MasukO som do tapa ainda ecoava pelas paredes do corredor quando a realidade do golpe desabou sobre mim. Minha palma ardia em um queimor vivo.
— Nunca mais — a minha voz saiu como um rosnado preso na garganta, cortando a provocação no rosto dele antes que ele pudesse abrir a boca outra vez. Dei um passo à frente, cravando as unhas na palma da minha mão trêmula, sem recuar um centímetro. — Nunca mais na sua vida me chame de mãe. Eu não sou sua mãe, Cassius. Eu não sou absolutamente nada sua! — Ah, não? — ele ironizou, a voz descendo para uma oitava grave e perigosa enquanto dava um passo lento em minha direção, usando sua altura para me intimidar. — O registro civil da família Vance diz exatamente o contrário, Beatriz. — O fato de eu ter me casado com o seu pai não me aproxima de você! — rebati, o tom de voz subindo, o peito arfando enquanto a raiva consumia qualquer réstia de compostura. — Não cria nenhum laço entre nós. Nem de família, nem de respeito, nem de nada! Você é apenas um estranho amargurado morando sob o mesmo teto que eu. — Um estranho? — Cassius deu mais um passo, colando o peito ao meu. O calor que emanava dele atravessava o tecido fino do meu vestido preto, invalidando qualquer tentativa de defesa. O cheiro de uísque e o aroma amadeirado do seu perfume me envolveram como uma névoa densa. — Você realmente consegue olhar nos meus olhos e dizer que eu sou um estranho para você? A mão dele voou e se fechou com firmeza ao redor do meu pulso — o mesmo pulso da mão que o havia atingido. A pegada era de ferro, imobilizando-me contra a parede de madeira. — Me solta, Cassius! — ordenei, tentando puxar o braço, mas a proximidade física se tornou esmagadora. Eu podia sentir o bater ritmado e forte do coração dele contra as minhas costelas. — Você achou que podia me dar um tapa e sair andando? — ele perguntou, inclinando o rosto até que sua testa quase tocasse a minha. As pupilas dele estavam tão dilatadas que o castanho de seus olhos parecia ter sido engolido pelo preto. — Acha que eu sou o meu pai? Que você pode me manipular com esse olhar de viúva injustiçada e achar que vai controlar o jogo? — Eu não estou jogando nada! — respondi, sustentando o olhar dele apesar do tremor na minha voz. Minha respiração batia quente contra os lábios dele, a escassos centímetros de distância. — Você passou dos limites! — E você caiu — ele sussurrou, a voz descendo para um tom perigosamente rouco. Sua mão livre subiu devagar, os dedos roçando a linha do meu queixo, subindo pela minha bochecha até alcançar o meu lábio inferior, pressionando-o com uma leveza torturante. — Você sempre cai, Beatriz. Toda vez que eu chego perto demais. O toque do polegar dele no meu lábio fez um arrepio violento percorrer minha espinha. A tensão de ódio e ressentimento acumulada por anos parecia ter sofrido um curto-circuito, transformando-se em uma eletricidade pura e proibida. Meu peito subia e descia com pressa, e, por um segundo aterrorizante, meus olhos baixaram involuntariamente para a boca dele. — Com licença... Sra. Vance? A voz hesitante de Dona Marta ecoou do início do corredor, cortando o transe. Graças a Deus! Instintivamente, dei um empurrão no peito de Cassius. Ele soltou meu pulso devagar, os olhos demorando um segundo a mais nos meus lábios antes de dar um passo para trás e se recompor com uma frieza assustadora. Ajeitou o colarinho da camisa, ajustando a gravata como se nada tivesse acontecido. — O que foi, Marta? — Cassius perguntou, a voz perfeitamente controlada, a máscara de gelo de volta ao lugar. A governanta olhou de mim para ele, visivelmente desconfortável ao notar a atmosfera pesada e o rastro vermelho na bochecha dele. Ela limpou a garganta e dirigiu-se a mim com o olhar penalizado. — Desculpe interromper, Sra. Vance... Mas os cerimonialistas da funerária acabaram de chegar. Eles precisam da senhora no salão nobre para alinhar os últimos detalhes do funeral do Dr. Augusto. A imprensa já está na portaria e o conselho exige saber o horário da cerimônia. O choque da realidade caiu sobre minhas costas como um fardo de chumbo. O funeral. Eu ainda tinha que enterrar o homem que havia transformado minha vida em uma gaiola de ouro. — Eu já estou descendo, Marta. Obrigada — respondi, a voz falhando ligeiramente. Sem olhar para Cassius, passei por ele a passos rápidos, descendo a imponente escadaria de mármore em direção à ala social. Enquanto caminhava até a sala de estar onde os organizadores me aguardavam com catálogos