FAZER LOGINOnde as Marcas NĂŁo Se Veem
A mansĂŁo tinha um silĂȘncio antigo. NĂŁo era o silĂȘncio da ausĂȘncia. Era o silĂȘncio da reverĂȘncia. Como se atĂ© o ar soubesse quem andava por ali. Andei descalça por corredores longos, com janelas que se abriam para jardins que pareciam ter sido tocados por alguma magia ancestral. Tudo ali era cuidadosamente conservado, mas vivo â como se respirasse junto com os que moravam ali. Ou com ele. Meus dedos deslizaram pelas paredes, sentindo cada imperfeição da madeira escura. Eu ainda usava a camisola leve que alguĂ©m â talvez Rafael â havia colocado em mim. Ela colava ao meu corpo como uma segunda pele, revelando mais do que escondendo. E ainda assim, eu nĂŁo me sentia vulnerĂĄvel. Sentia-me⊠observada. Mas nĂŁo com ameaça. Com desejo. Ou seria a minha imaginação? Parei diante de uma porta entreaberta. A luz ali dentro era baixa, dourada. Velas. Muitas. O aroma de resina, couro e vinho preenchia o espaço. Um escritĂłrio talvez. Mas parecia mais um santuĂĄrio. E lĂĄ estava ele. Rafael. Sentado em uma poltrona de couro vermelho escuro, pernas cruzadas, um livro antigo nas mĂŁos. O olhar dele encontrou o meu antes que eu pudesse me anunciar. â NĂŁo precisa bater â disse, com a voz grave e doce ao mesmo tempo. â Essa casa sente quando vocĂȘ se aproxima. Minha pele arrepiou inteira. A casa sente. Ele sente. Dei um passo para dentro, hesitante. â Desculpe invadir... â VocĂȘ nĂŁo invade o que jĂĄ Ă© seu, Alice. Meus olhos se arregalaram. Ele falava como se soubesse algo que eu ainda nĂŁo sabia. Ou como se jĂĄ tivesse aceitado algo que eu ainda lutava para entender. â Eu nĂŁo sou sua, Rafael. â Minha voz falhou um pouco. â Nem sei quem sou agora... Ele fechou o livro com calma, levantando-se com uma lentidĂŁo calculada, como se cada gesto fosse uma dança de domĂnio. â E ainda assim estĂĄ aqui â respondeu, se aproximando de mim. Meu corpo enrijeceu. NĂŁo por medo. Mas porque algo em mim acordava quando ele se aproximava. Algo que nĂŁo acordou nem mesmo por Marco. â Eu sĂł... nĂŁo tinha pra onde ir â sussurrei. â Claro que tinha. Mas escolheu vir atĂ© mim. Ele parou tĂŁo perto que meu corpo captava o calor do dele antes mesmo do toque. Seu cheiro me invadia de novo â vinho tinto, madeira, noite e algo masculino demais pra ser descrito. â O que vocĂȘ quer de mim? â perguntei, tentando manter o controle. O sangue pulsava entre minhas pernas com uma intensidade incĂŽmoda. Meu lobo interior rosnava, inquieto. Rafael inclinou o rosto. Seus olhos verdes eram como labirintos. â Quero que vocĂȘ se veja com os meus olhos. â Isso Ă© perigoso â murmurei. Ele sorriu. Um sorriso lento, Ăntimo, quase sujo. â VocĂȘ tambĂ©m Ă©. Meu coração disparou. A tensĂŁo entre nĂłs era algo vivo, feroz, sexual. Eu podia sentir minha pele suar, minha respiração falhar. Meu corpo pedia um toque. Um gesto. Um descontrole. E, como se ouvisse meus pensamentos, ele ergueu a mĂŁo â e tocou meu braço. Um toque leve, quente, que queimou como ferro em brasa. â VocĂȘ carrega marcas â ele disse. â Mas nem todas estĂŁo visĂveis. Eu sabia que ele falava de Marco. Da rejeição. Mas por um momento, me perdi no toque. Seus dedos subiram devagar pelo meu braço, atĂ© o ombro. Depois pelo pescoço, parando na base da minha mandĂbula. O gesto foi lento, Ăntimo, sem pressa. â Posso mostrar quem vocĂȘ realmente Ă© â ele sussurrou. Minhas pernas fraquejaram. O ar ficou denso. E entĂŁo, como se o universo prendesse o fĂŽlego, ele