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Capítulo 6

Author: Jinny Cacá
Camila encarou Helena.

— O quê? Não vai me dizer que você também conhece a Sofia, vai?

Inclinou a cabeça e soltou uma risadinha.

— Ouvi dizer que você também trabalhava como intérprete antes, Helena. Mas uma intérprete comum dificilmente teria acesso a alguém do nível dela, não acha?

A provocação não pareceu afetar Helena. Ela apenas respondeu, num tom que dizia mais do que as palavras:

— Tenho certeza de que a Sofia conhece você. E estou bastante curiosa para ver se vai mesmo conseguir trazê-la até aqui.

Camila soltou um muxoxo satisfeito e se virou para Leonardo.

— Leo, pode ficar tranquilo. A Sofia está no país agora. Amanhã à noite, na etapa final, eu com certeza consigo chamá-la para fazer a interpretação simultânea exclusivamente para você!

Leonardo sorriu.

— Certo.

Aquele sorriso indulgente, cheio de carinho, incomodou Helena mais do que deveria.

Sem disposição para continuar ali, ela se virou e foi embora.

Quando saiu do salão reservado, a noite já havia tomado conta da cidade.

Nuvens pesadas escondiam a lua, enquanto o vento frio cortava a rua. Sob o céu escuro, até as luzes de néon pareciam menos intensas.

Um Bentley preto se aproximou por trás e parou ao lado dela.

O vidro baixou, revelando Leonardo.

— Entre.

Helena lançou um olhar para Camila, acomodada no banco do passageiro com um sorriso no rosto, e respondeu sem hesitar:

— Não precisa.

Leonardo franziu a testa.

— Helena, a essa hora da noite, você realmente vai fazer uma cena aqui fora?

Camila estalou a língua, impaciente.

— Leo, deixa ela chamar um carro e ir embora sozinha. Mulher dá trabalho demais!

Agarrou-se ao braço dele e o sacudiu de leve.

— Você ainda lembra daquele bar que a gente frequentava antes de eu ir para o exterior? Faz tanto tempo... Vamos lá de novo hoje? Vai, por favor?

Leonardo olhou para Helena.

— Vou mandar o motorista vir buscar você.

O vidro voltou a subir, escondendo o rosto de Leonardo. Em seguida, o Bentley arrancou e desapareceu na noite.

Uma rajada de vento gelado atravessou o casaco de Helena, fazendo-a estremecer.

Ela pegou o celular para chamar um carro, mas só então percebeu que a tela rachada já nem acendia.

Tinha quebrado de vez.

Uma voz arrastada pelo álcool surgiu atrás dela.

— Cara, olha aquela mulher ali. Não é a mesma do hospital da outra vez?

Helena ficou alerta na mesma hora. Sem se virar, apressou o passo em direção à entrada iluminada do salão.

Não adiantou.

Os dois homens vieram atrás dela e logo bloquearam seu caminho.

— Então era você mesma!

O homem de terno estava com o rosto vermelho de bebida. Assim que a reconheceu, começou a xingá-la.

— Foi por sua culpa! Ontem você se recusou a assinar e eu só recebi metade do dinheiro... Sua desgraçada, hoje você vai assinar de qualquer jeito...

Ele avançou para agarrá-la.

Helena recuou.

— O que você está fazendo é ilegal. Tem câmeras por toda parte. Mesmo que me obrigue a assinar, isso não vai ter validade nenhuma.

Mas ele estava bêbado demais para ouvir qualquer argumento.

— Foda-se! Eu não quero saber! Tenho meus meios de fazer você assinar por bem ou por mal!

No instante em que ele tentou segurá-la, Helena pisou com toda a força no pé dele.

O homem berrou de dor.

Ela não esperou mais um segundo. Virou-se e correu.

Não ousou olhar para trás. Só pensava em colocar a maior distância possível entre eles.

A respiração ficou cada vez mais curta, e um gosto metálico subiu pela garganta. Helena já nem sabia havia quanto tempo estava correndo quando um carro parou ao seu lado.

Ela se virou num sobressalto.

Era um Maybach cinza-escuro.

O carro de Leonardo.

O vidro baixou, e Mauro, motorista de Leonardo, a encarou com preocupação.

— Senhora, o que aconteceu? Quer que eu entre em contato com o senhor Leonardo?

Helena baixou os olhos. Quando respondeu, sua voz não deixou transparecer nada.

— Não precisa. Ele está ocupado agora.

O Residencial Monte Sereno era o condomínio mais luxuoso de Nova Aurora.

Quando Helena chegou, a enorme mansão estava mergulhada na escuridão.

Ela acendeu todas as luzes.

A luz quente tomou a sala de pé-direito alto, refletindo no piso de mármore e destacando cada detalhe da decoração que Helena escolhera ao longo dos últimos três anos.

Aquela havia sido a primeira casa que Helena realmente considerara um lar.

Cada móvel, cada objeto, cada pequeno detalhe carregava alguma marca do cuidado que ela dedicara àquele lugar.

