LOGIN"Elena"Minha mãe recuou um passo com a minha pergunta. Não havia mais dúvida alguma. Aquele silêncio covarde e a expressão de raiva dizia tudo.Senti o chão sumir sob meus pés e o mundo inteiro rodar. Todas as peças se encaixavam da pior forma possível. Eu era meia-irmã de Ana... que agora era minha cunhada.— Como você pôde? — perguntei, chocada, a voz falhando pelo nó na garganta. — Como teve coragem de fazer isso?— Não ouse falar nada para o Diego! — ela sussurrou de volta, a voz esganiçada e o rosto pálido de puro pavor. Ela olhou para os lados desesperada, provavelmente com medo de que as paredes tivessem ouvidos. — Você não entende nada! Não sabe como as coisas aconteceram!Anos e anos da minha vida. Por décadas, assisti a essa mulher alimentar o ódio e o rancor de Diego, alimentando uma sede de vingança por uma tragédia que todos acreditavam ter sido causada unicamente pela ganância do tal do Omar. Quando, na verdade, ela mesma tinha um caso com o homem que destruiu a nossa
"Elena"— Acho que não fui claro o suficiente. O que pensa que está fazendo aqui?Da última vez que tinha encontrado Horácio pessoalmente, tinha me deixado intimidar pelo seu tom arrogante e pelo terno impecável que parecia gritar autoridade. Agora, olhando bem para a cara dele, não sentia mais tanto medo; só um nojo profundo daquele homem que achava que podia ameaçar a mim e a minha família como se fôssemos descartáveis.— O que você tem contra a minha família e a minha mãe? — dei um passo à frente, fincando os pés no chão. — Não vou aceitar ser ameaçada dessa forma. Eu tenho uma filha, a Alice. Ela é sua neta, uma menininha maravilhosa que não tem culpa de nada e merece conhecer o pai.— Não ouse pronunciar o nome do meu filho ou daquela criança aqui! — Ele se levantou bruscamente da cadeira de couro, apoiando as duas mãos sobre a mesa de madeira nobre. A expressão de fúria distorcia suas feições.— Um exame de DNA pode sanar todas as dúvidas — mantive a voz o mais firme que pude, a
"Elena"— Não acredito que você deixou ela ir embora!Encarei meu irmão, indignada. Diego estava sentado na cadeira do escritório com a expressão cansada, mas obstinada. Eu conseguia ver o seu sofrimento, mas ele era teimoso demais para admitir o próprio erro. Me recusava a aceitar que ele tinha deixado a Ana partir assim, em um momento tão vulnerável.— Já falamos sobre isso, Elena — Diego respirou fundo, sem me olhar nos olhos. — Eu não posso obrigá-la a ficar. Quando ela já foi forçada a se casar, não quero obrigá-la a mais nada e essa discussão acabou. — Eu sei, eu entendo, mas ela está de luto! Não está pensando direito, não pode ficar sozinha. Ela não tem mais ninguém, Diego! Nós somos a família dela agora.Ele não tinha nenhuma intenção de ir atrás dela, de implorar ou de dizer que a amava. Eu compreendia que o começo fora péssimo, com atitudes horrorosas do meu irmão, mas as coisas tinham mudado, e eu esperava ao menos uma postura diferente. — A Ana não vai ficar desamparada
"Ana"O médico movia os lábios, mas o som chegava até mim como se eu estivesse debaixo d'água. As palavras não tinham forma, não tinham peso. Nada mais fazia sentido. Senti braços me envolvendo, um toque distante tentando me segurar no chão, mas o meu corpo não respondia. Eu estava anestesiada, paralisada pelo choque de compreender a minha nova realidade, que agora estava completamente sozinha no mundo.Depois de dias de angústia, batalhando contra a piora repentina de Caleb, o tempo virou um borrão cinzento. E agora o médico me dava o veredito final: apesar de tudo, o coração do meu irmão tinha parado.Não me sobraram lágrimas. Não sobrou ar, não sobrou nada. Fiquei ali, petrificada, digerindo a verdade cruel de que eu nunca mais ouviria a sua voz ou a sua risada, À minha volta, o mundo continuava girando. Ouvi Diego murmurar que cuidaria do velório, mas sua voz parecia vir de outra dimensão. Deixei que me levassem. Fui um corpo sem alma enquanto enterrava o último pedaço da minha v
"Elena"O mundo desmoronava para o meu irmão e eu não sabia como ajudar, ainda mais porque ele não queria a minha ajuda.Ana, dentro do hospital, estava alheia ao resto do mundo, enquanto minha mãe preferia — como sempre — fingir que nada acontecia, mergulhada no ódio. Engoli o meu orgulho e contratei uma babá. Se alguma coisa acontecesse, eu precisava ajudar e, sem uma rede de apoio para ficar com Alice em caso de emergência, o melhor era mesmo ter uma babá, eu sentia que precisava estar preparada.Talvez tudo isso tenha prejudicado o meu juízo. Pedro tinha mandado uma mensagem de outro celular depois que eu o bloqueei, pedindo desculpas e querendo tentar mais uma vez reatar a amizade. Eu deveria ser forte, mas respondi. E assim continuei respondendo, mesmo sentindo culpa por esconder a verdade. A cada conversa, me sentia mais confusa. Era assim que eu me sentia: perdida. Até que o amigo de Diego ligou para avisar que tinha uma emergência. Eu já esperava que uma ligação assim foss
"Diego"No segundo dia, o quadro de Caleb piorou. Cancelei reuniões, passei por cima de prazos e fiquei ao lado de Ana. O máximo que consegui para tirá-la do lugar foi alugar um quarto de um hotel ao lado para que pelo menos ela tomasse um banho e dormisse por algumas horas.Caleb era só um garoto — um menino inteligente, risonho, com quem tive pouquíssimo tempo de convivência, mas que já havia encontrado um espaço involuntário no meu peito. E Ana… Ana era a mulher que deveria ser apenas uma cláusula contratual na minha vida, mas vê-la daquela forma me destruía por dentro.Me sentia ridiculamente impotente. Dinheiro, poder, influência… nada disso comprava o ar nos pulmões daquele menino. Aquele era um problema que o meu império, pelo qual eu tinha lutado por anos, não conseguia resolver.O ódio que um dia correu pelas minhas veias parecia ter se diluído. Eu não queria vingança. Não queria esmagar Omar com as minhas próprias mãos. Nunca tinha parado para pensar na família dele como ser







