FAZER LOGINDiário: A vida me reservou mais uma surpresa. Não só para mim, mas para Thabó também.
Ah, se tudo fosse diferente, a felicidade seria transbordante, mas o que está para se revelar é mais um motivo para estratégia de sobrevivência, ou melhor, de salvação.
Fui de manhã até a cozinha e estava comendo manga verde com sal, que Thabó colheu para mim. Sabina se virou do fogão a lenha, fez uma cara de espanto e comentou:
-Ana Clara, minha filha, tem muito tempo que eu desconfio, mas não falo nada, mas você e o Thabó não andam brincando por ‘ai’ como duas crianças, as brincadeiras dos dois agora são outras. Né?
Eu parei de comer manga com sal e respondi baixinho:
-Nós temos um lugar só nosso. É nosso segredo.
Sabina veio até próximo, botou a mão na minha barriga e disse:
-E essa barriga? Como vai fazer para esconder esse segredo?
Essa barriga diz que você e Thabó podem cavar onde vocês serão sepultados.
Sabina coloca as duas mãos no rosto e continua:
-O que vamos fazer? Minha Virgem Santíssima!
Olha e preste atenção: Por enquanto, eu vou pregar umas saias mais rodadas no corpo de seus vestidos, bem abaixo dos peitos. E para completar o disfarce, vou por uns babados acima dos peitos e ao vestir coloca dois arcos para rodar bem as saias. É até a gente arranjar outra saída, se é que dessa vez vamos conseguir.
Essa noite mesmo, eu já vou fazer umas mudanças em seus vestidos. E não coma ‘coisas esquisitas’ perto de seu pai. Eu falei para Thabó que você está num estado especial, ele só arregalou os olhos. Vocês dois deveriam de ter tomado cuidado.
-Você esta me assustando, Sabina. Talvez seja só uma fase de comer demais e como consequência eu estou um pouco gorda.
-Por Deus e a Virgem Maria, Ana Clara! Isso daí é gravidez. À noite vou levar você para Mãe preta parteira para ela dá uma olhada em você.
E assim, à noite com a ajuda de Thabó eu desci a escada e fomos para a Senzala. Lá Mãe preta parteira pediu que os homens fosse todos para um lado da Senzala e sentasse todos de costas e as mulheres sentassem em volta da esteira de taboca formando uma cortina humana, onde eu me deitei, para que Sabina e Mãe preta parteira me examinassem. Logo depois elas falaram:
-Ela está esperando, sim. Mãe preta parteira.
-Eu sabia! Minha Virgem Santa! Sabina.
Eu fiquei metade feliz e metade com muito medo de coronel Antero, meu pai. Como vou esconder uma barriga que cresce a cada dia.
E foi assim que eu passei a usar uns vestidos com uns modelos feitos por Sabina para esconder a minha barriga que estava crescendo.
Eu e Thabó começamos a pensar: Se fugiríamos, se eu iria para a casa de minha tia Tereza Santina, irmã de minha mãe. Ela é uma tia que defende o fim da escravidão, ela mora em São Paulo, é muito rica e meu pai, por incrível que pareça tem um pouco de receio dela. Digamos que ela é diferente para os tempos atuais. Mas eu não quero um plano só para mim e o bebê, eu quero levar Thabó e Sabina comigo.
Enquanto estiver dando certo, vamos esconder a minha barriga até surgir uma oportunidade de fuga.
Já não consigo andar a cavalo para irmos para a nossa cabana, então Thabó arreia o cavalo na carroça e aguarda um pouco mais distante do Engenho. Não podemos ficar longe um do outro por muito tempo.
Ele pede Sabina para fazer bolo de mandioca, ou assar peixe, fazer suco, assar lombo recheado e montar uma cesta de piquenique, para o nosso jantar na cabana, mas, às vezes esses são os meus desejos de grávida.
Sabemos do risco de vida que estamos correndo, mas, o nosso amor só aumentou. O que eu e Thabó sentimos um pelo o outro eu não sei se é uma benção ou uma maldição.
