LOGINNa manhã seguinte, descobri rapidamente que Helena não havia exagerado quando disse que precisaríamos transportar algumas peças da galeria até a casa de Lion Volkov.
Embora, tecnicamente, “algumas peças” fosse uma maneira absurdamente simples de definir o que estava acontecendo. As obras já estavam embaladas quando cheguei à área restrita de armazenamento naquela manhã. Grandes caixas de madeira escura preenchiam parte do espaço enquanto funcionários verificavam listas e códigos cuidadosamente registrados em pranchetas digitais. Eu não sabia exatamente o que havia dentro da maioria daquelas caixas e aquilo parecia proposital. Algumas estavam completamente lacradas, protegidas por selos especiais e etiquetas numéricas que não revelavam praticamente nada sobre o conteúdo. Outras permaneciam parcialmente abertas, permitindo que pequenos detalhes fossem vistos — molduras douradas antigas, fragmentos de telas protegidas por tecido escuro e esculturas envolvidas cuidadosamente em plástico reforçado. Consegui reconhecer apenas alguns quadros. Mesmo assim, nenhum deles parecia comum. Tudo ali tinha aparência de valer fortunas absurdas. Mas o mais estranho era que nem eu nem Helena carregávamos absolutamente nada. Quem fazia aquilo eram os seguranças. Homens vestidos de preto circulavam silenciosamente pelo depósito, movendo as caixas com atenção quase militar. Nenhum deles conversava desnecessariamente. Nenhum parecia distraído. Todos estavam atentos demais. Helena apenas organizava o que seria levado ou não enquanto eu conferia documentos e listas de transporte. — Essas ficam — disse ela apontando para duas caixas menores. — As demais irão para a residência do senhor Volkov. Assenti em silêncio enquanto anotava as alterações. Ainda era estranho ouvir alguém chamar a casa dele de “residência” em vez de simplesmente “casa”. Mas tudo relacionado a Lion Volkov parecia excessivamente formal. Excessivamente calculado. Duas horas depois, eu estava sentada ao lado de Helena dentro de um SUV preto seguindo pelas ruas mais afastadas da cidade enquanto outros veículos escuros nos acompanhavam atrás. Segurança outra vez. Claro. Observei discretamente os carros pelo vidro fumê enquanto tentava ignorar a sensação estranha crescendo dentro de mim. — O senhor Volkov costuma guardar algumas peças pessoalmente — explicou Helena calmamente sem desviar os olhos da tela do celular. — Principalmente antes de eventos importantes. — Na própria casa? — Sim. Aquilo pareceu estranho. Mas, honestamente, quase tudo relacionado a Lion já começava a parecer naturalmente estranho dentro da minha cabeça. Cerca de quarenta minutos depois, o carro começou a desacelerar. E então eu vi. Meu Deus. A propriedade era absurda. Um enorme portão preto de ferro se erguia diante da estrada cercado por muros altos revestidos por pedra escura. Câmeras estavam posicionadas em vários pontos, discretamente instaladas entre estruturas metálicas quase imperceptíveis. Assim que os veículos se aproximaram, os portões começaram lentamente a se abrir. Meu estômago apertou involuntariamente. Porque aquilo não parecia entrada de casa. Parecia entrada de fortaleza. O carro avançou lentamente pela longa estrada cercada por árvores perfeitamente alinhadas até que a mansão finalmente surgiu diante dos meus olhos. E, por alguns segundos, fiquei completamente em silêncio. A casa era enorme. Não apenas rica. Enorme. A arquitetura misturava modernidade com algo quase aristocrático. Tons escuros de pedra contrastavam com enormes janelas de vidro e detalhes sofisticados espalhados pela fachada. Mas o que mais chamou minha atenção foi a segurança. Havia pelo menos quatro homens vestidos de preto caminhando pelo gramado extenso ao redor da propriedade. Patrulhando. Observando. Como se aquilo fosse necessário o tempo inteiro. Minha mente imediatamente voltou à mesma pergunta: Os seguranças estavam ali apenas por causa das obras de arte? Ou existia algo muito maior acontecendo? Descemos do carro pouco