LOGINDiário: Não que eu deseje o mal para o meu pai, o poderoso coronel Antero Ferrão, mas eu e Thabó vivemos de ‘catar’ as migalhas de tempo e oportunidade para ficarmos juntos e dar carinho e amor para o nosso bebê.
Coronel Antero Ferrão está com muita febre, ‘Um olho só’ já buscou médico na cidade que receitou medicamentos, chás e muito repouso.
E é claro que eu e Thabó aproveitamos para irmos para a nossa cabana de pau-a-pique com o nosso bebê. ‘Um olho só’ aproveita e bebe cachaça em exagero e dorme cedo.
Thabó me aguardou abaixo do chiqueiro dos porcos já com o nosso bebê no cestinho de taboca. Ele está saudável e cada vez mais lindo. E esta crescendo, já movimenta as mãozinhas e com os pezinhos, sorri e balbucia. Thabó tem muita cautela e amor pelo o nosso filho.
Nós contamos com os raios da lua para clarear o caminho em que passamos e com a sorte e a proteção da Virgem Maria para que não sejamos atacados por bichos selvagens, já que passamos próximo das matas.
Será só algumas horas, na madrugada nós retornamos. Quando chegamos no Engenho e os cachorros fazem alvoroço, latindo, o escravo Saci disfarça, fingindo ter ido ver o que se movimentava próximo do galinheiro. Se questionado por ‘Um olho só’, ele responde que viu uma raposa fugindo para o mato e aponta ao contrario do caminho de nossa chegada. Além dos escravos aprisionados no Engenho, há cercados por todos os lados com galinhas, patos, gansos, carneiros, porcos, bezerros e um canil com cachorros de caça, os quais são o ‘xodó’ de ‘Um olho só’. As vezes que um escravo ou outro foge ou tenta conquistar a liberdade eles auxiliam na procura do escravo, farejando os rastos, e cheiro mata adentro.
O Engenho é cheio de fartura, é um lugar bonito, eu vou sentir saudade da beleza do casarão e do jardim, mas ao mesmo tempo é um lugar cheio de dor e tristeza, eu não suporto ouvir os gritos de dor de um escravo sendo castigado no tronco ou recebendo chibatadas de ‘Um olho só’ ou de coronel Antero, meu pai.
Chegamos à cabana e os nossos corações são tomados de paz, Thabó sempre leva frutas e um cesto de piquenique com delícias preparadas por Sabina. Nós brincamos e amamos o nosso bebê copo de leite e depois que ele adormece, nós, eu e Thabó temos o nosso momento de marido e mulher. Mãe preta parteira me deu algumas ervas para eu tomar o chá, ela disse que junto com o meu período de amamentação não me deixará engravidar. Que o meu pai nem sonhe, mas às vezes são usadas pelas as escravas que servem de ‘reprodutoras’.
Eu já ajoelhei aos pés da Virgem Maria e pedi o seu perdão e a sua benção, por eu e Thabó não sermos casados perante e com as bênçãos de um padre.
Enquanto estamos na cabana, começamos a pensar num plano de fuga. Não demora o bebê copo de leite estará andando e não podemos correr o risco de coronel Antero leiloa-lo na feira de escravos. Thabó me disse que meu pai e ‘Um olho só’ colocaram num pasto afastado do casarão uns cavalos de ‘primeira’, ele acha que para a nossa fuga ele vai pegar dois, eles precisam ser fortes , novos e não arredios. Thabó disse também que vem reformando uma carroça, principalmente as rodas, assim que ‘ganharmos’ a estrada, não vamos nem olhar para trás. Sabina vai ficar encarregada de levar umas farofas de carne, biscoitos, frutas e água, não vamos parar para nada. Levaremos poucas roupas. Eu expliquei para Thabó como chegar à grande residência de tia Tereza Santina, com certeza, com mais calma ela e outros abolicionistas irão providenciar libertar os escravos do Engenho e de outras fazendas vizinhas do Engenho. Ela os liberta e os esconde num povoado. Expliquei tudo sobre tia Tereza Santina para auxiliar Thabó a planejar melhor a nossa fuga.
Deitada nos braços de Thabó eu disse que se ele perceber que os cavalos não irão aguentar a distância do Engenho até o nosso destino, soltamos os cavalos, abandonamos a carroça e vamos para a estação e lá nos escondemos num vagão carregado de sacos de grãos ou de transporte de animais que nos levará até tia Tereza Santina. O nosso plano ainda precisa ser aperfeiçoado.
