FAZER LOGINO Cheiro de Vinho e Poder
A manhĂŁ chegou tĂmida, filtrando-se por entre as copas espessas da floresta. Mas eu nĂŁo a vi. NĂŁo naquele momento. Meus olhos estavam fechados. Meus sentidos, despertos. E minha pele... ainda sentia o calor daquele abraço. Eu nĂŁo sabia quanto tempo havia passado desde que fui acolhida por aquele corpo firme, envolta nos braços de alguĂ©m que nĂŁo me disse seu nome â mas que eu sentia como se o conhecesse hĂĄ mil vidas. O cheiro dele ainda estava impregnado em mim. Madeira antiga, vinho escuro e algo mais... algo primal. NĂŁo era o aroma de Marco. NĂŁo era o toque dele. Mas, de algum modo, esse novo toque me acalmava mais do que qualquer palavra que Marco poderia ter dito um dia. Era estranho. Injusto, talvez. Como alguĂ©m que surge do nada poderia me afetar tanto? E ainda assim... ali, nos braços do desconhecido, pela primeira vez desde minha rejeição, eu respirava. Quando finalmente abri os olhos, a luz era suave, dourada, morna. E Ă minha frente nĂŁo havia mais floresta. Havia mĂĄrmore. Cortinas pesadas de veludo vinho. Lustres de cristal. EstĂĄtuas antigas e mĂłveis de madeira nobre polida. Uma mansĂŁo. Velha, mas perfeita. Rica em cada detalhe. Silenciosa, mas viva como se respirasse. Como se tivesse histĂłrias demais guardadas entre aquelas paredes para se entregar ao tempo. Eu estava deitada sobre lençóis negros. Meu corpo envolto por uma camisola leve, de tecido macio. AlguĂ©m havia me trocado. Mas eu nĂŁo me sentia violada. Sentia... cuidada. Houve um leve som. Passos. Lentamente, me ergui, sentando na enorme cama de dossel. O quarto era amplo, e a porta de madeira escura se abriu com suavidade. E entĂŁo, ele entrou. Alto. Forte. Trajava roupas em tons profundos de vinho e preto, perfeitamente alinhadas a seu corpo esculpido. Seus cabelos eram tĂŁo negros quanto a noite. Os olhos... Verdes. TĂŁo verdes que me fitaram como se pudessem atravessar cada camada da minha alma. Meu coração bateu mais rĂĄpido. â VocĂȘ estĂĄ desperta â disse ele, com a voz calma, profunda, segura. Eu nĂŁo consegui responder de imediato. Fiquei olhando. Tentando juntar o homem Ă lenda. Era ele. Tinha que ser. â Rafael? â minha voz saiu como um sussurro. Seus lĂĄbios se curvaram levemente. Um quase sorriso, que mais parecia um feitiço. â Sim. O nome dele em minha boca teve gosto de algo antigo, sagrado. Como se eu o tivesse dito em outro tempo, em outro lugar... Ou em todos eles. â Por que... â tentei começar, mas minha garganta ainda doĂa com tudo que tinha passado. Ele caminhou atĂ© mim com passos lentos. Elegante como uma sombra nobre. Seus olhos nĂŁo desviaram dos meus. â Porque vocĂȘ foi jogada no escuro, Alice. E eu sou aquele que governa a noite. Minha pele arrepiou. â VocĂȘ me seguiu? â perguntei, tentando entender. â Me conhecia? Ele parou perto da cama. TĂŁo perto que pude sentir seu calor. Seu cheiro. Tudo nele era poder contido. Força escondida atrĂĄs da elegĂąncia. â A Lua me mandou. E sim... eu jĂĄ conhecia vocĂȘ. Mesmo antes de vocĂȘ se conhecer. Eu tremi. NĂŁo de medo. Mas de algo que nascia entre nĂłs. Um fogo lento, silencioso. Diferente do que eu sentia com Marco. NĂŁo era sĂł desejo. Era gravidade. â Ele me rejeitou â confessei, como se isso ainda doesse mais do que deveria. Rafael assentiu. â Marco Ă© forte. Mas força sem visĂŁo Ă© apenas brutalidade. â E vocĂȘ? O que vĂȘ? â perguntei, desafiando-o. Ele inclinou o rosto. Seu olhar afiado como lĂąmina, mas cheio de