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Capítulo 30

last update Data de publicação: 2026-10-08 23:37:24
A voz de Cassius parecia ter rasgado a penumbra do hall com a lâmina de um machado.

Senti o meu corpo congelar, o sangue fugindo de vez do meu rosto enquanto a luz gélida da lua banhava a figura dele na base da escadaria. Ele estava destruído e assustador ao mesmo tempo. A camisa social desabotoada no peito, os cabelos negros em um desalinho selvagem e aqueles olhos escuros... aqueles olhos cravados em mim com uma fúria tão crua e primitiva que pareciam capazes de incendiar a madeira do piso s
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    A estrada de volta a São Paulo transformou-se no pior dos infernos imagináveis.O motor do carro urrava na rodovia enquanto as árvores da serra se desfaziam em borrões verdes e cinzentos através da janela. O céu, antes claro, parecia ter pesado sobre nós. Felipe mantinha as duas mãos cravadas no volante com tanta força que os nós dos seus dedos estavam completamente brancos, desprovidos de sangue. A respiração dele vinha em golpes curtos, ruidosos, rasgando o silêncio sufocante dentro do veículo. De tempos em tempos, um tremor involuntário percorria os seus ombros largos, e o brilho calmo que eu aprendera a amar nos olhos dele simplesmente desaparecera, dando lugar a uma escuridão cega e desesperada.Eu olhava para o perfil dele e sentia o meu próprio peito ser esmagado por uma dor visceral. Aquele homem doce, que poucas horas antes me segurara nos braços sob a luz da lareira, que fizera promessas bonitas no mirante e me ensinara a respirar sem medo, dera lugar a um irmão despedaçado.

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    O sol de domingo nasceu manso, tingindo o céu da serra com nuances de dourado e rosa. A névoa fina que cobria o vale aos poucos se dissipava, deixando o ar fresco e perfumado com o cheiro de terra molhada e mato verde.A conversa e as confissões da madrugada não deixaram um rastro de desconforto; pelo contrário, pareciam ter limpado o ar entre nós. A vulnerabilidade de Felipe, misturada à forma respeitosa e ardente como ele me tratava, arrancara as últimas barreiras de defesa que eu sustentava há anos.Depois de um café da manhã calmo no mezanino, preparado a quatro mãos entre risadas e copos de suco fresco, Felipe segurou a minha mão com carinho.— Tem um lugar aqui na propriedade que eu ainda não te mostrei — ele disse, com aquele olhar castanho e expressivo que fazia o meu peito desacelerar. — Vem comigo.Caminhamos por uma trilha curta de terra batida, cercada por hortênsias e árvores altas cujas copas se entrelaçavam no alto, filtrando a luz do sol em feixes dourados. O som da ág

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    A escuridão do mezanino era suave, quebrada apenas pelas últimas brasas alaranjadas que ainda tremeluziam na lareira. O silêncio do interior nos envolvia como um manto protetor, interrompido de tempos em tempos pelo som distante do riacho correndo sobre as pedras do jardim.Eu estava deitada com a cabeça apoiada no peito largo de Felipe. O ritmo calmo e cadenciado das batidas do coração dele contra o meu ouvido me trazia uma sensação de alívio e paz que eu não experimentava há anos. As cobertas macias nos cobriam, mantendo o calor dos nossos corpos colados. Pela primeira vez em muito tempo, senti que a minha mente começava a desacelerar, pronta para um sono sem fantasmas.Foi quando o corpo de Felipe enrijeceu sob o meu.A princípio, foi apenas uma mudança sutil no ritmo do coração dele — as batidas dispararam, ficando rápidas e irregulares. A respiração dele, antes profunda, transformou-se num entrecortado arfar.Pisquei devagar, saindo do estado de torpor, e ergui o rosto na penumbr

  • Herança do Desejo - 365 Dias Com Meu Enteado    Capítulo 35

    O som da lenha estalando na lareira era o único ruído no mezanino, mas o silêncio entre nós já não carregava qualquer sombra do passado. Era denso, quente, quase sólido — um ar tão carregado de expectativa que doía respirar. A mão grande de Felipe continuava espalmada na minha nuca, os dedos grossos e quentes afundados nas ondas do meu cabelo, puxando com uma firmeza controlada que mandava arrepios direto para o centro do meu corpo. O olhar dele, escuro e faminto, descia da minha boca para os meus olhos e voltava, como se não conseguisse decidir por onde começar a me devorar. — Se você quiser parar… se quiser ir devagar, Beatriz… me fala agora — a voz dele saiu rouca, quase um rosnado baixo, o hálito morno roçando meus lábios. — Porque eu não sei se vou conseguir me afastar de você de novo. Eu quero você demais. Uma onda de calor subiu pela minha espinha, apertando o ventre com força. Aquele homem estava me devolvendo o controle. Estava me oferecendo a escolha que todos me negara

  • Herança do Desejo - 365 Dias Com Meu Enteado    Capítulo 34

    O estalo da porta se fechando no andar de cima reverberou pela mansão como um tiro.Desci os degraus da escadaria central com a bolsa tiracolo firme sobre o ombro e os saltos batendo com força no mármore. O meu coração ainda martelava contra as costelas numa velocidade insana, e a adrenalina de ter peitado Cassius com aquela visceralidade fazia as minhas mãos tremerem de leve. Mas não era medo. Era o gosto tóxico e libertador de ter arrancado a máscara dele e jogado na cara dele a verdade sobre a sua própria covardia.No hall principal, Felipe me esperava perto da porta de vidro. Ele segurava uma pequena mala de viagem e trazia no rosto uma expressão serena, mas o seu olhar atento varreu a minha figura no mesmo instante em que pisei no último degrau.— Tudo bem, Beatriz? — ele perguntou, dando dois passos na minha direção. A voz dele era um bálsamo manso no meio do caos. — Ouvi um barulho lá em cima...— Está tudo ótimo — respondi, forçando uma respiração funda e oferecendo a ele o me

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    (Ponto de vista de Cassius) O som da madeira da minha escrivaninha estalando sob a pressão dos meus punhos fechados era a única coisa que me impedia de destruir aquele escritório inteiro. Eu estava de pé atrás da mesa, encarando a janela que dava para os jardins, mas não enxergava nada. A imagem da mão de Felipe cobrindo a de Beatriz na mesa de jantar queimava no fundo das minhas retinas como uma marca de ferro em brasa. A forma como ela sorrira para ele — um sorriso quente, limpo, o mesmo sorriso que ela me dava antes do acidente da mãe dela, antes de o mundo desabar — me corroía as entranhas com a força de um ácido. Ela aceitou. Ela aceitou ir para a porra do ateliê dele. Iria passar o fim de semana inteiro a sós com o irmão de Amanda, longe desta casa, longe dos meus olhos, nos braços de outro homem. Um rugido mudo de fúria e desespero travou na minha garganta. Peguei a pasta de couro com os relatórios de Zurique e a arremessei contra a parede oposta. O baque surdo dos papéi

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