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Capítulo 7

Author: Jinny Cacá
Quando Helena chegou ao local do evento, a cúpula já estava pela metade.

Encontrou um lugar vazio e se sentou. Pouco depois, ouviu algumas garotas cochichando ao lado.

— Gente, olha o Sr. Valença... Ele é lindo demais. Será que depois dá para pedir uma foto com ele?

— Se controla. Não está vendo que a esposa dele está sentada bem ali?

— E como você sabe que aquela é a esposa dele? Quando o Sr. Valença assumiu o relacionamento no Instagram, nem mostrou o rosto dela...

Uma das garotas abaixou a voz, cheia de convicção:

— Intuição. Quando alguém gosta de verdade de outra pessoa, não consegue esconder. Olha o jeito que o Sr. Valença olha para ela. Esses dois têm alguma coisa, com certeza!

Em seguida, tocou de leve no braço de Helena.

— Moça, olha ali. Você não acha que aqueles dois parecem um casal? Eles têm uma química incrível, não têm?

Helena acompanhou a direção do olhar.

Leonardo estava sentado na primeira fila. Naquele instante, entregava um copo d'água a Camila e dizia alguma coisa em voz baixa, com uma atenção quase íntima.

Helena desviou os olhos por um segundo.

— Sim. Parecem.

A garota abriu um sorriso triunfante.

— Eu não falei? Dá para perceber de longe...

Helena se levantou. Precisava sair dali e respirar um pouco.

Foi quando uma voz masculina, grave e agradável, ecoou pelo auditório.

O inglês fluente acompanhava a fala do palestrante com precisão, frase após frase, sem uma única hesitação.

Helena parou.

Todo o seu corpo enrijeceu.

A garota ao lado parecia conhecer muito bem os bastidores daquele meio. Baixou a voz, mas não conseguiu esconder a empolgação.

— Vocês sabem quem o Grupo Queiroz contratou para fazer a interpretação simultânea desta vez?

Outra respondeu quase num gritinho:

— É o Vicente! O antigo parceiro estrela da Sofia! Meu Deus!

As vozes ao redor continuaram, mas Helena já não ouvia mais nada.

Só aquela voz.

Tão familiar.

Calma, segura, perfeitamente controlada. A mesma voz de alguém que sempre parecia dominar qualquer situação.

A dor que ela havia enterrado durante tanto tempo veio à tona de uma vez.

Dessa vez, não houve como sufocá-la.

Mesmo depois que a voz masculina deixou de soar pelos alto-falantes, Helena permaneceu imóvel, incapaz de se recompor.

— Meu Deus, o Sr. Valença vai subir ao palco!

— Quem será que o Grupo Monteluz contratou para a interpretação simultânea? Não dá para ficar atrás do Grupo Queiroz logo agora, né?

— Será que conseguiram trazer a Sofia?

Helena voltou a si.

Seu olhar esfriou.

Sem hesitar, seguiu direto para a cabine de interpretação simultânea nos fundos do auditório.

A "Sofia" que Camila havia prometido trazer deveria estar lá dentro.

Helena olhou através do vidro e parou.

A cabine estava vazia.

Completamente vazia.

Leonardo já havia subido ao palco, mas não havia ninguém diante dos equipamentos.

Foi então que a voz aflita de Camila surgiu atrás dela.

— Meu Deus, o que eu faço agora? Por que a Sofia não atende? Será que ela ainda não chegou?

Camila apertava o celular com força. Os olhos estavam avermelhados, e ela tentava ligar de novo e de novo.

Helena ergueu uma sobrancelha.

Tinha imaginado que Camila, no mínimo, apareceria com alguma impostora fingindo ser Sofia.

Pelo visto, havia superestimado muito a capacidade dela.

Agora, se o talento era colocar Leonardo em apuros, nisso Camila realmente se superava.

Helena voltou os olhos para o palco.

Leonardo já estava posicionado diante do púlpito, concentrado como sempre.

Ele havia passado quase duas semanas sem dormir direito por causa daquela cúpula.

Com a capacidade que tinha, tudo deveria terminar sem nenhum imprevisto. Ele deveria encerrar o evento com perfeição e levar o Grupo Monteluz a um novo patamar.

Helena desviou o olhar e se virou para ir embora.

Gustavo segurou seu braço.

— Helena! Você não estudou tradução? A intérprete do Leo ainda não chegou. Entra lá e quebra esse galho por enquanto!

Ela franziu a testa, incrédula.

— Vocês nem prepararam um substituto?

Já à beira do desespero, Camila se virou para ela.

— Para de ficar aí fazendo comentário sarcástico! Eu sei muito bem que você só está esperando para rir da minha cara!

Helena ficou sem palavras por um instante.

Leonardo tinha escolhido confiar cegamente naquela amiga dele. Se aquilo acabasse mal, seria consequência da própria escolha.

Ela se soltou da mão de Gustavo.

— Desculpa. Eu praticamente não ouço de um dos ouvidos. Não posso ajudar.

Gustavo ficou ainda mais aflito.