Todos os escravos e escravas do Engenho sabem de nós e o bebê que eu estou esperando, a nossa sorte é que todos estão a nos proteger, com o silêncio. Às vezes com uma mãozinha para nos livrar de ‘Um olho só’, ou de simular uma rusga entre eles, um estouro de boiada, tudo para distrair a atenção de coronel Antero Ferrão e de ‘Um olho só’ do nosso amor.
A cada dia eu estou mais gorda e os meus seios estão enormes. Como ficou combinado, Sabina modificou os meus vestidos e eu evito conviver com o meu pai para que ele não preste muita atenção em mim. Mas numa noite, na hora do jantar coronel Antero disse:
-Ana Clara que diabo de vestidos esquisitos são esses? Eu aposto que deve ser ideia da sua tia Tereza Santina, ela quer ser tão moderna. De tanto modernismo ficou viúva três vezes.
-Tia Tereza Santina só enviou os tecidos e eu e Sabina costuramos.
Eu não gosto de mentir, mas, essa situação que estamos vivendo torna-se quase obrigatório que pregamos mentiras vezes ou outra para escaparmos de um possível castigo.
As vezes sinto tanto enjoo na mesa que quase não consigo disfarçar, mas não posso levantar e retirar da mesa, seria como uma confissão e passagens para a morte. Vez ou outra vou até a cozinha para Sabina preparar algo diferente para que eu e o bebê saciamos o desejo.
E agora a nossa situação está bastante complicada. Até agora eu não tive como enviar nenhuma carta para tia Tereza Santina, não é seguro o envio de cartas, é claro que serão violadas e o nosso segredo descoberto.
Conforme o exame de Mãe preta parteira eu estou com quase nove meses, isso significa que o bebê está para nascer.
Se tudo der certo, com as bênçãos da Virgem Maria, vou dar a luz na Senzala, se for noite, e no mato se for dia. Se eu sentir que o bebê quer vir ao mundo é para eu fazer de tudo para esperar a noite. Sabina e Mãe preta parteira disseram:
-Tomara que queira a Virgem Maria que o bebê não seja afobado e aguarde a noite para brotar no mundo.
Orei tanto para a Virgem Maria que comecei a sentir as dores ao cair da noite.
Sabina avisou Thabó que avisou os outros escravos.
Mesmo grávida eu desci a escada, Thabó escondeu a escada nos arbustos do jardim e fomos para a Senzala. Lá já estava tudo preparado.
Eu e Sabina fizemos roupinhas de bebê e deixamos guardadas num pequeno baú na Senzala.
Mãe preta curandeira pediu que todas as mulheres sentassem em volta da esteira em que eu estava deitada, todas ficassem de costas e cantassem alto, bem alto e sem parar, enquanto os homens, incluindo Thabó fossem para um lado da Senzala e batessem tambores e até berimbau e que jogassem até capoeira, o barulho tinha que ser bem alto. E assim, enquanto eu gritava as dores de dar a luz, as escravas cantavam e ao som dos tambores nasceu um bebê branco na Senzala. Sabina e Mãe preta parteira ou Velha preta parteira disseram que não foi fácil, mas que eu e o bebê fomos valentes. Não posso descrever quando tomei o nosso bebê nos braços. Thabó veio convidado por Mãe preta parteira para conhecer o nosso bebê.
-Ele é a coisa mais linda, Ana Clara, meu amor. É um bebê copo de leite, é branco como a flor copo de leite. É de sua cor. Thabó.
A nossa sorte é que coronel Antero manteve no Engenho Mãe preta parteira ou para alguns, Velha preta parteira, pois para o coronel perder um escravo ou escrava no parto é um grande prejuízo. E ela é uma excelente parteira, com muita experiência.
Eu estava fraca, mas tínhamos que seguir com o nosso plano. A escrava Mudinha havia sofrido um aborto naqueles dias e o fato foi mantido em segredo no Engenho. Ela esta com os seios cheio de leite e não se opôs em tomar conta do bebê copo de leite que vai ficar na Senzala até que tenhamos condições, ou sorte para fugirmos do Engenho. Eu vou continuar usando meus vestidos rodados e com babados cobrindo os seios. Só vou poder ver e amamentar o bebê copo de leite à noite quando coronel Antero e ‘Um olho só’ se recolherem. Thabó e todos da Senzala me garantiram que vai ficar tudo bem.
