MasukO som das engrenagens da fechadura do sótão ecoou como um disparo de canhão no silêncio do quarto. Helena, encolhida na poltrona velha perto da janela, não se mexeu. Ela observava os carros de luxo chegando à mansão lá embaixo, como besouros negros e brilhantes sob o sol de fim de tarde.
Marta entrou com passos pesados. Seus olhos estavam inchados, denunciando que ela passara a última hora chorando escondida na despensa. Em suas mãos, ela carregava o vestido lavanda, agora passado e impecável, pendurado em um cabide de cetim. — Está na hora, meu passarinho — sussurrou a babá, a voz embargada. — Precisamos transformá-la na dama de honra que seu pai exige. Helena levantou-se mecanicamente. Ela se olhou no espelho de corpo inteiro e sentiu um estranhamento profundo. A moça refletida ali tinha uma beleza que parecia ferida. Helena possuía um rosto angelical, de traços finos e delicados, emoldurado por uma cascata de cabelos castanhos escuros, quase negros, que caíam em ondas sedosas até o meio das costas. Sua pele era clara, de um tom de porcelana que agora parecia translúcido devido à palidez do enjoo. Os olhos escuros, profundos e expressivos, que costumavam brilhar com uma curiosidade tímida, agora carregavam uma sombra de cansaço e segredos. Marta começou o ritual. Com mãos ágeis, ela aplicou camadas de corretivo sobre a bochecha de Helena, escondendo o rastro avermelhado deixado pelo tapa de Beatriz. Penteou os cabelos escuros da jovem, deixando-os semi-presos com uma presilha de pérolas, realçando a curva suave de seu pescoço. O vestido lavanda, embora simples perto do luxo de Isabela, abraçava o corpo de Helena de forma graciosa. O corte império, com a cintura logo abaixo do busto, era providencial: disfarçava a leve mudança em seu ventre que apenas Helena e Marta sabiam existir. — Você está linda — Marta disse, forçando um sorriso enquanto ajustava a alça do vestido. — Uma verdadeira Duarte. Se eles tivessem olhos para ver, saberiam que você é a joia mais rara desta casa. — Eu sou apenas a mancha que eles tentam esconder com maquiagem, Marta — Helena respondeu, a voz desprovida de emoção. Ao sair do sótão, o ar frio do corredor principal a atingiu. Ela precisava atravessar a ala leste para chegar aos jardins. O burburinho dos convidados e o som da orquestra afinando os instrumentos criavam uma cacofonia de ansiedade. Helena caminhava rente à parede, tentando ser o mais invisível possível, quando uma mão a puxou para o recuo escuro entre duas colunas de mármore. — Mas o que... — O grito de Helena foi abafado por uma mão grande que cobriu sua boca. Era Ricardo. O noivo do dia estava impecável em um fraque cinza-chumbo, o cabelo perfeitamente gelificado. Seus olhos, de um tom de castanho claro e frio, brilhavam com uma mistura de embriaguez e malícia. Ricardo era o tipo de homem cuja beleza era óbvia, mas agressiva; ele tinha um porte atlético e um sorriso que sempre parecia um desafio. — Ora, ora... a pequena pecadora está pronta para o show — ele sibilou, soltando a boca dela, mas mantendo-a presa contra o mármore frio. — Soube que o médico da família esteve aqui hoje. Papai Otávio e Dona Beatriz estão furiosos. Qual é o problema, Helena? A santinha engravidou de um ninguém? — Me solte, Ricardo! — Helena tentou empurrá-lo, mas ele era mais forte. — Você vai se casar com a minha irmã em minutos. Tenha um mínimo de dignidade! — Isabela está ocupada sendo a boneca de porcelana que todos esperam. Mas você... — Ricardo se inclinou, o hálito exalando o uísque caro que ele usara para acalmar os nervos. — Você é muito mais interessante agora que sabemos que não é tão pura assim. Quem foi, Helena? Algum motorista? Algum garçom? Ele se aproximou com rapidez, tentando forçar um beijo. Helena sentiu o contato de seus lábios úmidos contra o canto de sua boca e uma onda de repulsa tão violenta a percorreu que ela sentiu as unhas cravarem nos braços dele. — Nunca mais me toque! — Helena