INICIAR SESIÓNDiário: Querido diário, eu preciso desabafar o pavor que eu senti quando desci do meu quarto e lá na sala do casarão estava meu pai o coronel Antero e um homem, alto, com um chapéu caro e usando um terno de linho caro num tom de azul marinho, idade trinta anos. Assim, que eu o vi, sabia que não era algo de bom para mim.
Eu mal botei o pé no ultimo degrau da escada, descendo, meu pai já foi logo me apresentando com um largo sorriso nos lábios, o que é muito raro.
-Primo Luano, essa aqui é minha pedra preciosa, Ana Clara, está na hora de casar e eu tenho certeza que vai te dar uns quatro filhos como é de seu desejo. Cumprimente seu noivo, Ana Clara. Coronel Antero.
-Boa noite, Ana Clara. Eu sou Luano, acabei de chegar da Europa, onde me formei em advogado. Meus pais têm fazendas na Bahia e Goiás, estava indo para Goiás e resolvi passar aqui para lhe conhecer e fazer a ‘corte’. Antero enviou uma carta para meus pais falando do encanto de filha que está querendo se casar. Eu faço muito gosto em ser seu noivo e depois marido. Luano.
Quase desmaiei ao ver o que meu pai estava tramando com o primo rico. Mas no momento, eu não posso fraquejar, eu tenho que pensar rápido numa solução.
-Boa noite, Luano. Sente-se e fique a vontade. Já notei que papai o convidou para jantar. Então, eu vou até a cozinha dar umas instruções para que tudo saia perfeito. Eu sorri, com vontade de chorar e fui para a cozinha. Estava me afastando e ouvi o assunto de meu pai com o primo Luano. Estavam negociando a minha pureza que nem existe mais.
-Minha filha é pura, primo Luano, isso eu posso garantir. Depois do jantar a gente fala sobre o ‘dote’. Coronel Antero.
Cheguei na cozinha e não aguentei, caí no choro, Sabina já sabia do jantar de noivado. Eu falei para Sabina que ela precisava chamar Thabó, eu precisava falar com ele, o que estava acontecendo. Juntos, sempre pensamos numa saída. Sabina saiu até o quintal e fez sinal para Thabó que estava cuidando da horta. Na cozinha já havia galinha assada no forno de barro, polenta de milho com molho de abobrinha e outros tipos de saladas para agradar o tal primo Luano, nós reunimos para achar uma saída.
Sabina não sabe que eu e Thabó temos uma cabana, o que ela sabe é de nossa doce amizade desde criança. A coitada cozinha dia e noite para encher a barriga e os olhos de meu pai. Eu falei baixinho para Thabó do tal jantar de noivado, ele me tranquilizou e falou que já, já estava de volta. E que não haveria jantar e nem noivado.
Thabó voltou com umas ervas na mão, disse que as pediu para Velho preto curandeiro. Eram ervas alucinógenas. Thabó instruiu Sabina a colocar o ‘sumo’ das ervas no fundo da taça onde o primo Luano iria sentar. Como a taça era de prata, ninguém haveria de enxergar. E que era para ela ser ágil, servir para ele o vinho, primeiro. Thabó me disse que era para eu ocupar o meu lugar rápido na mesa. O costumeiro é que coronel Antero sente sempre na ‘cabeceira’ da mesa. De forma que só restaria uma opção de lugar para o Luano.
E assim, chegou a hora do jantar, eu estava com o coração na mão. Mais uma vez o plano tinha que funcionar, ao contrário eu seria a noiva do primo Luano e o pior, ele pagaria e não sou mais pura. Isso tudo seria a minha sentença de morte e a de Thabó também, com certeza Sabina levaria uma surra no tronco que talvez nem escapasse com vida.
O tal do primo Luano estava a me olhar como se eu fosse um ‘manjar’, nem se eu não amasse Thabó, não gostei nem um pouco de Luano.
A todo o momento fazia questão de mostrar, por o seu anel de formatura, com uma gigantesca pedra vermelha em evidencias. O seu assunto era, que havia fechado negocio em cem escravos numa de suas fazendas, cento e vinte na outra e que estava para receber uns escravos chegando da África, vindo de navio, se referia em ‘coisa de primeira’. Não só o assunto, mas a cara e gestuais do tal Luano causa náuseas em qualquer um. Chegou a propor para meu pai que estava deslumbrado com o primo Luano que no ‘dote’ pago por mim, ele daria de brinde meia dúzia de escravos, desses que viriam da África.
É triste, mas o meu pai, coronel Antero e o primo Luano ‘me’ negociava como se eu fosse um ‘saco’ de milho, não estavam nem aí para a minha opinião ou vontade. Então, meu pai deu um grito:
-Sabina! Traz o vinho para a gente brindar!