calor. â Eu vejo o que vocĂȘ ainda nĂŁo descobriu em si mesma. E vou estar aqui quando vocĂȘ descobrir. Ou... se permitir. Fiquei em silĂȘncio. Minhas mĂŁos tremiam sobre o lençol. Meu corpo, frĂĄgil e cheio de marcas da noite anterior, agora era observado com olhos que me admiravam â nĂŁo como a rejeitada, mas como algo raro. Valioso. â VocĂȘ vai me proteger? â perguntei, num fio de voz. Ele se aproximou mais e, com uma delicadeza que contrastava com sua aura dominante, tocou meu queixo, erguendo meu rosto atĂ© que nossos olhos se encontrassem por inteiro. â Eu nĂŁo sou seu escudo, Alice. Sou a lĂąmina que ninguĂ©m ousa levantar contra vocĂȘ. Aquelas palavras... Elas me quebraram e me ergueram ao mesmo tempo. Eu podia sentir. Algo dentro de mim estava mudando. E quando Rafael se afastou lentamente, deixando seu perfume e sua presença como uma promessa no ar, eu soube: A rejeição nĂŁo foi o fim. Foi o começo da minha verdadeira histĂłria.O NOME ESQUECIDOO trovĂŁo ecoou por toda a floresta.NĂŁo foi um som comum. Parecia carregar uma voz antiga, grave, profunda, como se a prĂłpria montanha estivesse despertando depois de sĂ©culos de silĂȘncio.A coluna de luz vermelha permanecia rasgando o cĂ©u ao norte, imĂłvel, pulsando lentamente como o coração de uma criatura adormecida.NinguĂ©m falou.Nem Marco.Nem Rafael.Nem Arkan.Todos olhavam para o horizonte.Foi Elara quem rompeu o silĂȘncio dentro de mim."Ele estĂĄ respirando outra vez."Um arrepio percorreu minha espinha.â Quem Ă© "ele"? â perguntei mentalmente.A loba nĂŁo respondeu.Pela primeira vez desde que despertara completamente, senti medo vindo dela.NĂŁo medo por si mesma.Medo por mim.Arkan caminhou lentamente atĂ© uma das janelas da mansĂŁo.Seu rosto endureceu.â Durante sĂ©culos acreditamos que os registros haviam sido destruĂdos.Rafael aproximou-se.â EntĂŁo eles sobreviveram?O velho guardiĂŁo assentiu.â Sobreviveram porque alguĂ©m precisava lembrar.Marco cruzou o
A PRIMEIRA FISSURAO amanhecer chegou tĂmido.Pela primeira vez em muitos anos, a floresta permaneceu em absoluto silĂȘncio. Nem os pĂĄssaros ousavam cantar. Nem o vento atravessava as copas das ĂĄrvores.Era como se toda a natureza estivesse esperando.Eu observava o horizonte da varanda da mansĂŁo quando senti Elara despertar lentamente dentro de mim.NĂŁo era inquietação.Era um aviso.â Eles começaram a se mover... â ela sussurrou.Fechei os olhos.Ao longe, muito alĂ©m das montanhas que protegiam o territĂłrio da alcateia, pequenas ondas de energia surgiam como pedras lançadas sobre a superfĂcie de um lago.Uma.Depois outra.Depois dezenas.AlguĂ©m estava procurando por mim.Marco apareceu atrĂĄs de mim sem fazer qualquer ruĂdo.â VocĂȘ tambĂ©m sentiu?Assenti.â NĂŁo sĂŁo apenas lobos.Ele apoiou os braços na sacada de pedra.â NĂŁo.Seu rosto parecia mais cansado do que na noite anterior.As olheiras denunciavam que ele nĂŁo havia dormido.â Recebi notĂcias durante a madrugada.Olhei para e
QUANDO A LUA COMEĂA A SANGRARA mansĂŁo nĂŁo voltou ao normal depois que Selene desapareceu.Ela ficou⊠diferente.Como se as paredes tivessem ouvido demais.Como se a madeira antiga guardasse segredos que agora começavam a se mexer sob a superfĂcie.Eu permaneci parada no corredor por vĂĄrios segundos depois que a presença dela se dissipou. O silĂȘncio era tĂŁo absoluto que podia ouvir o som do meu prĂłprio sangue correndo nas veias.Marco foi o primeiro a se mover.â Isso nĂŁo Ă© possĂvel⊠â ele murmurou, passando a mĂŁo pelos cabelos. â A Primeira Marcada foi apagada da histĂłria. NinguĂ©m sobrevive a um selo entre mundos.Rafael, ao contrĂĄrio, estava imĂłvel. Pensativo. Analisando.â Sobrevive⊠se a Lua permitir. â disse ele, finalmente. â E a Lua nunca faz nada sem propĂłsito.O peso dessa frase caiu diretamente sobre mim.Elara estava inquieta. NĂŁo com medo â mas com expectativa. Era como se algo dentro dela estivesse sendo chamado pelo nome verdadeiro.â Ela disse que a Lua vai sangrar. â e