Thabó e Sabina já andaram a planejar ao menos a nossa saída do Engenho. Vamos contar com os hábitos de Sabina que quase toda semana, uma vez, ela sai de madrugada e vai até o mandiocal arrancar mandiocas para a cozinha, para ela preparar os seus quitutes, farinhas, bolos, polvilho e bolinhos. E para ela conseguir arrancar uma carroça de mandioca ela vai para a lavoura de mandioca na metade da noite ou nas madrugadas. E para a nossa sorte a lavoura de mandioca fica no caminho que passamos para chegarmos à estrada que nos levam para a nossa cabana.
Thabó disse que é para colocar uns poucos vestidos dentro de ‘fronhas’ de travesseiro, Sabina irá fazer o mesmo com os seus vestidos, calças para Thabó e as roupinhas do bebê. Essas fronhas servirão de barreiras na traseira da carroça, pois Sabina irá sentada no assoalho da carroça segurando o cestinho do bebê copo de leite. Enquanto Thabó ‘instiga’ os cavalos a correrem eu vou ficar de olho nas matas e aos redores.
No dia em que vamos marcar a nossa fuga, Velho preto curandeiro irá ‘induzir’ ‘Um olho só’ a provar uma cachaça com raízes, dizendo ser especial, para que ele se embebede. Negrinho Saci irá colocar fogo numa pequena ‘moita’ de capim Napier que serve para o trato dos animais, só para servir de distração. Eu, Thabó e o bebê copo de leite vamos para a cabana na carroça e cavalos costumeiros e na metade da noite Sabina vai até nós na carroça e nos cavalos novos.
Vamos cortar caminho por dentro da velha fazenda abandonada e assombrada, além de contarmos com o apoio dos espíritos que lá habitam, estaremos salvos até tomarmos certa distância do Engenho. Thabó já deu uma olhada nas estradas que vamos passar.
Eu e Sabina já estamos rezando para a Virgem Maria, para ela nos conduzir até a residência de tia Tereza Santina, salvos e com vidas.
Catarina Diniz Sá: Meu Deus! Eu estou muito nervosa com esse plano de fuga, é como se eu fosse fugir com eles. Aos olhos, poder e maldade do coronel Antero Ferrão e de seu capitão do mato treinado para embrenhar nas matas atrás de escravos fugitivos esse plano de fuga parece tão frágil. Por mais que Thabó reforme a carroça e escolha cavalos novos e fortes, eles estarão correndo risco de serem capturados. O que não poderá acontecer jamais. Não posso imaginar o que acontecerá com eles, adultos e com o bebê copo de leite se coronel Antero e ‘Um olho só’ os alcancem e os levam de volta para o Engenho.
Eu percebo que arranjam ‘coragem’ e fé que não dá nem para imaginar. Eles são muito corajosos! Eu espero ler nas páginas seguintes do velho diário de Ana Clara que eles estão a salvos na casa da abolicionista Tereza Santina.
Diário: Eu, João Carlos Thabó Baptista, filho de Ana Clara Ferrão Gregório Baptista e Thabó, chamado carinhosamente na infância de bebê copo de leite, atendo ao pedido de meu querido e amado pai, Thabó: Assim é com imenso prazer que eu escrevo palavras tristes ditadas por meu pai com o objetivo de finalizar o diário de minha querida e brava mãe, a sinhazinha Ana Clara. Já fazem vinte anos que numa fuga em busca de liberdade e dignidade que aconteceu o ‘pior’ mas foi a partir desse ‘pior’ que hoje eu João Carlos Thabó Baptista sou um homem livre, sei ler e escrever e agora vou anotar as tristes e dolorosas palavras de meu pai Thabó. Meu pai relembra a fuga, conta que tinha tudo para ter dado certo, ele, minha mãe e minha avó Sabina combinaram tudo, e assim naquela madrugada vó Sabina fingiu ir até a lavoura de mandioca e foi para a cabana de pau-a-pique, chegando lá meu pai Thabó, minha mãe Ana Clara e eu ainda bebê embarcamos na carroça. Meu pai Thabó
Diário: Não que eu deseje o mal para o meu pai, o poderoso coronel Antero Ferrão, mas eu e Thabó vivemos de ‘catar’ as migalhas de tempo e oportunidade para ficarmos juntos e dar carinho e amor para o nosso bebê. Coronel Antero Ferrão está com muita febre, ‘Um olho só’ já buscou médico na cidade que receitou medicamentos, chás e muito repouso. E é claro que eu e Thabó aproveitamos para irmos para a nossa cabana de pau-a-pique com o nosso bebê. ‘Um olho só’ aproveita e bebe cachaça em exagero e dorme cedo. Thabó me aguardou abaixo do chiqueiro dos porcos já com o nosso bebê no cestinho de taboca. Ele está saudável e cada vez mais lindo. E esta crescendo, já movimenta as mãozinhas e com os pezinhos, sorri e balbucia. Thabó tem muita cautela e amor pelo o nosso filho. Nós contamos com os raios da lua para clarear o caminho em que passamos e com a sorte e a proteção da Virgem Maria para que não sejamos atacados por bichos selvagens, já que passamos próxim
