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CABANA DE PAU-A-PIQUE

last update Data de publicação: 2021-09-26 03:09:49

Diário: Aqui no Engenho, os dias e as noites continuaram os mesmos, o dia cheio de negros cuidando, trabalhando no Engenho ou levando chibatadas no tronco, de modo que a ‘liberdade’ até parece se esconder na mata com medo do coronel Antero e de ‘Um olho só’, as noites com a sua sensualidade, contando com a beleza da lua e das estrelas no céu, o coaxar dos sapos no rio, a cantiga dos pássaros e grilos em coro unido e vindo ao barulho do vento.

Algumas dessas noites o som dos tambores na Senzala se faz especial. Se coronel Antero e ‘Um olho só’ já estão recolhidos em seus aposentos eu e Sabina, vamos até a Senzala apreciar a dança dos escravos e o batuque dos escravos. Assim eu e Thabó ficamos alguns minutos juntos. Temos que tomar cuidado, pois vivemos sob fortes ameaças até de:

-Se eu te pego com esse negro Thabó, não sei do que eu sou capaz. Até de te matar! Ouviu Ana Clara? Coronel Antero Ferrão.

Numa noite Thabó foi até a minha janela e me avisou que para o nosso bem iria ficar afastado do casarão do Engenho nos entardecer, por volta de um ou dois meses.

Eu perguntei o que iria fazer, ele disse que seria uma surpresa para mim.

-Tome cuidado para não ser ferido, ou pego por ‘Um olho só’, Thabó. Ana Clara.

-Não se preocupe. Vai dar certo. Logo eu te chamo aqui para você conhecer a surpresa. Thabó.

E assim quase não vi Thabó durante dois meses. Até que ele jogou as três pedrinhas em minha janela, já estava ansiosa e com saudade dele.

Abri a janela e lá estava à escada e Thabó debaixo, fez sinal que eu descesse. Desci e Thabó pegou a minha mão e seguimos até atrás do grande chiqueiro de porcos, lá estava um cavalo arreado, ele me sentou de lado na garupa e depois montou, dizendo para eu me segurar nele. E assim que ele ordenou ao cavalo que saísse galopando pelos os fundos do Engenho, confesso que eu senti uma mistura de medo, não só de meu pai e de seu capitão do mato, mas também dos bichos da mata.

Debaixo do claro dos raios da lua galopamos por um treeiro até chegar a uma cabana feita de pau, coberta de folhas de coqueiro, Thabó havia construído uma cabana de pau-a-pique para nós, ele colocou madeira encostada em madeira nas paredes, uma perfeição.

Thabó escondeu o cavalo do lado da cabana e me levou para dentro rápido. Na cabana havia um quarto com uma cama fincada no chão, coberta com esteira de taboca e na cozinha ele construiu um fogão a lenha de pedras e terra de cupinzeiro, uma mesa e bancos de troncos de madeira. Na mesa havia frutas frescas e moringa de barro com água. Não consigo descrever o que eu senti no meu coração, foi uma felicidade que habitava só dentro da cabana. Ah... Se Thabó e eu fossemos livres para morar ali e construir a nossa família e nossa vida. Nunca me importaria de morar na cabana de pau-a-pique construída por Thabó. Ele me contou que aquelas terras eram amaldiçoadas e mal assombradas, que não poderíamos, jamais, adentrar mais, irmos até os casarões velhos e vazios lá no meio da fazenda. Aconteceram mortes de casais, morreram por amor e por serem vítimas de tiranos.

Assim suas almas vagam na fazenda cantarolando canções para seus amados e suas amadas. Fiquei arrepiada e Thabó me tranquilizou:

-Não precisa sentir medo. Eu expliquei a nossa situação para as almas. Eu orei e pedi licença para eu te amar aqui. Creio que entenderam e vão até nos proteger do coronel e de ‘Um olho só’. Da próxima vez eu vou caçar e assar umas perdizes para a gente saborear com amoras frescas. Thabó.

-Está tudo perfeito. Eu adorei a surpresa...

Thabó, naquela noite, queria algo mais... Não que ‘soasse’ como um pagamento pela a construção da cabana, mas pelo o tempo em que lutamos por migalhas de minutos juntos. Talvez as almas dos apaixonados daquele lugar estivessem nos conduzindo naquela noite de lua clara. Já corremos riscos, constantemente somos ameaçados de morte, já apanhamos no tronco e ao lembrar-me de tanta dor e que um dia já fomos separados um do outro, deixei Thabó me levar até a cama de madeira fincada no chão e coberta de esteira de taboca que ele construiu.

Eu não tenho experiência, vivencia de uma mulher na ‘cama’ com um homem, um pensamento que sempre me deixou com ciúmes é que Thabó já adquiriu ‘tais’ experiências com as negras do Engenho, elas são bonitas e faceiras.

Não sei se por instinto de fêmea, ou sob a ‘energia’ dos espíritos eu retirei o meu vestido e a anágua ficando só de corselet e calça intima de tecido branco transparente e com rendas e fitinhas nas canelas. Thabó me levou e deitou-me na cama bem devagar. Afastei todo e qualquer pensamento ruim e de medo de minha mente. Nós merecemos viver e sentir um ao outro. Esse momento é especial para nós dois. Eu quis ver, quis por os meus olhos no corpo nu de Thabó. Não somos pecadores. A virgem Maria que me perdoe. Somos apaixonados um pelo o outro desde criança. Naquele momento, não me importava com nenhuma consequência, eu só queria ser transformada em mulher por Thabó. E com todo cuidado e zelo Thabó me fez mulher. Ao som de uivos de uma loba parida na mata, próxima da cabana de pau-a-pique eu deixei de ser virgem. Foi o momento mais lindo e puro de nossas vidas. Eu creio que eu e Thabó estamos juntos em espíritos desde muito, desde outras vidas. Somos almas gêmeas no amor.

