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7: HELENA COSTA

last update publish date: 2026-08-05 07:02:48

Eu tentava proteger meu filho Lucas e manter a vida dura mas estável de mãe solo e professora no Morro do Coiote, mas o fogo que Louis acendera na roda e o recado armado de Silvério batendo à minha porta me arrastavam para um desejo e um perigo que eu não sabia mais como controlar.

O calor da roda ainda queimava na minha pele quando cheguei em casa. O corpo inteiro latejava — não só de cansaço, mas de algo mais profundo, mais perigoso. Cada movimento que Louis fizera na minha direção durante a capoeira tinha deixado marcas invisíveis. O roçar da mão grande e calejada na minha cintura quando esquivei de uma rasteira, o calor do peito dele passando perto do meu rosto, o jeito como os olhos verdes me olhavam enquanto gingávamos: aquilo tudo ainda pulsava dentro de mim como um tambor. Fazia quatro anos que nenhum homem mexia comigo assim. Desde que o pai do Lucas morrera num tiro perdido, eu me fechara para o mundo e me tornara apenas mãe, professora e uma guerreira que batalhava dia após dia para sobreviver. Mas aquele gringo alto, suado, cheio de cicatrizes e de silêncios pesados tinha conseguido acender um fogo que eu jurava estar apagado.

Entrei no barraco, fechei a porta atrás de mim e encostei as costas na madeira velha, tentando — em vão — tomar as rédeas da situação. O coração bandido ainda batia acelerado. Lucas, meu filho de doze anos, estava no sofá vendo televisão com o som baixo. Ele olhou para mim e franziu a testa, o mesmo jeito que o pai fazia quando desconfiava de alguma coisa.

— Mãe, cê tá vermelha. Tá passando mal? — perguntou, assustado. Nunca me vira chegar daquele jeito.

— Não é nada, filho. Só o calor da roda — respondi, tentando sorrir. A voz saiu rouca. Eu ainda sentia o toque de Louis: a palma grande segurando a minha por um segundo a mais do que precisava, o cheiro dele — mistura de suor limpo, terra batida e algo masculino que me deixava tonta.

Apressadamente fui para o quarto, tirei a roupa suada e entrei no banho frio. A água descia pelo corpo, mas não apagava o incêndio. Fechei os olhos e lembrei do momento exato em que nossos corpos se aproximaram demais na roda. O braço dele roçando a lateral do meu seio quando fez a meia-lua alta. O olhar verde queimando o meu. Senti um aperto forte entre as pernas, uma vontade absurda que me fez morder o lábio até doer.

“Para, Helena. Para com essa merda”, pensei.

Eu sabia que Louis era um problema enorme. Gringo, ex-soldado das Forças Especiais, cheio de trauma e de cicatrizes que contavam histórias que eu não queria ouvir. Homem assim não fica no morro. Esse tipo de homem morre ou vai embora. Mas o corpo não queria escutar a razão. Quatro anos de solidão, de noites frias, de mãos que só tocavam o filho ou o giz. E agora aquilo.

Saí do banho, vesti um short velho e uma camiseta larga. Fui até a cozinha e preparei arroz com feijão e ovo para mim e para o Lucas. Jantamos conversando sobre o dia dele na escola. O meu menino estava animado com as aulas de capoeira.

— O Louis é foda, mãe. Ele sabe lutar de verdade. Disse que amanhã vai ensinar a gente a cair sem se machucar — contou, os olhos brilhando.

Eu só assenti, mas por dentro o peito apertava. Porque meu filho já estava se apegando. E o pior de tudo era que eu também estava. E ainda não sabia como mudar essa situação.

A noite caiu pesada no Morro do Coiote. O som do funk vinha de algum lugar lá embaixo, misturado com moto subindo a ladeira e o latido de cachorro. Eu estava deitada na cama, tentando ler um livro que não entrava na cabeça, quando ouvi as batidas na porta. Três batidas fortes e secas. O estômago gelou na hora. Eu conhecia aquele jeito de bater.

