LOGINDia seguinte
Eu queria ensinar aqueles garotos a transformar a raiva em ginga e a sobreviver sem se entregar ao tráfico, mas a bagunça explosiva da primeira roda, a presença hipnótica de Helena e o olhar frio de Silvério que eu já sentia queimando minhas costas me lembravam a cada segundo que o Morro do Coiote não perdoava quem tentava mudar as regras de dentro. A quadra improvisada atrás da escola era um pedaço de terra batida cercado por muros pichados de facção e fios de luz improvisados que balançavam no vento quente. O sol já tinha baixado, mas o calor ainda subia do chão como se a própria terra quisesse nos engolir. Eu tinha marcado a primeira roda de capoeira às quatro da tarde. No Morro do Coiote nada acontece no horário. Quando cheguei, já havia uns vinte e poucos moleques esperando. Alguns curiosos, a maioria só querendo zoar. Ratão, o líder informal da bagunça, estava no centro com o peito estufado, camisa do Flamengo virada do avesso, o sorrisinho de quem acha que manda no pedaço. Dezessete anos, tatuagens caseiras nos braços, olhar de quem já viu morte de perto e ainda assim se achava imortal. Antes mesmo de falar qualquer coisa, meu corpo treinado registrou o detalhe que os outros ignoravam: no alto da laje vizinha, uma silhueta parada. Homem. Celular na mão. O farol fraco de uma moto aceso atrás dele. Silvério, ou um dos dele. Observando. Eu senti o peso do olhar como um cano apontado na nuca. A cicatriz do ombro esquerdo latejou. — E aí, gringo? Vai mostrar o que sabe ou vai só falar bonito? — provocou Ratão, cruzando os braços. Respirei fundo. O ar cheirava a terra seca, suor e o resto de maconha que alguém tinha fumado por perto. Eu sabia que não ia ser fácil. Esses garotos viviam no meio da guerra do tráfico, viam morte todo dia, carregavam armas escondidas nas mochilas e desconfiavam de qualquer adulto que tentasse chegar perto. Eu não era diferente. Alto demais, cicatrizado demais, olhos verdes demais. Por mais que as minhas intenções fossem boas, eu era só mais um estranho querendo mexer com o que eles conheciam. E agora Silvério sabia. Comecei a aula devagar, mas a cada movimento eu mantinha o canto do olho na laje. Expliquei as regras da roda: respeito, malícia, jogo limpo. Tirei o berimbau, o corpo de madeira escura ainda quente do sol, e toquei um ritmo simples, grave, o Paranauê que minha mãe me ensinou quando eu ainda era criança no quintal de madeira. O som ecoou entre os muros pichados. Alguns meninos assentiram. Outros riram por baixo. A silhueta na laje não se moveu. O celular continuava apontado. — Capoeira não é briga. É diálogo. É enganação. É inteligência no corpo — falei, a voz firme que eu usava para manter soldados sob controle. — Vocês já sabem brigar. Agora vão aprender a não se entregar. A roda começou pequena: eu e mais cinco. Gingei devagar, mostrando o básico — a base, a negativa, o aú. O corpo respondeu como sempre, os músculos lembrando o treinamento das Forças Especiais, a disciplina que o deserto e as montanhas tinham gravado na pele. Mas logo a coisa descambou. Ratão entrou com tudo, chutando alto e sem controle, querendo provar que era o mais brabo. Tiago, o de quinze anos que vivia “a serviço”, entrou girando descontrolado, quase acertando outro no rosto. Em menos de dez minutos a roda virou bagunça total: empurrões, gritos, xingamentos, um empurrando o outro. Alguém gritou: — Porra, sai da frente, caralho! Outro respondeu: — Vai tomar no cu! O berimbau quase voou longe. Eu tentava controlar, mas era como tentar segurar água com as mãos. Esses garotos não tinham disciplina nenhuma. A única coisa que eles tinham era raiva. Raiva do morro, da vida, da mãe que não tinha dinheiro, do pai que sumiu, do tráfico que prometia dinheiro fácil e morte certa. Eu reconhecia aquela raiva porque carreguei a mesma por anos nas Forças Especiais. Vi irmãos de farda morrerem na minha frente. Voltei com cicatrizes que ninguém via e um vazio que a guerra não tinha conseguido