MasukCapítulo 2
O peso do silêncio que se seguiu à revelação de Dr. Haroldo parecia prestes a quebrar a madeira maciça daquela mesa. Meus olhos estavam fixos no envelope pardo lacrado com cera vermelha, mas minha mente viajava a mil por hora. A noite do acidente. As memórias fragmentadas daquele pesadelo que passei anos tentando sufocar voltaram à tona como um soco no estômago. Ao meu lado, Cassius continuava imóvel. A cor que havia sumido de seu rosto não retornou, e a rigidez em seus ombros revelava que, pela primeira vez na vida, o herdeiro implacável dos Vance se sentia encurralado. Ele não tinha o controle. Nenhum de nós tinha. — Como podem ver — disse o advogado, quebrando a paralisia do cômodo com a calma profissional de quem já previa nossa reação —, o testamento não deixa espaço para manobras jurídicas. Se vocês desejam preservar o patrimônio familiar e evitar uma investigação policial devastadora, as assinaturas precisam ser apostas agora. Dr. Haroldo deslizou os papéis do contrato de coadministração e residência conjunta em nossa direção. Junto ao documento, colocou uma caneta de tinteiro pesada, em prata reluzente. Senti minha mão tremer quando me aproximei da mesa. Olhei para Cassius. Ele já me encarava. Não havia mais vestígio de deboche em suas feições, apenas uma tempestade sombria de ressentimento e um fogo perigoso que parecia queimar sob a pele. Peguei a caneta. Nossos dedos se roçaram por uma fração de segundo, e um choque elétrico percorreu meu braço, fazendo todos os meus pelos se arrepiarem. Subi o olhar imediatamente, encontrando as pupilas dele dilatadas, fixas nas minhas. O ar entre nós ficou denso, carregado de uma tensão física tão sufocante que cheguei a me esquecer de como respirar por um instante. — Assine logo, Beatriz — ele murmurou, a voz grave e áspera, quase um rosnado rente ao meu ouvido. — Vamos selar o nosso pacto com o diabo. Com o peito subindo e descendo em um ritmo desordenado, pressionei a pena contra o papel. Minha assinatura desenhou-se em traços firmes, embora por dentro eu estivesse me desfazendo. Assim que terminei, rastejei a caneta de volta para ele. Cassius a tomou com grosseria e firmou seu nome logo abaixo do meu. Estava feito. Pelos próximos 365 dias, a Mansão Vance seria minha prisão, e Cassius, o meu carcereiro. Longe do escritório e da presença do advogado, caminhei a passos rápidos pelo corredor do segundo andar. Eu precisava de ar. Precisava me livrar da sensação de sufocamento que a presença de Cassius me causava. Empurrei a porta de madeira trabalhada da suíte principal — o quarto que eu costumava dividir com Augusto. Assim que pisei no carpete felpudo, uma onda avassaladora de memórias me atingiu no peito. O cheiro do perfume amadeirado e caríssimo de Augusto ainda impregnava as cortinas pesadas de veludo. As fotografias de eventos de gala em quadros de prata sobre a penteadeira, os móveis sóbrios e a imensa cama de casal pareciam monstros prontos para me engolir. Aquele lugar nunca tinha sido um ninho de amor; fora uma gaiola onde fui mantida sob regras rígidas e aparências impecáveis. — Não... eu não consigo ficar aqui — sussurrei para mim mesma, sentindo as lágrimas de raiva e frustração queimarem meus olhos. Saí apressada do quarto e caminhei até o final do corredor, onde encontrei Dona Marta, a antiga governanta da casa, organizando as pilhas de toalhas de linho. — Dona Marta, por favor — pedi, tentando manter a voz estável —, peça para as camareiras prepararem a suíte de hóspedes na ala leste. Não vou mais dormir no quarto principal. A senhora me olhou com compaixão, compreendendo o peso do meu luto forçado, e assentiu. — Claro, Sra. Vance. Vou mandar preparar tudo imediatamente... — Não vai preparar nada, Marta. Pode retirar-se. A voz fria e cortante de Cassius surgiu do início do corredor, fazendo-nos congelar. Ele caminhava em nossa direção com passos lentos e deliberados, as mãos enterradas nos bolsos da calça social, a gravata já meio frouxa no colarinho aberto. Dona Marta olhou de mim para ele, visivelmente desconfortável, fez uma breve mesura e se retirou rapidamente, deixando-nos a sós na penumbra do hall. — O que você pensa que está fazendo? — perguntei, dando um passo à frente, indignada. — Eu não sou mais obrigada a ocupar aquele quarto com as coisas do seu pai. Vou me instalar na ala