— Helena, o que você quer dizer com isso? Eu já pedi desculpas ontem! Está fazendo isso de propósito para se vingar? Vai mesmo ficar olhando todo o esforço do Leo ir por água abaixo depois de tudo que ele fez por esse evento?

Helena soltou uma risada curta.

— E agora sou eu quem está fazendo o esforço dele ir por água abaixo?

Gustavo não tinha mais tempo para discutir.

Num impulso, empurrou Helena para dentro da cabine.

— Está cheio de concorrentes do Grupo Monteluz aqui. Ninguém vai emprestar intérprete para a gente... Você ainda escuta pelo ouvido direito, não escuta? Traduz o que conseguir!

BAM!

A porta se fechou atrás dela.

O burburinho do auditório desapareceu imediatamente, bloqueado pelo vidro grosso à prova de som. Dentro da pequena cabine, restou apenas o zumbido baixo dos equipamentos.

Helena recuperou o equilíbrio.

Seu olhar caiu sobre a bancada.

Duas cadeiras profissionais lado a lado.

O revestimento antiderrapante cinza-claro sobre a mesa.

O painel de controle embutido no centro.

O microfone.

Tudo exatamente como ela se lembrava.

Talvez fosse memória muscular.

Antes mesmo de perceber o que estava fazendo, Helena já havia caminhado até a mesa.

Colocou os fones com destreza, ajustou o áudio e selecionou o canal do palestrante.

Os movimentos saíram tão naturais que parecia que ela nunca tinha abandonado aquela profissão.

Só quando o microfone ultrassensível captou sua respiração é que Helena voltou à realidade.

Não.

Ela não podia fazer aquilo.

No estado em que estava, simplesmente não tinha condições de assumir uma interpretação simultânea.

Seu ouvido esquerdo era uma bomba-relógio.

O zumbido podia voltar a qualquer instante.

Ela não ia conseguir.

Tomada pelo pânico, Helena ergueu as mãos para tirar os fones.

Uma mão quente cobriu a sua.

Ela congelou.

Ergueu os olhos.

O homem diante dela era alto, de postura impecável. O terno preto realçava os ombros largos e a silhueta elegante, enquanto a iluminação da cabine desenhava os contornos firmes de seu rosto.

Havia nele uma presença silenciosa e dominante, impossível de ignorar.

Ele não disse nada.

Pegou o outro par de fones, colocou-o e se sentou na cadeira ao lado.

Então abriu a lista de termos.

Exatamente como tantos anos atrás.

Fez apenas algumas anotações rápidas, tocando a ponta da caneta no papel.

Pouco a pouco, a tensão sufocante dentro da cabine cedeu espaço a algo que Helena conhecia bem demais.

Uma sintonia silenciosa.

Familiar.

Helena fechou os olhos.

Quando tornou a abri-los, a hesitação havia desaparecido.

Pressionou o fone contra o ouvido direito e concentrou toda a atenção na voz de Leonardo, bloqueando qualquer outro pensamento.

A voz feminina, clara e estável, e a voz masculina, grave e serena, passaram a se alternar pelo auditório em perfeita sintonia.

Milhares de pessoas na plateia ouviam em absoluto silêncio, completamente envolvidas pela fluidez entre o discurso e a interpretação, sem imaginar o que se passava do outro lado daquele vidro.

Durante aqueles quarenta minutos, Helena esqueceu Leonardo.

Esqueceu Camila.

Esqueceu a audição comprometida.

Esqueceu até as cicatrizes que carregava por dentro.

Ali, ela não era esposa de ninguém.

Também não era uma mulher que mal ouvia de um dos lados.

Era apenas Helena.

Uma intérprete simultânea inteira em sua profissão, voltando a ocupar o lugar onde um dia havia brilhado.

O discurso de Leonardo se aproximava do fim.

Helena finalmente soltou o ar em silêncio. Os dedos, até então tensos, começaram a relaxar.

Foi quando a voz dele surgiu nos fones.

Leonardo improvisava.

Aquela fala não estava no roteiro.

— O Grupo Monteluz não teria chegado aonde chegou sem uma pessoa a quem eu preciso agradecer...

Helena conteve a respiração sem perceber.

— Ela é uma das pessoas mais próximas de mim, minha melhor companheira. Está ao meu lado há muitos anos...

O aperto no peito começou antes mesmo de ele terminar.

— Sem ela, não existiria o Monteluz que vocês conhecem hoje. E talvez nem existisse o Leonardo que está diante de vocês...

A risada baixa de Leonardo soou nítida demais em seus fones.

Então ele disse, palavra por palavra:

— Obrigado, Cami.

Zummm...

O mundo de Helena pareceu parar.

Por um instante, sua mente ficou completamente em branco.

Toda a mágoa e a decepção acumuladas comprimiram seu peito de uma vez, tornando até a respiração dolorosa.

Do outro lado do vidro, o auditório inteiro foi tomado por uma onda de exclamações.

Helena cravou as unhas na palma da mão.

Seu rosto, porém, não revelou nada.

E sua voz permaneceu perfeitamente estável quando traduziu, com absoluta precisão:

— Thank you, Cami.

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