INICIAR SESIÓNNoventa dias. Para Helena, cada um desses noventa dias pareceu um século vivido sob uma névoa de medo e incerteza. O segredo que ela carregava não era mais apenas uma memória febril de uma noite de entrega nos braços de um estranho; ele havia se tornado físico, uma presença silenciosa e constante que reivindicava seu corpo. O martírio de Helena Duarte começava a cada amanhecer, quando o sol invadia seu pequeno quarto no sótão e a náusea a lembrava de que sua vida nunca mais seria a mesma.
Na manhã do casamento de Isabela, a mansão Duarte fervilhava como um formigueiro perturbado. O ar estava saturado com o perfume opressor de milhares de orquídeas brancas e o cheiro metálico de spray de cabelo, polimento de prata e o suor nervoso dos criados. Helena tentava se manter de pé, segurando-se na borda da penteadeira, enquanto Marta terminava de fechar o zíper do vestido lavanda. — Você está muito pálida, meu passarinho — murmurou Marta, a preocupação vincando sua testa. — Suas mãos estão geladas. Não comeu nada hoje, Helena. — Eu não consigo, Marta. O cheiro das flores... parece que está roubando o meu oxigênio — Helena não conseguiu terminar a frase. Uma onda súbita de náusea a atingiu, tão violenta que o mundo girou em um borrão de cores pálidas. Ela se inclinou sobre a pia de porcelana do pequeno banheiro, sentindo o estômago se revirar em espasmos dolorosos. Quando tentou se levantar, o teto pareceu desabar. Sua visão escureceu, os sons da mansão tornaram-se abafados, como se ela estivesse submersa em águas profundas. — Helena! — foi o último grito angustiado que ouviu de Marta antes de o chão desaparecer e a escuridão a levar. O desmaio durou apenas alguns minutos, mas foi o suficiente para o caos se instalar. Quando Helena abriu os olhos, ela não estava mais no conforto precário do sótão, mas deitada na cama de visitas do segundo andar, um quarto usado apenas para hospedar pessoas de alto escalão. O contraste era irônico: ela só recebia o luxo quando estava quebrada. Ao seu redor, a atmosfera era gélida, mais fria que o ar condicionado central da mansão. Beatriz Duarte, sua mãe, estava em pé perto da janela, os braços cruzados sobre o peito, observando o jardim como se procurasse uma forma de apagar o dia. Isabela, já vestida de noiva, com camadas de seda e rendas que custavam uma fortuna, observava a cena com um sorriso de escárnio que beirava o prazer. Otávio Duarte, o patriarca, caminhava de um lado para o outro, as mãos escondidas nas costas, o som de seus sapatos de couro contra o piso de madeira soando como batidas de um martelo em um julgamento. O médico da família, o Dr. Arnaldo, guardava seu estetoscopio na maleta de couro. O silêncio na sala era tão denso que Helena sentia dificuldade para expandir os pulmões. — Ela acordou — anunciou Isabela, a voz carregada de um veneno doce, enquanto dava um passo à frente, ajustando o véu. — Agora, Dr. Arnaldo, por favor, pode repetir para ela o que acabou de nos dizer? Quero ter certeza de que ela ouviu bem. O médico pigarreou, visivelmente desconfortável por estar no meio de um embate familiar tão sórdido. — Helena — começou ele, sem conseguir sustentar o olhar da jovem. — Seus episódios de desmaio e mal-estar não são causados por anemia, estresse ou falta de alimentação, como você sugeriu nas últimas semanas. Os exames rápidos que realizamos agora confirmam o que eu já suspeitava. Você está grávida. Aproximadamente doze semanas. O mundo de Helena desmoronou em um silêncio absoluto dentro de sua mente. Embora o medo estivesse ali há meses, ouvir a confirmação técnica diante de seus carrascos tornou a realidade uma prisão de ferro. — Grávida? — Isabela soltou uma risada estridente, um som desprovido de qualquer empatia. — A sombra da família, a santinha que mal sai do quarto para não ofuscar ninguém, está esperando um bastardo? Justo no dia do meu casamento? Que clichê vulgar, Helena. Você sempre dá um jeito de tentar roubar a atenção, nem que seja com uma desonra desse nível. Otávio Duarte parou de caminhar bruscamente. Ele olhou para Helena com um desprezo tão cortante que ela sentiu como se tivesse sido despida de sua dignidade. — Você é uma decepção — ele sibilou, a voz baixa e perigosa. — Uma mancha no nome desta família que eu levei décadas para polir. Você não é apenas um erro, Helena. Você é um desastre. Beatriz se aproximou da cama a passos lentos. Seu rosto, geralmente impecável, estava vermelho de uma fúria incontrolável. Antes que Helena pudesse proferir uma única palavra de defesa ou um pedido de desculpas, a mão de sua mãe desceu com uma força brutal contra seu rosto. O som do tapa ecoou pelas paredes do quarto como um tiro. A pele de Helena queimou instantaneamente, o impacto jogando sua cabeça para o lado. — Quem foi? — Beatriz gritou, a voz trêmula de ódio puro. — Quem foi o vagabundo que tocou em você? Quem é o pai dessa aberração que você carrega nesse ventre imundo? Helena