LOGINA ressaca da manhã seguinte a atingiu como um soco no estômago. Para piorar, o banho frio e o café forte só aumentaram o enjoo, sem falar na dor insistente no pescoço, resultado de ter adormecido no chão. Ainda assim, arrastou-se para fora de casa. Não estava em boas condições, mas aquele era seu primeiro dia de estágio, e faltar não era uma opção.
O televisor ligado na sala chiava baixo, preenchendo o silêncio.
— …e seguem as investigações envolvendo uma das mais antigas e tradicionais empresas do setor cafeeiro no país. A companhia, fundada ainda nos anos 1800…
Olívia fez uma careta, apoiando-se na pia.
— Devem ser da época da escravidão… — murmurou, passando a mão no rosto, enjoada. — Que horror.
A voz do locutor continuava, mas ela já não prestava atenção. Desligou o televisor com um movimento seco e, então, deixou a casa, retomando sua longa rotina de transporte entre ônibus, trem e metrô.
— Aguente firme — repetia para si mesma enquanto se maquiava dentro do vagão, tentando devolver ao rosto um mínimo de dignidade. A sorte, rara nos últimos dias, sorriu-lhe ao menos com um lugar para sentar no metrô lotado.
A voz eletrônica anunciou a estação Sé, arrancando-a dos próprios pensamentos. Espremeu-se entre as pessoas aglomeradas diante da porta e correu para a avenida assim que ela se abriu. Inspirou fundo, soltando o ar preso nos pulmões. Um sorriso involuntário surgiu; por um breve instante, o caos da própria vida pareceu distante.
Entrou no edifício e, enquanto observava os números subirem no visor do elevador, ajeitou os cabelos. As portas se abriram e o escritório revelou-se à sua frente. Caminhou entre as mesas, procurando alguém disponível, até que seu olhar encontrou outro que lhe devolveu um sorriso educado.
— Você deve ser a nova estagiária — disse o homem, conferindo algo na agenda antes de encará-la novamente. — Espero que esteja animada. Você vai a campo hoje. Vou te passar o endereço.
— Desculpe…? — Olívia murmurou, surpresa.
Piscou algumas vezes enquanto ele explicava a situação. As palavras não se fixavam; só conseguia pensar que todos os colegas haviam começado com trabalho de escritório — tedioso, porém seguro. Ela, não. Lidaria com crimes logo no primeiro dia. Quando leu o nome do promotor na pasta que ele lhe entregou, teve certeza de que podia, sim, piorar.
Christophe Conte, apelidado de Carrasco. A fama o precedia.
O choque foi tamanho que nem percebeu que o endereço indicado era a própria faculdade onde estudava.
— Tomara que o corpo não esteja lá, tomara que o corpo não esteja lá — repetia como um mantra enquanto se dirigia ao local.
Para seu alívio, o medo era infundado. Tratava-se apenas da cena do crime, surpreendentemente limpa. Apressou-se ao vê-lo e apresentou-se, exibindo as credenciais com mãos trêmulas. Ficou boquiaberta ao ser ignorada.
— Só não me atrapalhe — disse ele, sem sequer olhá-la, enquanto comparava as fotos da cena ao ambiente.
Olívia permaneceu em silêncio. Seguiu-o, fazendo anotações de tudo o que ele mencionava, aproveitando para ler com mais atenção o material do caso. Com o tempo, relaxou um pouco e acabou deixando escapar uma pergunta impensada — sequer imaginou que ele ouviria.
— Por que estamos na cena do crime se faz meses que aconteceu? — resmungou.
Ele ouviu. Virou-se de imediato, fitando-a como se ela tivesse cometido uma atrocidade.
— Você é burra? — perguntou, visivelmente irritado. — Como promotoria, você responde pela vítima. Precisa saber pelo que ela passou.
As palavras arderam. A garganta fechou, o rosto queimou de vergonha. Olívia segurou o choro e permaneceu calada até o fim. Não houve pedido de desculpas. Apenas foi dispensada, com o aviso do horário em que deveria estar no escritório nos dias seguintes.