sibilou, encontrando força para empurrá-lo com os dois braços contra o peito dele. Ricardo cambaleou para trás, surpreso com a força da rejeição. O rosto dele se transformou, a irritação substituindo a luxúria. — Você vai se arrepender disso, Helena. Você não é nada. É apenas uma barriga cheia de problemas que o seu pai vai mandar para longe assim que a festa acabar. Helena não esperou. Ela deu as costas e correu, os saltos batendo contra o piso até sair para a área aberta do jardim. O sol de fim de tarde banhava as cerejeiras ornamentais em tons de rosa e dourado. A luz era tão brilhante que ela precisou de um momento para ajustar a visão. Ela se posicionou perto do altar de flores, onde os padrinhos já estavam alinhados. Seu coração batia tão forte que ela temia que os convidados pudessem ouvi-lo. Ela olhou para o lado, para o grupo de homens que acompanhavam o noivo, e o mundo simplesmente parou de girar. No centro de tudo, conversando com seu pai, estava um homem que parecia ter saído de uma lenda nórdica. Ele era muito alto, dominando o ambiente com uma postura de autoridade inata. Seus cabelos eram de um loiro gélido, quase cinza, cortados de forma moderna e elegante. A barba rala, perfeitamente aparada, seguia as linhas de um maxilar quadrado e forte, dando-lhe um ar de maturidade e perigo. Mas foram os olhos azul-escuros que fizeram o sangue de Helena congelar. Eram olhos profundos, gélidos como um oceano ártico, que analisavam o ambiente com um desinteresse soberano. Era ele. O homem da biblioteca. O estranho cujo calor ela buscara desesperadamente naquela noite de chuva. Helena sentiu a náusea voltar, mas desta vez não era a gravidez. Era o pavor. Três meses de silêncio e agonia se condensaram em um único segundo de reconhecimento. Ele não era um fantasma. Ele estava ali, em carne e osso, vestindo um terno sob medida que exalava um poder que nenhum Duarte jamais alcançaria. Nesse instante, como se sentisse o peso do olhar de Helena, o homem se virou lentamente. Quando os olhos azuis dele encontraram os escuros de Helena, o tempo colapsou. Não houve surpresa no rosto dele. Apenas uma intensidade predadora, um reconhecimento imediato que pareceu despir Helena de todas as suas defesas. Ele a olhou de cima a baixo, e Helena teve a nítida sensação de que ele podia ver através do tecido lavanda, direto para o segredo que ela carregava sob o coração. Otávio Duarte aproximou-se do homem loiro, tocando seu ombro com uma reverência que Helena nunca vira o pai demonstrar por ninguém. — Helena, vejo que finalmente se juntou a nós — disse Otávio, a voz carregada de uma ameaça velada. — Por favor, tenha modos. Este é o irmão mais velho de Ricardo, que acaba de retornar da Europa para assumir o comando dos negócios da família. O homem deu um passo à frente. O perfume de sândalo, couro e chuva — o mesmo que Helena sentira naquela noite — envolveu seus sentidos como um abraço proibido. — Helena — continuou o pai, os olhos fixos nela — este é Eros Cavalcanti. Eros. O nome ressoou na mente de Helena como um golpe final. Eros Cavalcanti. O herdeiro absoluto, o novo presidente da holding, o homem que todos temiam e respeitavam. E o irmão do homem que ela acabara de repelir no corredor. Eros estendeu a mão para ela, um gesto socialmente esperado, mas carregado de uma tensão elétrica que fez o ar ao redor deles vibrar. Helena hesitou por um segundo, sentindo o olhar atento de seus pais e de Isabela, que já aparecia no topo da escadaria. Quando os dedos de Helena tocaram a mão dele, um choque percorreu todo o seu corpo. A mão de Eros era quente, firme e possessiva. Ele inclinou a cabeça levemente, os olhos azuis queimando os dela com uma promessa que a fez tremer. — É um prazer finalmente conhecê-la formalmente, Senhorita Duarte — a voz dele era profunda, vibrante, exatamente como ela se lembrava dos sussurros em seu ouvido naquela biblioteca escura. — Eu ouvi muito sobre a filha mais nova