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8: LOUIS SEAGAL

last update publish date: 2026-08-05 07:02:53

A noite no Coiote não era só escuridão. Era um animal que respirava. O ar quente e úmido grudava na pele, misturando cheiro de esgoto, fritura de bar e maconha que subia das bocas de fumo. Eu voltava da escola depois de guardar os berimbaus e as roupas de capoeira, a mochila pesada no ombro, o corpo ainda suado do treino. Anos de disciplina militar me faziam andar em silêncio, mas o silêncio daquela noite era diferente. O funk que sempre martelava as paredes sumiu de repente. As motos pararam. Até os cachorros magros se calaram. Meu instinto, aquele que sobreviveu a emboscadas no Afeganistão e a tiroteios em lugares sem nome, gritou antes que eu viesse a ver.

Eles saíram da viela estreita como se a sombra tivesse parido. Dois homens grandes, pistolas aparentes na cintura, rostos fechados de quem já matou por ordem. E no meio, ele. Silverio Oliveiras. Alto, pele negra retinta, músculos marcados por academia e por brigas de rua, cabelo raspado, barba aparada com precisão, corrente de ouro grossa brilhando no peito. Olhar de quem conhece cada ruela e cada medo. Era o segundo encontro. O primeiro tinha sido curto, só palavras e um aviso. Agora ele vinha preparado.

— Louis Seagal — a voz dele saiu grave, arrastada, cheia de malícia. — Quanto tempo, hein, gringo? Ou ainda prefere moleque do Coiote? Eu me lembro de você correndo por essas ladeiras atrás da mãe capoeirista, antes de sumir pro mundão com o pai militar.

Eu parei. Corpo relaxado por fora, cada músculo tenso por dentro. Não demonstrei medo. Nunca demonstrei. As Forças Especiais tinham martelado isso em mim até virar reflexo.

— Silverio — respondi, voz baixa e neutra. — Ouvi falar que agora você manda no pedaço.

Ele riu sem humor. O cheiro de colônia cara misturado com fumo chegou até mim quando ele deu um passo.

— Mando mais que isso, americano. Cada boca, cada moleque, cada professor que chega querendo bancar o salvador passa por mim. Você tá causando problema. Eu vi a roda hoje. Os crias gostaram. A Helena também, né? Mas capoeira não resolve merda nenhuma aqui. Eles precisam da minha disciplina. Você chega do nada com cara de herói, querendo ensinar malandragem? Tá tirando onda.

Mantive o olhar firme. Eu conhecia aquele tipo. Homens que confundiam medo com respeito e poder com eternidade.

— Não tô tirando onda. Só quero dar chance pros garotos. Muitos tão perdidos. Eu sei como é.

Silverio balançou a cabeça, rindo como se eu tivesse contado a piada mais idiota do mundo.

— Chance? Aqui a chance é trabalhar pra mim ou morrer. Você não entende o jogo. Chega com essa capoeira bonitinha, a Helena rebolando na sua frente… acha que vai mudar alguma coisa? — O tom endureceu. — Aviso de homem pra homem: sai do morro. Volta pros Estados Unidos. Some. Se continuar ensinando meus moleques a se rebelar, eu te mato devagar. E depois lembro pra Helena quem manda de verdade.

A menção ao nome dela fez meu sangue subir. Cerrei os punhos ao lado do corpo, mas me controlei. Não era hora de reagir com as mãos. Ainda.

— E se eu não sair?

Ele chegou perto o bastante para eu sentir o bafo. Os dois capangas se posicionaram atrás, fechando a saída da viela. Estávamos sozinhos. Sem testemunhas. Sem chance de gritar.

— Aí você vira mais um corpo boiando na Baía de Guanabara. Ou pior. Posso começar pelos moleques que você ensina. Ou pela professora. Ou pelo filhinho dela. Você escolhe.

