena.Todos olharam para a mulher que estava atrás deles.A mesma Helena que os havia recebido na cidade.A mesma mulher que havia dito esperar pelas três herdeiras durante vinte anos.Lívia virou-se lentamente.— Helena?A mulher não respondeu.Apenas fechou os olhos.Quando os abriu novamente, não havia mais medo em seu rosto.Havia determinação.— Eu sinto muito.Dante avançou.— Você nos enganou.Helena recuou.— Eu precisa