depois. O vento frio atingiu meu rosto enquanto observava melhor a entrada principal da mansão. A porta era gigantesca. Feita de madeira escura, pesada, com detalhes entalhados à mão que pareciam antigos demais para serem reais. No centro havia uma enorme peça metálica em formato de cabeça de lobo servindo como batente. Claro. Um lobo. Combinava perfeitamente com Lion Volkov. Perto da entrada havia mais dois seguranças imóveis como estátuas. Helena parecia completamente acostumada com aquilo. Entrou naturalmente assim que a porta foi aberta, enquanto eu a seguia tentando não parecer impressionada demais. E então entrei na casa. O interior era ainda mais surreal. A decoração inteira girava em torno de tons bege, cinza e madeira escura. Tudo parecia sofisticado sem esforço, elegante sem exageros. Parecia casa de alguém perigosamente rico. Mas também parecia… solitária. Havia beleza demais ali. Luxo demais. E vida de menos. Alguns funcionários organizavam discretamente as caixas trazidas da galeria enquanto Helena analisava uma lista em mãos. Então ela ergueu os olhos para mim. — Lara, pode procurar o senhor Volkov? Talvez esteja no andar de cima. A maneira como ela falou aquilo deixou claro que conhecia bem demais aquela casa. Assenti rapidamente. — Claro. Comecei a caminhar pelo enorme corredor principal observando os detalhes ao redor enquanto subia lentamente as escadas. A casa inteira parecia um museu particular. As paredes eram decoradas com pinturas absurdamente belas, algumas tão antigas que pareciam pertencer a outra época. Em determinados corredores, desenhos delicados haviam sido feitos diretamente sobre partes das paredes — traços que lembravam tinta aplicada à mão como uma obra artística cuidadosamente planejada. Tudo ali parecia escolhido obsessivamente. Controlado nos mínimos detalhes. Passei os dedos discretamente pelo corrimão escuro enquanto observava um enorme quadro pendurado próximo ao segundo andar. Lindo e provavelmente mais caro que todos os lugares onde morei na vida inteira juntos. Foi então que ouvi um barulho vindo de uma das portas próximas. Parei imediatamente. Talvez fosse ele. Aproximei-me lentamente antes de abrir a porta e quase perdi o ar. A sala parecia pertencente a um colecionador obcecado. Quadros antigos preenchiam parte das paredes enquanto esculturas, vasos raríssimos, fotografias antigas e objetos que claramente valiam milhões ocupavam vitrines iluminadas discretamente pelo ambiente. Aquilo não parecia apenas coleção. Parecia obsessão. Caminhei devagar pelo espaço enorme, completamente fascinada. Havia algo quase hipnotizante naquele lugar. Então percebi um corredor estreito no fundo da sala. Curiosa, comecei a segui-lo. O problema foi que eu não vi o degrau. Meu pé falhou imediatamente. — Droga! Caí de joelhos com força suficiente para arrancar um pequeno som dolorido da minha garganta. Quando levantei o rosto rapidamente, ainda sentada sobre as próprias pernas, meu cérebro simplesmente parou de funcionar por um segundo. Lion Volkov estava parado poucos metros à minha frente. Sem camisa. Meu Deus. Ele vestia apenas uma calça jeans preta baixa perigosamente ajustada ao corpo forte enquanto segurava uma toalha escura em uma das mãos. Os cabelos molhados deixavam pequenas gotas escorrerem lentamente por seu pescoço e ombros largos. Ele também tinha uma tatuagem em um dos braços. E Deus. O homem parecia esculpido. O peito firme subia lentamente conforme ele respirava, enquanto músculos definidos percorriam seus braços, abdômen e cintura de maneira quase absurda. Por alguns segundos, fiquei completamente imóvel. Porque o pior não era aquilo. O pior era a maneira como ele estava me olhando. Os olhos escuros haviam mudado. A expressão dele também. Mas eu não consegui decifrar exatamente o que havia ali. Surpresa? Interesse? Diversão? Lion se aproximou calmamente antes de estender a mão para mim. — Oi. Meu rosto queimava. Segurei sua mão imediatamente para levantar. E a primeira coisa que percebi foi