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CAPÍTULO 135

Author: A.C. Borges
last update publish date: 2026-04-22 00:26:29

A CAMAREIRA

Moema Andrade | Hotel Higienópolis | Semana 6, Sábado, 08h – 10h12

O celular vibrou às oito e sete com o nome do Matt piscando na tela.

Moema olhou pra tela. Depois pro Lucas na mesa. Ele já tava acordado fazia tempo — café pela metade, notebook aberto, camisa preta com a manga dobrada e aquela cara de quem tinha dormido mal ou nem tinha dormido.

— É o Matt.

Ele ergueu os olhos.

— Vídeo?

— Se eu não atender, ele vai mandar áudio, depois figurinha, depois ligação de novo só pra me irritar.

Aquilo quase puxou um sorriso da boca dele. Quase.

— Atende no tablet.

Ela pegou o tablet na bancada e aceitou a chamada. A cara do irmão apareceu grande demais na tela, coque torto no alto da cabeça, camiseta velha do Bahia e uma expressão escandalosamente ofendida.

— Aleluia. A desaparecida resolveu lembrar que tem família.

— Bom dia pra você também.

— Não é bom dia, é sábado. E sábado eu mereço respeito.

Moema foi pro sofá com o tablet no colo. Lucas ficou na mesa, mas baixou a atenção do teclado sem fazer alarde. Espaço. O jeito dele de dar espaço.

— Como é que cê tá? E não me responde “bem” porque eu conheço essa testa franzida daí.

— Tô viva.

— Maravilhoso. Já é um começo. E o delegado carrancudo? Ainda tá te prendendo em regime semiaberto?

Ela bufou.

— Matt.

— Ué, eu conheci o homem no hospital. Tenho intimidade pra achar antipático.

Do outro lado da sala, Lucas nem levantou a cabeça. Só o canto da boca mexeu daquele jeito mínimo que ela já conhecia.

— Ele não é antipático.

— Nossa. Defendeu. — Matt arregalou os olhos. — Tá, então o negócio é grave mesmo.

— Vai trabalhar.

— Hoje é sábado.

— Vai arrumar a pia, então.

— Isso é perseguição contra o artista.

Ela riu. Veio fácil, quase sem pedir licença. E doeu um pouco logo depois porque, junto da risada, veio a saudade do apartamento bagunçado, da caneca esquecida na mesa, da vida que tinha cheiro de louça atrasada e boleto vencendo, não de protocolo e hotel.

Matt percebeu. Claro que percebeu.

A expressão dele mudou um pouco. Menos palhaçada. Mais irmão.

— A mãe perguntou de você ontem.

Moema abaixou os olhos pro tablet.

— Perguntou meu nome?

— Não. Perguntou se a menina do hospital tava comendo direito. O que, convenhamos, pra dona Iracema já é praticamente uma declaração de amor.

A garganta dela apertou.

— E você?

— Eu tô ótimo. Caótico, falido e bonito. O normal.

No fundo da imagem, o apartamento deles. A manta jogada na cadeira, uma blusa pendurada que não devia estar ali, a luz torta da cozinha acesa até de manhã.

Casa.

— Você tá com olheira.

— Você também.

— Mas eu sou jovem.

— Cê tem vinte e oito anos, Matt.

— Exato. Flor da idade. Já você tá namorando um agente do caos federal.

Ela levantou os olhos na hora.

— Eu não tô namorando ninguém.

— Uhum. E eu sou discreto.

Antes que ela respondesse, ele virou o rosto.

— Pera.

O barulho veio do lado de fora da tela. Três batidas curtas.

Matt franziu a testa.

— Tão batendo aqui.

Moema sentou mais reta.

— Quem é a essa hora?

— Se for cobrança, eu não tô.

Ele apoiou o tablet na estante e saiu da frente da câmera. A imagem ficou torta, mostrando metade da sala e metade do teto.

— Quem é?

Silêncio.

Moema trocou um olhar rápido com Lucas. Ele já tava de pé.

Matt apareceu de novo. Tinha um envelope branco na mão.

— Tava no chão.

Lucas atravessou a sala.

— Mostra.

Matt chegou o envelope mais perto da câmera.

— Não abre. — A voz dele saiu baixa e reta. — Vira.

Matt virou.

Na aba, escrito com caneta preta:

ATRASADO

O estômago dela embrulhou.

— Que gracinha de psicopata — Matt soltou, mas a voz já tinha perdido metade da leveza.

Lucas pegou o celular.

