LOGINETHAN A mesa de jantar dos Langford estava preparada para oito pessoas, embora apenas cinco lugares fossem ocupados naquela noite. Margaret mantinha o hábito de organizar encontros familiares com uma formalidade que parecia desnecessária para o número de convidados. Taças alinhadas, arranjos baixos de flores, guardanapos dobrados e pratos servidos em etapas transformavam um jantar de domingo numa ocasião que poderia facilmente receber investidores estrangeiros. Richard já estava sentado na cabeceira quando Ethan entrou na sala com Chloe, enquanto Eleanor conversava com Margaret perto da janela. O ambiente parecia mais leve do que nos encontros anteriores, e a diferença apareceu principalmente na forma como Chloe atravessou o cômodo sem qualquer hesitação. Ela já não observava cada detalhe da família como quem tentava identificar desconhecidos que sabiam demais sobre sua vida. Cumprimentou Margaret com um abraço, recebeu um beijo de Eleanor e respondeu a uma provocação de Richard sob
CHLOE A varanda do segundo andar estava iluminada apenas pelas luminárias presas à parede e pela claridade que vinha do quarto através das portas abertas. A noite tinha esfriado depois de um dia quente em Albuquerque, e o jardim parecia ainda maior quando visto daquela altura, quase silencioso depois que os funcionários terminaram as atividades da casa. Duas taças estavam sobre a pequena mesa entre as poltronas, junto com uma garrafa de vinho que nenhum dos dois se preocupou em terminar. Aquele tipo de noite se tornara frequente desde que Chloe voltou para a mansão. Jantavam, conversavam sobre trabalho, subiam juntos e às vezes acabavam na cama. Em outras, ficavam ali até tarde discutindo qualquer assunto que surgisse. O contrato continuava existindo, a data continuava próxima e, pela primeira vez em muitos dias, nenhum dos dois tinha pronunciado qualquer número. Chloe estava com as pernas dobradas sobre a poltrona e uma manta fina cobrindo os joelhos. Ethan permanecia diante dela,
ETHAN O escritório da mansão ficou silencioso depois das nove da manhã, apesar de três telas abertas, uma pilha de documentos sobre a mesa e duas reuniões já concluídas. O trabalho avançava numa velocidade muito menor do que a habitual. Desde a noite anterior, uma frase continuava interrompendo qualquer tentativa de concentração: Chloe o amava antes do acidente. A lembrança voltou inteira para ela, acompanhada pela certeza de que permaneceu na mansão naquela noite justamente por estar apaixonada. Ethan deveria sentir apenas alívio ao receber uma informação que desejaria ouvir meses antes. Em vez disso, a descoberta trouxe uma responsabilidade nova. Seria muito fácil agarrar aquele sentimento antigo e usá-lo como resposta para tudo que ainda permanecia indefinido. Ele conhecia a própria capacidade de transformar informação em argumento. Chloe amava o marido antes de perder a memória. Continuou ao lado dele depois da matéria, engravidou, viveu meses de intimidade e fez planos que agor
CHLOE A mala continuava guardada na parte inferior do closet, com a alça voltada para fora e a pequena marca lateral visível sempre que Chloe abria aquela porta. Desde o fragmento recuperado alguns dias antes, ela evitava mexer no objeto. Sabia que havia outra parte daquela noite escondida em algum lugar da memória, embora qualquer tentativa consciente de forçar a continuação terminasse apenas com dor de cabeça e irritação. O que conseguira recuperar já era suficiente para saber que tinha fechado a mala, pensado seriamente em sair da mansão e ouvido Ethan dizer que a decisão era dela. Ainda faltava entender o que aconteceu durante a hora seguinte e o motivo que a fez permanecer. Naquela manhã, a mala ficou onde estava. Chloe se arrumou para a HelioGrid, tomou café com Ethan e saiu pouco depois das oito. A conversa sobre o aditivo sugerido pelo advogado continuava presente, embora nenhum dos dois tivesse voltado ao assunto. Ele recebeu a possibilidade perfeita de ampliar o contrato p
ETHAN A ligação do advogado chegou pouco depois das dez da manhã, quando a casa já tinha retomado o silêncio habitual dos dias úteis. Chloe estava na HelioGrid desde cedo, e a equipe doméstica circulava apenas pela parte inferior da mansão, deixando o escritório isolado do restante da propriedade. O assunto anunciado pela secretária jurídica parecia simples: Henrique precisava organizar as providências ligadas ao encerramento do período previsto no contrato de casamento. A conversa deveria durar poucos minutos. Ainda assim, quando o advogado mencionou que havia alternativas caso os dois preferissem adiar qualquer decisão definitiva, Ethan fechou o documento que analisava e passou a prestar atenção em cada palavra. — Existem algumas possibilidades que eu queria apresentar antes de preparar a documentação final. Henrique falava através do viva-voz, com a objetividade de quem enxergava o casamento como mais um instrumento jurídico. — A primeira é simplesmente deixar o período contratua
CHLOE O número trinta e dois apareceu na cabeça de Chloe antes mesmo que o despertador tocasse. Ela abriu os olhos ainda deitada sobre o peito de Ethan, sentindo uma das mãos dele repousada em sua cintura e a respiração lenta perto de seus cabelos. Durante alguns segundos, permaneceu imóvel, aproveitando o calor do corpo ao lado e a tranquilidade daquela manhã, até se lembrar de que trinta e dois dias os separavam do fim do período previsto no contrato. A informação entrou no quarto sem qualquer utilidade e alterou imediatamente a sensação de conforto. Chloe fechou os olhos outra vez, irritada consigo mesma. Na noite anterior, tinha decidido dormir ali, transado com Ethan e adormecido em seus braços. Nenhuma dessas escolhas precisava servir como resposta sobre o mês seguinte, embora seu cérebro começasse a transformar cada momento numa contagem regressiva. Ethan se mexeu alguns minutos depois e passou a mão pelas costas dela antes de abrir os olhos. Chloe percebeu quando ele despert







