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Já Estamos Divorciados. Por Que Ainda Me Quer?
Já Estamos Divorciados. Por Que Ainda Me Quer?
Penulis: Jinny Cacá

Capítulo 1

Penulis: Jinny Cacá
As chamas tingiam de vermelho o céu noturno, enquanto grossas colunas de fumaça negra subiam sem cessar.

Helena Duarte foi colocada na ambulância, ofegante. Cada respiração fazia seu peito arder como se estivesse em carne viva.

Reunindo o pouco de força que ainda lhe restava, levou o celular com a tela estilhaçada ao ouvido, a mão trêmula.

O sinal de chamada se repetiu.

Uma vez.

Duas.

Ninguém atendeu.

O medo de morrer, somado à dor lancinante que parecia atravessar cada parte de seu corpo, fazia Helena tremer sem controle.

Foi quando uma voz masculina, familiar e serena, chegou aos seus ouvidos.

— Não tenha medo. Eu cheguei.

Mas a voz não vinha do celular.

Vinha de...

Do outro lado da multidão agitada, entre policiais, curiosos e o piscar frenético das luzes das viaturas, uma figura alta avançava em sua direção.

Leonardo Valença devia ter saído às pressas do evento assim que recebeu a notícia. Ainda vestia um terno escuro de alta-costura, impecável demais para aquele cenário caótico. Sua elegância fria destoava por completo da confusão ao redor.

Dono de uma aparência marcante, Leonardo costumava manter uma expressão tão fria e distante que parecia impossível se aproximar dele.

Naquela noite, porém, suas feições estavam tensas.

Pela primeira vez, parecia verdadeiramente preocupado.

Assim que Helena o viu, a força que a sustentara até ali desapareceu.

Todo o medo acumulado enquanto estivera à beira da morte, misturado à dor e ao ressentimento, veio à tona de uma só vez. Seus olhos se encheram de lágrimas.

Foi justamente quando o médico perguntou:

— Conseguiu falar com algum familiar?

— Sim, meu marido...

Helena mal havia começado a responder quando uma voz feminina, doce e manhosa, a interrompeu.

— Leo! Finalmente! Todo mundo aqui está me tratando mal!

A mulher correu até Leonardo e se jogou em seus braços.

Usava um moletom largo, de corte masculino, que havia escorregado de um dos ombros e deixava parte da pele à mostra.

Com as bochechas infladas de indignação, deu um soco leve no peito dele. Parecia irritada, mas a voz continuava carregada de mimo.

— Ei, Leonardo! Eu ainda sou sua amiga ou não? Por que demorou tanto? Quase acabaram comigo aqui!

Leonardo a examinou dos pés à cabeça, certificando-se de que ela não estivesse ferida.

Só então a tensão em seu rosto diminuiu.

Ele tirou o paletó e o colocou sobre os ombros da jovem. Um leve sorriso surgiu em seus lábios, indulgente de um jeito impossível de ignorar.

— Comigo aqui, ninguém vai mexer com você.

Um dos policiais ao lado não conseguiu esconder a indignação.

— Moça, a senhora precisa se responsabilizar pelo que diz! Foi a senhora quem fumou numa área proibida e depois jogou a bituca de qualquer jeito, provocando o incêndio. Se os bombeiros não tivessem chegado a tempo, sabe-se lá quantas pessoas...

A mulher não o deixou terminar.

— Mas ninguém morreu, né? Pra que falar assim comigo? Eu já disse que vou pagar pelos danos. Com que direito você fica me ameaçando?

A reação dela irritou ainda mais o policial. Ele avançou para contê-la, mas Leonardo imediatamente se colocou no caminho.

Protegeu a mulher atrás de si enquanto dizia alguma coisa ao agente.

Helena já não conseguia ouvir.

Sua mente havia ficado em branco.

O resto do mundo parecia ter desaparecido. Tudo o que restava era um zumbido agudo e interminável em seu ouvido esquerdo.

