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17: HELENA COSTA

last update Fecha de publicación: 2026-08-13 01:20:46

Eu estava apagando o quadro depois da última aula quando senti aquele arrepio familiar na nuca. O tipo de arrepio que não vem de frio, mas de perigo antigo. O giz caiu da minha mão. Virei devagar. Lá estava ele, encostado no batente da porta da sala, me olhando como se eu ainda fosse propriedade dele. Como se o tempo não tivesse passado. Como se o “não” que eu gritei anos atrás nunca tenha existido.

Silverio Oliveiras.

Ele vestia uma camisa preta justa que marcava os músculos trabalhados, corre
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Último capítulo

  • MESTRE DO MORRO   Epílogo: O Bem Venceu

    Helena Costa Seagal Dois anos depois do nascimento de Ana Vitória, eu entrei no cartório de mão dada com Louis achando que o dia terminaria ali — mas a comunidade do Coiote tinha preparado uma festa surpresa no pátio do Colégio Maria Clara, e foi nesse pátio cheio de gente, de comida e de música que o nosso casamento civil virou celebração coletiva. O cartório foi rápido. Mesa de madeira clara, bandeira do Brasil na parede, uma escrevente simpática e cansada. Eu vestia um vestido branco simples, sem véu, sem excesso, só o tecido leve caindo sobre o corpo. Louis estava de camisa social azul, a manga dobrada no braço marcado. O Lucas, agora com quase quinze anos, segurava a Ana Vitória no colo. Ana estava com dois anos, usava um vestidinho amarelo e insistia em puxar a gravata improvisada do irmão. — Vocês aceitam um ao outro como cônjuges? — perguntou a escrevente. — Aceito — eu disse. — Aceito — Louis repetiu. Assinamos. O carimbo bateu. O Lucas gritou “isso!” baixo demais para

  • MESTRE DO MORRO   **Bônus: Formatura**

    Helena Costa Seis meses depois do nascimento de Ana Vitória, o Colégio Maria Clara estava de pé, enfeitado e barulhento, e eu observava da beira do pátio o dia em que os alunos do terceiro ano se formavam — com Louis preparando o discurso em memória do Ratão e a roda inteira ensaiando a apresentação de capoeira que fecharia a cerimônia. O pátio não era mais o mesmo pedaço de terra queimada e rachada de antes. Tinha piso novo em parte da área, muro repintado, bandeirinhas improvisadas estendidas de um lado a outro e um palco de madeira montado na pressa, mas com orgulho. O cheiro de tinta ainda misturava com o de quitute que as mães tinham começado a chegar cedo para montar. Caixas de som testavam microfone. Menino de terno emprestado puxava a gravata. Menina de vestido arrumava o cabelo no reflexo do celular. O Coiote, pela primeira vez em muito tempo, parecia festejar sem olhar por cima do ombro a cada segundo. Eu carregava a Ana Vitória num pano amarrado contra o peito. Ela já es

  • MESTRE DO MORRO   73: Louis Seagal

    Eu segurava a minha filha recém-nascida nos braços enquanto Helena dormia no quarto ao lado, e quando olhei pela janela para o Morro do Coiote acendendo luz por luz, senti pela primeira vez na vida que não havia mais nenhum outro lugar para onde eu precisasse ir. Ana Vitória pesava pouco. Quase nada. Mas o peso dela era o mais real que eu já tinha sentido. A cabecinha cabia na palma da minha mão. A pele ainda vermelha, amassada pelo nascimento, quente demais para alguém tão pequena. De vez em quando ela abria a boca num bocejo torto, ou cerrava o punhozinho com uma força absurda, ou fazia um som baixo de protesto quando eu mudava de posição. Eu andava devagar pelo corredor da maternidade, de um lado para o outro, porque ela tinha reclamado no momento em que eu tentei colocá-la no berço. Então eu fiquei. Andando. Segurando. Existindo no silêncio iluminado por lâmpadas frias e pelo bip distante de algum equipamento. Helena estava exausta. O parto tinha sido longo, bruto e bonito de um

  • MESTRE DO MORRO   72: Helena Costa

    Alguns meses depois Meses se passaram e a vida no Coiote foi encontrando um ritmo novo, até que uma madrugada qualquer as primeiras contrações me acordaram em casa e, poucas horas depois, eu segurava nos braços a menina que Louis tinha visto no sonho: Ana Vitória, viva, saudável e gritando mais alto que o medo. Eu estava dormindo de lado quando a dor veio. Não era a dor comum da barriga pesada, nem o chute forte que eu já conhecia. Era um aperto fundo, bruto, que começou nas costas e veio para a frente como uma garra. Eu abri os olhos no escuro e fiquei quieta, contando. A dor passou. Voltou. Mais forte. O corpo inteiro endureceu. O relógio do criado-mudo marcava 3h17. A casa estava em silêncio, só o barulho distante de uma moto e o respirar do Louis ao meu lado. — Louis — eu chamei, a voz já falhando. — Louis, acorda. Agora. Ele se virou na hora, o corpo em alerta, a mão buscando a minha. — Que foi? Aconteceu alguma coisa? — Eu acho que começou. Não é igual às outras. Isso aqui

  • MESTRE DO MORRO   71: Louis Seagal

    A escola ganhou um novo projeto em homenagem ao Ratão, os alunos começaram a florescer de um jeito que eu não via desde antes do tiroteio, e pela primeira vez desde que voltei ao Brasil eu senti, de verdade, que estava em casa. O Colégio Maria Clara ainda cheirava a tinta fresca e a madeira nova. As paredes que o fogo tinha consumido estavam sendo levantadas de novo, devagar, com mão de obra da comunidade e doação que ia chegando aos poucos. Não estava pronto. Longe disso. Mas já tinha sala funcionando, pátio limpo e, o mais importante, gente dentro. Gente que não tinha desistido. Gente que carregava a ausência do Ratão como lembrança viva e não como desculpa para parar. Eu ainda andava com cuidado. A cicatriz no peito puxava quando eu forçava demais. O braço onde a bala tinha raspado latejava no fim do dia. Mas eu estava de pé. E de pé era o suficiente para recomeçar. O novo projeto nasceu quase sem alarde, mas com intenção clara. A gente batizou de **Projeto Roda Ratão**. Não era

  • MESTRE DO MORRO   70: Helena Costa

    Silvério foi preso e, pela primeira vez em muito tempo, o Morro do Coiote pareceu soltar o ar que vinha segurando — e foi nesse alívio coletivo que a gente começou a levantar, tijolo por tijolo, o que restava do Colégio Maria Clara. Eu ainda sentia o cheiro de pólvora na roupa quando voltei para casa naquela noite. Louis vinha ao meu lado, andando devagar, o corpo marcado, o braço enfaixado, mas de pé. O Lucas dormia no sofá esperando a gente. Quando abri a porta e ele acordou, a primeira coisa que perguntou foi se o Silvério tinha mesmo sido levado. Eu respondi que sim. Ele ficou quieto por uns segundos e depois só falou: — Então agora a gente pode respirar, né, mãe? — Pode, meu filho. Pelo menos um pouco. Eu sentei do lado dele, a barriga já mais aparente, e passei a mão no cabelo crespo. Louis ficou em pé por um momento, olhando a sala pequena como quem ainda não acreditava que a gente tinha voltado inteiro. Depois se sentou no braço do sofá e soltou o ar devagar. Ninguém fez d

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