Senti um alivio e orei baixinho para a Virgem Maria para que o nosso plano funcionasse e que livrasse daquele homem. Sabina estava servindo o vinho e meu pai completou:
-Esse é de primeira como a minha filha. Aprecie o bom vinho e sirva-se primo Luano. Sabina já está velha, lesada, mas muito boa na cozinha. Já, já eu vou substituir por outra escrava cozinheira.
O homem não tinha modos e nem ‘fines’, meteu a mão na galinha assada e pegou para o seu prato metade, comia e bebia o vinho como um porco. Não acreditei quando o meu pai fez o mesmo, pegando a outra metade da galinha, comendo com a mão para imitar e agradar o primo Luano.
E foi então que as ervas alucinógenas começaram a fazer efeito. O primo Luano sob o efeito das ervas, meteu a mão na polenta de milho e começou a comer e lamber a mão,o seu terno estava pura polenta, ele pegou a garrafa de vinho das mãos de Sabina despejava no prato e estava bebendo o vinho no prato, e assim os seus modos só pioraram, soltou um ‘pum’ e começou a dar risadas altas, e com a boca cheia. O meu pai já estava com os olhos arregalados, percebeu que havia algo de errado com o seu tão apreciado e futuro genro rico.
Até que:
-Saia da mesa! Eu que mando aqui! Saia da mesa! Velho inútil! Saia!
Primo Luano gritava cada vez mais alto, olhando para o meu pai com os olhos vermelhos e arregalados.
Sabina estava entrando, trazendo um pudim de leite para a sobremesa e meu pai falou:
-Não sirva a sobremesa, Sabina! Chame, agora, ‘Um olho só’ para acompanhar o primo Luano até a sua carruagem.
O homem entrou na sua carruagem gritando:
-Eu quero a sobremesa! E a minha noiva! Se eu não levar a noiva não pago o ‘dote’!
Corri para abraçar Sabina e pedi que ela levasse o recado para Thabó. Mais uma vez nosso plano deu certo.
Catarina Diniz Sá: A cada pagina do diário de Ana Clara que eu leio, fico no ‘abismo’ com tanta ausência de respeito pela a ‘mulher’. Não posso acreditar que um pai seja capaz de ‘vender’ a sua filha para um primo rico.
Eu não sei o que valia mais, se Ana Clara ou a sua pureza, que já não existia mais. Imagino o pavor de Ana Clara, se o noivado oficializasse naquele jantar. E como ficou o coração de Thabó, correndo risco de morte, ele e Ana Clara. Se coronel Antero descobrisse que Ana Clara não poderia se casar com o primo Luano. Mais uma vez senti alívio, é como se eu fizesse parte da narrativa do diário. Até quando os planos irão funcionar?
Diário: Eu, João Carlos Thabó Baptista, filho de Ana Clara Ferrão Gregório Baptista e Thabó, chamado carinhosamente na infância de bebê copo de leite, atendo ao pedido de meu querido e amado pai, Thabó: Assim é com imenso prazer que eu escrevo palavras tristes ditadas por meu pai com o objetivo de finalizar o diário de minha querida e brava mãe, a sinhazinha Ana Clara. Já fazem vinte anos que numa fuga em busca de liberdade e dignidade que aconteceu o ‘pior’ mas foi a partir desse ‘pior’ que hoje eu João Carlos Thabó Baptista sou um homem livre, sei ler e escrever e agora vou anotar as tristes e dolorosas palavras de meu pai Thabó. Meu pai relembra a fuga, conta que tinha tudo para ter dado certo, ele, minha mãe e minha avó Sabina combinaram tudo, e assim naquela madrugada vó Sabina fingiu ir até a lavoura de mandioca e foi para a cabana de pau-a-pique, chegando lá meu pai Thabó, minha mãe Ana Clara e eu ainda bebê embarcamos na carroça. Meu pai Thabó
Diário: Não que eu deseje o mal para o meu pai, o poderoso coronel Antero Ferrão, mas eu e Thabó vivemos de ‘catar’ as migalhas de tempo e oportunidade para ficarmos juntos e dar carinho e amor para o nosso bebê. Coronel Antero Ferrão está com muita febre, ‘Um olho só’ já buscou médico na cidade que receitou medicamentos, chás e muito repouso. E é claro que eu e Thabó aproveitamos para irmos para a nossa cabana de pau-a-pique com o nosso bebê. ‘Um olho só’ aproveita e bebe cachaça em exagero e dorme cedo. Thabó me aguardou abaixo do chiqueiro dos porcos já com o nosso bebê no cestinho de taboca. Ele está saudável e cada vez mais lindo. E esta crescendo, já movimenta as mãozinhas e com os pezinhos, sorri e balbucia. Thabó tem muita cautela e amor pelo o nosso filho. Nós contamos com os raios da lua para clarear o caminho em que passamos e com a sorte e a proteção da Virgem Maria para que não sejamos atacados por bichos selvagens, já que passamos próxim