de Otávio. Mas devo dizer... nenhuma descrição fez justiça à sua beleza. Ou à sua coragem. O olhar dele desceu por um microssegundo para o ventre dela e depois voltou para seus olhos. Ele sabia. Eros Cavalcanti sabia exatamente quem ela era e o que havia acontecido. E, pelo brilho de triunfo em seu azul gélido, ele não tinha a menor intenção de deixar que aquele segredo permanecesse nas sombras. A marcha nupcial começou a tocar. Isabela iniciou sua descida triunfal, atraindo todos os olhares. Mas para Helena, o casamento já tinha acabado. Ela estava grávida de Eros Cavalcanti, o padrinho do casamento de sua irmã, o herdeiro de seus maiores inimigos. Enquanto caminhava mecanicamente para o seu lugar no altar, sentindo o olhar de Eros queimando suas costas, Helena percebeu que o sótão era apenas o começo. A verdadeira tempestade estava ali, em pé no altar, loiro, poderoso e perigoso, pronto para reivindicar o que era seu sob a luz cruel do sol."As cicatrizes do passado nunca desaparecem por completo... elas apenas esperam o momento certo para sangrar novamente."Você realmente acreditou que a história das famílias Duarte e Cavalcanti havia terminado em calmaria com o final feliz de Eros e Helena? O destino, com sua ironia implacável, tem outros planos guardados na manga.Quinze anos se passaram desde que as alianças reais foram trocadas. Gabriel Cavalcanti cresceu e se tornou um homem determinado, carregando a imponência física e o olhar afiado do pai, misturados à busca incansável por justiça que herdou da mãe. Mas o seu maior e mais perigoso desafio não estará nos tribunais acadêmicos, e sim trancado no seu próprio coração. Ele está perdimentre apaixonado por Martha Duarte, a prima com quem compartilhou a infância e a filha de Isabela, a mulher que no passado tanto humilhou Helena. Presos em um desejo proibido e avassalador que desafia a moral da família, eles terão que decidir se o amor da nova geração é forte o suficien
A capela da Casa Martha estava decorada de forma simples, mas profundamente significativa. Não havia os arranjos colossais de orquídeas importadas que marcaram o primeiro casamento de conveniência de Eros Cavalcanti, nem a lista de convidados composta por acionistas e políticos corruptos que Otávio Duarte fizera questão de ostentar. O perfume que preenchia o ar era o dos girassóis colhidos naquela mesma manhã no jardim de inverno da mansão, misturado ao aroma de lavanda que sempre acompanhara Helena. Cinco meses haviam se passado desde a noite em que Eros se ajoelhara à beira da cama e expulsara os fantasmas da distância entre eles. Cinco meses de madrugadas em claro, de lágrimas compartilhadas e de uma fisioterapia dolorosa e obstinada. As portas da capela se abriram, e um murmúrio emocionado percorreu os poucos e verdadeiros amigos presentes. Helena não entrou em uma cadeira de rodas. Ela caminhava com os próprios pés. Seus passos ainda eram lentos e cuidadosos, a mão esquerda ap
O silêncio do escritório na cobertura da mansão Cavalcanti era quebrado apenas pelo som sutil das folhas de papel sendo assinadas. Eros mantinha a caneta-tinteiro em punho, mas seus olhos não conseguiam se fixar nas cláusulas de governança da nova holding. Seus pensamentos estavam presos no andar de baixo, no quarto onde Helena tentava se reconectar a um mundo que havia continuado a girar sem ela. A rigidez dela ao ver o porta-retratos na cômoda ainda ecoava na mente de Eros como um alerta de tempestade.Eros largou a caneta. O relógio de mesa indicava que passava das dezoito horas. A rotina dos últimos doze meses ditava que, a esta hora, os passos firmes e o perfume suave de lavanda de Clara cruzariam o corredor. Ela vinha quase todas as noites, não apenas como a médica que monitorava o crescimento de Gabriel, mas como a mulher que, aos poucos, preenchera o vazio deixado pela tragédia.Com o peito apertado por uma hesitação rara, Eros pegou o celular. Ele buscou o nome dela e discou.
