LOGINDeixei o abraço teatral de Amanda e a culpa silenciosa de Cassius ficarem para trás, engolidos pela imensidão fria e sufocante daquela fachada de pedra. Não esperei que nenhum motorista da holding abrisse a porta do carro; virei as costas com passos firmes, atravessei o portão principal da Mansão Vance e chamei um táxi na alamedas arborizadas. O ar quente e úmido de São Paulo colava à minha pele, mas por dentro eu continuava congelada, revestida por uma casca de gelo e pavor que demorara meses para ser construída.Assim que atravessei as portas de vidro da matriz, mergulhei de cabeça no trabalho com uma voracidade quase maníaca, quase doentia. A exaustão física e mental tornou-se a única anestesia viável para calar o grito que ecoava no fundo do meu peito.Fechei-me na minha sala, recusei ligações externas, desliguei o celular pessoal e joguei sobre a mesa pilhas e pilhas de planilhas de conformidade, relatórios fiscais e aditivos contratuais pendentes. Ali, cercada por papéis e códig
A claridade opaca da manhã de Nova York infiltrava-se pelas frestas das cortinas pesadas da suíte, trazendo o aviso implacável que tanto aguardávamos: o espaço aéreo estava oficialmente liberado, a tempestade lá fora havia se acalmado, e o nosso exílio forçado chegara ao fim.O trajeto do hotel até o aeródromo particular de Teterboro foi percorrido em um silêncio que pesava toneladas. No interior do jatinho executivo, sentados nas poltronas opacas de couro marrom, a distância entre nós já não era apenas física; era um abismo intransponível, cavado pelos escombros da madrugada anterior. Nenhuma palavra foi trocada. Nenhum olhar cruzado. Apenas o zumbido constante das turbinas aquecendo para a decolagem e o eco mudo de tudo o que havíamos enterrado na penumbra daquele quarto. Cada um de nós estava trancado nos próprios pensamentos, mastigando o gosto amargo de uma despedida que não teve coragem de se consumar em palavras finais.Horas depois, quando as rodas pesadas da aeronave tocaram
— Eu lembro de cada detalhe, Cassius. De cada segundo — olhei fundo nos olhos dele, forçando-o a encarar os cacos do nosso passado. — Lembro do frio daquela noite, do som da chuva batendo no telhado e do meu coração acelerado quando saí escondida da casa dos meus pais. Eu só queria me encontrar com você, queria alguns minutos nos seus braços, longe do mundo e das brigas das nossas famílias.Uma lágrima teimosa escapou do meu olho, traçando um caminho lento pela minha bochecha.— Nós ficamos juntos... e aquele momento foi perfeito. Mas na hora de voltar, na chuva, em cima daquela moto... a minha mãe deu falta de mim. Ela entrou em pânico ao ver o meu quarto vazio, saiu desesperada no meio da rua, debaixo de uma tempestade, procurando pela filha sem saber para onde ir.Cassius fechou os olhos com força, a respiração curta, engolindo em seco a culpa esmagadora que o consumia desde aquele dia.— A rua estava escura, o asfalto encharcado — continuei, a voz trêmula, revivendo a cena com uma
A penumbra do quarto de hotel parecia absorver até o oxigênio. O calor febril que nos unira minutos antes ainda pairava no ar, pesado, carregado de um perfume misturado a uísque e respirações descompassadas. Mas, à medida que o frenesi cedia espaço para o silêncio da madrugada, uma lucidez gélida e cortante começou a se infiltrar sob as cobertas.Deitei a cabeça para o lado, encarando a parede escura, sentindo o peso do meu próprio corpo contra o colchão.Com um movimento súbito, porém firme, afastei-me de Cassius.Desvencilhei-me dos braços dele, que ainda tentavam manter-me presa contra o seu peito, e puxei o lençol para cobrir meus ombros trêmulos. Sentei-me na borda da cama, mantendo as costas viradas para ele, recolhendo os pedaços da minha dignidade que eu havia espalhado pelo chão daquele quarto em troca de alguns minutos de ilusão.O colchão afundou levemente com o movimento de Cassius. Ele se ergueu em um silêncio tenso, os braços apoiados nos joelhos, tentando tocar o meu om
O gosto amargo e ardente do uísque ainda queimava no meu esôfago, mas a brasa real começou a se espalhar pelas minhas veias segundos depois, transformando a exaustão e a raiva em uma vertigem pesada, entorpecente.O corredor vazio do hotel executivo parecia girar levemente sob os meus pés. A garganta arranhava, o peito subia e descia em lufadas curtas, e a minha mente — que por semanas negara, reprimira e esquivara de cada centímetro daquela atração — de repente perdeu todas as travas de segurança.Virei as costas para Cassius, empurrando a porta da minha suíte com um tranco, pronta para me trancar no mundo e sumir. Mas a mão dele foi mais rápida. Antes que a madeira pesada pudesse bater contra o batente, o braço firme de Cassius estacou a porta no ar, impedindo o fechamento. Ele empurrou-a para dentro com suavidade, entrou no quarto e encostou a porta com um clique abafado, trancando o mundo inteiro do lado de fora.— Sai daqui, Cassius — murmurei, cambaleando levemente em direção à
Ponto de Vista de Amanda O clique suave do telefone ao encerrar a chamada ecoou no silêncio abafado da suíte principal da Mansão Vance como o fechar de uma armadilha perfeitamente armada.Puxei o ar devagar, ajeitando o roupão de seda macia contra os ombros, e deixei escapar um longo suspiro que carregava não o alívio de uma mulher doente, mas o triunfo sutil de quem acabara de vencer mais uma jogada perigosa. O sorriso que se formou nos meus lábios foi controlado, milimetricamente medido, frio e cortante como a lâmina de uma adaga polida na escuridão.Eu conseguira exatamente o que queria. A promessa solene, a garantia de exclusividade, o peso morto da culpa esmagando os ombros largos de Cassius Vance a milhares de quilômetros de distância.— Impressionante... — a voz de Felipe cortou o ar do quarto com a força de um soco.Endireitei o corpo depressa, virando-me na direção da porta. Felipe estava encrustado no batente, com os braços cruzados contra o peito e o maxilar trancado em um