O retorno ao trabalho foi ainda pior do que o primeiro dia de estágio. Os olhares eram indiscretos. Todos sabiam o quanto ela havia lutado por aquele cargo; sabiam também da humilhação. Murmúrios surgiam em risos abafados e cessavam quando ela passava.
Sentiu-se sozinha.
Quando não aguentou mais, refugiou-se na escadaria de emergência, jornal e correspondência no colo. As mãos tremiam enquanto bebia o resto da vodca escondida no copo térmico. Enfiou uma goma de mascar na boca, temendo ser descoberta. Abriu novamente o jornal, procurando um apartamento com depósito acessível, mas não achou nada. Abriu a primeira carta, já esperando mais problemas, porém, para a sua surpresa, viu a logo de um escritório de advocacia, abriu o documento e seus olhos se arregalaram.
Era uma notificação de herança.
Leu duas vezes, incrédula. Criada por uma mãe solteira, sem parentes por perto, nunca ouvira falar da família do pai e, agora, uma avó paterna — desconhecida — deixava-lhe uma casa.
Imediatamente ligou para a mãe do telefone público.
— Um advogado entrou em contato comigo — murmurou assim que a ligação foi atendida. — Minha avó faleceu e deixou uma casa. Nem sei como me encontraram.
— Merda! — a mãe xingou, o sotaque escapando.
O silêncio que se seguiu fez Olívia revisitar a infância: as dificuldades, o esforço incansável da mãe, a falta constante de dinheiro.
— A senhora me deixou acreditar que fosse viúva — sussurrou, com rancor contido.
— Eu estava de luto quando você nasceu — explicou a mãe, a voz triste. — Aquela mulher queria que eu abortasse. E agora deixa uma casa?
— Talvez tenha se arrependido — disse Olívia, após um tempo.
— Duvido — respondeu a mãe.
— Onde está meu pai?
— Não sei. De verdade.
Encerraram a conversa em silêncio. Olívia voltou ao trabalho e, mais tarde, à casa escura. Ainda havia tempo antes da aula, então sentou-se na sala, à meia-luz, e começou a estudar o caso. Resolveria seus problemas começando pelo que mais feria seu ego.
Provaria que o promotor grosseiro estava errado.
A defesa levantara uma dúvida razoável. Quanto mais lia, mais lhe parecia que o namorado tinha motivos. Ainda assim, algo não se encaixava. Era perfeito demais. Forjado.
Os rumores antigos voltaram à mente. Naquela semana de seminários, bebera mais do que devia. Coragem líquida demais. Recostou a cabeça na mesa e adormeceu.
Acordou no chão, com o pescoço rígido. Tentou alongar-se e percebeu uma folha grudada ao rosto. Leu as letras tortas e seus olhos se arregalaram. Era um depoimento rabiscado, ignorado pela polícia. Falava de um triângulo amoroso.
— Era isso — murmurou.
Na faculdade, procurou alguém que pudesse confirmar os rumores.
— Dona turista — brincou Luiza ao vê-la. — Achou tempo para aparecer?
Olívia riu.
— Você lembra daquele boato das duas garotas de Biomedicina?
Luiza pensou.
— Ouvi dizer que ele não ficou com nenhuma.
— Acha que isso tem a ver com o crime?
— Talvez — respondeu. — Diziam que ele ainda era investigado.
A conversa terminou com a chegada do professor. Mais tarde, Olívia recebeu algumas fotos do simpósio do ano anterior, onde Luiza havia marcado o rosto dos envolvidos no triângulo amoroso. Ela sentiu seu corpo estremecer. Era ela. A mesma garota que havia visto na noite anterior.
Quase caiu da cadeira ao erguer os olhos e vê-la no corredor, coberta por uma aura de rancor, a mão queimada estendida.
— Tenho que parar de beber — murmurou.
Mas a visão não cessou.
Decidiu, então, segui-la até o prédio de Biomedicina e viu o ódio direcionado a outra moça, que se encolhia como se sentisse a presença.
Os nomes colados nas mesas chamaram sua atenção. Lado a lado. Eram amigas.
E Olívia soube que estava apenas no começo.