Diário: Até agora o nosso plano está dando certo, mas já pensamos num segundo plano. O bebê copo de leite está forte e bem de saúde. Ele fica no jacazinho de taboca, na Senzala, escrava Mudinha vai até ele para amamentar no dia e a noite eu fujo com a ajuda de Thabó e vamos para a Senzala onde fico um pouco com Thabó, amamento e dou amor para o nosso bebê. Eu me arrisquei a pedir para coronel Antero para que me deixasse fazer uma visita para tia Tereza Santina o que foi negado aos gritos. Thabó chamou Sabina e pediu para que me desse um recado e ao ouvir esse recado era para eu tomar muito cuidado em relação ao meu estado físico e ao bebê copo de leite. Thabó contou para Sabina que ‘Um olho só’ descobriu o bebê copo de leite na Senzala e foi falar para coronel Antero Ferrão, ele disse: -Coronel Antero, a nega Mudinha deu a luz a um menino branco. O que eu faço com ele? É branco que doí as vistas. ‘Um olho só’. -Ora, ora,
Diário: A vida me reservou mais uma surpresa. Não só para mim, mas para Thabó também. Ah, se tudo fosse diferente, a felicidade seria transbordante, mas o que está para se revelar é mais um motivo para estratégia de sobrevivência, ou melhor, de salvação. Fui de manhã até a cozinha e estava comendo manga verde com sal, que Thabó colheu para mim. Sabina se virou do fogão a lenha, fez uma cara de espanto e comentou: -Ana Clara, minha filha, tem muito tempo que eu desconfio, mas não falo nada, mas você e o Thabó não andam brincando por ‘ai’ como duas crianças, as brincadeiras dos dois agora são outras. Né? Eu parei de comer manga com sal e respondi baixinho: -Nós temos um lugar só nosso. É nosso segredo. Sabina veio até próximo, botou a mão na minha barriga e disse: -E essa barriga? Como vai fazer para esconder esse segredo? Essa barriga diz que você e Thabó podem cavar onde vocês serão sepultados. Sa
Diário: Querido diário, eu preciso desabafar o pavor que eu senti quando desci do meu quarto e lá na sala do casarão estava meu pai o coronel Antero e um homem, alto, com um chapéu caro e usando um terno de linho caro num tom de azul marinho, idade trinta anos. Assim, que eu o vi, sabia que não era algo de bom para mim. Eu mal botei o pé no ultimo degrau da escada, descendo, meu pai já foi logo me apresentando com um largo sorriso nos lábios, o que é muito raro. -Primo Luano, essa aqui é minha pedra preciosa, Ana Clara, está na hora de casar e eu tenho certeza que vai te dar uns quatro filhos como é de seu desejo. Cumprimente seu noivo, Ana Clara. Coronel Antero. -Boa noite, Ana Clara. Eu sou Luano, acabei de chegar da Europa, onde me formei em advogado. Meus pais têm fazendas na Bahia e Goiás, estava indo para Goiás e resolvi passar aqui para lhe conhecer e fazer a ‘corte’. Antero enviou uma carta para meus pais falando do encanto de filha que
Diário: Aqui no Engenho, os dias e as noites continuaram os mesmos, o dia cheio de negros cuidando, trabalhando no Engenho ou levando chibatadas no tronco, de modo que a ‘liberdade’ até parece se esconder na mata com medo do coronel Antero e de ‘Um olho só’, as noites com a sua sensualidade, contando com a beleza da lua e das estrelas no céu, o coaxar dos sapos no rio, a cantiga dos pássaros e grilos em coro unido e vindo ao barulho do vento. Algumas dessas noites o som dos tambores na Senzala se faz especial. Se coronel Antero e ‘Um olho só’ já estão recolhidos em seus aposentos eu e Sabina, vamos até a Senzala apreciar a dança dos escravos e o batuque dos escravos. Assim eu e Thabó ficamos alguns minutos juntos. Temos que tomar cuidado, pois vivemos sob fortes ameaças até de: -Se eu te pego com esse negro Thabó, não sei do que eu sou capaz. Até de te matar! Ouviu Ana Clara? Coronel Antero Ferrão. Numa noite Thabó foi até a minha janela e me a