o calor da pele dele. Quente. Firme. Os dedos longos envolveram minha mão com força suficiente para me puxar facilmente de pé. Meu coração disparou de maneira completamente irritante. Assim que fiquei estável outra vez, ele perguntou calmamente: — O que está fazendo aqui? Soltei a mão dele rápido demais. — Helena pediu para procurar você. Lion continuou me observando. Então o canto da boca dele se moveu minimamente. — É a primeira vez que alguém vem atrás de mim de joelhos. Meu Deus. — Eu caí — respondi imediatamente. — Não vi o degrau. O pequeno sorriso dele aumentou quase imperceptivelmente e aquilo foi pior do que se ele tivesse simplesmente rido. Porque Lion Volkov parecia bonito demais sorrindo. Mesmo daquele jeito mínimo. Mesmo daquele jeito perigoso. Desviei rapidamente o olhar. — Onde fica a saída? — Eu vou descer com você. Antes que eu pudesse responder, ele virou-se calmamente e começou a caminhar na direção oposta da qual entrei. Segui atrás dele. Lion abriu uma porta lateral e entramos num enorme closet. Meu olhar percorreu automaticamente o espaço. As roupas estavam perfeitamente organizadas em tons escuros: preto, azul marinho, cinza escuro e marrom. Claro. Até o guarda-roupa dele parecia intimidador. Então ele abriu outra porta e saímos diretamente em um quarto gigantesco. Aquilo definitivamente era o quarto dele. O tom azul-escuro dominava o ambiente sofisticado enquanto móveis modernos ocupavam o espaço amplo sem exageros. Havia uma enorme cama central, uma lareira elegante próxima à parede lateral e um quadro gigantesco absurdamente bonito pendurado acima de um sofá escuro. O quarto inteiro parecia silencioso demais. Como o próprio Lion. Atravessamos o cômodo rapidamente até outra porta que dava para um corredor enorme. Então finalmente descemos as escadas. Quando chegamos novamente à sala principal, Helena ergueu os olhos na nossa direção e dessa vez desde que conheci Lion Volkov, tive a sensação perigosa de que estava começando a entrar em lugares da vida dele onde talvez eu jamais devesse estar.Ainda estava com o garfo entre os dedos, sentindo o sabor da comida deliciosa que ele havia preparado, quando as palavras de Lion permaneceram ecoando dentro da minha cabeça, densas e carregadas de intenção. Eu não sabia o que fazer com aquela promessa imponente. Parte de mim queria desesperadamente acreditar; queria fechar os olhos, afundar nos travesseiros e simplesmente aceitar que, daquela vez, ele estava abrindo mão das sombras para ser honesto comigo. Outra parte, porém, continuava lembrando de cada detalhe do passado, de todas as vezes em que ele tomou decisões por mim sem me contar a verdade, usando sua autoridade para me manter no escuro enquanto me colocava no centro de um turbilhão que eu sequer compreendia. Baixei os olhos para o prato, observando os últimos vestígios do jantar, e respirei fundo. O ar parecia mais pesado no quarto, saturado pelo perfume dele e pela lembrança quente de minutos atrás. — Eu ainda estou confusa, Lion — murmurei, a voz macia, quase vacilante
Depois de tudo, meu corpo parecia ter esquecido como se sustentava sozinho. Eu ainda respirava arfante, o peito subindo e descendo em um ritmo descompassado, quando senti os braços de Lion me envolverem com uma firmeza possessiva. Não havia nenhuma ordem dessa vez, nenhuma provocação. Apenas aquele movimento potente com que ele me ergueu da cama, como se soubesse, com absoluta certeza, que minhas pernas estavam bambas demais para colaborar depois da intensidade avassaladora que havíamos compartilhado. Passei os braços ao redor do pescoço dele por puro instinto, colando a pele quente do meu rosto contra o seu peito nu. O coração dele batia forte e ritmado sob a minha bochecha, e o cheiro de sexo, suor e do seu perfume amadeirado preenchia meus sentidos. Por alguns segundos, simplesmente permaneci ali, totalmente nua em seus braços, deixando que seu corpo forte me carregasse. — Para onde você está me levando? — perguntei, a voz rouca, baixa e impregnada de sono. — Banho — a resp