leste! — Você não vai para ala nenhuma, Beatriz — ele declarou, parando a poucos centímetros de mim, usando sua altura para me intimidar. — A ala leste fica do outro lado da casa. O contrato que acabamos de assinar exige clareza e verossimilhança. Os funcionários falam, a imprensa paga por fofocas da servidão e o conselho da empresa está procurando qualquer brecha para provar que a nossa convivência é uma farsa. — Ninguém vai fiscalizar em qual quarto eu durmo durante a noite, Cassius! — rebati, o tom de voz subindo. — Eu vou — ele sussurrou, dando mais um passo e me encurralando contra a parede do corredor. O calor do corpo dele era como uma fogueira no inverno, e o cheiro de uísque misturado ao seu perfume amadeirado entorpecia meus sentidos. — Eu preciso monitorar cada passo seu. Cada suspiro, cada ligação que você fizer. Se você cair, eu caio junto, e eu não confio em você. Minhas costas tocaram a parede fria, mas meu corpo inteiro queimava. Olhei dentro dos olhos escuros dele, vendo a mistura tóxica de raiva, obsessão e o desejo reprimido que ele tentava em vão mascarar. — Você vai ocupar a suíte adjacente à minha — ele continuou, a voz descendo para um tom perigosamente íntimo, a respiração quente roçando minha bochecha. — Exatamente aqui. No mesmo corredor. Porta com porta. — Você é doentio — murmurei, tentando manter a cabeça erguida, embora meu coração parecesse prestes a rasgar meu peito. Cassius inclinou o rosto, aproximando a boca do meu ouvido. O roçar do lábio dele contra a minha pele sensível fez um tremor involuntário percorrer minha espinha. — Afinal de contas... nós somos uma família agora, não é? — ele debochou, a voz carregada de uma provocação cruel e venenosa ao sussurrar a última palavra contra minha pele: — ...Mamãe. A palavra ecoou na minha mente como um estalo estrondoso, despertando algo violento e adormecido dentro de mim. Toda a dor do passado, a humilhação do presente e a raiva contida explodiram de uma só vez. Antes que eu pudesse raciocinar, minha mão direita voou pelo ar. ESTALO! O som do tapa ecoou ruidosamente pelo corredor silencioso. A força do golpe fez o rosto de Cassius virar ligeiramente para o lado. Minha mão ardia, a pálpebra dele estremeceu e o silêncio que se seguiu foi sepulcral. Devagar, com uma lentidão aterrorizante, Cassius voltou a cabeça em minha direção. Uma marca vermelha começava a despontar em sua bochecha esculpida, mas não havia surpresa em seu olhar — apenas um brilho perigoso, sombrio e faminto. Ele passou a língua pelo canto do lábio inferior, limpando o rastro de dor, e deu um sorriso amargo de canto. — É — ele murmurou, a voz gélida como a ponta de iceberg —, esse ano vai ser um verdadeiro inferno.O silêncio que se instalou no corredor era tão denso que quase dava para ouvir o som das nossas respirações cortando a penumbra.No segundo em que os olhos de Amanda se cravaram nos meus, a rigidez do corpo dela pareceu se desfazer em um sobressalto quase imperceptível. O olhar sério e a postura firme que ela mantinha até um segundo atrás evaporaram, dando lugar, em uma fração de segundo, ao mesmo sorriso suave, doce e acolhedor de sempre. Uma transição tão rápida e perfeita que me causou um arrepio incômodo na espinha.— Beatriz! — ela exclamou, a voz subindo um tom, cheia de uma cordialidade quase exagerada enquanto dava dois passos na minha direção. — Meu Deus, você chegou! Eu não ouvi o barulho do carro na garagem...Parei a poucos metros de distância, mantendo a minha mala pequena presa em uma das mãos e o corpo em alerta total.— Desculpe interromper — falei devagar, a minha voz saindo fria, contida. — A porta da frente estava destravada, então só subi.— Imagina, você não inter
A brisa gelada da montanha continuava a soprar entre as alamedas do cemitério, mas o frio já não parecia mais tão insuportável. A presença do meu tio, a firmeza da sua mão segurando a minha e o calor daquele abraço tinham conseguido, ao menos por alguns instantes, estancar o sangramento da minha alma. — Você precisa ir agora, não é, minha estrela? — Henrique perguntou, a voz suave quebrando o silêncio da manhã. Ele olhou para o Porsche parado no acostamento da estrada e depois voltou os olhos para mim, cheios de uma preocupação paternal. — Eu preciso, tio — engoli a saliva seca na garganta, sentindo o peso da realidade voltar a esmagar o meu peito. — O advogado da família disse que se eu quebrar as regras da partilha ou sumir antes dos três dias, eles acionam uma cláusula de escândalo. A imprensa vai revirar o acidente de cinco anos atrás, os jornais vão pisar na memória do papai e a holding pode até intervir no tratamento que mantém a minha mãe viva. Eu não posso deixar isso acont