Diário: Até agora o nosso plano está dando certo, mas já pensamos num segundo plano. O bebê copo de leite está forte e bem de saúde. Ele fica no jacazinho de taboca, na Senzala, escrava Mudinha vai até ele para amamentar no dia e a noite eu fujo com a ajuda de Thabó e vamos para a Senzala onde fico um pouco com Thabó, amamento e dou amor para o nosso bebê. Eu me arrisquei a pedir para coronel Antero para que me deixasse fazer uma visita para tia Tereza Santina o que foi negado aos gritos. Thabó chamou Sabina e pediu para que me desse um recado e ao ouvir esse recado era para eu tomar muito cuidado em relação ao meu estado físico e ao bebê copo de leite. Thabó contou para Sabina que ‘Um olho só’ descobriu o bebê copo de leite na Senzala e foi falar para coronel Antero Ferrão, ele disse: -Coronel Antero, a nega Mudinha deu a luz a um menino branco. O que eu faço com ele? É branco que doí as vistas. ‘Um olho só’. -Ora, ora,
Diário: A vida me reservou mais uma surpresa. Não só para mim, mas para Thabó também. Ah, se tudo fosse diferente, a felicidade seria transbordante, mas o que está para se revelar é mais um motivo para estratégia de sobrevivência, ou melhor, de salvação. Fui de manhã até a cozinha e estava comendo manga verde com sal, que Thabó colheu para mim. Sabina se virou do fogão a lenha, fez uma cara de espanto e comentou: -Ana Clara, minha filha, tem muito tempo que eu desconfio, mas não falo nada, mas você e o Thabó não andam brincando por ‘ai’ como duas crianças, as brincadeiras dos dois agora são outras. Né? Eu parei de comer manga com sal e respondi baixinho: -Nós temos um lugar só nosso. É nosso segredo. Sabina veio até próximo, botou a mão na minha barriga e disse: -E essa barriga? Como vai fazer para esconder esse segredo? Essa barriga diz que você e Thabó podem cavar onde vocês serão sepultados. Sa
Diário: Querido diário, eu preciso desabafar o pavor que eu senti quando desci do meu quarto e lá na sala do casarão estava meu pai o coronel Antero e um homem, alto, com um chapéu caro e usando um terno de linho caro num tom de azul marinho, idade trinta anos. Assim, que eu o vi, sabia que não era algo de bom para mim. Eu mal botei o pé no ultimo degrau da escada, descendo, meu pai já foi logo me apresentando com um largo sorriso nos lábios, o que é muito raro. -Primo Luano, essa aqui é minha pedra preciosa, Ana Clara, está na hora de casar e eu tenho certeza que vai te dar uns quatro filhos como é de seu desejo. Cumprimente seu noivo, Ana Clara. Coronel Antero. -Boa noite, Ana Clara. Eu sou Luano, acabei de chegar da Europa, onde me formei em advogado. Meus pais têm fazendas na Bahia e Goiás, estava indo para Goiás e resolvi passar aqui para lhe conhecer e fazer a ‘corte’. Antero enviou uma carta para meus pais falando do encanto de filha que
Diário: Aqui no Engenho, os dias e as noites continuaram os mesmos, o dia cheio de negros cuidando, trabalhando no Engenho ou levando chibatadas no tronco, de modo que a ‘liberdade’ até parece se esconder na mata com medo do coronel Antero e de ‘Um olho só’, as noites com a sua sensualidade, contando com a beleza da lua e das estrelas no céu, o coaxar dos sapos no rio, a cantiga dos pássaros e grilos em coro unido e vindo ao barulho do vento. Algumas dessas noites o som dos tambores na Senzala se faz especial. Se coronel Antero e ‘Um olho só’ já estão recolhidos em seus aposentos eu e Sabina, vamos até a Senzala apreciar a dança dos escravos e o batuque dos escravos. Assim eu e Thabó ficamos alguns minutos juntos. Temos que tomar cuidado, pois vivemos sob fortes ameaças até de: -Se eu te pego com esse negro Thabó, não sei do que eu sou capaz. Até de te matar! Ouviu Ana Clara? Coronel Antero Ferrão. Numa noite Thabó foi até a minha janela e me a