nĂŁo me beijou. Ele parou a um centĂmetro da minha boca. O calor, a tensĂŁo, a urgĂȘncia... tudo estava ali. Mas ele esperava por mim. â Se me tocar agora... â comecei, sem saber terminar a frase. â Eu nĂŁo a toco sem permissĂŁo, Luna. "Luna". Ele me chamou assim. Como se jĂĄ reconhecesse o que Marco recusou ver. Minhas mĂŁos subiram por instinto, tocaram o peito dele. Forte. Quente. Pulsante. Meu corpo respondeu antes da minha mente. E entĂŁo, num sussurro trĂȘmulo, eu disse: â Me mostra. Foi tudo o que ele precisou. Seus lĂĄbios tomaram os meus com uma fome contida hĂĄ sĂ©culos. NĂŁo houve delicadeza. Houve entrega. Sede. Pressa de alma. E quando suas mĂŁos desceram pelas minhas costas, me puxando contra ele, senti algo mais forte do que desejo: ConexĂŁo. NĂŁo era como Marco. Era como se, ao me tocar, Rafael reconstruĂsse cada parte que Marco havia quebrado. Eu estava sendo marcada de novo. Mas agora... pela escolha.O NOME ESQUECIDOO trovĂŁo ecoou por toda a floresta.NĂŁo foi um som comum. Parecia carregar uma voz antiga, grave, profunda, como se a prĂłpria montanha estivesse despertando depois de sĂ©culos de silĂȘncio.A coluna de luz vermelha permanecia rasgando o cĂ©u ao norte, imĂłvel, pulsando lentamente como o coração de uma criatura adormecida.NinguĂ©m falou.Nem Marco.Nem Rafael.Nem Arkan.Todos olhavam para o horizonte.Foi Elara quem rompeu o silĂȘncio dentro de mim."Ele estĂĄ respirando outra vez."Um arrepio percorreu minha espinha.â Quem Ă© "ele"? â perguntei mentalmente.A loba nĂŁo respondeu.Pela primeira vez desde que despertara completamente, senti medo vindo dela.NĂŁo medo por si mesma.Medo por mim.Arkan caminhou lentamente atĂ© uma das janelas da mansĂŁo.Seu rosto endureceu.â Durante sĂ©culos acreditamos que os registros haviam sido destruĂdos.Rafael aproximou-se.â EntĂŁo eles sobreviveram?O velho guardiĂŁo assentiu.â Sobreviveram porque alguĂ©m precisava lembrar.Marco cruzou o
A PRIMEIRA FISSURAO amanhecer chegou tĂmido.Pela primeira vez em muitos anos, a floresta permaneceu em absoluto silĂȘncio. Nem os pĂĄssaros ousavam cantar. Nem o vento atravessava as copas das ĂĄrvores.Era como se toda a natureza estivesse esperando.Eu observava o horizonte da varanda da mansĂŁo quando senti Elara despertar lentamente dentro de mim.NĂŁo era inquietação.Era um aviso.â Eles começaram a se mover... â ela sussurrou.Fechei os olhos.Ao longe, muito alĂ©m das montanhas que protegiam o territĂłrio da alcateia, pequenas ondas de energia surgiam como pedras lançadas sobre a superfĂcie de um lago.Uma.Depois outra.Depois dezenas.AlguĂ©m estava procurando por mim.Marco apareceu atrĂĄs de mim sem fazer qualquer ruĂdo.â VocĂȘ tambĂ©m sentiu?Assenti.â NĂŁo sĂŁo apenas lobos.Ele apoiou os braços na sacada de pedra.â NĂŁo.Seu rosto parecia mais cansado do que na noite anterior.As olheiras denunciavam que ele nĂŁo havia dormido.â Recebi notĂcias durante a madrugada.Olhei para e
QUANDO A LUA COMEĂA A SANGRARA mansĂŁo nĂŁo voltou ao normal depois que Selene desapareceu.Ela ficou⊠diferente.Como se as paredes tivessem ouvido demais.Como se a madeira antiga guardasse segredos que agora começavam a se mexer sob a superfĂcie.Eu permaneci parada no corredor por vĂĄrios segundos depois que a presença dela se dissipou. O silĂȘncio era tĂŁo absoluto que podia ouvir o som do meu prĂłprio sangue correndo nas veias.Marco foi o primeiro a se mover.â Isso nĂŁo Ă© possĂvel⊠â ele murmurou, passando a mĂŁo pelos cabelos. â A Primeira Marcada foi apagada da histĂłria. NinguĂ©m sobrevive a um selo entre mundos.Rafael, ao contrĂĄrio, estava imĂłvel. Pensativo. Analisando.â Sobrevive⊠se a Lua permitir. â disse ele, finalmente. â E a Lua nunca faz nada sem propĂłsito.O peso dessa frase caiu diretamente sobre mim.Elara estava inquieta. NĂŁo com medo â mas com expectativa. Era como se algo dentro dela estivesse sendo chamado pelo nome verdadeiro.â Ela disse que a Lua vai sangrar. â e