preencher. E agora Silvério assistia a tudo, gravando, talvez esperando o momento certo para intervir. — Calma, porra! Isso aqui não é briga de rua! — gritei, mas mal consegui ser ouvido no meio do tumulto. O suor escorria pela nuca. A mão direita foi instintivamente para a cintura, onde outrora eu carregava a pistola. Não havia arma. Só o corpo. E o olhar da laje. Foi então que Helena apareceu. Ela vinha atravessando o pátio com passos firmes, o cabelo cacheado solto balançando nos ombros, vestindo uma calça legging preta simples e uma regata branca que marcava o corpo curvilíneo. A professora durona, a mesma que tinha rido da minha cara no dia anterior, mas agora com algo diferente no olhar: determinação e uma curiosidade que me desarmou. Sem dizer uma palavra, ela tirou os chinelos, deixou a bolsa no chão e entrou na roda. O silêncio foi quase imediato. Os moleques pararam de se empurrar. Todos olharam para ela. Inclusive eu. Inclusive a silhueta na laje, que agora se inclinava um pouco para frente. Helena começou a gingar. Porra. O jeito como ela se movia me desarmou completamente. Fluido, malicioso, sensual sem ser forçado. Os quadris desenhavam no ar um ritmo próprio, os pés leves na terra vermelha, os braços cortando o espaço com elegância e força ao mesmo tempo. Ela não estava só participando. Ela dominava a capoeira. Cada movimento era preciso, carregado de história, de raiva contida e de dor transformada em arte. Era capoeira raiz, daquelas que minha mãe tocava no quintal antes de eu ir embora para os Estados Unidos com meu pai. O berimbau voltou a soar, alguém tinha retomado o ritmo. O som grave batia no peito. Mas o olhar de Silvério pesava mais. Sem pensar, entrei no jogo com ela. Nossos corpos se aproximaram. Eu ataquei com uma meia-lua. Ela se esquivou com uma negativa perfeita, quase roçando a perna na minha. Quando me aproximei mais, fingindo uma cabeçada, ela girou e o cabelo cacheado roçou meu peito. Senti o cheiro dela: suor limpo, sabonete barato de coco e algo doce que me subiu direto para a cabeça. Meu coração, que havia anos batia só por sobrevivência, deu um salto violento. Pela primeira vez em muito tempo — desde as missões, desde as noites em que via meus irmãos de farda morrerem na minha frente — eu senti algo além de raiva ou culpa. Senti um desejo vivo, quente e perigoso. E ao mesmo tempo senti o risco triplicar. Silvério estava vendo. Gravando. Calculando. Nossos olhares se encontraram no meio da roda. Ela sorriu de canto, aquele sorriso desafiador que dizia “você não me intimida, gringo”. Eu respondi com uma ginga mais lenta, quase provocante. Os meninos começaram a bater palmas no ritmo do berimbau. — Vai, professora! — Olha o gringo tomando pressão! — Olha o seu Louis e a professora mais bonita da escola. Ui! Helena fez uma meia-lua alta, quase acertando meu rosto. Eu esquivei por pouco e contra-ataquei com uma rasteira. Ela pulou com agilidade, rindo alto, o som rouco e livre enchendo o pátio. Suor escorria pelo pescoço dela, descendo entre os seios. Eu não conseguia tirar os olhos. O corpo reagia contra a vontade: o sangue fervendo, a respiração mais pesada, uma vontade louca de agarrar aquela mulher ali mesmo, no meio da roda, e descobrir se ela era tão intensa quanto os movimentos dela. As cicatrizes no meu peito latejavam sob a camiseta. A disciplina militar gritava para eu me controlar. O homem que voltara do inferno queria o contrário. E a silhueta na laje não se mexia. A roda durou quase quarenta minutos. Quando terminou, os meninos estavam suados, rindo, exaustos, mas pela primeira vez sem brigar. Ratão passou por mim e deu um soquinho no ombro: — Tá bom, seu Louis. Você ganhou essa. Mas amanhã eu te pego. Helena estava ofegante, as mãos na cintura, o peito subindo e descendo sob a regata branca. Eu me aproximei, entregando a garrafa d’água que tinha trazido. Nossos dedos se tocaram. O contato foi elétrico. O corpo inteiro reagiu, um calor subindo pela espinha até a nuca. Eu