LOGINAssim como o primeiro ano de Aurora passou voando, os anos seguintes também chegaram com aquela maneira peculiar de transformar tudo ao nosso redor, sem que percebêssemos a rapidez com que o tempo avançava.A vida que construímos juntos jamais poderia ter sido imaginada por aquele homem que, durante tantos anos, acreditou que o sucesso era a única medida de uma existência feliz. Hoje, compreendo que os anos mais importantes da minha vida foram justamente aqueles que nunca planejei.Aurora cresceu diante dos meus olhos. Minha pequena princesa, que um dia corria pelos corredores da mansão com os primeiros passinhos desajeitados, agora tinha dez anos. Delicada como a mãe, dona de uma personalidade tão forte quanto a minha e, talvez por se parecer tanto comigo, era também idêntica a Amélie naquela idade.A mansão Collins continuava sendo nosso lar, embora algumas coisas tivessem mudado. Meu avô Edward já não estava conosco, e sua ausência havia deixado um silêncio em mim que nenhuma quant
Aproximei-me em silêncio e envolvi Rafaela pela cintura, inclinando o rosto para junto de seu ouvido.— Está feliz? — perguntei baixinho.— Muito... Mais do que jamais imaginei ser — respondeu, virando-se para mim e aconchegando o rosto contra meu peito.Beijei seus cabelos e permaneci com os braços ao redor dela, observando a movimentação no jardim. A mansão estava completamente diferente daquela que eu conhecera durante tantos anos. As luzes douradas iluminavam os caminhos entre as árvores, os convidados conversavam animadamente e a música da orquestra preenchia cada canto da propriedade.Era difícil acreditar que aquele lugar, antes tão silencioso, pudesse guardar tanta alegria.— Você se lembra de como era esta casa na primeira vez que te trouxe aqui? — perguntei, olhando para toda aquela movimentação.Rafaela ergueu o rosto, e um sorriso divertido surgiu em seus lábios.— Como eu poderia esquecer o olhar de desaprovação da sua mãe? — brincou, fazendo-me sorrir. — Parece outra cas
Quando o sol começou a desaparecer atrás das árvores, a mansão Collins se transformou.A luz do dia cedeu lugar à iluminação dourada que contornava os jardins, enquanto os lustres da entrada principal refletiam o brilho dos cristais. Os músicos já haviam começado a tocar, e a melodia suave alcançava o andar superior, misturando-se à movimentação dos funcionários que ajustavam os últimos detalhes da recepção.Em nosso quarto, meu smoking preto estava cuidadosamente separado sobre a cama. Eu ainda terminava de abotoar a camisa quando Rafaela surgiu diante de mim.Ela usava um vestido longo em tom champagne, delicadamente ajustado à cintura, cujo tecido caía com elegância até os pés. Os cabelos negros estavam presos em um penteado sofisticado, deixando algumas mechas suaves emoldurarem seu rosto. As joias discretas realçavam ainda mais sua beleza, mas nada daquilo se comparava ao sorriso que sempre fora sua marca registrada.— Você está linda — murmurei, aproximando-me.— Você também não
A recuperação de Edward exigiu paciência, mas os dias se encarregaram de trazer a melhora que tanto esperávamos. Quando finalmente voltou para casa, senti como se pudesse respirar novamente. Aos poucos, meu avô retomou sua rotina, voltou a circular pela mansão e, em pouco tempo, já estava acompanhando os negócios da família, ainda que eu insistisse para que respeitasse os próprios limites.Rafaela e eu decidimos manter nossa cobertura em Manhattan. Ela tentou convencer Lili a se mudar para Londres e continuar trabalhando conosco, mas, depois de tantas conversas, Lili deixou claro que preferia permanecer em Nova York, cuidando de tudo por lá. Já estava acostumada à rotina e não queria abandonar o que havia construído. Respeitamos sua decisão e seguimos com os planos.Eu continuava atendendo na obstetrícia do Edward Collins, em Manhattan, embora com menos frequência. Em Londres, assumi oficialmente a administração dos negócios da família. Quando necessário, fazia viagens para Nova York,
Quando chegamos ao hospital, seguimos diretamente para a ala da cardiologia.Ao entrar no quarto, encontrei Edward ainda pálido, com fios conectados ao corpo e os aparelhos monitorando cada batimento de seu coração. A imagem me apertou o peito, embora soubesse que ele estava recebendo os cuidados necessários.— Que bom que chegou, meu filho... — Michael falou assim que me viu pela porta.Assenti discretamente e entrei de braços dados com Rafaela.— Vamos deixá-los um pouco a sós — minha mãe sugeriu, tocando meu braço.Meus pais saíram, acompanhados por Rafaela, que me lançou um olhar carinhoso antes de fechar a porta.O silêncio tomou conta do quarto, interrompido apenas pelos sons regulares dos equipamentos.Aproximei-me da cama devagar. Edward estava acordado, e seus olhos cansados acompanharam meus passos até que parei ao lado dele.— Grand-Bear... — murmurei, acariciando seus cabelos brancos.Um sorriso discreto surgiu em seus lábios.— Foi só um susto, garoto. Achou mesmo que eu
No topo da escada, avistei a silhueta de Addison de costas. Mesmo sem ver seu rosto, eu reconheceria aquela postura em qualquer lugar.— Addison! — chamei, começando a descer os degraus.Ao ouvir minha voz, ela se virou em minha direção. Desci apressadamente, com Rafaela logo atrás de mim.Eu já estava sem paciência para conversas irrelevantes. Se Addison havia deixado o hospital para me procurar, precisava ter uma razão importante.Caminhei em sua direção, sustentando seu olhar, até parar diante dela.— Diga de uma vez, doutora Sinclair. Sem rodeios. Imagino que não tenha atravessado a cidade de madrugada apenas para tomar café da manhã comigo.Meu tom saiu autoritário, quase abusado, mas não me importei. A noite inteira havia sido uma sucessão de angústias, e minha tolerância para qualquer coisa que não fosse uma resposta direta estava praticamente esgotada.Addison não desviou os olhos. Apesar do cansaço evidente em seu rosto, manteve a postura firme. Havia, contudo, algo diferente







