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Capítulo 62

Autor: Duda Sá
last update Data de publicação: 2026-09-11 11:51:14

"Elena"

Minha mãe recuou um passo com a minha pergunta. Não havia mais dúvida alguma. Aquele silêncio covarde e a expressão de raiva dizia tudo.

Senti o chão sumir sob meus pés e o mundo inteiro rodar. Todas as peças se encaixavam da pior forma possível. Eu era meia-irmã de Ana... que agora era minha cunhada.

— Como você pôde? — perguntei, chocada, a voz falhando pelo nó na garganta. — Como teve coragem de fazer isso?

— Não ouse falar nada para o Diego! — ela sussurrou de volta, a voz esganiçad
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    "Pedro"O que Elena dizia ainda parecia irreal, impossível, mas, quando o irmão dela, Diego, desceu as escadas com a menininha no colo, meu coração disparou de um jeito doloroso, me sufocando por um momento. Ela me encarou com o olhar curioso, quietinha nos braços do tio. Senti uma familiaridade naqueles olhos. Eu não precisei de teste de DNA, de laudo, de porra nenhuma. Bastou encarar aqueles olhos para que a alma me reconhecesse: era minha filha. Não duvidei nem por um único segundo da palavra de Elena.Minha filha.Nós éramos jovens; Nenhum dos meus amigos sabia o que era criar uma vida; ter filhos era só uma miragem distante num futuro idealizado — depois da faculdade, depois de achar a "pessoa certa", de me estabilizar. Eu não tinha absolutamente nada disso. Mas tinha uma filha.Queria estender os braços, segurá-la no colo, mas ela não sabia quem eu era, e isso parecia errado de muitas formas. Elena tinha razão em ter medo do meu pai; dois anos atrás, ele estava obcecado com a i

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    "Ana"Senti o sangue sumir do meu rosto, e encarei Elena sem acreditar no que ela acabara de dizer. A sala pareceu diminuir de tamanho, a frase reverberou na minha mente. Os segredos do passado pareciam nunca ter fim, sempre permeados de caos e destruição. — Quando meu pai conheceu o Omar, eu já tinha cinco anos — Diego falou, com a voz baixa e controlada, uma tentativa clara de afastar o absurdo daquela possibilidade e de nos lembrar que não havia chance de sermos irmãos.Não consegui encontrar palavras. Era a cara do meu pai, ter um caso com Célia, usá-la para dar um golpe no sócio, abandonar a amante grávida e sozinha para, em seguida, casar-se com a minha mãe. Se eu não conhecesse tão bem a minha ex-sogra, talvez pudesse sentir um pingo de pena por ela ter se deixado iludir. Mas duvido que Célia fosse tão inocente assim; a maldade, parecia, um ciclo infinito. — Acho melhor fazermos o exame para confirmar — falei, quebrando o silêncio que se formara. Minha voz saiu trêmula, mas f

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    "Ana"Durante dias não saí do hospital. Maya trazia comida que eu mal conseguia engolir, roupas limpas que eu trocava no banheiro minúsculo, e eu trabalhava com o notebook no colo, dividida entre alunos e o medo constante. Mal consegui perceber o movimento ao meu redor, eu não saía do lugar; minha alma havia estacionado naquela UTI.Elena mantinha a mãe e Susanna longe. Por mais olhares venenosos, resmungos e comentários hostis que as duas fizessem, elas nunca mais falaram comigo diretamnte, e eu não também não fazia questão. Minha cabeça estava em total suspensão. Percebia algumas coisas estranhas à minha volta — sussurros abafados no corredor, olhares desviados às pressas — só que a exaustão era tanta que eu não conseguia me concentrar direito para juntar as peças.Diego melhorou aos poucos e quando finalmente ficou fora de perigo, respirei aliviada, ele sobreviveria e isso era o mais importante no momento. Depois de tantos dias vendo aquele monitor cardíaco, tentando manter o otim

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    "Ana"Um dia de cada vez.Esse era o meu mantra, o que me impedia de afundar. Todo santo dia eu me levantava, me forçava a ficar de pé e, aos poucos, tentava dar forma àquela casa. Voltei a dar aulas de inglês, conquistei novos alunos, forcei uma rotina de sobrevivência. Mas a dor e a saudade de Caleb estavam comigo em cada passo, um buraco dentro do meu peito que alguns dias eu achava que jamais fecharia. A ausência dele era dura dificil. Por vezes, eu me pegava em prantos no meio da tarde, paralisada ao lembrar, que eu não podia mais pegar o telefone e ligar para o meu irmão. Maya fazia o que podia: ligava todos os dias, chegou a dormir lá uma noite. Mas ela tinha a vida dela. Por mais que me olhasse com medo de me ver sozinha, eu me recusava a ser esse peso na vida de alguém.Eu sabia me virar. Tinha sido assim a vida inteira.Ser solitária talvez fosse meu destino, quem sabe? Mas, no meio desse turbulento recomeço, fui pega de surpresa por uma saudade que eu jamais imaginei senti

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