olhei de relance para a laje. A silhueta ainda estava lá. Agora o celular estava mais baixo, como se tivesse filmado o suficiente. — Você j**a bem pra caralho — falei baixo, só para ela ouvir. Ela pegou a garrafa e sustentou meu olhar por um segundo longo demais. Os olhos dela eram escuros, vivos, cheios de uma história que eu ainda não conhecia. — E você luta como quem já viu muita merda na vida, gringo — respondeu, a voz um pouco rouca. — Só não se iluda. Aqui no Coiote, capoeira sozinha não resolve. Tem gente que não quer ver esses meninos fora do controle. Eu sabia que ela falava de Silvério. O nome pairava entre nós como um tiro não disparado. Mas naquele momento, olhando para Helena suada, os cachos grudados na testa, o fogo no olhar, eu não estava pensando só no traficante. Estava pensando em como seria sentir aquele corpo contra o meu sem a roupa da capoeira no meio. Em como seria ouvir ela gemendo meu nome em vez de me chamar de gringo. E ao mesmo tempo sabia que cada segundo daquele jogo tinha sido observado. Os meninos se dispersaram, ainda comentando a roda. Helena e eu ficamos mais um tempo ali, sozinhos no pátio que agora parecia menor. O sol já tinha se posto completamente. As luzes do morro começaram a acender, uma a uma, como olhos se abrindo na escuridão. O ar entre nós estava carregado. Eu queria beijá-la, puxá-la para mim, sentir o gosto daquele sorriso. Me contive. Ainda era cedo. E eu sabia que me envolver com Helena Costa não seria só uma aventura. Seria perigoso para ela, para mim e para todo mundo que ela tentava proteger — inclusive o filho. Mesmo assim, enquanto ela pegava a bolsa e se preparava para ir embora, eu soube que já era tarde demais para voltar. Aquela mulher tinha entrado na roda e, sem querer, tinha entrado em mim também. No momento em que ela deu as costas, o farol da moto na laje se acendeu forte, cegando por um segundo, e a voz rouca de Silvério desceu a ladeira como um tiro seco: — Seagal… a gente precisa conversar.Helena Costa Seagal Dois anos depois do nascimento de Ana Vitória, eu entrei no cartório de mão dada com Louis achando que o dia terminaria ali — mas a comunidade do Coiote tinha preparado uma festa surpresa no pátio do Colégio Maria Clara, e foi nesse pátio cheio de gente, de comida e de música que o nosso casamento civil virou celebração coletiva. O cartório foi rápido. Mesa de madeira clara, bandeira do Brasil na parede, uma escrevente simpática e cansada. Eu vestia um vestido branco simples, sem véu, sem excesso, só o tecido leve caindo sobre o corpo. Louis estava de camisa social azul, a manga dobrada no braço marcado. O Lucas, agora com quase quinze anos, segurava a Ana Vitória no colo. Ana estava com dois anos, usava um vestidinho amarelo e insistia em puxar a gravata improvisada do irmão. — Vocês aceitam um ao outro como cônjuges? — perguntou a escrevente. — Aceito — eu disse. — Aceito — Louis repetiu. Assinamos. O carimbo bateu. O Lucas gritou “isso!” baixo demais para
Helena Costa Seis meses depois do nascimento de Ana Vitória, o Colégio Maria Clara estava de pé, enfeitado e barulhento, e eu observava da beira do pátio o dia em que os alunos do terceiro ano se formavam — com Louis preparando o discurso em memória do Ratão e a roda inteira ensaiando a apresentação de capoeira que fecharia a cerimônia. O pátio não era mais o mesmo pedaço de terra queimada e rachada de antes. Tinha piso novo em parte da área, muro repintado, bandeirinhas improvisadas estendidas de um lado a outro e um palco de madeira montado na pressa, mas com orgulho. O cheiro de tinta ainda misturava com o de quitute que as mães tinham começado a chegar cedo para montar. Caixas de som testavam microfone. Menino de terno emprestado puxava a gravata. Menina de vestido arrumava o cabelo no reflexo do celular. O Coiote, pela primeira vez em muito tempo, parecia festejar sem olhar por cima do ombro a cada segundo. Eu carregava a Ana Vitória num pano amarrado contra o peito. Ela já es