A PRIMEIRA MARCADA PELA LUAO vento que invadiu a mansĂŁo nĂŁo era apenas frio â era antigo.Carregava consigo o cheiro de algo que nĂŁo pertencia mais a este tempo, uma essĂȘncia esquecida pelas geraçÔes, mas profundamente reconhecida pela Lua.Meu corpo reagiu antes mesmo que minha mente pudesse compreender.Elara se ergueu dentro de mim com um uivo silencioso, ancestral, fazendo minha pele arrepiar como se cada poro estivesse ouvindo um chamado impossĂvel de ignorar. Meu coração disparou, nĂŁo por medo comum, mas por reconhecimento.A figura feminina avançou alguns passos para dentro do corredor, deixando que a luz lunar finalmente a tocasse por completo.Ela era alta, esguia, envolta por um manto cinza-prateado que parecia se mover como fumaça viva. Seus cabelos eram longos, de um branco quase luminescente, nĂŁo de velhice, mas de poder. Os olhos⊠os olhos eram de um prata puro, tĂŁo intensos que pareciam refletir diretamente a Lua no cĂ©u.Marco e Rafael se colocaram instintivamente em p
ENTRE O ALFA, O SUPREMO E A MARCA QUE ME RECLAMAA mansĂŁo parecia respirar. NĂŁo como uma construção antiga cercada por paredes silenciosas, mas como um organismo vivo, pulsante, alimentado pelas emoçÔes que fervilhavam entre nĂłs trĂȘs. O corredor estava mergulhado em sombras profundas, tocado apenas pela luz azulada da lua que se infiltrava pelas janelas altas, lançando reflexos prateados sobre as paredes de madeira escura.Eu ainda sentia o calor das mĂŁos de Rafael nos meus braços â firme, protetor, silenciosamente possessivo. Zahor, dentro dele, vibrava como um trovĂŁo contido, atento a cada nuance do ambiente, a cada mudança no meu respirar. Ele sabia. Ele sempre sabia. Que algo estava para acontecer⊠e que aquilo mudaria tudo.Marco estava parado Ă minha frente, tĂŁo imĂłvel quanto uma estĂĄtua esculpida em puro desejo reprimido. Seus olhos escuros ardiam como brasas prestes a incendiar a noite. Korran farejava o ar dentro dele, inquieto, selvagem, faminto. A rejeição que me dera â sua
O LOBO QUE SE AJOELHA E O LOBO QUE SE ERGUEA Lua parecia maior naquela noite.NĂŁo apenas brilhante â viva.Um olho vigilante no cĂ©u, ardendo como se tivesse sido acesa especialmente para testemunhar o que estava prestes a acontecer entre nĂłs trĂȘs. A luz prateada caĂa sobre a floresta como uma chuva silenciosa, tocando cada folha, cada pedra, cada fragmento de ar. Tudo cintilava como se estivesse revestido por magia lĂquida.E no centro desse cenĂĄrio quase sagrado⊠estĂĄvamos nĂłs.Eu conseguia sentir a respiração de ambos â Marco atrĂĄs de mim, quente, densa, carregada de desejo e arrependimento; Rafael Ă minha frente, firme, impecĂĄvel, com seus olhos verdes incendiados por algo que ele raramente permitia que transbordasse.Zahor e Elara sussurravam dentro de nĂłs trĂȘs, vibrando como cordas tensas prestes a se romper.Korran, porĂ©mâŠKorran tremia.NĂŁo de medo â Marco nĂŁo conhecia esse sentimento.Mas de necessidade.Eu sentia sua energia selvagem raspando contra ele por dentro.â AliceâŠ