Mattia acompanhava Christophe como seu fiel braço direito, mesmo que para isso tivesse tido que arranjar briga. Naquele dia enevoado, o novo Dom havia se encontrado com um dos líderes do interior, e logo se encontraria com mais um. Montanha – que facilmente estava se tornando o capo – os seguia com olhos atentos.Chegaram ao casarão antigo, mas extremamente bem conservado e o homem os aguardava no jardim coberto, rodeado por gardênias, rosas, lírios e outras flores que eles não conheciam.Dom Filippo tinha os olhos de alguém que já havia visto muita coisa em seus quase setenta anos de idade.Fez um gesto para que se sentassem.O vinho foi servido, nenhum deles tocou em suas t
O dia amanheceu com os primeiros sinais de que a La Niñha daquele ano seria intensa. Notícias sobre geadas chegavam de todos os cantos e muitos reclamavam do prejuízo nas plantações de café.Christophe havia aceitado seu destino, do qual não poderia se livrar, mas não permitiria-se ser arrastado à inércia como numa avalanche.Sua primeira ação foi começar a controlar as gangues que aproveitavam o caos para ganhar espaço entre os territórios, pois sabia que quanto mais tempo demorasse, mais elas resistiram e isso significava mais sangue derramado. Ele não queria isso.
A urgência tornou-se palpável e Christophe foi tomado de assalto por aquela realidade. Se Olívia estivesse certa e Bárbara realmente fosse o serial killer, eles tinham apenas algumas horas antes de Stella ser morta.A casa mencionada por João ficava numa região afastada. Era uma construção antiga – onde o casal havia morado antes do divórcio –, cercada por um pomar que certamente fora generoso antes de tornar-se estéril. Assim que entraram a realidade caiu sobre eles como uma névoa pesada, por entre a poeira e as teias de aranha, um painel central era visível sob os feixes de luz das lanternas, onde os crimes estavam detalhados.Havia fotos das crianças ali, as mortas estavam
Depois que Christophe foi embora, praticamente sem explicar o que o levara a visitá-la naquela noite e naquele estado, Olivia viu-se sozinha novamente. Era o dia do aniversário de Stella chegou e sentiu-se obrigada a cumprir com sua promessa, mesmo que um sentimento de mau pressentimento impregnasse seus pensamentos.Após acertar o quadril pela terceira vez nos móveis, e ver o grande hematoma que se formava, teve uma sensação de déjà-vu: sempre tinha marés de azar quando algo muito ruim estava prestes a acontecer.Não se permitiu pensar muito. Pegou suas chaves, a sacola com o presente e dirigiu-se à es
Saber que Marta fora inocentada deu um ânimo a mais a Olívia.Naqueles dias, decidiu que não pensaria em sua família, nem em fantasmas tristes e trabalharia implacavelmente. A aprovação na OAB era o que sustentava sua esperança de independência, e ela sabia que não podia desperdiçar a licença nem o tempo que lhe restava. Os olhos ardiam, a nuca doía e as páginas começavam a embaralhar diante dela, mas ainda assim insistia em revisar artigos, prazos e jurisprudências.Vez ou outra, pensava em Christophe. Na noite anterior, tivera um mau pressentimento tão grande que pela primeira vez em anos, orou pela segurança dele.Olivia olhou pelo vidro da janela, observando a chuva que do lado de fora entre trov&o
Desceu à garagem sem olhar para trás. O ar da noite estava frio. Entrou no carro e ligou o motor, permanecendo alguns segundos parado antes de arrancar. Dirigiu pelas ruas quase vazias, as luzes da cidade passando como sombras alongadas no para-brisa. O telefone no painel, de repente começou a tocar, quase ignorou.Quando atendeu, surpreendeu-se ao ouvir a voz de Olívia.— N-não sei se você acredita nisso – ela murmurou, fazendo-o ter aquele inquietante sentimento de deja-vu. – Não sei o que está fazendo, mas, por favor, tenha cuidado.– Mal pressentimento? – ele perguntou, tentando manter a calma.— Só… volta inteiro está bem – Olívia murmurou.