O ar prendeu no fundo da minha garganta, tão gélido que parecia rasgar as paredes do meu peito como uma lâmina. Meus pés, antes travados sobre o paralelepípedo úmido do cemitério, moveram-se em um impulso involuntário, quase mecânico. Dobrei os joelhos com hesitação extrema, sentindo a sola das minhas botas estalar fraco contra as folhas secas e o cascalho espalhados pela alameda. Cada passo que eu dava era lento, desconfiado, acompanhado pelo som ensurdecedor do meu próprio coração batendo desordenado contra as minhas costelas. Quem era aquele homem? O que ele fazia ali, de pé diante da lápide do meu pai, em uma manhã cinzenta e morta de quinta-feira, no meio do nada? A figura alta deu um pequeno passo de lado, ajustando a gola do sobretudo escuro que parecia pesado demais para o corpo. O vento frio da montanha soprou mais forte pela encosta, balançando os ramos dos lírios brancos colocados com cuidado sobre a pedra fria de mármore. Ninguém visitava aquele jazigo. Ninguém além de
A mensagem de Amanda continuava queimando na tela do painel do carro, brilhando como uma acusação pública no meio da penumbra da cabine."Eu descobri tudo."As minhas mãos travaram no volante com tanta força que senti as articulações dos dedos estalarem. O ar sumiu do meu peito de uma vez só, substituído por um pânico violento e descontrolado que fez a minha visão turvar. As curvas da serra começaram a borrar diante dos meus olhos enquanto o Porsche continuava em movimento automático pela estrada molhada.Meu Deus. Ela sabe.A minha cabeça virou um turbilhão caótico de pensamentos. A imagem da minha mãe no quarto de cima, olhando para mim com aquele desgosto gélido, veio de encontro à minha mente como uma lâmina. Eu era um veneno. Uma força destrutiva na vida de qualquer pessoa que cometesse o erro de se aproximar de mim. Destruí a saúde da minha mãe, matei o meu pai de desgosto, arruinei a juventude de Cassius... e agora, como uma praga, eu estava destruindo a vida de uma mulher inoc
A luz cinzenta e gélida da manhã entrou sem pedir licença pelas frestas das janelas de madeira, cortando a penumbra da sala.Acordei com o corpo totalmente travado sobre o chão de tábua corrida. Minha pele estava congelada, e as minhas roupas, ainda úmidas da tempestade da noite anterior, colavam ao meu corpo como um abraço morto, pesado. Fiquei imóvel por longos minutos, encarando as vigas do teto cobertas por teias de aranha e poeira acumulada, sentindo um vazio tão absoluto no peito que até o ato de puxar o ar parecia doer.A dor aguda e desesperada da madrugada — aquela que me fez chorar até perder o fôlego — dera lugar a uma apatia física profunda. Uma anestesia amarga e perigosa.Eu sacrificara cinco anos da minha juventude. Cinco anos de humilhações silenciosas, de um casamento forçado com Augusto Vance, de noites em claro me corroendo por um amor interrompido e destruído com Cassius... tudo por uma ilusão grotesca. Tudo para manter viva e protegida uma mulher que passou cada s
Encolhida sobre o chão frio da sala de estar, ouvindo a chuva bater sem trégua contra as vidraças e o vento uivar forte na mata ao redor da casa, fechei os olhos. A dor no meu peito não era metafórica; era um peso físico, uma falta de ar tão violenta que parecia rasgar os meus pulmões a cada respiração vacilante. As palavras cruéis da minha mãe ainda flutuavam no ar do andar de cima, mas, conforme a exaustão me dominava, o barulho da tempestade lá fora começou a se distorcer, dando lugar ao som de uma garoa antiga.Uma garoa de cinco anos atrás.---O visor do meu celular acendeu sobre a mesa de cabeceira, cortando a escuridão do meu quarto de solteira que continha as paredes cheias de pôsteres das minhas bandas de rock favorita. O relógio marcava três e doze da manhã.Puxei o aparelho devagar, me sentando na cama com o coração batendo na garganta para não fazer ruído e acordar os meus pais no quarto ao lado. O brilho da tela iluminava o nome que sempre fazia o meu estômago dar um nó