A PRIMEIRA MARCADA PELA LUAO vento que invadiu a mansĂŁo nĂŁo era apenas frio â era antigo.Carregava consigo o cheiro de algo que nĂŁo pertencia mais a este tempo, uma essĂȘncia esquecida pelas geraçÔes, mas profundamente reconhecida pela Lua.Meu corpo reagiu antes mesmo que minha mente pudesse compreender.Elara se ergueu dentro de mim com um uivo silencioso, ancestral, fazendo minha pele arrepiar como se cada poro estivesse ouvindo um chamado impossĂvel de ignorar. Meu coração disparou, nĂŁo por medo comum, mas por reconhecimento.A figura feminina avançou alguns passos para dentro do corredor, deixando que a luz lunar finalmente a tocasse por completo.Ela era alta, esguia, envolta por um manto cinza-prateado que parecia se mover como fumaça viva. Seus cabelos eram longos, de um branco quase luminescente, nĂŁo de velhice, mas de poder. Os olhos⊠os olhos eram de um prata puro, tĂŁo intensos que pareciam refletir diretamente a Lua no cĂ©u.Marco e Rafael se colocaram instintivamente em p
ENTRE O ALFA, O SUPREMO E A MARCA QUE ME RECLAMAA mansĂŁo parecia respirar. NĂŁo como uma construção antiga cercada por paredes silenciosas, mas como um organismo vivo, pulsante, alimentado pelas emoçÔes que fervilhavam entre nĂłs trĂȘs. O corredor estava mergulhado em sombras profundas, tocado apenas pela luz azulada da lua que se infiltrava pelas janelas altas, lançando reflexos prateados sobre as paredes de madeira escura.Eu ainda sentia o calor das mĂŁos de Rafael nos meus braços â firme, protetor, silenciosamente possessivo. Zahor, dentro dele, vibrava como um trovĂŁo contido, atento a cada nuance do ambiente, a cada mudança no meu respirar. Ele sabia. Ele sempre sabia. Que algo estava para acontecer⊠e que aquilo mudaria tudo.Marco estava parado Ă minha frente, tĂŁo imĂłvel quanto uma estĂĄtua esculpida em puro desejo reprimido. Seus olhos escuros ardiam como brasas prestes a incendiar a noite. Korran farejava o ar dentro dele, inquieto, selvagem, faminto. A rejeição que me dera â sua
O LOBO QUE SE AJOELHA E O LOBO QUE SE ERGUEA Lua parecia maior naquela noite.NĂŁo apenas brilhante â viva.Um olho vigilante no cĂ©u, ardendo como se tivesse sido acesa especialmente para testemunhar o que estava prestes a acontecer entre nĂłs trĂȘs. A luz prateada caĂa sobre a floresta como uma chuva silenciosa, tocando cada folha, cada pedra, cada fragmento de ar. Tudo cintilava como se estivesse revestido por magia lĂquida.E no centro desse cenĂĄrio quase sagrado⊠estĂĄvamos nĂłs.Eu conseguia sentir a respiração de ambos â Marco atrĂĄs de mim, quente, densa, carregada de desejo e arrependimento; Rafael Ă minha frente, firme, impecĂĄvel, com seus olhos verdes incendiados por algo que ele raramente permitia que transbordasse.Zahor e Elara sussurravam dentro de nĂłs trĂȘs, vibrando como cordas tensas prestes a se romper.Korran, porĂ©mâŠKorran tremia.NĂŁo de medo â Marco nĂŁo conhecia esse sentimento.Mas de necessidade.Eu sentia sua energia selvagem raspando contra ele por dentro.â AliceâŠ







