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Capítulo 3

Auteur: Aria Salvatore
Eu encarei minhas palmas. A pele estava cheia de bolhas, num vermelho vivo, já vertendo sangue. Comecei a rir.

Era um som áspero, quebrado, no silêncio tenso.

Marcus congelou.

— Por que você está rindo? — Exigiu, com um fio de inquietação na voz.

Eu ria da colossal e trágica piada que era a minha própria vida. Por anos, eu me contorci, engoli insultos, suportei injustiças, tudo para preservar o afeto raso e condicional dos meus pais e daquele homem.

E para quê?

Toda vez que Liana encenava seu papel de donzela frágil, eles acreditavam nela. Sem questionar. Laços de sangue e promessas de infância não significavam nada diante das lágrimas ensaiadas dela.

Eu era a vilã na história deles. A irmã invejosa. O obstáculo.

Cerrei os punhos, as queimaduras recentes gritando em protesto, a dor trazendo um foco agudo e esclarecedor. Olhei para Marcus, meus olhos secos e ardentes.

— Não. — Eu disse, minha voz surpreendentemente firme. — Eu não vou me desculpar. Não fiz nada de errado.

O maxilar dele afrouxou. Minha recusa era uma linguagem que ele já não entendia.

— Marcus... — O soluço de Liana era uma obra-prima de fragilidade. — Minha mão... dói tanto...

Ele se virou para ela imediatamente, a preocupação quase palpável. Puxou-a para perto, murmurando consolos.

Então, absurdamente, como se ela pudesse pegar um resfriado naquele lugar de horror, ele saiu correndo até a carruagem. Voltou com um manto. Um manto luxuoso, com capuz, forrado com uma pelagem prateada.

Minha respiração falhou.

Era forrado com a pele de um lobo de gelo. Uma criatura mágica rara. Minha criatura. Um companheiro com quem eu havia criado um vínculo quando criança. Liana disse que ele era violento, que a ameaçava. Marcus exigiu que eu provasse minha lealdade. Ele me fez dar a ordem para sua execução.

Eu compartilhava um vínculo mental com ele. Quando morreu, eu quase morri também.

E agora sua pele aquecia a mentirosa que orquestrou sua morte.

Liana percebeu para onde meu olhar havia ido. Um pequeno sorriso presunçoso tocou seus lábios enquanto ela se aninhava na pelagem, encostando-se em Marcus e choramingando de dor.

Qualquer resquício de dúvida nos olhos de Marcus desapareceu, consumido por uma fúria protetora.

Ele se voltou para mim, a expressão glacial.

— Você não é bem-vinda na minha casa, nem um único passo além da minha porta, até que esteja de joelhos implorando o perdão de Liana. Vamos ver quanto tempo esse seu orgulho teimoso dura.

Sorri então, um sorriso frio e fino.

— Você vai se decepcionar.

Eu tinha dois dias. Dois dias até me tornar a noiva do príncipe vampiro.

De repente, um estrondo ensurdecedor e o relinchar desesperado de cavalos ecoaram da rua lá fora. Pela porta aberta, vi uma carruagem, seus cavalos desgovernados, avançando direto em direção à entrada do Registro.

Marcus reagiu com a velocidade sobrenatural de sua linhagem — um traço diluído de herança de leão. Num borrão, ele ergueu Liana e saltou para o outro lado da sala, em segurança.

E, no salto, seu ombro me atingiu, fazendo-me perder o equilíbrio mais uma vez. Caí sobre as pedras da rua, uma dor aguda atravessou meu tornozelo. A carruagem desgovernada preencheu minha visão, os olhos apavorados do cocheiro, o peso esmagador das rodas.

Fechei os olhos. Era o fim. Um fim indigno e acidental.

Mas o impacto nunca veio.

Em vez disso, fui erguida. O mundo girou, depois se aquietou. O caos da rua se tornou um ruído distante.

Eu estava apoiada contra um peito. Um cheiro me envolveu — ar frio da noite, vinho envelhecido e um leve toque de ozônio, como o instante após um raio.

Abri os olhos.

Eu encarava um rosto meio oculto por uma máscara de couro negra. Mas os olhos — verdes.

Ele me colocou sobre um banco de pedra do outro lado da larga avenida. A carruagem fora de controle agora era um amontoado destruído bem mais adiante.

Antes que eu pudesse falar, antes mesmo de conseguir puxar um fôlego completo, ele já havia desaparecido. Uma sombra se dissolvendo nas sombras mais profundas de um beco.

Meu coração batia contra as costelas. Olhei para a rua. Marcus segurava Liana, limpando a poeira do manto dela, o rosto marcado pela preocupação.

Levei a mão ao bolso do vestido. Meus dedos se fecharam em torno de um pequeno frasco frio que eu não havia colocado ali. Tirei-o. Era um unguento. O rótulo, em caligrafia elegante, dizia: Para Queimaduras de Prata & Feridas de Brasa.

Uma risada histérica quase escapou da minha garganta. Eu a engoli.

Enfiei a mão na minha pequena bolsa. Meus dedos encontraram o peso familiar do anel de noivado de Marcus. Tirei-o, opaco sob a luz da tarde.

Sem pensar duas vezes, puxei o braço para trás e o lancei. Ele descreveu um arco alto e cintilante antes de desaparecer com um leve mergulho nas águas turvas do bueiro.
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