Sabina ajudou a vestir-me e já era hora de voltar para o meu quarto e fingir uma forte gripe para ficar de repouso uns dias.
Velho preto curandeiro garantiu que a saúde do bebê copo de leite é perfeita.
-Pode ir e se repousar. O bebê copo de leite estará seguro aqui. Mãe Sabina levará noticias do bebê todos os dias. Agora vai, meu amor. Antes que ‘Um olho só’ vem ver o que está acontecendo.
Eu fui para o meu quarto e mesmo fraca subi na escada, joguei beijo para Thabó que guardou a escada e foi correndo para a Senzala, Sabina entrou pela a cozinha e preparou para mim uma canja de fubá com ovos batidos.
Sabina disse que logo cedo, no café da manhã, iria dizer ao coronel Antero que não vou descer para as refeições durante alguns dias, por estar com uma forte gripe e tendo febre. Assim eu posso me recuperar para ir as noites amamentar e ficar um pouco com o bebê copo de leite e com o pai dele e meu amor, Thabó.
Catarina Diniz Sá: Eu não sei onde eles encontraram tanta coragem. Naquele momento era de grande valor o apoio de todos os escravos. E o bebê nasceu branco, com a cor de Ana Clara, deram a ele um nome lindo como se fosse de batismo por ele ter nascido na Senzala. Eu espero que ao ler as próximas páginas do diário de Ana Clara, Thabó, o bebê copo de leite e a sinhazinha estarão bem.
Se não fosse a tirania e o regime escravocrata adotado por muitos naquela época, eles seriam uma FAMÍLIA LINDA E LIVRE.
“Aprendemos a voar como os pássaros e a nadar como os peixes, mas não aprendemos a conviver como irmãos”.
MARTIN LUTHER KING
Diário: Eu, João Carlos Thabó Baptista, filho de Ana Clara Ferrão Gregório Baptista e Thabó, chamado carinhosamente na infância de bebê copo de leite, atendo ao pedido de meu querido e amado pai, Thabó: Assim é com imenso prazer que eu escrevo palavras tristes ditadas por meu pai com o objetivo de finalizar o diário de minha querida e brava mãe, a sinhazinha Ana Clara. Já fazem vinte anos que numa fuga em busca de liberdade e dignidade que aconteceu o ‘pior’ mas foi a partir desse ‘pior’ que hoje eu João Carlos Thabó Baptista sou um homem livre, sei ler e escrever e agora vou anotar as tristes e dolorosas palavras de meu pai Thabó. Meu pai relembra a fuga, conta que tinha tudo para ter dado certo, ele, minha mãe e minha avó Sabina combinaram tudo, e assim naquela madrugada vó Sabina fingiu ir até a lavoura de mandioca e foi para a cabana de pau-a-pique, chegando lá meu pai Thabó, minha mãe Ana Clara e eu ainda bebê embarcamos na carroça. Meu pai Thabó
Diário: Não que eu deseje o mal para o meu pai, o poderoso coronel Antero Ferrão, mas eu e Thabó vivemos de ‘catar’ as migalhas de tempo e oportunidade para ficarmos juntos e dar carinho e amor para o nosso bebê. Coronel Antero Ferrão está com muita febre, ‘Um olho só’ já buscou médico na cidade que receitou medicamentos, chás e muito repouso. E é claro que eu e Thabó aproveitamos para irmos para a nossa cabana de pau-a-pique com o nosso bebê. ‘Um olho só’ aproveita e bebe cachaça em exagero e dorme cedo. Thabó me aguardou abaixo do chiqueiro dos porcos já com o nosso bebê no cestinho de taboca. Ele está saudável e cada vez mais lindo. E esta crescendo, já movimenta as mãozinhas e com os pezinhos, sorri e balbucia. Thabó tem muita cautela e amor pelo o nosso filho. Nós contamos com os raios da lua para clarear o caminho em que passamos e com a sorte e a proteção da Virgem Maria para que não sejamos atacados por bichos selvagens, já que passamos próxim