A subida para o andar superior da mansão foi um trajeto feito de silêncio e da proximidade física que Helena tanto temera e desejara durante os seus anos de isolamento mental. A cadeira de rodas ficara na base da imensa escadaria de jacarandá. Sem dizer uma palavra, Eros se inclinou e a ergueu nos braços. O corpo de Helena, ainda leve e fragilizado pela longa inatividade, encaixou-se contra o peito dele com uma familiaridade dolorosa. Ela pôde sentir o bater firme do coração de Eros através do tecido da camisa, o mesmo ritmo que, de alguma forma, sua mente inconsciente registrara durante as milhares de horas em que ele estivera sentado à beira de sua cama de hospital.Enquanto subiam degrau por degrau, o peso do passado parecia flutuar entre eles. Quatro anos antes, enquanto Helena habitava o limbo do coma, a data de término do contrato nupcial que os unira havia expirado. Juridicamente, o vínculo que Otávio Duarte havia forçado e que Eros aceitara por pura conveniência corporativa nã
O sol da tarde filtrava-se pelas imensas vidraças da mansão Cavalcanti, mas o ambiente não era mais aquele mausoléu de mármore e silêncio que Helena conhecera cinco anos atrás. Havia vida pulsando nos detalhes. Samanta passara os últimos dias numa frenética atividade amorosa, preparando cada centímetro da casa para o retorno da sua verdadeira dona. Tapetes antiderrapantes foram estrategicamente colocados, as arestas dos móveis protegidas e, o mais importante, o jardim de inverno fora transformado num santuário de girassóis e luz. A porta principal abriu-se, e o som das rodas da cadeira sobre o piso polido ecoou como um marco histórico. Eros empurrava Helena com uma delicadeza quase religiosa. Ela ainda estava pálida, os músculos dos braços e pernas ainda se recuperavam da força perdida para o tempo, mas o seu olhar era de uma lucidez cortante. Gabriel corria à frente, saltitando, como se estivesse apresentando a casa a uma convidada de honra. — Bem-vinda a casa, Helena — sussurrou Er
O tempo, para quem espera, não é um rio que flui, mas um gotejamento lento e constante que esculpe a alma. Cinco anos haviam se passado desde que o mundo de Helena Duarte se reduziu às quatro paredes brancas do quarto 402 do Hospital Memorial. Cinco anos desde que o bipe rítmico dos monitores se tornou o metrônomo da vida de Eros Cavalcanti. Eros já não era o homem cujas fotos estampavam as revistas de negócios com um olhar predatório e calculista. O "Falcão" havia passado por uma metamorfose que nem o mais otimista dos seus amigos poderia prever. O terno cinza-chumbo, embora ainda impecável, agora carregava frequentemente manchas de iogurte ou marcas de dedos pequenos e gordinhos. Ele dividia o seu tempo entre o comando da Siderúrgica — que ele fundira à sua holding para salvar os empregos e limpar o nome da família de Helena — e a paternidade solo. Eros tornara-se um pai perfeito. Não o tipo de pai que delega funções a babás, mas o tipo que conhece o sabor preferido do xarope para