de flores e ornamentos fúnebres, minha mente me levou inevitavelmente de volta aos últimos três anos. O casamento com Augusto nunca tinha sido uma história de amor. Tinha sido um contrato silencioso. Quando minha família faliu e meu pai adoeceu, Augusto Vance surgiu como o salvador benevolente — mas a conta chegou rápido. Em troca do resgate financeiro, ele exigiu minha mocidade, minha obediência e minha presença elegante ao seu lado nos jantares de gala. Augusto era um homem frio, calculista e possessivo. Para ele, eu era como um quadro valioso pendurado na parede de sua mansão: feito para ser admirado pelos outros, mas trancado a sete chaves sob o seu domínio. Ele sabia perfeitamente o impacto que a presença de Cassius causava em mim. Augusto havia nos afastado no passado e usado seu poder para garantir que ficássemos separados, transformando a casa em um campo de minas silencioso. E agora, mesmo morto, ele havia dado um jeito de nos trancar na mesma cela. Ajeitei os papéis do velório sobre a mesa de centro, assinando as autorizações para os arranjos de lírios e a lista de convidados VIPs com a caneta firme, tentando ignorar a náusea no estômago. Toda aquela pompa era uma farsa. Ninguém ali chorava por Augusto; todos queriam apenas garantir sua fatia do império. Quando os cerimonialistas finalmente se retiraram, o silêncio da casa voltou a me esmagar. Subi os degraus disposta a me trancar na suíte e não ver ninguém até a manhã seguinte. Assim que alcancei o corredor do segundo andar, vi Cassius parado na porta do meu quarto. Ele já tinha tirado o paletó e dobrado as mangas da camisa branca até os cotovelos. Na mão, ele segurava uma cópia extra da chave da minha porta. — O que você está fazendo aí? — perguntei, parando a dois passos de distância, mantendo a postura ereta. Cassius jogou o molho de chaves para o alto e o pegou no ar, sem tirar os olhos de mim. — Vim garantir que você não vai trancar a porta por dentro — disse ele, a voz baixa, grave e desprovida de qualquer raiva, o que tornava a situação ainda mais intimidadora. — Pelos próximos 365 dias, Beatriz, esta casa não tem portas trancadas para mim. — Você só pode estar louco se acha que vou dormir com a porta aberta com você no mesmo corredor — rebati, tentando passar por ele para pegar a chave. Cassius deu um passo rápido, bloqueando a entrada com o próprio corpo. Ele se inclinou ligeiramente, a marca do meu tapa ainda visível na pele da sua bochecha, e deu um sorriso lento de canto. — Se quiser fechar, feche. Mas a chave fica comigo — ele sussurrou, guardando o molho de chaves fundo no bolso da calça. — Durma bem, viúva. Amanhã tomamos café juntos às sete. E eu não aceito atrasos. Ele deu meia-volta e caminhou até a porta do quarto dele, exatamente em frente ao meu, entrando e deixando a porta dele encostada — apenas uma réstia de luz vazando para o corredor. Olhei para a minha porta sem chave, sabendo que, naquela noite, eu não pregaria os olhos por um segundo sequer.O silêncio que se instalou no corredor era tão denso que quase dava para ouvir o som das nossas respirações cortando a penumbra.No segundo em que os olhos de Amanda se cravaram nos meus, a rigidez do corpo dela pareceu se desfazer em um sobressalto quase imperceptível. O olhar sério e a postura firme que ela mantinha até um segundo atrás evaporaram, dando lugar, em uma fração de segundo, ao mesmo sorriso suave, doce e acolhedor de sempre. Uma transição tão rápida e perfeita que me causou um arrepio incômodo na espinha.— Beatriz! — ela exclamou, a voz subindo um tom, cheia de uma cordialidade quase exagerada enquanto dava dois passos na minha direção. — Meu Deus, você chegou! Eu não ouvi o barulho do carro na garagem...Parei a poucos metros de distância, mantendo a minha mala pequena presa em uma das mãos e o corpo em alerta total.— Desculpe interromper — falei devagar, a minha voz saindo fria, contida. — A porta da frente estava destravada, então só subi.— Imagina, você não inter
A brisa gelada da montanha continuava a soprar entre as alamedas do cemitério, mas o frio já não parecia mais tão insuportável. A presença do meu tio, a firmeza da sua mão segurando a minha e o calor daquele abraço tinham conseguido, ao menos por alguns instantes, estancar o sangramento da minha alma. — Você precisa ir agora, não é, minha estrela? — Henrique perguntou, a voz suave quebrando o silêncio da manhã. Ele olhou para o Porsche parado no acostamento da estrada e depois voltou os olhos para mim, cheios de uma preocupação paternal. — Eu preciso, tio — engoli a saliva seca na garganta, sentindo o peso da realidade voltar a esmagar o meu peito. — O advogado da família disse que se eu quebrar as regras da partilha ou sumir antes dos três dias, eles acionam uma cláusula de escândalo. A imprensa vai revirar o acidente de cinco anos atrás, os jornais vão pisar na memória do papai e a holding pode até intervir no tratamento que mantém a minha mãe viva. Eu não posso deixar isso acont
