MasukNa manhã seguinte, Laura me ligou antes das oito.— A ex-funcionária falou comigo.Eu ainda estava na cama, tentando decidir se tinha energia para descobrir mais alguma coisa sobre minha própria vida.— E eu quero saber?— Acho que sim. Mas não é uma bomba.— Graças a Deus.— Na verdade, ajuda a esclarecer o que já sabemos.Isso era quase música.Sentei e peguei o café que Marta tinha deixado na mesa de cabeceira.— Então fala.— Ela trabalhou na agência que fez o estudo de reposicionamento. Confirmou que a pesquisa original não indicava necessidade de retirar você da marca. A orientação recebida depois era construir uma recomendação compatível com uma decisão que já vinha da Valenne.— Isso a Daniela já sabe.— Sim. O ponto novo é que, segundo ela, a discussão interna não era simplesmente “Clara engordou, tirem Clara”. A presidência queria diminuir a dependência da marca de uma única pessoa, rejuvenescer comunicação e preparar uma mudança societária. Seu corpo apareceu depois como ar
Eduardo tentou falar comigo quando saí da sala.— Clara, espera.Continuei andando.— Clara.— Agora não.— Você acabou de ouvir uma versão sem contexto de uma pesquisa de nove meses atrás.Parei no corredor e virei para ele.— O contexto melhora?— Melhora.— Então me dá uma versão em que testar se o público acreditaria que eu tinha vergonha do meu corpo fica bonito.Ele apertou os lábios.— Eu não disse bonito.— Então depois você me conta. Hoje eu já aprendi coisa demais sobre o meu casamento antes do almoço.Entrei no elevador e apertei o térreo. Eduardo segurou a porta antes que fechasse.— A Daniela vai publicar.— Provavelmente.— Se essa matéria sair dizendo que eu manipulei pesquisa para tirar minha própria esposa da marca, você sabe o tamanho do problema.— Sei.— E você pode impedir.Aquilo me fez olhar para ele.— Como?— Falando com ela. Explicando que a mudança de posicionamento vinha sendo discutida havia muito tempo, que você sabia que a Valenne estava tentando renovar
A primeira coisa que pensei foi que eu não queria conhecer documento nenhum.Em menos de uma semana, documentos tinham me informado que meu marido planejava meu divórcio, queria comprar minhas ações, tinha autorizado o uso dos meus exames e talvez tivesse apresentado como minha uma assinatura feita enquanto eu estava em outro continente. Eu estava começando a sentir saudade da época em que papel servia só para boleto e contrato que eu assinava sem ler, o que, pensando bem, provavelmente tinha contribuído bastante para aquela situação.— Ela deu o nome? — perguntei.— Daniela Sampaio.Renato reconheceu na hora.— Ela escreve sobre publicidade e negócios. Já entrevistou o Eduardo.— Ninguém vai falar com ela agora — Eduardo disse.A jornalista não tinha pedido para falar com ele, mas achei desnecessário apontar.— Eu vou ouvir.— Clara, você nem sabe o que ela tem.— Por isso mesmo eu vou ouvir.— Quero alguém da comunicação presente.— Não.Eduardo respirou fundo daquele jeito que já e
A vontade de beijar Tomás desapareceu na mesma hora.Não porque eu tivesse perdido o interesse nele. Meu cérebro só tinha mudado de assunto com a delicadeza de um caminhão batendo numa parede.— Você tem certeza de que a matéria sai amanhã? — perguntei.— O jornalista disse que deve entrar cedo. Clara, eu juro que não falei que vocês estavam separados.— Eu sei.Tomás continuava perto de mim, tentando entender pela metade da conversa o tamanho do problema. Fiz um gesto pedindo um minuto e me afastei alguns passos.— Ele mandou as fotos para você?— Mandou uma para pedir confirmação.— Me encaminha.A mensagem chegou enquanto ainda estávamos falando. Abri.Eduardo e Bianca entrando num hotel. Ele de boné, ela de óculos escuros, os dois fotografados de costas e depois de perfil. A data aparecia no material enviado pelo jornalista.Dois meses antes.Naquela semana, Eduardo tinha viajado para o Rio dizendo que teria reuniões com distribuidores. Lembrei porque tinha pedido que eu separasse
Fiquei olhando para o convite de Tomás com a sensação de que o universo tinha desenvolvido um senso de humor bastante filho da puta.Cinco minutos antes eu estava beijando meu marido na cozinha. Agora outro homem me convidava para jantar e eu não precisava ser nenhuma especialista em comportamento masculino para desconfiar que “comemorar a estrutura jurídica” não exigia restaurante à noite.Digitei três respostas diferentes e apaguei todas.A primeira dizia que sim. A segunda dizia que não achava uma boa ideia. A terceira era uma explicação completamente desnecessária sobre meu casamento, meu estado emocional e o fato de eu ter acabado de beijar Eduardo, como se Tomás tivesse solicitado um relatório.No fim, respondi:Amanhã a gente vê se tem alguma coisa para comemorar primeiro.Ele demorou menos de um minuto.Resposta de advogada. Laura está fazendo mal a você.Sorri.Boa noite, Tomás.Boa noite, Clara.Larguei o celular e encostei as duas mãos na bancada. Eu ainda conseguia sentir
Fiquei olhando para a mensagem tempo demais.Quero tentar consertar nosso casamento.Meu primeiro impulso foi ridículo: senti alívio. Não satisfação por Eduardo estar arrependido, nem prazer por Bianca ter levado um pé na bunda. Alívio mesmo, aquela sensação quente e automática de que talvez os últimos dias fossem uma coisa horrível que ainda dava para desfazer. Eu podia voltar para casa, ele podia voltar para o quarto, nós podíamos conversar, fazer terapia, passar alguns meses brigando e, quem sabe, daqui a um ano aquilo seria apenas a pior fase do nosso casamento.Demorei uns cinco segundos para lembrar que, enquanto eu imaginava essa reconciliação linda, meu marido tinha preparado uma minuta de divórcio seis meses antes sem me contar.A esperança não desapareceu. Infelizmente emoção não tinha a educação de morrer só porque aparecia uma informação inconveniente.Liguei para Helena.— Eduardo quer voltar.— Para onde?— Para mim.— Ah.— “Ah” o quê?— Estou escolhendo minhas palavras







