MasukCONTINUAÇÃO...Quando meus olhos focaram na imagem congelada, a minha expressão travou. A câmera não tinha registrado o embarque nem o momento em que o carro parou. O único registro captado era de um carro prata já em movimento, cruzando rapidamente o limite do enquadramento. Não dava pra ver o motorista, os passageiros ou qualquer detalhe do interior do veículo. Mas a placa... a placa estava perfeitamente nítida na tela de alta definição.— É o carro, Barão! Foi nesse carro prata que ela entrou! — o médico gritou, trêmulo, apontando pras letras e números na tela. — É a nossa pista!Olhei pra aquela sequência de letras e números no monitor, sentindo um sorriso cruel se desenhar no meu rosto. O jogo tinha mudado.— Tilápia, pega esse número de placa — falei, com a voz saindo mansa, cheia de veneno. — Joga no sistema dos nossos contatos. Eu quero o nome e o endereço do dono desse carro na minha mesa antes do sol cair.Fiquei ali na clínica, andando em círculos pela sala, esperando o ret
BARÃO NARRANDOO sol do meio-dia fritava o asfalto, mas a minha mente tava mais fria que o gelo. O Corolla blindado parou bruscamente na esquina que o médico safado tinha indicado, com os outros carros do bonde fechando a rua logo atrás. Eu desci primeiro, com a mão na cintura e os olhos vasculhando por cada detalhe daquela calçada.— Foi bem aqui, Barão! — o médico gaguejou, apontando com a mão trêmula para a frente de uma padaria e de um comércio de esquina. — Ela estava em pé bem ali, conversando com alguém de dentro do carro prata, e depois ela entrou e eles sumiram naquela direção!Olhei pro alto, mapeando o local. Meu instinto de liderança nunca falha. Sorri de canto ao ver o que eu queria: uma câmera de segurança bem na fachada da padaria e outra no comércio.— Tilápia, se mexe! — ordenei, a voz saindo cortante. — Entra nessa porra aí agora. Quero que vocês peguem tudo. Arranquem os aparelhos de gravação e os HDs. Não deixem um rastro pra trás. Se o dono chiar, diz que é ordem
MELISSA NARRANDOO carro parou com cuidado no começo da nossa subida, perto da principal ladeira do morro. Segurei o meu saco de náilon com força, ajeitando as latinhas pra não fazer muito barulho, e abri a porta do passageiro, sentindo o ar quente do morro bater no meu rosto de novo.— Nossa, Tânia, muito obrigada mesmo pela carona — falei, olhando pra ela com o coração cheio de gratidão. — Você me poupou uma subida daquelas com esse peso todo.Tânia abriu um sorriso doce e balançou a mão, desfazendo o favor.— Que isso, Melissa, não precisa agradecer por nada! Aliás, deixa eu te falar... Depois eu vou dar uma passada lá na sua casa. Estou arrumando o meu guarda-roupa e separei umas roupas que não estão servindo mais pra mim. Estão novinhas, vou levar pra você.— Poxa, Tânia... eu nem sei como te agradecer. Vai ajudar demais.Tânia me olhou de cima a baixo, com uma carinha de preocupada, e soltou um suspiro.— Eu só não sei se vão servir direitinho em você, Melissa... Você está tão m
MÉDICO NARRANDOO cano da pistola do Barão estava colado na minha testa. O metal estava congelado, mas a sensação de que o meu crânio ia explodir a qualquer segundo era o que me fazia tremer por inteiro. Olhei para o lado de relance e vi os capangas dele, incluindo o Tilápia, espalhando gasolina pelo corredor. O cheiro forte do combustível já tomava conta do ar. Eu estava a um triz da morte.— Desenrola essa história rápido, doutor — a voz do Barão veio como um trovão baixo na minha cara. — Onde é que o meu filho tá?— Eu vi ela, Barão! Eu juro por Deus! — falei com a voz embargada, as palavras atropelando umas às outras no puro desespero. — Eu saí para tomar um café, para esfriar a cabeça, e vi a garota na calçada, a duas quadras daqui! Eu reconheci o rosto dela na hora, era a mesma menina do dia da inseminação!Engoli em seco, sentindo o cano da arma pressionar ainda mais a minha pele.— Mas... mas ela entrou num carro prata antes que eu conseguisse chegar perto! Eu gritei o nome de
BARÃO NARRANDOO prazo acabou.Não teve ligação, não teve radinho tocando com notícia boa, não teve porra nenhuma. Aqueles engomados do asfalto acharam que a palavra do dono do morro era brincadeira.— Tilápia! Junta o bonde! — berrei do alto da escada do QG, a voz ecoando com o peso da morte. — Passou da hora. Pega os galões de gasolina, pega as peças pesadas. A gente vai descer e vai apagar aquela clínica do mapa com todo mundo dentro.Os moleques não pensaram duas vezes. O pátio do QG virou um inferno de barulho de ferrolho batendo e motor de carro roncando. Entramos em três carros blindados, com o bonde pesado na contenção. Eu ia no banco do carona do primeiro veículo, com o olhar fixo no asfalto lá embaixo, segurando o ódio que parecia rasgar o meu peito. Ninguém brinca com o meu sangue. Ninguém faz o Barão de otário.O trajeto até a clínica foi rápido. Quando os três carros embicaram na calçada travando a rua, os meus caras que já tavam de vigia desde a noite anterior se juntara
MÉDICO NARRANDOA luz da manhã começou a invadir a recepção destruída, e cada raio de sol que entrava parecia uma facada no meu peito. Eu não tinha dormido um segundo sequer. Olhei para o diretor, que estava com os olhos fundos, a camisa amassada e os cabelos totalmente bagunçados. O prazo estava se esgotando.— Não tem mais o que fazer... — falei, a voz fraca, saindo num fio de desespero. — Não tem registro, não tem câmera, não tem nada. Agora é só esperar. É esperar o Barão chegar com aquele bando armado para acabar com a nossa vida. A gente já está morto.O diretor levantou a cabeça devagar, os olhos injetados de sangue. Ele me olhou com um ódio que eu nunca tinha visto antes. De repente, ele avançou na minha direção como um animal raivado, me prensando contra o balcão.— A culpa é sua! — ele berrou na minha cara, me sacudindo pelo jaleco sujo. — Tudo isso que está acontecendo é culpa sua, seu incompetente! Se você tivesse olhado a droga da identidade da garota, se tivesse confirma