O ar prendeu no fundo da minha garganta, tão gélido que parecia rasgar as paredes do meu peito como uma lâmina. Meus pés, antes travados sobre o paralelepípedo úmido do cemitério, moveram-se em um impulso involuntário, quase mecânico. Dobrei os joelhos com hesitação extrema, sentindo a sola das minhas botas estalar fraco contra as folhas secas e o cascalho espalhados pela alameda. Cada passo que eu dava era lento, desconfiado, acompanhado pelo som ensurdecedor do meu próprio coração batendo desordenado contra as minhas costelas. Quem era aquele homem? O que ele fazia ali, de pé diante da lápide do meu pai, em uma manhã cinzenta e morta de quinta-feira, no meio do nada? A figura alta deu um pequeno passo de lado, ajustando a gola do sobretudo escuro que parecia pesado demais para o corpo. O vento frio da montanha soprou mais forte pela encosta, balançando os ramos dos lírios brancos colocados com cuidado sobre a pedra fria de mármore. Ninguém visitava aquele jazigo. Ninguém além de
A mensagem de Amanda continuava queimando na tela do painel do carro, brilhando como uma acusação pública no meio da penumbra da cabine."Eu descobri tudo."As minhas mãos travaram no volante com tanta força que senti as articulações dos dedos estalarem. O ar sumiu do meu peito de uma vez só, substituído por um pânico violento e descontrolado que fez a minha visão turvar. As curvas da serra começaram a borrar diante dos meus olhos enquanto o Porsche continuava em movimento automático pela estrada molhada.Meu Deus. Ela sabe.A minha cabeça virou um turbilhão caótico de pensamentos. A imagem da minha mãe no quarto de cima, olhando para mim com aquele desgosto gélido, veio de encontro à minha mente como uma lâmina. Eu era um veneno. Uma força destrutiva na vida de qualquer pessoa que cometesse o erro de se aproximar de mim. Destruí a saúde da minha mãe, matei o meu pai de desgosto, arruinei a juventude de Cassius... e agora, como uma praga, eu estava destruindo a vida de uma mulher inoc
A luz cinzenta e gélida da manhã entrou sem pedir licença pelas frestas das janelas de madeira, cortando a penumbra da sala.Acordei com o corpo totalmente travado sobre o chão de tábua corrida. Minha pele estava congelada, e as minhas roupas, ainda úmidas da tempestade da noite anterior, colavam ao meu corpo como um abraço morto, pesado. Fiquei imóvel por longos minutos, encarando as vigas do teto cobertas por teias de aranha e poeira acumulada, sentindo um vazio tão absoluto no peito que até o ato de puxar o ar parecia doer.A dor aguda e desesperada da madrugada — aquela que me fez chorar até perder o fôlego — dera lugar a uma apatia física profunda. Uma anestesia amarga e perigosa.Eu sacrificara cinco anos da minha juventude. Cinco anos de humilhações silenciosas, de um casamento forçado com Augusto Vance, de noites em claro me corroendo por um amor interrompido e destruído com Cassius... tudo por uma ilusão grotesca. Tudo para manter viva e protegida uma mulher que passou cada s
Encolhida sobre o chão frio da sala de estar, ouvindo a chuva bater sem trégua contra as vidraças e o vento uivar forte na mata ao redor da casa, fechei os olhos. A dor no meu peito não era metafórica; era um peso físico, uma falta de ar tão violenta que parecia rasgar os meus pulmões a cada respiração vacilante. As palavras cruéis da minha mãe ainda flutuavam no ar do andar de cima, mas, conforme a exaustão me dominava, o barulho da tempestade lá fora começou a se distorcer, dando lugar ao som de uma garoa antiga.Uma garoa de cinco anos atrás.---O visor do meu celular acendeu sobre a mesa de cabeceira, cortando a escuridão do meu quarto de solteira que continha as paredes cheias de pôsteres das minhas bandas de rock favorita. O relógio marcava três e doze da manhã.Puxei o aparelho devagar, me sentando na cama com o coração batendo na garganta para não fazer ruído e acordar os meus pais no quarto ao lado. O brilho da tela iluminava o nome que sempre fazia o meu estômago dar um nó







