Rio de Janeiro | BrasilVoltei ao Morro do Coiote para enterrar o que restava da minha mãe e, de alguma forma, recuperar o pedaço de mim que os anos de guerra tinham engolido, mas o ar quente e o cheiro de pólvora velha me lembraram, já no primeiro passo fora do Galeão, que a favela não perdoa quem foge e depois ousa regressar com cicatrizes e segredos.A mochila militar pesava no ombro esquerdo como se ainda carregasse o fuzil e o rádio de combate. O corpo, aos trinta e oito, continuava acostumado ao peso de coletes, munição e a tensão constante de quem passou anos esperando o próximo tiro. O calor úmido do Rio me acertou no rosto assim que saí do terminal. Maresia, diesel, suor e fritura de comida de rua invadiram os pulmões e, por um segundo, me senti outra vez com dezoito anos, a mesma idade em que tinha subido aquela ladeira pela última vez com uma mala de plástico e o coração em pedaços. Dezoito anos depois eu voltava mais alto, mais marcado, com o cabelo raspado e fios brancos
Last Updated : 2026-07-23 Read more