O silêncio que veio depois pesou como concreto molhado. Eu olhei nos olhos dele sem piscar. Anos de guerra me ensinaram que fraqueza é convite. Também me ensinaram quando a luta vale a pena.

— Eu não vou embora — falei devagar, cada palavra cortando o ar quente. — Cresci aqui. Voltei pra tentar diferente. Se quiser guerra, Silverio, a gente vai ter. Mas saiba: eu não sou professor qualquer. Já matei homens melhores que você em lugares piores que esse morro. Se encostar na Helena, no Lucas ou em qualquer um daqueles garotos… eu te mato primeiro.

Por um segundo vi surpresa no olhar dele. Depois veio a raiva pura, crua. Ele deu um passo para trás, ajustou a corrente no pescoço e sorriu de novo, aquele sorriso de quem guarda ódio para o momento certo.

Foi então que a conversa mudou de tom. Silverio abriu os braços, o sorriso se alargando, e puxou o fumo que tinha no bolso.

— Ora ora… Já faz muito tempo que não vejo um santo bem na minha frente em carne e osso. Sabe de uma coisa, santo? Te dou o que você quiser se ensinar esses merdinhas dos meus crias a virar homens de verdade. E aí, o que me diz?

Eu senti o nojo subir na garganta. O cheiro do fumo, a corrente brilhando, os capangas prontos. Tudo me enojou.

— E também me dá toda coca que eu puder cheirar. Não é? — disse Louis.

Silverio soltou uma risada baixa, os braços ainda abertos, o fumo entre os dedos.

— Como quiser. Eu sou um cara sensato.

Eu olhei para os tênis caros dele, limpos demais para o morro, e senti o estômago revirar de verdade.

— Sabe de uma coisa? É melhor eu sair daqui antes que eu vomite nos seus lindos tênis. Com licença.

Virei o corpo devagar, sem dar as costas de vez. Os capangas se moveram, mas Silverio ergueu a mão. Deixaram-me passar. O coração batia forte, o suor escorria pela coluna apesar do ar noturno. Cada passo ecoava nas pedras irregulares da ladeira. Eu não corri. Correr era fraqueza. Andei com o mesmo passo de sempre, a mochila pesada, o berimbau mentalmente em prontidão, os sentidos todos abertos.

Quando cheguei à esquina, ainda senti o olhar dele nas costas. Antes de desaparecer de vez, Silverio gritou baixo, só para eu ouvir:

— Ah, e manda um beijo pra Helena. Diz que eu ainda lembro do gosto dela.

A frase ficou zunindo no ar como inseto venenoso. Eu continuei andando. O quartinho que alugava ficava mais acima, uma porta de madeira podre, cama velha, berimbau encostado na parede. Entrei, fechei a porta com cuidado, sentei na beira da cama. As mãos tremiam um pouco. Não de medo. De fúria contida. O corpo inteiro ainda vibrava com a ameaça. Eu via o rosto de Helena, o sorriso dos garotos na roda, o Lucas pequeno correndo entre as cadeiras da escola. Via também o olhar de Silverio, a corrente de ouro, os capangas prontos para atirar.

Eu podia pegar a mochila e sumir. Qualquer homem sensato sumiria. Mas eu não era mais aquele homem. Tinha perdido gente demais em guerras que não eram minhas. Tinha voltado ao Coiote porque o sangue ainda corria nessas ladeiras, porque a mãe me ensinou ginga antes de eu aprender a segurar fuzil, porque aqueles meninos mereciam mais do que virar soldados de um traficante.

Levantei. Peguei o berimbau. As cordas vibraram sob os dedos quando eu toquei de leve, o som baixo e grave enchendo o quarto pequeno. Do lado de fora, o morro voltava a respirar aos poucos: um funk distante, o latido de um cão, o ronco de uma moto subindo a ladeira.

Sentei de novo, o berimbau no colo, e senti o metal frio da lâmina escondida na bota pressionar a panturrilha enquanto o coração batia no ritmo de quem já escolheu o lado e não pretende recuar.

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