levou a mão ao rosto, sentindo o latejar da pele e as lágrimas transbordando, quentes e amargas. Em sua mente, a imagem do homem loiro de olhos azuis gélidos brilhou por um segundo. Ela pensou no cheiro de madeira e chuva, na forma como ele a segurou como se ela importasse. Ela não tinha um nome para dar. E, mesmo que tivesse, a ferocidade de seus pais a fazia querer proteger aquele segredo com a própria vida. — Eu não vou dizer — Helena sussurrou, a voz quebrada, mas determinada. — Diga agora! — Otávio rugiu, avançando para a beira da cama, parecendo um gigante prestes a esmagá-la. — Foi algum motorista? Algum funcionário da cozinha que se aproveitou da sua carência? Algum aproveitador que viu o quão desesperada você é por um pingo de afeto e decidiu se divertir às suas custas? — Eu não vou dizer — ela repetiu, fechando os olhos com força para não ver o ódio neles. Otávio respirou fundo, tentando recuperar o controle sobre seus instintos mais violentos. Ele se virou para o médico e para os criados que espiavam pela fresta da porta, curiosos com a ruína da "filha menos favorecida". — Doutor, o senhor será regiamente pago pelo seu silêncio. Se uma palavra sobre essa... condição... sair desta sala, eu farei questão de que sua carreira termine hoje — ameaçou Otávio. Ele então se voltou para os empregados. — Saiam todos. Agora! Quando a sala se esvaziou, o patriarca apontou o dedo para Helena. — Você vai voltar para o sótão. Agora. Marta! — ele gritou, e a babá entrou apressada, com o rosto banhado em lágrimas. — Leve-a para cima e tranque a porta. Ela não sairá de lá até que eu ordene. Ninguém da família Cavalcanti, especialmente o Ricardo, pode saber dessa imundície. Se o noivo descobrir que a futura cunhada é uma meretriz grávida de um anônimo, o contrato de união das nossas empresas corre risco. — Papai, por favor... — Helena tentou implorar, mas ele a cortou com um olhar gélido. — Você não tem direito a pedidos. Você vai ficar trancada até o momento exato do cortejo. Entrará, cumprirá seu papel de dama de honra em silêncio, sorrirá para as fotos e voltará para o buraco de onde saiu. Manteremos esse segredo enterrado até que o casamento esteja assinado e garantido. Depois disso... — ele fez uma pausa cruel — eu decidirei para qual internato ou convento você será mandada para se livrar desse problema. Helena foi arrastada por Marta, que a segurava com força, tentando oferecer um conforto que as palavras não podiam dar. No corredor, Isabela passou por ela, ajustando as luvas de renda. — Tente não vomitar no altar, maninha — zombou a noiva. — Seria uma pena manchar o meu tapete vermelho com as consequências da sua noite de luxúria. De volta ao sótão, o som da chave girando na fechadura soou como o veredito final de sua vida. Helena desabou no chão de madeira, abraçando o próprio ventre com força, como se pudesse proteger a pequena vida lá dentro do ódio que emanava das paredes daquela mansão. A dor no rosto, onde os dedos de Beatriz haviam deixado marcas, não era nada comparada à agonia de saber que ela era um objeto de vergonha, um segredo a ser escondido para que um império pudesse prosperar. Ela estava sozinha. Trancada em um quarto pequeno sob o teto da casa onde nasceu, Helena sentia o peso de um mundo que não a queria. O relógio na parede tiquetaqueava, contando as horas para o início da cerimônia. Ela teria que encarar Ricardo, teria que encarar a sociedade e, acima de tudo, teria que carregar o peso de ser a "grávida do erro". O que Helena não sabia, enquanto chorava silenciosamente entre as sombras do sótão, é que o segredo que ela guardava não pertenceria às sombras por muito mais tempo. O destino estava trazendo o dono daquela noite para dentro de sua casa, e as trancas de Otávio Duarte não seriam suficientes para segurar a tempestade que estava prestes a explodir. Por enquanto, ela era apenas a prisioneira do sótão."As cicatrizes do passado nunca desaparecem por completo... elas apenas esperam o momento certo para sangrar novamente."Você realmente acreditou que a história das famílias Duarte e Cavalcanti havia terminado em calmaria com o final feliz de Eros e Helena? O destino, com sua ironia implacável, tem outros planos guardados na manga.Quinze anos se passaram desde que as alianças reais foram trocadas. Gabriel Cavalcanti cresceu e se tornou um homem determinado, carregando a imponência física e o olhar afiado do pai, misturados à busca incansável por justiça que herdou da mãe. Mas o seu maior e mais perigoso desafio não estará nos tribunais acadêmicos, e sim trancado no seu próprio coração. Ele está perdimentre apaixonado por Martha Duarte, a prima com quem compartilhou a infância e a filha de Isabela, a mulher que no passado tanto humilhou Helena. Presos em um desejo proibido e avassalador que desafia a moral da família, eles terão que decidir se o amor da nova geração é forte o suficien