O médico acompanhou a direção de seu olhar.

— Onde está seu familiar? É aquele casal ali? Seu estado não está bom. Precisamos levá-la ao hospital imediatamente...

Os lábios de Helena se moveram, mas nenhum som saiu.

Ela apenas ficou olhando enquanto Leonardo erguia a mulher nos braços com facilidade e caminhava, a passos firmes, em direção ao Bentley preto estacionado não muito longe dali.

— Não... Não são eles. Doutor, obrigada. Podemos ir. Eu mesma assino os documentos.

Quando a porta da ambulância começou a se fechar, Leonardo virou o rosto para onde Rafael, seu assistente, apontava.

BAM!

A porta se fechou com força, cortando sua visão por completo.

...

Quem era aquela mulher que havia provocado o incêndio?

E que relação ela tinha com Leonardo?

Deitada na cama do hospital, Helena não conseguia tirar da cabeça a imagem dele abraçando aquela desconhecida.

A forma como Leonardo a olhara...

Suave. Quase luminosa.

Havia proteção e carinho demais naquele olhar para que Helena pudesse fingir que não tinha visto.

Nos três anos de casamento, ele sempre fora atencioso com ela. Cuidadoso em cada detalhe, a ponto de nunca permitir que lhe faltasse nada.

Depois que se casaram, Leonardo não deixava que Helena fizesse sequer uma tarefa doméstica. Como ela não se sentia à vontade sendo servida por empregados, ele próprio cuidava de tudo.

Quando se tratava de dinheiro, era ainda mais exagerado, como se temesse que ela algum dia pudesse se sentir privada de alguma coisa. Helena querendo ou não, seu closet estava sempre cheio das bolsas e joias mais recentes das grandes grifes, e os vários cartões black que ele lhe dera jamais tiveram limite.

Mas, quanto mais impecável Leonardo era, mais distante parecia.

Perfeito demais.

Tão perfeito que, às vezes, Helena tinha a impressão de estar assistindo a uma peça cuidadosamente ensaiada, na qual ele apenas cumpria com dedicação o papel de marido.

Até aquela noite.

Pela primeira vez, ela havia visto nele uma emoção tão genuína. Tão viva.

Então Leonardo também sabia olhar para alguém daquele jeito.

Será que havia se casado com ela apenas porque...

— Helena, você nunca ouviu nada pelo ouvido esquerdo? É algo de nascença?

A voz do médico interrompeu seus pensamentos.

Ele observava com preocupação a bela mulher deitada diante dele, ainda coberta de fuligem, com as roupas em péssimo estado e os vestígios do susto no rosto.

Helena voltou a si e baixou os olhos.

— Foi por causa de um acidente de carro, alguns anos atrás.

Naquele acidente, ela havia salvado Leonardo.

Tornara-se a mulher que lhe salvara a vida.

Em troca, porém, perdera para sempre a carreira que tanto amava.

A perda completa da audição no ouvido esquerdo e as crises de zumbido que voltavam de tempos em tempos haviam tornado impossível continuar trabalhando no mais alto nível da interpretação simultânea.

Helena sofrera muito com isso.

Mas nunca se arrependera.

Muito menos guardara ressentimento.

Salvar Leonardo tinha sido puro instinto.

Mesmo que pudesse voltar no tempo, antes que sua mente tivesse a chance de calcular as consequências, seu corpo ainda reagiria da mesma forma: empurraria Leonardo para longe do perigo sem hesitar.

O médico soltou um suspiro pesaroso.

— Entendo...

A mulher diante dele era bonita demais para passar despercebida.

Os olhos eram límpidos, as feições delicadas, o nariz bem desenhado e os lábios naturalmente rosados.

Mesmo apenas recostada na cama do hospital, usando roupas simples e quase nenhum acessório, Helena mantinha os ombros eretos e uma elegância fria e marcante que inevitavelmente chamava atenção.