Senti-me bem ao ver Thabó delirar como homem ao perceber que me fez mulher. Thabó é um homem que não sabe ler e escrever, não tem liberdade e é oprimido por ser negro e escravo de propriedade de meu pai, mas a sua alma é de um verdadeiro lorde, gentleman, foi até a mesa e colocou numa cuia várias frutas frescas e trouxe para mim até a nossa humilde cama, depois trouxe-me água da moringa de barro.

E o nosso tempo acabou. Thabó abriu um pouco a porta e olhou a posição da lua no céu e disse:

-Meu amor Ana Clara, já temos que voltar para o Engenho. Não demoramos, nós voltaremos para a nossa cabana. Aqui é o nosso lugar e segredo.

Vesti-me, ele fechou a porta de nossa cabana, amarrando a porta com cipó e disse:

- Esses nós eu aprendi com Velho preto curandeiro, ninguém consegue desatar, só quem os fez. Thabó.

Ele me colocou em cima do cavalo, montou e galopamos rápido até o grande chiqueiro do Engenho. A madrugada já se despedia com o coro de galos cantando anunciando a chegada breve do dia. Fui para a minha janela, ele me ajudou a subir na escada, escondeu-a e saiu correndo para a Senzala.

Após duas semanas Thabó deixou uma flor copo de leite na minha janela, eu fui até o jardim ao cair da tarde e lá no meio dos pés de Dálias estava ele agachado. Disse-me que me aguardava ao lado esquerdo do grande casarão. Disse que era para eu avisar Sabina que eu estava indisposta, fazer meu prato e ir para o meu quarto, assim que coronel estivesse jantando eu sairia do casarão. Encontrei Thabó no cavalo, atrás de uns pés de pitangas, ele apeou e me colocou em cima do cavalo, galopamos até a nossa cabana. De longe dava para avistar a caveira de cabeça de vaca em cima da porta, Thabó disse que era para espantar maus espíritos.

Que lindo! Thabó havia preparado o nosso jantar. No fogão a lenha havia perdizes assadas nos espetos sob as brasas quase apagadas, sob folhas de taioba havia amoras frescas, pitangas e figos maduros. Jantamos. Thabó me confidenciou o segredo de seus temperos para que as perdizes fiquem saborosas. Disse que me contaria apenas três ervas e uma ficaria para eu adivinhar. Ele usou alecrim, alho poró, sálvia e acho que o ultimo são folhas de limoeiro. A minha felicidade comendo perdizes em pratos feitos de folhas de taioba não se pesava ou comparava com a tristeza e as porcelanas do casarão. Se a Virgem Maria concebesse a nós a liberdade para sermos felizes juntos, ali mesmo estaria perfeito. Thabó permanece no Engenho como escravo ‘aleijado’ desde a estratégia da picada da cobra cascavel do brejo. Ele agora, trata dos porcos, galinhas, colhe ovos, zela do jardim , horta e trata dos cavalos, hora ou outra escuta: ‘Esse daí não serve nem para vender, ninguém, vai querer um escravo aleijado’.

Depois que jantamos os nossos desejos falaram mais alto sem pensar ‘no depois’, nós nos amamos. Ali era o nosso paraíso, a nossa casa, o nosso lar, mesmo que espiados por almas da fazenda amaldiçoada e assombrada. Ninguém haveria de nos procurar ali, por medo e receio dos espíritos que habitam a velha e abandonada fazenda. Ali era só nosso.

Após fazermos amor até suar, estava deitada nos braços de Thabó, eu ouvi ao longe uma cantiga triste numa voz feminina, Thabó também ouviu, era uma cantiga bonita e triste num tom de ninar. Thabó disse:

-Os últimos que sucumbiram ao tentar viver um grande amor, foram à bisneta do coronel Joaquim e um filho de escrava, mesmo com a pele clara, ele era filho de um capitão do mato e de uma negra. Na impossibilidade de ficarem juntos, eles beberam veneno. Velho preto curandeiro disse, que agora, as suas almas estão juntas, aqui na velha fazenda e que nunca deixaram ninguém comprar aqui e nem mesmo adentrar muito até onde ficam os velhos casarões. A propriedade agora é deles para sempre.

Voltamos para o Engenho, para o nosso inferno de cada dia. Combinamos de dar um tempo sem se comunicar ou ir para a nossa cabana, para não despertar suspeitas nem no coronel Antero e nem em ‘Um olho só’. Vamos ficar só abanando a mão um para o outro, já que Thabó ficou com os afazeres em volta do casarão.

Catarina Diniz Sá: Não tenho nem palavras para descrever o que eu sinto ao ler as páginas sobre a cabana de pau-a-pique nas terras assombradas e sobre o amor de Ana Clara e Thabó que agora estão vivendo o amor e conjunção carnal como marido e mulher mesmo sem casar. É muito lindo, porém arriscado. Eu temo o que eu vou ler nas páginas seguintes do velho diário de Ana Clara.

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