Por vários segundos, o silêncio dominou o espaço. Ele não apenas olhava para mim; ele me desnudava com o olhar, calculando cada reação. Havia uma autoridade implacável ali, uma promessa silenciosa de que a brincadeira ingênua havia acabado. Sem margem para fuga. Ele juntou minhas mãos à frente do meu corpo e envolveu o couro ao redor da minha pele, ajustando a fivela com uma calma calculada e provocante. Seus dedos deslizaram entre o couro e a minha carne, certificando-se de que a contenção estava perfeita. Em seguida, ergueu meus pulsos presos até a altura do meu peito. — Olhe para mim — a voz dele veio baixa, em um tom de comando absoluto que não aceitava objeções. Meu olhar encontrou o dele. Ele não pediu permissão. Apenas leu a rendição nos meus olhos. Um sorriso lento e perigoso surgiu no canto de seus lábios. Lion deu um puxão seco no cinto, reduzindo a distância entre nós a milímetros. — Caminhe — ordenou. Eu o acompanhei. Cada passo pelo corredor acelerava a mist
Minha garganta ficou seca sem resposta. Eu poderia ter simplesmente escolhido uma roupa, vestido alguma coisa e encerrado aquela conversa. Mas alguma coisa dentro de mim queria provocá-lo. Talvez porque eu ainda estivesse irritada com Stephanie. Talvez porque, depois de tudo o que Lion tinha feito, eu quisesse descobrir até onde aquela calma aparentemente inabalável conseguia chegar.—Eu não estou com ciúmes— disse a ele.— Eu apostaria tudo que eu tenho que você está.—Perderia— Retruquei.Peguei outra calça da sacola e a ergui diante do corpo.— Bonita — murmurei, mais para mim mesma.— É.Olhei para ele pelo canto dos olhos.— Você nem olhou a calça direito.— Eu estou falando de você.Meu coração deu um salto, mas eu não deixei transparecer.— Então talvez seja melhor você olhar para outro lugar.Um sorriso discreto apareceu no canto da boca dele.— Você quer mesmo que eu faça isso?Não respondi.Em vez disso, virei de costas e comecei a trocar de roupa, sabendo perfeitamente que
Depois que Lion voltou para a sala, permaneci alguns minutos na cozinha, tentando me convencer de que não havia motivo algum para continuar pensando nele. Eu ainda estava irritada, ainda desconfiava dele e, acima de tudo, ainda não conseguia esquecer que minha vida havia sido colocada em risco por decisões que ele tomara sem sequer me contar. Mesmo assim, era impossível ignorar a maneira como ele conseguia desviar minha atenção de tudo isso com um simples olhar. Pouco depois, ouvi a porta do banheiro se fechar no andar de cima. Não precisei perguntar para saber que Lion já havia ido tomar banho. Voltei para o quarto e permaneci algum tempo perto da janela, observando o céu encoberto enquanto tentava organizar meus pensamentos. A casa continuava silenciosa, grande demais para apenas duas pessoas, e aquela sensação de estar presa ali ainda me incomodava profundamente. Eu não sabia quanto tempo permaneceria naquela casa, nem o que aconteceria quando Daniel e Helena finalmente descobris
Lion continuou me encarando de um jeito que me deixou desconfortável. Não era o olhar frio que eu tinha visto tantas vezes nos últimos dias. Também não era aquele olhar ameaçador que fazia qualquer pessoa recuar. Era algo mais silencioso, mais atento, como se ele estivesse tentando ler aquilo que eu não dizia. Foi então que ele começou a caminhar em direção à sala, e sem qualquer explicação, levou uma das mãos ao primeiro botão da camisa. Eu acompanhei o movimento por puro reflexo. O primeiro botão foi aberto. Depois o segundo. Ele continuou andando, sem pressa, enquanto os dedos percorriam os botões restantes. A abertura entre a cozinha e a sala permitia que eu enxergasse boa parte do que acontecia ali, e, quando me virei novamente para colocar o prato sobre a bancada, meus olhos acabaram encontrando Lion outra vez. Ele estava tirando a camisa. O tecido deslizou pelos ombros e revelou suas costas largas, fortes, definidas de uma maneira que eu não deveria estar reparando. Os mús