A capela da Casa Martha estava decorada de forma simples, mas profundamente significativa. Não havia os arranjos colossais de orquídeas importadas que marcaram o primeiro casamento de conveniência de Eros Cavalcanti, nem a lista de convidados composta por acionistas e políticos corruptos que Otávio Duarte fizera questão de ostentar. O perfume que preenchia o ar era o dos girassóis colhidos naquela mesma manhã no jardim de inverno da mansão, misturado ao aroma de lavanda que sempre acompanhara Helena. Cinco meses haviam se passado desde a noite em que Eros se ajoelhara à beira da cama e expulsara os fantasmas da distância entre eles. Cinco meses de madrugadas em claro, de lágrimas compartilhadas e de uma fisioterapia dolorosa e obstinada. As portas da capela se abriram, e um murmúrio emocionado percorreu os poucos e verdadeiros amigos presentes. Helena não entrou em uma cadeira de rodas. Ela caminhava com os próprios pés. Seus passos ainda eram lentos e cuidadosos, a mão esquerda ap
O silêncio do escritório na cobertura da mansão Cavalcanti era quebrado apenas pelo som sutil das folhas de papel sendo assinadas. Eros mantinha a caneta-tinteiro em punho, mas seus olhos não conseguiam se fixar nas cláusulas de governança da nova holding. Seus pensamentos estavam presos no andar de baixo, no quarto onde Helena tentava se reconectar a um mundo que havia continuado a girar sem ela. A rigidez dela ao ver o porta-retratos na cômoda ainda ecoava na mente de Eros como um alerta de tempestade.Eros largou a caneta. O relógio de mesa indicava que passava das dezoito horas. A rotina dos últimos doze meses ditava que, a esta hora, os passos firmes e o perfume suave de lavanda de Clara cruzariam o corredor. Ela vinha quase todas as noites, não apenas como a médica que monitorava o crescimento de Gabriel, mas como a mulher que, aos poucos, preenchera o vazio deixado pela tragédia.Com o peito apertado por uma hesitação rara, Eros pegou o celular. Ele buscou o nome dela e discou.
A subida para o andar superior da mansão foi um trajeto feito de silêncio e da proximidade física que Helena tanto temera e desejara durante os seus anos de isolamento mental. A cadeira de rodas ficara na base da imensa escadaria de jacarandá. Sem dizer uma palavra, Eros se inclinou e a ergueu nos braços. O corpo de Helena, ainda leve e fragilizado pela longa inatividade, encaixou-se contra o peito dele com uma familiaridade dolorosa. Ela pôde sentir o bater firme do coração de Eros através do tecido da camisa, o mesmo ritmo que, de alguma forma, sua mente inconsciente registrara durante as milhares de horas em que ele estivera sentado à beira de sua cama de hospital.Enquanto subiam degrau por degrau, o peso do passado parecia flutuar entre eles. Quatro anos antes, enquanto Helena habitava o limbo do coma, a data de término do contrato nupcial que os unira havia expirado. Juridicamente, o vínculo que Otávio Duarte havia forçado e que Eros aceitara por pura conveniência corporativa nã
O sol da tarde filtrava-se pelas imensas vidraças da mansão Cavalcanti, mas o ambiente não era mais aquele mausoléu de mármore e silêncio que Helena conhecera cinco anos atrás. Havia vida pulsando nos detalhes. Samanta passara os últimos dias numa frenética atividade amorosa, preparando cada centímetro da casa para o retorno da sua verdadeira dona. Tapetes antiderrapantes foram estrategicamente colocados, as arestas dos móveis protegidas e, o mais importante, o jardim de inverno fora transformado num santuário de girassóis e luz. A porta principal abriu-se, e o som das rodas da cadeira sobre o piso polido ecoou como um marco histórico. Eros empurrava Helena com uma delicadeza quase religiosa. Ela ainda estava pálida, os músculos dos braços e pernas ainda se recuperavam da força perdida para o tempo, mas o seu olhar era de uma lucidez cortante. Gabriel corria à frente, saltitando, como se estivesse apresentando a casa a uma convidada de honra. — Bem-vinda a casa, Helena — sussurrou Er
O tempo, para quem espera, não é um rio que flui, mas um gotejamento lento e constante que esculpe a alma. Cinco anos haviam se passado desde que o mundo de Helena Duarte se reduziu às quatro paredes brancas do quarto 402 do Hospital Memorial. Cinco anos desde que o bipe rítmico dos monitores se tornou o metrônomo da vida de Eros Cavalcanti. Eros já não era o homem cujas fotos estampavam as revistas de negócios com um olhar predatório e calculista. O "Falcão" havia passado por uma metamorfose que nem o mais otimista dos seus amigos poderia prever. O terno cinza-chumbo, embora ainda impecável, agora carregava frequentemente manchas de iogurte ou marcas de dedos pequenos e gordinhos. Ele dividia o seu tempo entre o comando da Siderúrgica — que ele fundira à sua holding para salvar os empregos e limpar o nome da família de Helena — e a paternidade solo. Eros tornara-se um pai perfeito. Não o tipo de pai que delega funções a babás, mas o tipo que conhece o sabor preferido do xarope para