Eu segurava a minha filha recém-nascida nos braços enquanto Helena dormia no quarto ao lado, e quando olhei pela janela para o Morro do Coiote acendendo luz por luz, senti pela primeira vez na vida que não havia mais nenhum outro lugar para onde eu precisasse ir. Ana Vitória pesava pouco. Quase nada. Mas o peso dela era o mais real que eu já tinha sentido. A cabecinha cabia na palma da minha mão. A pele ainda vermelha, amassada pelo nascimento, quente demais para alguém tão pequena. De vez em quando ela abria a boca num bocejo torto, ou cerrava o punhozinho com uma força absurda, ou fazia um som baixo de protesto quando eu mudava de posição. Eu andava devagar pelo corredor da maternidade, de um lado para o outro, porque ela tinha reclamado no momento em que eu tentei colocá-la no berço. Então eu fiquei. Andando. Segurando. Existindo no silêncio iluminado por lâmpadas frias e pelo bip distante de algum equipamento. Helena estava exausta. O parto tinha sido longo, bruto e bonito de um
Alguns meses depois Meses se passaram e a vida no Coiote foi encontrando um ritmo novo, até que uma madrugada qualquer as primeiras contrações me acordaram em casa e, poucas horas depois, eu segurava nos braços a menina que Louis tinha visto no sonho: Ana Vitória, viva, saudável e gritando mais alto que o medo. Eu estava dormindo de lado quando a dor veio. Não era a dor comum da barriga pesada, nem o chute forte que eu já conhecia. Era um aperto fundo, bruto, que começou nas costas e veio para a frente como uma garra. Eu abri os olhos no escuro e fiquei quieta, contando. A dor passou. Voltou. Mais forte. O corpo inteiro endureceu. O relógio do criado-mudo marcava 3h17. A casa estava em silêncio, só o barulho distante de uma moto e o respirar do Louis ao meu lado. — Louis — eu chamei, a voz já falhando. — Louis, acorda. Agora. Ele se virou na hora, o corpo em alerta, a mão buscando a minha. — Que foi? Aconteceu alguma coisa? — Eu acho que começou. Não é igual às outras. Isso aqui
A escola ganhou um novo projeto em homenagem ao Ratão, os alunos começaram a florescer de um jeito que eu não via desde antes do tiroteio, e pela primeira vez desde que voltei ao Brasil eu senti, de verdade, que estava em casa. O Colégio Maria Clara ainda cheirava a tinta fresca e a madeira nova. As paredes que o fogo tinha consumido estavam sendo levantadas de novo, devagar, com mão de obra da comunidade e doação que ia chegando aos poucos. Não estava pronto. Longe disso. Mas já tinha sala funcionando, pátio limpo e, o mais importante, gente dentro. Gente que não tinha desistido. Gente que carregava a ausência do Ratão como lembrança viva e não como desculpa para parar. Eu ainda andava com cuidado. A cicatriz no peito puxava quando eu forçava demais. O braço onde a bala tinha raspado latejava no fim do dia. Mas eu estava de pé. E de pé era o suficiente para recomeçar. O novo projeto nasceu quase sem alarde, mas com intenção clara. A gente batizou de **Projeto Roda Ratão**. Não era
Silvério foi preso e, pela primeira vez em muito tempo, o Morro do Coiote pareceu soltar o ar que vinha segurando — e foi nesse alívio coletivo que a gente começou a levantar, tijolo por tijolo, o que restava do Colégio Maria Clara. Eu ainda sentia o cheiro de pólvora na roupa quando voltei para casa naquela noite. Louis vinha ao meu lado, andando devagar, o corpo marcado, o braço enfaixado, mas de pé. O Lucas dormia no sofá esperando a gente. Quando abri a porta e ele acordou, a primeira coisa que perguntou foi se o Silvério tinha mesmo sido levado. Eu respondi que sim. Ele ficou quieto por uns segundos e depois só falou: — Então agora a gente pode respirar, né, mãe? — Pode, meu filho. Pelo menos um pouco. Eu sentei do lado dele, a barriga já mais aparente, e passei a mão no cabelo crespo. Louis ficou em pé por um momento, olhando a sala pequena como quem ainda não acreditava que a gente tinha voltado inteiro. Depois se sentou no braço do sofá e soltou o ar devagar. Ninguém fez d