— Caio. Me ligue Agora.

— Tá, peraí. Alguém vai finalmente me contar se eu devo surtar ou só xingar? — Matt olhava pra tela, depois pro corredor do apartamento, depois pra tela de novo. — Porque eu já conheço teu delegado o suficiente pra saber que essa cara aí não é “incidente doméstico”.

Moema passou a mão no joelho, apertando com força.

— Matt, entra e tranca a porta.

— Já tô dentro.

— Tranca a de cima e a de baixo.

— Moema.

Dessa vez ele não fez piada. Só falou o nome dela do jeito certo. Presente.

— Faz isso pra mim.

Ele assentiu e sumiu da câmera de novo. Corrente. Chave. Mais uma fechadura. O barulho correu pequeno pelo áudio do tablet.

A chamada no celular de Lucas conectou.

— Endereço da Várzea Clara. Agora. — Ele andava enquanto falava. — Matt Andrade recebeu envelope na porta. Quero imagem do corredor, rua e câmera de entrada do prédio. Viatura discreta. Sem sirene, sem uniforme em excesso.

Priscila entrou pela porta logo em seguida, dura igual mola tensionada.

— Movimento no hall.

Lucas virou.

— O quê?

— Camareira. Carrinho de serviço. Parou duas vezes no ponto cego. Tá vindo pra cá sem olhar pros quartos.

O ar da sala travou.

Lucas já foi até a porta.

— Tranca depois de mim.

A ordem veio pra Moema.

Ele saiu com a Priscila. A porta fechou.

No tablet, Matt voltou pra frente da câmera.

— Moema.

Ela nem percebeu que tava segurando a respiração até ouvir o nome.

— Fala comigo.

— Tô aqui.

— Mentira. Sua cara tá de quem saiu do corpo. Volta.

Ela piscou duas vezes. Conseguiu focar.

— Eu tô aqui.

— Pronto. Melhorou um pouquinho. Agora me explica só o necessário pra eu saber o tamanho da merda.

Ela abriu a boca.

Fechou.

— Tem gente tentando me apertar.

— Tá. Isso eu já tinha entendido pelo envelope de filme ruim. Tô falando de nível. É nível “se esconde no banheiro” ou nível “eu entro num carro sem fazer pergunta”?

— Nível entra no carro e carro e cala a boca.

— Maravilha. Odeio cardio em jejum.

Apesar de tudo, o canto da boca dela mexeu.

Do lado de fora veio o barulho seco de roda de carrinho batendo na parede.

Depois um som abafado. Passos rápidos. Um corpo ou alguma coisa pesada acertando o corredor.

Matt ouviu também.

— Isso foi no teu hotel?

Ela foi até a porta, mas parou antes da maçaneta.

— Não abre. — A voz dele saiu mais alta pela tela. — Nem por decreto.

O celular vibrou na mão dela.

Número desconhecido.

Uma foto.

Ela abriu.

Foi como levar água gelada dentro do peito.

Dona Iracema no jardim do asilo. Sentada na cadeira de vime perto da roseira. A manta nas pernas. A cabeça um pouco virada pro sol. Parecia ser a mesma foto que ela ja havia recebido.

No canto da imagem, o relógio do telefone marcava 10:11.

Embaixo, a legenda:

Você só consegue salvar um.

O joelho falhou na mesma hora.

O tablet quase escorregou da outra mão.

— Moema? — Matt agora tava sério de verdade. — O que foi?

Ela não conseguiu responder.

A foto continuava ali. Viva. Atual. Cruel. Não era a mesma foto, o horario provava isso.

Do lado de fora, alguém bateu forte na porta.

— Moema. Abre. Agora.

Lucas.

Ela conhecia a voz. Mas o corpo não conheceu nada. Ficou parado Gelado.

Matt apareceu mais perto da câmera.

— O que aconteceu?

Ela mostrou o celular sem pensar. A mão tremendo tanto que a imagem ficou torta. Matt viu só um pedaço primeiro. Depois entendeu.

E empalideceu.

— Essa é a mãe?

Ela assentiu.

Do lado de fora, outra batida.

— Moema.

O celular vibrou de novo.

Nova mensagem.

Ela abriu.

Vídeo. Sete segundos.

O jardim do asilo. Dona Iracema sentada no banco. Um homem de boné azul levantando do banco ao lado e virando na direção dela.

No último segundo, ele olhou direto pra câmera.

Sorriu.

A legenda apareceu embaixo.

Começa escolhendo.

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