Talvez a vida funcionasse mesmo assim.

Quando dava algo extraordinário a alguém, acabava levando outra coisa em troca.

— Helena, os resultados dos exames saíram. Seus pulmões não apresentam sinais de infecção, mas os ferimentos externos são consideráveis. Você também sofreu uma concussão leve...

O médico fez uma pausa e olhou ao redor.

— E sua família? Ainda não chegou ninguém?

Helena ficou em silêncio por alguns segundos.

— Obrigada, doutor. Vou entrar em contato agora.

Pegou o celular. Apesar da tela estilhaçada, o aparelho ainda emitia uma luz fraca.

Nenhuma chamada recebida.

Já haviam se passado três horas desde que ela tentara falar com Leonardo mais de dez vezes.

Nenhum retorno.

Uma pressão sufocante tomou conta de seu peito.

Helena apertou os dedos ao redor do celular.

Estava prestes a tocar no primeiro nome da lista de contatos quando a porta do quarto foi aberta com um chute violento.

BAM!!

O estrondo rompeu o silêncio do hospital naquela madrugada.

Vários homens de terno preto, com aparência de seguranças particulares, invadiram o quarto.

Os outros pacientes, todos feridos no mesmo incêndio, começaram a reclamar da invasão e do barulho.

O médico fechou a expressão e foi até eles.

— O que vocês pensam que estão fazendo? Quem autorizou vocês a...

Nem conseguiu terminar.

Dois seguranças o agarraram pelos braços, um de cada lado, e o arrastaram para fora à força.

A demonstração de força deixou todos no quarto em alerta.

Alguém perguntou, assustado:

— O que vocês pretendem fazer? Existem leis neste país!

O homem de terno que liderava o grupo fechou a porta, trancou-a e abriu um sorriso cordial demais para a situação.

— Não precisam ficar nervosos. Vim em nome da Srta. Nogueira para saber como vocês estão e, de quebra, trazer uma pequena compensação...

Ele abriu a pasta e retirou alguns cheques.

— Cada cheque é de quinhentos mil. Uma demonstração de boa vontade da Srta. Nogueira. Naturalmente, em troca, vocês só precisam fazer um pequeno favor para ela.

Os seguranças acompanharam seus movimentos, retirando vários documentos e indo de leito em leito.

— Basta assinar aqui e os quinhentos mil são seus.

Ao ouvir o valor, alguns pacientes arregalaram os olhos. Depois de confirmarem que os cheques eram verdadeiros, assinaram sem pensar duas vezes, radiantes.

Outros, porém, se indignaram.

— Essa Srta. Nogueira de quem você está falando é aquela mulher que provocou o incêndio e ainda teve a cara de desafiar a polícia lá fora, não é? Acha que quinhentos mil vão comprar nosso silêncio? Nem pense nisso! Uma pessoa dessas tem que responder criminalmente!

O homem de terno soltou uma risada fria. O sorriso em seu rosto ganhou um tom de deboche.

— Talvez você não conheça a Srta. Nogueira. Mas com certeza já ouviu falar do Sr. Valença, não é?

Helena estava deitada no leito mais afastado.

No instante em que ouviu aquele nome, um cheque foi colocado em sua mão.

Ela baixou os olhos.

Viu a conta de origem impressa no documento.

Seus dedos se fecharam em torno do papel até os nós ficarem brancos.

Era a conta de Leonardo.

A voz do homem voltou a ecoar pelo quarto, dessa vez sem sequer tentar disfarçar a ameaça:

— A Srta. Nogueira é a esposa do Sr. Valença. Ele a trata como se fosse a coisa mais preciosa da vida dele. Vocês não têm condições de mexer com alguém assim. Então é melhor assinar o acordo, pegar o dinheiro e ir embora enquanto ainda estamos resolvendo isso numa boa.

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