Diário: Até agora o nosso plano está dando certo, mas já pensamos num segundo plano. O bebê copo de leite está forte e bem de saúde. Ele fica no jacazinho de taboca, na Senzala, escrava Mudinha vai até ele para amamentar no dia e a noite eu fujo com a ajuda de Thabó e vamos para a Senzala onde fico um pouco com Thabó, amamento e dou amor para o nosso bebê. Eu me arrisquei a pedir para coronel Antero para que me deixasse fazer uma visita para tia Tereza Santina o que foi negado aos gritos. Thabó chamou Sabina e pediu para que me desse um recado e ao ouvir esse recado era para eu tomar muito cuidado em relação ao meu estado físico e ao bebê copo de leite. Thabó contou para Sabina que ‘Um olho só’ descobriu o bebê copo de leite na Senzala e foi falar para coronel Antero Ferrão, ele disse: -Coronel Antero, a nega Mudinha deu a luz a um menino branco. O que eu faço com ele? É branco que doí as vistas. ‘Um olho só’. -Ora, ora,
Diário: A vida me reservou mais uma surpresa. Não só para mim, mas para Thabó também. Ah, se tudo fosse diferente, a felicidade seria transbordante, mas o que está para se revelar é mais um motivo para estratégia de sobrevivência, ou melhor, de salvação. Fui de manhã até a cozinha e estava comendo manga verde com sal, que Thabó colheu para mim. Sabina se virou do fogão a lenha, fez uma cara de espanto e comentou: -Ana Clara, minha filha, tem muito tempo que eu desconfio, mas não falo nada, mas você e o Thabó não andam brincando por ‘ai’ como duas crianças, as brincadeiras dos dois agora são outras. Né? Eu parei de comer manga com sal e respondi baixinho: -Nós temos um lugar só nosso. É nosso segredo. Sabina veio até próximo, botou a mão na minha barriga e disse: -E essa barriga? Como vai fazer para esconder esse segredo? Essa barriga diz que você e Thabó podem cavar onde vocês serão sepultados. Sa
Diário: Querido diário, eu preciso desabafar o pavor que eu senti quando desci do meu quarto e lá na sala do casarão estava meu pai o coronel Antero e um homem, alto, com um chapéu caro e usando um terno de linho caro num tom de azul marinho, idade trinta anos. Assim, que eu o vi, sabia que não era algo de bom para mim. Eu mal botei o pé no ultimo degrau da escada, descendo, meu pai já foi logo me apresentando com um largo sorriso nos lábios, o que é muito raro. -Primo Luano, essa aqui é minha pedra preciosa, Ana Clara, está na hora de casar e eu tenho certeza que vai te dar uns quatro filhos como é de seu desejo. Cumprimente seu noivo, Ana Clara. Coronel Antero. -Boa noite, Ana Clara. Eu sou Luano, acabei de chegar da Europa, onde me formei em advogado. Meus pais têm fazendas na Bahia e Goiás, estava indo para Goiás e resolvi passar aqui para lhe conhecer e fazer a ‘corte’. Antero enviou uma carta para meus pais falando do encanto de filha que
Diário: Aqui no Engenho, os dias e as noites continuaram os mesmos, o dia cheio de negros cuidando, trabalhando no Engenho ou levando chibatadas no tronco, de modo que a ‘liberdade’ até parece se esconder na mata com medo do coronel Antero e de ‘Um olho só’, as noites com a sua sensualidade, contando com a beleza da lua e das estrelas no céu, o coaxar dos sapos no rio, a cantiga dos pássaros e grilos em coro unido e vindo ao barulho do vento. Algumas dessas noites o som dos tambores na Senzala se faz especial. Se coronel Antero e ‘Um olho só’ já estão recolhidos em seus aposentos eu e Sabina, vamos até a Senzala apreciar a dança dos escravos e o batuque dos escravos. Assim eu e Thabó ficamos alguns minutos juntos. Temos que tomar cuidado, pois vivemos sob fortes ameaças até de: -Se eu te pego com esse negro Thabó, não sei do que eu sou capaz. Até de te matar! Ouviu Ana Clara? Coronel Antero Ferrão. Numa noite Thabó foi até a minha janela e me a