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Liana estava fazendo um espetáculo, e ela era boa nisso.Ela chorava, se agarrava, declarava gritando a sua gravidez para o salão silencioso e julgador. Os murmúrios começaram, afiados e reprovadores, direcionados ao humano que fazia uma cena diante dos veteranos e poderosos.A história se desenrolou em seus gritos histéricos. Depois que Marcus rompeu com ela — visto que ele roubou a sua prata protetora e água benta — sua permanência na casa dele acabou. Meus pais humanos, finalmente percebendo sua natureza manipuladora, fecharam as portas para suas súplicas. Ela ficou sem nada.Então, percebeu que estava grávida.Era sua última carta na manga. Sua única vantagem. Mesmo enquanto Marcus tentava se livrar dela, recuando com nojo, ela se agarrava a ele com a ferocidade de quem luta para sobreviver. A criança era sua passagem de volta.A cena era uma comédia grotesca. O próprio pai de Marcus, um homem profundamente preocupado com a reputação social humana, abriu caminho pela multidão,
A reação foi imediata.Em menos de um minuto, vergões vermelhos e inflamados, como bolhas de queimadura solar, surgiram na mão que segurava a fruta. Ele não parou. Continuou comendo, mastigando, engolindo com uma determinação sombria e desesperada. A garganta se movia com esforço, os olhos lacrimejando, fixos em mim.Sua respiração falhou, transformando-se em um chiado úmido e sufocado. Ele começou a convulsionar, o corpo se contorcendo quando as fototoxinas atingiram seu organismo humano, agora sensibilizado pelas cirurgias recentes e brutais. Ele caiu sobre o cascalho, com uma espuma misturada com polpa alaranjada manchando seus lábios.Enquanto os guardas da Cidadela avançavam e os médicos humanos eram chamados, eles o colocaram em uma maca. A cabeça dele pendeu na minha direção quando o ergueram. Seus olhos encontraram os meus, turvos de dor.— Eu me machuquei... como você se machucou... — Ele arfou, cada palavra um esforço enorme. — Agora... posso ter uma chance...?Ele viu m
Ele estava lá esperando, mais uma vez.Vi a silhueta contra os portões de ferro da Cidadela do Crepúsculo pela janela do meu quarto, uma mancha persistente e miserável no caminho de cascalho impecável. Três dias. Ele estava ali havia três dias, um fantasma assombrando as margens da minha nova vida.— É uma peste persistente. — A voz de Kaelan veio suave atrás de mim, sua presença era um conforto frio contra o ar noturno que se infiltrava pelo vidro.— Ele não é nada. — Respondi, apertando a cortina de veludo. — Só poeira.Mas a poeira tem o hábito de se acumular onde não é desejada. Eu já estava farta. Afastei-me da janela e desci a grande escadaria, os saltos marcando um ritmo seco e irritado no mármore negro. Atravessei as pesadas portas de carvalho e entrei no pátio.O ar da noite estava carregado com o perfume de um jasmim noturno e de chuva distante. Ele estava lá, exatamente como eu tinha visto. Marcus.Parecia o fantasma do homem a quem um dia, tolamente, eu entreguei minha
Todas as cabeças se viraram.Ele estava parado no vão arqueado da porta, uma silhueta contra a luz sombria do dia. Então entrou, e o ambiente pareceu ficar mais frio, mais escuro.Príncipe Kaelan Nocturne.Ele era mais alto do que eu imaginava, sua presença um peso absoluto. Vestia-se de preto austero, tendo como único adorno as abotoaduras de serpente prateada nos punhos — as que eu havia escolhido. Seus cabelos eram da cor da asa de um corvo, sua pele pálida como a luz da lua. E seus olhos... aqueles olhos verde-gelo encontraram os meus, sustentaram meu olhar por um instante, então deslizaram até Marcus.Ele caminhou até o meu lado. Não com pressa, mas com uma graça lenta e predatória que fazia todos os outros parecerem se mover através da água.O olhar de Marcus se fixou nas abotoaduras. Seu rosto perdeu a cor, confusão e horror crescente disputando espaço em sua expressão.— O quê...? Como você a chamou? — Gaguejou Marcus, deixando o ferro de marcar cair de seus dedos com um
Dois dias depois, eu estava no saguão da minha família, o peso do vestido sobre meus ombros. Era uma obra-prima de veludo negro e filigranas de prata, belo e austero.O ambiente estava repleto de presentes de casamento vindos dos aliados do Príncipe — caixas de vinho de sangue envelhecido, baús de cálices forjados à luz da lua, tapeçarias antigas retratando cenas da Longa Noite. Uma fortuna em esplendor sombrio.Meus pais se aproximaram, passos hesitantes. Minha mãe torcia as mãos.— Elara. — Começou meu pai, a voz baixa. — Sobre a... confissão de Liana. Talvez tenha sido um mal-entendido. Um momento de rivalidade juvenil. Exigir que ela se humilhe no seu casamento... é tão cruel. Não pode ter um pouco de misericórdia? Ser a mais madura?A última e frágil esperança à qual eu me agarrava — a de que eles me enxergariam, ao menos uma vez, neste dia — se despedaçou em pó.Eu havia inventado desculpas para eles. Para o espaço vazio onde deveria estar o baú do dote. Para a ausência de q
Eu encarei minhas palmas. A pele estava cheia de bolhas, num vermelho vivo, já vertendo sangue. Comecei a rir.Era um som áspero, quebrado, no silêncio tenso.Marcus congelou.— Por que você está rindo? — Exigiu, com um fio de inquietação na voz.Eu ria da colossal e trágica piada que era a minha própria vida. Por anos, eu me contorci, engoli insultos, suportei injustiças, tudo para preservar o afeto raso e condicional dos meus pais e daquele homem.E para quê?Toda vez que Liana encenava seu papel de donzela frágil, eles acreditavam nela. Sem questionar. Laços de sangue e promessas de infância não significavam nada diante das lágrimas ensaiadas dela.Eu era a vilã na história deles. A irmã invejosa. O obstáculo.Cerrei os punhos, as queimaduras recentes gritando em protesto, a dor trazendo um foco agudo e esclarecedor. Olhei para Marcus, meus olhos secos e ardentes.— Não. — Eu disse, minha voz surpreendentemente firme. — Eu não vou me desculpar. Não fiz nada de errado.O ma