Tinha voltado decidida a separar suas coisas.

Mas, diante de tudo aquilo, de repente não soube por onde começar.

O som da porta se abrindo quebrou o silêncio.

Leonardo surgiu no hall e lançou um olhar pela casa iluminada até encontrá-la na cozinha.

Aproximou-se por trás e passou os braços ao redor dela.

— Uma mulher adulta e ainda tem medo do escuro?

O cheiro fresco e familiar dele vinha misturado a um perfume feminino doce demais.

O estômago de Helena se revirou.

Ela se soltou do abraço e o empurrou para longe.

— Me solta. Não me obrigue a vomitar em cima de você.

Leonardo riu baixo.

— Vomitar? Pelo que eu me lembro, já faz um tempo que a gente não transa...

Ele se inclinou, baixando a voz num tom provocador.

— Ou você está tentando me dar algum recado?

A mão dele pousou na cintura de Helena. Os dedos roçaram sua pele antes de passarem por baixo da barra da roupa e subirem devagar.

— Pervertido!

Helena levantou a perna para chutá-lo, mas Leonardo segurou seu tornozelo com facilidade e puxou de leve.

Ela perdeu o equilíbrio e bateu com força contra o peito dele.

A dor explodiu nos hematomas espalhados pelo corpo.

Helena puxou o ar bruscamente.

Leonardo percebeu na hora.

— O que foi?

Ela o afastou.

— Não é da sua conta!

A reação dele mudou imediatamente.

Sem dizer mais nada, Leonardo a pegou no colo à força e seguiu para a sala. Só a soltou quando a colocou no sofá.

— Me solta! — Helena se debateu, tentando se livrar dele.

Leonardo segurou os dois pulsos dela acima da cabeça com uma das mãos. Com a outra, levantou sua roupa.

Os hematomas arroxeados espalhados por seu corpo ficaram expostos.

Por alguns segundos, Leonardo não disse nada.

A leveza de antes desapareceu completamente. Seu maxilar se contraiu, e a raiva contida deixou o ambiente sufocante.

— Quem fez isso?

A voz saiu baixa, controlada à força.

— Mauro disse que tinha gente correndo atrás de você. Foram eles que fizeram isso? Por que você não me contou?

Helena quase achou graça.

Encarou-o e soltou uma risada sem humor.

— Quer saber? Então vai perguntar à sua amiguinha inseparável. Deixa ela te contar.

Leonardo ficou ainda mais tenso.

— Helena! Por que você precisa falar assim, sempre com tanta ironia? Por que tanta implicância com a Cami?

Ele respirou fundo, tentando se controlar.

— Eu já te disse: ela é só minha amiga. Você é minha esposa, Helena. Ninguém vai ocupar o seu lugar.

Os olhos de Helena arderam, contra sua vontade.

Ela o empurrou com toda a força.

— Porque eu odeio ela. E odeio você ainda mais! Some daqui!

Leonardo ficou imóvel por um instante.

Então pegou o paletó e saiu sem dizer mais nada, batendo a porta atrás de si.

Assim que deixou a casa, fez uma ligação.

— Descubra com quem minha esposa se encontrou esta noite. Quero saber de tudo.

Helena não tinha comido nada o dia inteiro. A fome que antes fazia seu estômago reclamar agora havia sumido por completo.

Depois do banho, levou suas coisas para o quarto de hóspedes.

Achou que não conseguiria dormir, mas acabou pegando no sono quase sem perceber.

Quando acordou, já passava do meio-dia.

Ficou imóvel por alguns segundos.

Alguma coisa estava errada.

Tinha certeza de que havia dormido no quarto de hóspedes na noite anterior. Então por que tinha acordado outra vez na cama enorme da suíte principal?

Apoiou-se para se sentar e olhou para o criado-mudo.

Ali estavam uma pomada e um celular caríssimo, recém-lançado.

Helena ficou alguns segundos olhando para os dois, sem saber exatamente o que sentir.

A tela do aparelho novo se acendeu.

Uma ligação de "Amor".

Ela atendeu, e a voz de Leonardo veio do outro lado.

— O encerramento da cúpula é hoje à noite. Depois vai ter um jantar. Você vem comigo.

Helena já ia recusar quando se lembrou de uma coisa e mudou de ideia.

— Está bem.

Na verdade, queria ver qual "Sofia" Camila conseguiria levar até lá para fazer a interpretação simultânea.

A concordância inesperada pareceu deixar Leonardo de bom humor.

— Certo. À tarde, vou mandar Mauro buscar você.

Ele mal terminou de falar quando uma voz feminina surgiu ao fundo.

— Ah, Leo, sua esposa também vai? Você não disse que ia ser o meu acompanhante hoje à noite...?

Helena desligou na cara dele.

Baixou os olhos para a tela e, sem hesitar, apagou o nome salvo.

No lugar, digitou outro.

Duas palavras:

"Cachorro safado".

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