Levantei devagar, olhei pelo olho mágico e vi Juninho: baixinho, tatuado, corrente de ouro no pescoço, armado até os dentes. Um dos homens de confiança de Silvério. Abri uma fresta da porta, sem tirar a corrente de segurança.

— Que que cê quer, Juninho? — perguntei, a voz firme, o corpo já em alerta.

Ele sorriu daquele jeito que não chegava aos olhos.

— O patrão mandou um recado pra você, Helena. Diz que tá sabendo do gringo que chegou. O americano que tá dando aula de capoeira pros moleques. Ele quer que o cara saia do morro rápido, antes que as paradas compliquem.

Meu coração disparou. Medo misturado com algo que eu não queria admitir.

— E se ele não sair? — perguntei, tentando manter a voz estável.

Juninho deu de ombros, a corrente brilhando sob a luz fraca do poste.

— Tu conhece como funciona as paradas, né, “fessora”? Aí o Silvério mesmo vai resolver. E cê sabe como ele desenrola as fitas. Não é bom mexer com o que já tem dono, né não? — Ele olhou para dentro da casa, como se procurasse alguém. — Cuida do seu moleque, Helena. E pensa bem. O Silvério ainda gosta de você… mas não força a barra.

Ele terminou, se virou e desapareceu na escuridão da viela. Fechei a porta rápido, passei a tranca e encostei a testa na madeira velha. O coração batia tão forte que parecia que ia sair pela boca. Eu sentia medo e, ao mesmo tempo, raiva daquela situação. E, para complicar ainda mais, ainda havia a porra do desejo. Porque mesmo com toda aquela ameaça no ar, a mente voltava para Louis: o jeito como ele me olhava na roda, o corpo suado girando perto do meu, a voz grave dizendo que íamos mudar aquilo juntos.

Voltei para o quarto e me joguei na cama. As mãos tremiam. Peguei o celular, quase liguei para ele. Mas o que eu ia dizer? “Oi, gringo, o traficante mais perigoso do morro mandou você embora e eu não consigo parar de pensar no seu corpo”? Ridículo.

Fiquei olhando para o teto rachado e o ventilador girando devagar. Lembrei de Silvério e do tempo em que éramos mais novos, quando ele ainda não era o dono do morro. Ele sempre foi possessivo, sempre quis mandar em tudo. Quando eu engravidei de outro e escolhi ficar sozinha, ele nunca me perdoou de verdade. Agora via Louis como ameaça. E eu? Eu via Louis como perigo de outro tipo. O tipo que podia me fazer sentir viva novamente.

Apesar de toda a situação difícil, o corpo ainda queimava. Sem conseguir controlar, desci a mão pela barriga, devagar, até entrar dentro do short. Fechei os olhos e imaginei que eram as mãos de Louis: grandes, fortes, calejadas de quem já lutou demais. Imaginei ele me prensando contra a parede da escola, o corpo suado colado no meu, a boca tomando a minha num beijo bruto. Um gemido baixo escapou da garganta. Me toquei mais rápido, pensando na ginga dele, no jeito como me olhava como se quisesse me devorar. O orgasmo veio forte, quase violento, me deixando ofegante e com vergonha ao mesmo tempo.

Depois, deitada de lado, abraçando o travesseiro, a realidade voltou com força. Silvério não blefa. Eu sabia que se Louis não saísse do morro, ia ter sangue jorrando nessas ladeiras. Para a minha desgraça, o coração — aquele traidor — acelerava tanto de medo quanto de desejo, e eu já não sabia mais distinguir uma coisa da outra. Talvez os dois fossem a mesma coisa. E esse gringo fosse a minha salvação ou a minha destruição.

No escuro do quarto, ouvi o ronco de uma moto parar bem em frente ao barraco e o silêncio que se seguiu foi pior do que qualquer ameaça.

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